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Vai Bebeto, vai ser gauche na vida

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Sabe aquelas coisas que você não faz por uma bobeada qualquer e depois se arrepende pelo resto da vida? Pois é: volta e meia isso acontece comigo. E aconteceu com relação a Bebeto de Freitas. Entrevistei o cara quando estava preparando o livro “Jogo do Senta, a verdadeira origem do chororô”. Fui muito bem recebido no play de sua casa, a entrevista foi muito boa e descontraída, filmada pelo meu amigo uruguaio Juan Silvera e depois nunca mais vi o Bebeto. Trocamos e-mails quando o livro foi lançado em agosto de 2014, mas ele não pode ir ao lançamento. Hoje à tarde soube da sua morte. Fiquei chocado como muitos botafoguenses e muitas outras pessoas, especialmente as que gostam de futebol e de esporte. E Bebeto foi muito mais do que presidente e atleta do Botafogo. Os jornais amanhã vão detalhar a carreira e a importância de Bebeto.

Lembro bem do momento em que o Juan, flamenguista, por sinal, tirou essa foto. Com que satisfação Bebeto exibiu a camisa de divulgação do Jogo do Senta, cujo desenho foi feito pelo genial cartunista botafoguense Cláudio Duarte, que depois assinou também a capa do livro. O sorriso de alegria substituiu a indignação contra tudo o que aconteceu naquele chamado “Jogo do Chororô”. A entrevista está toda no livro. Alguns trechos:

O que aconteceu no vestiário?

“A frustração de todos. Os jogadores se  sentiram ultrajados, violentados. Conversei com alguns que reclamaram muito e diziam que eram pais de família e que tinham sido destratados, coisa que normalmente após uma derrota acontece, mas que só naquela vez, naquela oportunidade, realmente foi acima de qualquer coisa. Todos estavam revoltados no vestiário com tudo o que tinha acontecido.”

Vocês mediram as consequências da repercussão daquele protesto?

“Eu tenho uma coisa para mim que enquanto eu ainda me indignar com as coisas erradas, com as coisas que acontecem, é sinal de que estou vivo, é sinal de que eu tenho emoção. Chorar eu já chorei na alegria, na tristeza. O pior choro é o da indignação, da impotência. E a paixão traz esses limites. A paixão que você exprime pelas coisas que você faz é que te impõe esses limites. O Botafogo é uma paixão minha e esses limites na minha vida se interpõem aos limites dos torcedores do Botafogo. São contrastantes como a maioria dos torcedores”.

Em outro dos momentos, Bebeto respondeu assim quando perguntei se ele repetiria à época da entrevista tudo o que aconteceu após o jogo:

“Esta questão da emoção aparece nos momentos em que você não tem firmeza ou está indignado. Não sei qual seria a minha reação hoje. Na época a reação foi de quem estava indignado e com emoção”.

Se arrepende?

“NÃO (grifo meu). Como se arrepender de uma coisa que você faz espontaneamente, que não afeta ninguém e é apenas uma demonstração sua de amor ao que você faz e ao que você representa? E aquele era o sentimento de todos nós. Agora se o fato de eu ter chorado, de eu ter me emocionado, na realidade, é DIFERENTE (grifo meu). Não afeta ninguém e isso a gente aprende no esporte que as coisas se ganham dentro do campo. A emoção vem da sua indignação, do seu amor pelo clube e foi uma forma de externar todo aquele sentimento”.

O que você faria se encontrasse com Marcelo de Lima Henrique (o juiz do chamado “Jogo do Chororô)  e Djalma Beltrami (o juiz que anulou o gol legal de Dodô um ano antes).

“Eles é que têm que saber o que diz a consciência dele. A minha está tranquila pois foi de emoção. E isso não é nenhum problema”.

Vai Bebeto, vai ser gauche (expressão eternizada num poema de Drummond) na vida.

Fui pesquisar pra não escrever bobagem e uma das fontes escreveu que ser gauche na vida “é ser estranho, deslocado, diferente.”

E Bebeto era assim como todos nós botafoguenses: estranho, deslocado, diferente.

Quando chegar aí em cima, Bebeto, mande um abraço pro seu tio João Saldanha e pro Sandro Moreyra. E diga ao Armando Nogueira que estou preparando um livro sobre ele e que seu filho Manduka e sua neta Letícia estão muito bem.

Saudações alvinegras.

Postado por paulocesar  | Comentar

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