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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Uma taça de prosa com Thibaud Marion do Domaine Seguin-Manuel na Borgonha

Tenho 48 anos, sou de Beaune na Borgonha. Diplomado pela Escola Superior de Comércio de Bordeaux e possuo um Brevê Profissional de Responsável de Produção Agrícola. Antes de me integrar na empresa da minha família, trabalhei em Paris numa agência de comunicação de 1993 a 1997 onde estava encarregado da estratégia de mídia para os clientes. Depois de sete anos no Domaine Chanson Père e Fils, na época ainda propriedade dos Chanson, fui dirigir a propriedade da família o Domaine Seguin-Manuel, em 2004. O ampliei e hoje sou o diretor e vinificador.

 

Meu primeiro vinho – Na verdade eu não tenho muitas lembranças, mas as fotos podem testemunhar que com poucos meses no dia de meu batismo, umas gotas de um delicioso néctar da Borgonha foi colocado sob os meus lábios e que eu as sugava com prazer e mostrava uma certa precocidade na minha atração pelo vinho. Tive de esperar meus 16 anos para que uma nova emoção vínica aflorasse. Foi quando meu pai me serviu uma taça de Corton-Vergennes, 1969, de um vinhedo do meu tio. Foi assim que comecei minha iniciação!

Minha harmonização predileta – Essa eu chuto para escanteio. Quem diz harmonização predileta diz prato favorito. Acontece que enquanto gastrônomo eu amo muitas receitas diferentes e eu ainda não desenvolvi um algoritmo que me diga “com este prato eu vou servir este vinho”. Mas existem alguns pratos que dão realmente água na boca. Com um tamboril à Armoricaine um bom Mersault vai dar conta do recado. Um magret de canard (peito de pato) na frigideira vai se harmonizar com um Givry 1er Cru ainda jovem. Já para uma paleta de cordeiro eu vou pedir um Beaune “ Champimonts” maduro que será um regalo!

Minha região preferida – Isso é pegadinha? Eu digo sem hesitar a Borgonha. Se eu disser outra coisa iria parecer que estou renegando minha região que me viu nascer e crescer, que me mata a sede e que é meu ganha pão hoje…de certa forma um reconhecimento do ventre, não é verdade? Em parte, sim, eu tenho também muito prazer em beber um Cabernet Franc do Loire, um Riesling da Alsácia, um Cru do Rhône ou um belo château bordalês… eu assumo perfeitamente meu chauvinismo francês.

Meu vinho favorito – Resumir tudo em um só vinho é não valorizar a enorme diversidade dos Crus da Borgonha! Direi então qual vinho me impressionou fora da Borgonha e da França. Trata-se do californiano Ridge Monte Bello, 1985, que tive a chance de degustar às cegas. Sem a influência da etiqueta achei este vinho de uma plenitude e harmonia que são as marcas dos grandes vinhos.

Minha melhor safra – Um Beaune ”Champimonts” 1er Cru 2015. O vinho se vendeu tão rápido que eu tive poucas oportunidades de degustá-lo. Mas a cada vez que a chance de o apreciar seu equilíbrio global me impressionou.

Capa do livro de Van Gogh – obras completas

Se meu vinho fosse um personagem – Com toda humildade eu escolheria Vincent Van Gogh! Não pelos seus afrescos, mas por sua interpretação do mundo que ele fez através de suas telas. Cada objeto se integra no todo e nos deixa ver uma harmonia suprema. Na minha pequena posição de vinificador eu tento, por pinceladas sucessivas, interpretar o que os elementos naturais nos dão. Dessa soma de “eu não sei bem o quê” nasce um conjunto coerente e vibrante que suscita emoções quando levamos a taça aos lábios.

Santé.

 

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Como montar uma adega de vinhos?

Nem todo mundo, especialmente no Brasil, tem o hábito de ter uma grande adega em casa. Aqui na França é muito normal seja no subsolo, seja uma climatizada do tipo “Eurocave”. Alguns prédios chegam mesmo a oferecer um local individualizado que serve tanto para guardar vinhos como outros objetos. A condição mínima para a guarda é estar ao abrigo da luz e não ser um local quente. Definido o padrão de conservação o que colocar dentro da adega?

O gosto de cada um vai nortear as escolhas, o perfil e quantidade de convidados que você recebe também são importantes. O componente mais importante é o seu bolso. Ele é determinante. Tomada a decisão de montar uma adega não vá correndo comprar todas as garrafas. Primeiro defina o que precisa e depois vá garimpando as oportunidades do mercado. É sempre prazerosa esta busca.

Vinho com pedigree é sempre uma boa escolha, aqui o Bordeaux by Boyd-Cantenac importado pela Grand Cru.

 Vamos separar por cores. Tintos (40 a 50%), Brancos (20 a 25%), Rosés (10 a 20%), espumantes (10 a 20%) e vinhos doces (5%).  Pense em ter os vinhos para o dia a dia, aqueles que você toma numa refeição sem se perguntar muito, aqueles que vão harmonizar com um prato que você gosta e os vinhos para grandes ocasiões. Vinhos para festa compre na hora ou pesquise oportunidades antes do evento. Estes não são, em geral, vinhos para você colocar na adega. Claro, sempre depende do seu orçamento e do nível dos vinhos que você vai servir na festa.

Ah, só franceses na adega.  Combinado? Afinal, o blog é francófilo assumido. Entre os tintos tente em ter uns AOCs de custo benefício que façam bonito. Isto é um Petit Château de Bordeaux , um Côte du Rhône Villages, um Languedoc, Cahors, Bergerac isto é , vinhos que não vão passar de cem reais e que nos bons sites e supermercados hoje vão estar entre 40 e 80 reais. Esqueça vinho de menos de 40 para colocar na adega, esses são para consumo imediato. Se você busca vinhos que dão um pouco mais de prazer abra a carteira e busque algo entre 100 e 150.  Um Vacqueyras, Lirac, Tavel, Petit-Chablis, Mâcon, Fronsac, Crémant,… Aqui você vai ter prazer e sua mesa realmente vai ter algo diferente. Para as grandes ocasiões abra o bolso e tenha na sua adega um vinho que impressione. Com certeza ele vai sair por mais de 150, mas escolhendo bem ele vai valer cada gota. Escolha um Morgon, Médoc, Saint Émilion, Corbières Boutenac, Limoux, Pic Saint Loup, Champagne,… o céu é o limite.

 

Além do preço o estilo é importante. Um branco leve ou rosé para a beira da piscina, um rosé de Tavel para acompanhar pratos leves, um tinto leve de uva Gamay como o Beaujolais ou o Coteaux Bourguignon para ter um tinto de verão. Estes são uma ótima pedida para quem não abre mão de tintos nem mesmo nos dias mais quentes do ano. Já para o inverno pense em vinhos com mais corpo e estrutura. Além das regiões clássicas como Bordeaux e Borgonha tente descobrir as denominações comunais do Languedoc como Corbières, Minervois ou Fitou, do Loire pense num Chinon para tintos e no Muscadet para os brancos secos (não confunda com Muscat que é doce), do Rhône conheça o Costières de Nîmes, do Sudoeste Madiran, Saint Mont e Buzet. Se quiser bolhas as opções são muitas e as melhores são os Crémants e a Blanquette, sempre método tradicional. Os vinhos doces podem ser bebidos no aperitivo, bem gelados e com uma azeitona decorando, ou acompanhando sobremesas. Ssugiro Muscat de Saint Jean de Minervois, de belo frescor e o Banyuls, um primo do Porto. Uma dica é optar por um vinho com a assinatura de um grande château ou de um grande produtor. Esta é sempre uma garantia de qualidade.

O Bourgogne Pinot Noir da Pascal Bouchard, importado pela Barrinhas, é um clássico da denominação.

Ah, as sugestões, os preços e as regiões não são exaustivas, apenas apontam alguns caminhos. Pesquise nos bons sites, supermercados e delis. Ouça seu sommelier preferido. Aproveite as ofertas e as analise com cuidado. Evite rosés com mais de três anos, pois podem ter perdido o frutado. Esta regra não vale para um Tavel, que pode ter uma vida um pouquinho mais longa. Se for um vinho de uma denominação de Bordeaux ou mesmo uma sub-região do Languedoc envelhecido em barris de carvalho arrisque, mesmo se já tiver mais de 5 anos. Os bons vinhos são aqueles que possuem vida longa. Santé.

 

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Dicas para o dia dos Namorados

Dia dos Namorados é aquele momento especial para se curtir a dois. Seja num restaurante seja, em casa num jantar romântico tendo na mesa um belo vinho. Conexão Francesa deu uma olhada na internet e garimpou algumas promoções que podem agradar a quem optar por tomar um bom vinho francês em casa. Como nos restaurantes um vinho razoável costuma começar com cem reais e os bons giram em torno de duzentos procurei ter este último como limite para a nossa seleção. Claro que se o leitor puder ou quiser pagar mais as opções aumentam, mas aí as dicas são menos importantes.

No Supernosso de Belo Horizonte tem o Chablis do Domaine Chevalier 2014, branco 100% Chardonnay, como manda o figurino. A propriedade está na família desde 1788 e hoje Claude e Jean Louis Chevalier honram a tradição e produzem vinhos de grande qualidade. O nariz é floral com notas de especiarias brancas. Na boca é fresco, frutado, tem boa complexidade e termina em um longo final. Vai se harmonizar muito bem com comida japonesa, peixes e frutos do mar. Durante a Feira de Vinhos do Supernosso está por R$149,00, uma moleza considerando a qualidade. Na mesma rede o Châteauneuf du Pape do Domaine Durieu está com 28% de desconto e fica por R$179,90. Para quem gosta da referência tem 90 pontos RP. Este vinho que é servido na residência de verão do Papa no Castelo Gandolfo. Domina a Grenache com 80%, 10% Syrah, 5% de Mourvèdre e uma ponta de Cinsault e Counoise. É envelhecido em cubas de cimento por 18 meses. Todo na fruta. Amplo e potente. Bela escolha.

O Rosé Piscine é descontraído e descomplexado, uma escolha perfeita no dia dos Namorados.

No Rio o Zona Sul oferece uma seleção de brancos, rosés e espumantes. O já bem conhecido do carioca Crémant de Limoux Grand Cuvée 1531 brut, método tradicional, está com desconto e sai por R$76,50. Espumante sempre premiado da região onde nasceu a primeira bolha do mundo em 1531. O badalado Rosé Piscine, aquele das listras azuis e brancas e que deve ser bebido com gelo, pode ser encontrado por R$89,50. Em São Paulo na Bacco’s por R$79,90. O ICMS faz a diferença no preço. Tenho certeza que as meninas adoram.

A travel bag rosa acompanha o champagne Brut Rosé da Nicolas Feuillatte, N°1 da França.

No site da Evino tem o presente ideal para ele ou para ela. Três champagnes da Nicolas Feuillatte estão oferecendo como brinde uma travel bag chiquérrima nas cores preta ou rosa. A Brut Réserve de 91 pontos Wine Spectator está por R$199,90, o Réserve Brut Rosé também com 91 pontos e o Brut Millésimé Blancs des Blancs 2006 92 pontos estão por R$214,90. Não é a toa que Nicolas Feuillatte é o Champagne mais vendido na França. O queridinho dos franceses, além de ser muito bom tem excelente preço. No Brasil e na França.

Sugestão de classe para quem prefere um muito bom tinto bordalês.

 Na Grand Cru o Crémant de Bourgogne André Delorme com um corte Chardonnay, Gamay e Aligoté, método tradicional está na promoção do dia dos Namorados por R$129,00. Uma boa pedida é o Le Haut Médoc do Château Pedesclaux, GCC do Médoc. Um segundo vinho exclusivo da Grand Cru que não pode passar desapercebido do leitor. Por R$199,00 é um preço bem-comportado para este vinho de grande qualidade. Santé.

 

 

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Uma taça de prosa com o zagueiro Eric Prissette do domaine Villa Symposia

Nasci em agosto de 1964 no departamento do Norte, na cidade de Lille. Era zagueiro habilidoso  e joguei durante 10 anos no LOSC Lille, da primeira divisão francesa. Após me aposentar do futebol mudei me para o mundo do vinho em Saint Émilion, onde criei Château Rol Valentin, em 1994. Em 2009, com o Château já renomado o vendi para buscar um novo desafio! E lancei no Languedoc o domaine Villa Symposia, na época Coteaux du Languedoc, que conduzo em método orgânico nos seus 20 hectares. Entre 2011 e 2012 viajei ao Brasil do Rio até Natal parando de pousada em pousada com minha esposa e filho de 3 anos onde tive maravilhosos encontros com pessoas formidáveis. Fiz um pit stop em São Miguel de Gostoso, no Rio Grande do Norte, antes de voltar para a França para tocar o vinhedo. Estou doido para voltar ao Brasil.

Meu primeiro vinho –  Aos 25 anos tomei um Cos d’Estournel 1975. Como estava bom…. foi a recompensa por uma vitória num clássico de futebol.

 

Minha harmonização predileta – Um galeto na brasa com um merlot da margem direita de Bordeaux, num estilo Pomerol ou Saint Émilion. Dando nome aos bois Rol Valentin ou Pavie Macquin.

O melhor vinho que produzi – É sempre aquele que chega, é sempre a descoberta, como um nascimento e constante desejo de cuidar bem do recém chegado.

Minha região produtora preferida – Bordeaux e sua capacidade de oferecer grandes vinhos mesmo depois de 20 ou 30 anos de guarda.

 

Minha melhor lembrança – Cheval Blanc 1959, uma maravilha de equilíbrio e uma juventude empolgante.

Tonéis do domaine Villa Symposia no Languedoc. (fotos Eric Prissette)

Se meu vinho fosse alguém – Ele estaria sempre de bom humor.

Onde encontrarVilla Symposia pode ser encontrado na rede Zona Sul.

Santé.

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Uma taça de prosa com Jean-Pierre Foubet do Château Chasse-Spleen

Conexão Francesa cria dentro do blog a coluna “Uma taça de prosa com… ”. Oportunidade de colocar um rosto na garrafa do vinho que você bebe e assim dar uma nova vida ao vinho. Aproximar produtor de consumidor e, quem sabe, gerar uma empatia, uma identificação ou simplesmente saber que existe alguém atrás da garrafa. Vamos começar a coluna com Jean-Pierre Foubet do Château Chasse-Spleen em Moulis-en-Médoc, Grand Cru Excepcional de 1932.

Jean-Pierre Foubet é formado em relações públicas e psicossociologia. Trabalhou em agência e como freelancer. A partir de 2000 ele se une à família Merlaut e assume as rédeas do Château Chasse-Spleen como gerente geral sob a presidência de sua esposa Céline Villars Foubet. Em 2005 compra com Jean Merlaut o Château de Camensac, 5° Cru Classé situado no Haut-Médoc. Como sua esposa ele viaja o mundo para promover seus vinhos quando não está numa das propriedades.

Meu primeiro vinho – No dia da minha confirmação da fé católica, Crisma,  fui atraído pela promessa de um belo relógio e de dinheiro, que de fato recebi em segredo de minha avó. Na verdade, era bem pouquinho já que ela ainda contava em franco antigo. O vinho foi um Morgon. Mal comecei a beber e me senti alegre demais e tive que me sentar. Estava radiante. Meus pais eram da Lorena, fronteira belgo-alemã, e a adega deles era repleta de vinhos da Alsácia e Borgonha.

Céline Villars Foubet do Château Chasse-Spleen esposa de Jean-Pierre Foubet.

Minha harmonização preferida – Um vinho de Bordeaux bem encorpado com um queijo Camembert da fazenda, daqueles que seriam proibidos de entrar em solo americano, com uma bisnaga bem morena.

Minha região de produção preferida – Eu amo as uvas syrah do norte da Côte du Rhône como Hermitage e Saint Joseph. Os sabores são para mim exóticos, azeitonas pretas, perfume de “garrigue” e notas minerais, sem os defeitos dos vinhos de regiões quentes. Como exemplo citaria um Hermitage de Jean Louis Chave, 1988.

Minha melhor safra – Até o momento a de 2005. Seu nariz é de After Eight e cereja preta. Sua estrutura é muito bem integrada e com grande volume.

Fachada do château Chasse Spleen. (fotos divulgação)

 

Se meu vinho fosse um personagemJohn Cleese (foto Wikipédia), membro do Monty Python, grupo de comediantes ingleses. Sempre chic mas sabendo ser desconcertante. Chasse-Spleen nunca seguiu a moda do vinho. Ele é desconcertante por não seguir o modismo: uva super madura, vinho amadeirado e muito alcoólico. Ele é desconcertante, pois não temos medo do tanino e nem da acidez necessária ao equilíbrio. Ele é chic, pois envelhece com uma notável complexidade, sempre preciso.

Onde encontrar: Belle Cave, Mistral e nas boas casas do ramo.

Santé.

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Vinexpo Honk Kong consolida liderança francesa na China

De 29 a 31 de maio aconteceu a Vinexpo Hong Kong. São 20 anos de sucesso da feira de Bordeaux na China. A França soube construir e sabe liderar o mercado de exportação de vinho para a China. Lá ela conquistou 30,7% do mercado em volume e 42,2% em valor. O que mostra a força de Bordeaux, mas também dos vinhos do Languedoc e mesmo dos vinhos de mesa. Dois outros atores importantes no mercado chinês são o Chile e a Austrália, país homenageado este ano na feira. O país do canguru levou 225 expositores e a vizinha China 27. Dedicada aos profissionais Vinexpo levou 17500 compradores (+2%) num mercado asiático em pleno crescimento.

Contrato na mão mostra força dos críticos franceses. ( foto B&D)

Com o crítico Robert Parker Jr. aposentado quem brilhou foi a dupla francesa Michel Bettane e Thierry Desseauve que assinou contrato importante com o gigante da internet Alibaba para avaliar os vinhos do site e utilizar as notas do guia homônimo da dupla na plataforma de e-commerce. Estima-se que na China as vendas on-line representem 28% do mercado. Segundo Mike Hu, FMCG CEO do grupo Alibaba, “Nós apreciamos a segurança, a independência e a qualidade das avaliações de Bettane & Desseauve para ajudar nossos consumidores a escolherem os melhores vinhos”, afirmou. A luta do marketing se trava na mente do consumidor, neste caso uma vitória francesa.

Grandes Crus franceses conquistaram a China como o Château Guiraud. ( foto Candice Hunt)

Os produtores franceses com quem tive a oportunidade de conversar estavam felizes com as visitas no salão e com os tradicionais jantares de negócios que varavam a madrugada. Os vinhos de Bordeaux, fortíssimo no alto da pirâmide, e os do Languedoc na parte mais intermediária são os destaques franceses. Os vinhos de mesa, VDF, e VCE, da Comunidade Europeia fazem a parte inferior e garantem um forte volume. A União de Grandes Crus de Bordeaux tem espaço de destaque no salão. Hong Kong é plataforma que a turma do mercado considera o principal “hub” para o mercado asiático e a China em particular. A antiga colônia de sua majestade não absorve tudo, mas é de lá que os vinhos são em grande parte distribuídos para o circuito Ásia-Pacífico. Além de chineses e honcongueses, coreanos do sul, australianos, singapurianos, tailandeses, vietnamitas e malaios são os principais visitantes de Vinexpo. Santé.

União des Grandes Crus de Bordeaux teve espaço nobre na Vinexpo Hong Kong. ( foto Candice Hunt)

 

 

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O fim da ditadura Parker, a democracia das notas e a volta ao classicismo bordalês

Até 2012 Robert Parker Jr. acompanha de perto cada safra de Bordeaux. Seu julgamento imparcial e preciso, com enorme peso nos EUA, primeiro consumidor de vinho no mundo, e em outros mercados dita um estilo Parker. Este se caracteriza, apesar de ter evoluído, por uma grande concentração e muita madeira. Seja na melhoria dos processos, importante, seja para fazer prazer ao palato do crítico americano, nem tanto. O peso de suas notas influenciam produtores e consumidores do mundo inteiro. É a moda do gosto de madeira. Em 2013 Parker aproveita a deixa de uma safra complicada e não vai à Bordeaux degustar os vinhos “primeurs”, aqueles que estão nascendo e ainda vão envelhecer até dois anos. O mercado fica nervoso. Logo depois sua aposentadoria e a venda do seu boletim são anunciados.

Quatro grandes vinhos de Bernard Magrez.

A partir de 2015 o estilo dos vinhos de Bordeaux começa a mudar. Ou melhor, há um retorno de muitos produtores ao classicismo bordalês. Acabara a necessidade de fazer vinhos para que RP desse altas notas e com isso obter melhores preços e faturar mais na exportação. No mercado francês sua importância é desprezível. Alguns châteaux pagaram caro esta opção pois ficaram marcados por serem vinhos com muita madeira, estilo moderno. O que para um grande vinho é uma ofensa.

A ausência de Robert Parker fez com que outros críticos, revistas e concursos voltassem a ganhar maior importância. Em Bordeaux pode ser nitidamente observado a volta do frescor da fruta, uma presença da madeira mais controlada, da elegância e uma maior quantidade de vinhos mais aéreos. Isto é, vinhos mais sutis onde se aprecia cada curva do corpo com mais prazer. O vinho é mais insinuante, tem mais classe. Muita gente nunca aderiu ao estilo que fez moda. E pagou um preço. Hoje são glorificados.

A safra 2017 é o novo paradigma. Mais elegante, digesta e clássica afirma Florence Cathiard do Château Smith Haut Lafitte, GCC de Graves. Bernard Magrez, proprietário dos Châteaux Pape Clément, Fombrauge, La Tour Carnet, Les Grands Chênes e vários outros, afirma que hoje o consumidor está mais homogêneo e busca vinhos mais elegantes, frutados, menos pesados e com menos madeira.

O vinho e o amante do vinho evoluíram para melhor. Agora o consumidor pode valorizar a medalha dos concursos, as notas dos críticos europeus e quem sabe, em breve, a de bons sommeliers e críticos brasileiros. O que acho fundamental em Parker é que ele de certa forma forçou os vinhateiros franceses a evoluírem, a investir nas consultorias, melhorar o trabalho no vinhedo e na vinificação. Não bastava mais ter apenas o melhor terroir. Santé.

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Trilha com vinhos e alta gastronomia em La Clape no Languedoc

No último domingo participei do XV Sentiers Gourmands em La Clape Vinhateiro, uma trilha apetitosa no sul da França. Foram 9,5 km de marcha acompanhados da boa cozinha do chef Marc Schwall, Cuisiniers Cavistes de Narbonne, dos bons vinhos da denominação e de um lindo dia ensolarado na beira do Mediterrâneo. Cheguei com um grupo às 11:45 e pegamos em seguida nosso kit para a trilha: chapéu de palha, taça de vinho, caderneta com os nomes dos vinhos e roteiro, lápis e os tickets para cada prato do programa. Tudo dentro de uma bolsinha tiracolo para pendurar no pescoço. 1450 pessoas pagaram 56€ para participar do evento. Era forte a presença de ingleses e belgas.

Participantes retiram os seus kits no Château Pech-Céleyran em La Clape.

A primeira parada era pertinho do Château Pech-Céleyran, nosso ponto de partida. Bastaram 250 metros e ostras da ilha Saint Martin em Gruissan e um gaspacho Andaluz com pão frito e olivas em compota nos esperavam. Para degustar tínhamos seis vinhos sendo quatro brancos e dois rosés, onde destaco dois brancos. Château La Negly, Brise Marine, 2017, que foi muito bem com o gaspacho, importado pela Grand Cru. E o branco da cooperativa Cave de Gruissan, La Clape, 2017, que com seu frescor e aromas fez bom duo com as ostras. Em La Clape os vinhos brancos têm na Bourboulenc e Grenache branca as uvas dominantes, mas também são importantes a Marsanne, Roussane, Clairette, Rolle (Vermentino na Itália) e Picpoul, além de outras complementares.

Vista da tenda onde foi servido o prato principal.

Subimos a colina e aproveitamos a bela vista que nos oferecia de um lado os arredores de Narbonne, vinhedos e do outro o Mediterrâneo. Atravessamos umas parcelas de vinha e após uns vinte minutos de marcha e muito bate papo chegamos na segunda etapa do percurso. Uma entrada fria nos aguardava. Era um Entremelé de tourteau (siri gigante) e camarão num molho vinagrete de maracujá, muito bom. Aqui tivemos quatro brancos, um rosé e um tinto. O branco Classique do Château d’Anglès 2016 é um vinho de grande qualidade. O proprietário é Eric Fabre, ex-diretor técnico de Lafite Rothschild. Importado pelo Supernosso de BH.

O La Clape branco da Cave de Gruissan sendo servido.

Seguimos avançando com nosso grupo e chegamos na entrada quente. Era um delicioso raviole de pato confitado acompanhado de um minestrone de legumes, molho de vinho da uva grenache e um tomme de ovelha ralado. Quatro tintos e um rosé se apresentaram. Me chamou a atenção o Château Capitoul, Rocaille, 2016, que agora gira em torno do grupo Bonfils um dos grandes players do Languedoc. Os tintos têm nas uvas Syrah, Grenache e Mourvèdre sua base. Carignan e Cinsault são utilizadas de forma complementar.

Mais uma boa marcha, outra colina e chegou a vez de comermos um feijão branco com uma linguiça de porco preto ao torresmo. Delícia para matar a fome acompanhado do habitual pedaço de pão. Este é obrigatório nas refeições francesas. Aqui tinha mesa e conseguimos sentar na sombra. Que beleza. Os bons vinhos, seis tintos e um rosé, faziam a alegria dos participantes. Muitos destaques e cito aqui Château Rouquette sur Mer com sua Cuvée Amarante, tinto, 2015. A propriedade fica debruçada ao Mediterrâneo na antiga ilha de La Clape. Isso mesmo na época galo-romana era uma ilha, hoje está unida ao continente. Este vinho de Jacques Boscary é o ADN do Château. É o AOC mais em conta da casa, mas o que melhor expressa o terroir. Château Mire l’Etang, 2016, Duc de Fleury e o L’Intrus, 2016, do Mas de Soleilla (importado por Casa do Vinho do Armando Martini em BH). Outro bom vinho é o do Domaine Sarrat de Goundy, Le Planteur, tinto 2016. O Rosé Domaine d’Angel 2017 fez bonito.

 

Penúltima etapa antes do retorno ao ponto de partida nos levou a um queijo de cabra da fazenda, isto é, não pasteurizado, La Chamoise. Para escoltá-lo três brancos e dois tintos. O branco da Abbaye des Monges, Augustine, 2016, é produzido por um amigo, Paul de Chefdebien, nesta abadia cisterciense que data de 1202, do qual nos resta a capela Nossa Senhora dos Olieux. O vinho tem um corte de Bourboulenc (60%) e Rousanne e seu nariz é floral. Na boca frutas brancas e cítrico, tônico e com bom frescor. Um par perfeito para o queijo de cabra.

Ao final da trilha todos os vinhos do evento podiam ser novamente degustados ou comprados ao preço Château.

Descendo a colina voltamos ao Château Pech-Celéyran para sobremesa e café. Como na denominação não tem vinho doce ou espumante, a mousse de chocolate que estava dentro de uma casca de ovo, o petit gâteau e a compota de framboesas tiveram de se contentar com água e café Lavazza. Outra opção é o participante recomeçar a degustação ao som de bandas de música por todo o entardecer. Santé.

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Chef Sinicropi faz jantar exclusivo para o júri de Cannes e serve Taittinger Prélude

Nem só de grandes eventos vivem os restaurantes durante o Festival de Cannes. Antes de tudo começar, na véspera da abertura oficial, dia 7 de maio, um jantar em petit comité, reuniu os jurados da 71ª edição no Palme D’Or, o restaurante duas estrelas Michelin, situado no primeiro andar do Grand Hayatt Hotel Martinez, na Croisette, em Cannes. O chef Christian Sinicropi, cinéfilo assumido, preparou um jantar inspirado na filmografia da presidente do júri a australiana Cate Blanchett. Justa homenagem.

“Arte requer verdade não sinceridade” legendou no prato Catherine Sinicropi. (Foto divulgação) 

Manifesto é o título da entrada, Não estou Lá, nomeou o prato principal e O Senhor dos Anéis, foi a sobremesa. Estes foram os nomes escolhidos pelo chef Sinicropi e que inspiraram sua esposa Catherine, artista plástica, a criar pratos de cerâmica originais para cada serviço. Se Manifesto é inovação e transformação a receita de Pan Bagnat mandou bem: – “A fruta se transforma em sorvete, a horta em polpa acidulada, o campo crocante leva um toque de uma erva chamada marjolaine”. Para iniciar a conversa foi servido o champagne Taittinger Prélude feito de uma assemblagem de parcelas classificadas como Grands Crus sendo 50% Chardonnay e 50% Pinot Noir. A vinosidade da Pinot Noir vai valorizar a acidez da entrada. Ainda na entrada foi servido branco Quintessence 2014, AOC Palette, do Domaine Henri Bonnau. Palette é uma micro denominação de origem da Provence com somente 42 hectares. O prato principal foi o cordeiro de Aveyron, a melhor região produtora da França, a receita se inspira no estilo country de Bob Dylan: – “Um horizonte sensorial tendo como eixo o filé da sela do cordeiro, tomilho selvagem, o pasto e o estábulo.” Foi escoltado pelo Volnay Premiers Crus Les Brouillards 2012 do Domaine Parigot. Um Pinot Noir rico e amplo e de bela complexidade. Outra opção foi um vinho italiano, afinal estamos pertinho da fronteira, Aléatico 2011 da vinícola Antinori. A sobremesa foi um crocante de morangos regionais. Aqui voltamos ao Prélude Taittinger.

  • Champagne Taittinger Prélude abriu o jantar.

A vista para o Mediterrâneo é um convite para se debruçar na varanda do Palme d’Or, ver o mar, o pôr do sol ou estrelas desfilando na Croisette. O setor de alimentos e bebidas nos hotéis pode fazer eventos para pequenos ou grandes grupos, de luxo ou mais econômicos conforme a clientela e orçamento. Atrai com isso o público para a hotelaria e aumenta o faturamento e o glamour da casa. Santé.

Vista do terraço do restaurante Palme d’Or no primeiro andar do hotel Martinez em Cannes. (Foto divulgação)

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Festival de Cannes é um grande negócio para alimentos e bebidas

Os eventos aumentam em muito o consumo habitual de alimentos e bebidas nos hotéis. O departamento de A&B tem nos eventos uma fonte muito importante de faturamento. Na verdade, ele não se limita a servir café da manhã, refeições e bebidas aos hóspedes. Os salões, quando bem trabalhados, são fundamentais. No caso de Cannes, onde demos números na coluna anterior, mostram a força dos eventos.  O Festival de Cannes não se limita a um concurso para escolher os melhores filmes, atrizes, atores, roteiros e companhia. Se fosse isso seria apenas mais um dia na alta temporada. É o maior evento da indústria cinematográfica mundial. Em paralelo acontecem encontros que geram negócios, muitos negócios.

Ilha de queijos na Praia Majestic.

O Marché du Film é o mais importante centro de negócios do cinema reunindo 12000 profissionais sendo 3200 produtores, 1200 vendedores, 1750 compradores e 800 programadores de festivais. Percebeu que não tem ator e diretor na lista? Tem que alimentar esse povo todo. O hotel Majestic Barrière recebeu nesta última semana os profissionais do Marché. Foi lá na praia Majestic onde além do píer o hotel tem um restaurante que se debruça sobre as areias do Mediterrâneo. Ostras, queijos, canapés, vinhos e champagnes em profusão mantiveram o clima de negócio animado. Nas fotos abaixo e com os números que dei fica fácil acreditar que se consomem 18500 garrafas de vinhos e espumantes em 12 dias além de toneladas de alimentos. Santé.

 

Milhares de ostras vão ser consumidas no Majestic durante o Marché du Film. (As fotos são uma cortesia da produtora brasileira Mares Filmes.)

Os convidados no píer Majestic se servem de canapés.

Taças de vinho esperam os participantes no final do píer. 

 

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