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Faleceu Nicolas de Chevron Villette da Abadia de Fontfroide

Estava no Japão semana passada quando recebi a notícia do falecimento do meu amigo, jurado do nosso blog e responsável pelos vinhos da Abadia de Fontfroide. Foi no dia 10 de julho aos 57 anos que ele partiu deixando sua esposa Laure, também membro de nossas degustações e três filhos em idade escolar.

Nicolas durante degustação de champagnes em dezembro 2016.

Nicolas morava em Paris e já havia trabalhado na Maison Pommery, em Champagne, quando se mudou para a Abadia com sua esposa em 2004. Ela herdeira do co-proprietário da Abbaye de Fontfroide, veio com Nicolas assumir a direção do restaurante, do vinhedo e da abadia propriamente dita. Esta é a maior atração turística privada do departamento do Aude. O desafio era enorme. Rentabilizar e revitalizar Fontfroide, a abadia que já deu um Papa para a Igreja.

Para assumirem o vinhedo tiveram de passar pelos bancos da escola técnica CFPPA do Quatourze em Narbonne. Foi lá que eu os conheci. O curso durava dois semestres e eles chegaram no semestre anterior ao meu.

Cheio de ideias e projetos para a propriedade e para o restaurante, a parte que lhe cabia na gestão daquele latifúndio. Conseguiu colocar em outro patamar os vinhos da abadia. Todo ano recebia a medalha de ouro no respeitado Concours Général Agricole de Paris , foram tantas que tiveram de lhe dar o prêmio de excelência para seus AOP Corbières. Mas não foi apenas neste que seus vinhos foram reconhecidos. A bíblia do consumidor francês, o guia Hachette de Vinhos, lhe conferiu as 3 estrelas, a nota máxima, que o qualifica como vinho excepcional, nas safras 2004 e 2011 do Deo Gratias, seu vinho de referência. Mas os vinhos mais básicos, isto é, os Corbières tradicionais, que não passam em barricas como o Ocellus, que era importado pela Wine Mundi, recebia sempre 1 ou 2 estrelas nas diversas cores. Deo Gratias 2010 recebeu 86 pontos de Jeb Dunneck, do guia Parker.

Em dezembro ele esteve lá em casa e me levou uma amostra da nova safra de um ícone, a Cuvée Cloture, com menos de 4000 garrafas produzidas nos grandes anos. – “Guarde para tomar daqui há alguns anos, esse é para ser a imagem da excelência da Abadia”. A garrafa segue na adega esperando.

Formado na ESSEC, uma das grandes escolas de comércio da França, Nicolas se reconverteu profissionalmente. Ou melhor nunca deixou o comércio, seja na boutique da Abadia vendendo para os turistas, seja no mercado francês onde distribuía para restaurantes e delis. Mas também na exportação. Passou também a gerir a adega, acompanhar a vinificação, a colheita e gerir o restaurante. Tendo sempre Laure ao seu lado.

Nicolas no vinhedo de Fontfroide. (Foto Facebook)

Culto e muito bom orador sabia fazer análises com profundidade e pertinência. Como morava na própria abadia cisterciense, entenda-se por uma habitação austera, tinha de receber os amigos no terraço do restaurante. O fazia umas duas vezes por ano para retribuir os convites que recebia. Normalmente eram dois ou três grandes grupos temáticos de amigos. Eu me enquadrava em dois. Sempre com música francesa e brasileira, ele gostava da nossa MPB e da Bossa Nova, seus vinhos e canapés e doces feitos pelo chef do restaurante, isto é, um tradicional “cocktail dinatoire” (coquetel jantar). Deixa saudades e muitos amigos. Santé.

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