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Faixa Preta – JBlog – Jornal do Brasil

De La Riva: “Quero fazer dessa luta de despedida uma coisa especial, não só para mim, mas para minha família, para o meu filho.”

Personagem marcante da história do jiu-jítsu brasileiro, Mestre Ricardo de La Riva, conhecido por lutas memoráveis e, por fazer posições de uma forma única, nas quais tem até seu nome impresso (guarda de La Riva, gancho de La Riva e de La Riva reverse), nos fala do aprimoramento da guarda e do gancho, da importância de suas viagens para ministrar seminários em diversos países, de sua volta para participar de uma luta oficial e do preparo de seu aluno faixa-preta Rodrigo Minotauro para o UFC Rio.

O que te levou a aprimorar o modo de fazer guarda, tornando-se a maior referência?

Desde garoto, ainda na faixa amarela, eu dificultava muito a passagem de guarda, sempre conseguindo repor, por ter uma flexibilidade articular muito boa e um bom alongamento muscular. E, por impor essa dificuldade, todo mundo queria passar minha guarda.

No começo eu não atacava muito, era uma guarda defensiva, até que comecei a ver que o ataque era a melhor forma de me defender, mesmo sendo por baixo. Como não dava para fazer guarda fechada, eu abria e tentava raspar. O que não era comum na época. Quase ninguém puxava para a guarda, e quando isso acontecia era para a fechada, onde se buscava a finalização.

Ajudou muito eu fazer parte da escola do Mestre Carlson Gracie, que era especialmente uma academia de passadores de guarda e eu, muito flexível e alongado, fui aprimorando.

Como foi criar os detalhes do gancho de La Riva, o desequilíbrio que ele provoca, e as diversas posições que saem dele?

Comecei a trabalhar esse gancho sem querer. Muito flexível, eu sentia que segurava o oponente quando o gancho entrava ali, no meio das pernas, dificultando a passagem. Percebi a eficiência do movimento, que me dava um leque maior de opções, podendo fazer o desequilíbrio do adversário para os dois lados e para frente e para trás, diferente dos outros ganchos que, praticamente, você só consegue raspar para um lado. A partir daí comecei a trabalhar as raspagens, posições para travar o adversário, e até mesmo movimentos para buscar a finalização.

Hoje, vários lutadores trabalham esse gancho, desenvolvendo até outras técnicas, tão bem quanto eu.

Os movimentos básicos são o ponto forte da arte suave?

O básico é o mais importante, é a base. Se você não trabalhar isso não adianta chegar com posições mirabolantes.

Tem que saber dar uma tesourada, uma raspagem de quadril, enfim, essas coisas básicas que são primordiais. Tem pessoas que pulam essa fase, mas não é o ideal. Colocamos nossos filhos com três anos na escola, para eles chegarem à faculdade com uma boa base, porque entrar direto para a faculdade não dá, fica difícil, e é o que muita gente está querendo, ir direto para a faculdade.

Viajar pelo mundo ministrando seminários e difundindo o jiu-jítsu brasileiro é importante para a preservação dessa arte marcial peculiar?

Hoje, uma das minhas missões é divulgar mais o jiu-jítsu, e uma das maneiras é fazendo seminários. Procuro aceitar todos os convites, principalmente nos locais em que ainda não fui. Faço questão que conheçam meu estilo.

Acho que todo professor que ministra aulas deveria pensar em mostrar o que tem de melhor nas técnicas, com toda riqueza dos detalhes. Despertando mais o interesse dos lutadores.

Seus alunos têm você como referência. Não só como um Mestre, mas, como um amigo, um pai. Como é essa relação?

É boa! Eu tenho o maior cuidado com eles. Penso muito no que vou falar e em como me dirigir a eles. Às vezes, a pessoa está em um momento difícil e é importante você sentir isso para saber dar o tratamento adequado, para não atingi-lo de uma forma que não seja a melhor.

Não me preocupo só com o treino. Quero que eles melhorem no jiu-jítsu, mas que tenham o mesmo rendimento no trabalho, na escola e um bom entendimento com todos que os cercam. Então, eu procuro em 1:30h de treino, estar conversando e dando um direcionamento para que os hábitos deles sejam melhores.

Ser mestre é ensinar mais que arte marcial?

É fácil chegar à academia, mandar o pessoal correr e botar para treinar, o resto é que é complicado. É preciso fazer a pessoa entender que tem que ter dedicação e respeito pelos seus companheiros de treino, e que isso ele tem que refletir na vida dele, fora dos tatames. Não adianta só formar um lutador, um cara duro, é preciso formar um bom cidadão para enfrentar a vida.

Como está sendo o preparo para o retorno aos tatames?

Eu sempre gostei de me cuidar, procurando manter uma vida regrada com boa alimentação, com a preocupação de não deixar de treinar, trabalhando minhas técnicas e cuidando da saúde. E é isso que tem me ajudado nos treinos mais pesados que venho fazendo para alcançar uma preparação plena para minha despedida.

São treinos um pouco mais sérios, mais duros. Tem que ter uma dedicação diferenciada dos treinos que eu faço em uma aula normal. São três dias na semana de treinos mais fortes, que desgastam um pouco. Mas a preocupação que eu sempre tive de estar bem e ir treinando com uma regularidade, tem ajudado bastante nesse preparo. Claro que fazer uma preparação à parte está um pouco mais puxado, mas isso já era o esperado.

Será mesmo a última luta?

Eu achei que minha missão já estava cumprida desde a última vez que lutei. Achei que já tinha finalizado esse ciclo. Mas meu filho Daniel, em uma conversa no ano passado, me falou desse desejo de me ver lutar, que acabou me despertando essa vontade de voltar, por ele. Foi exclusivamente o único motivo que conseguiu despertar meu interesse.

Quero fazer dessa luta de despedida uma coisa especial, não só para mim, mas para minha família, para o meu filho.

Eu tinha como intenção inicial, nessa volta, participar de alguma competição no mês de julho (Rio International Open ou o International Master and Sênior), só que duas viagens para ministrar seminários acabaram quebrando a rotina dos treinamentos e, para fazer, eu prefiro fazer direito. Para fazer mais ou menos, eu prefiro deixar para lá. A idéia é participar de uma boa competição, mas se não tiver essa oportunidade posso fazer uma luta especial. Vai ser divertido.

Dentre tantos atletas de renome que enfrentou qual foi o mais duro, e quais dificuldades ele te impôs?

Toda luta é difícil e importante. Quando entro no tatame, com qualquer oponente, a mentalidade é a mesma, a preocupação é a mesma.

Mas tiveram as lutas diferenciadas, e as melhores foram com o Royler Gracie, que é um lutador fora de série. Ganhou tudo que se propôs a ganhar, todas as competições de que participou. Indiscutivelmente, um excelente atleta.

Foram três lutas especiais independente dos resultados.

Está mesmo ajudando no preparo do lutador de MMA Rodrigo Minotauro, que se formou faixa-preta em sua academia, para sua próxima luta no UFC Rio?

Surgiu a oportunidade de fazer um trabalho com o Rodrigo, especificamente para essa luta. Ele está afiado tanto na parte de cima como no chão, que é sua especialidade, onde está cada vez melhor. Até lá ele estará bem preparado, apesar das duas cirurgias e um tempo parado.

Fizemos um treino e ele partiu para cima o tempo todo, buscando a finalização. Se ele entrar com esse espírito, lá no octógono, ele vai nocautear ou, se a luta for para baixo, finalizar.

Colaborou: Thiago Rosa.

Postado por oscardaniotti às 23:03

3 Comentários

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