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Rickson Gracie. O Jiu-Jitsu como filosofia de vida.

Vindo de uma família, que praticamente já nasce de quimono, Rickson Gracie é considerado uma lenda do jiu-jitsu. Mundialmente conhecido, este sobrenome agrega peso e muita, muita responsabilidade.
Rickson dispensa maiores apresentações, mas ele sempre assumiu uma postura de quem nasceu para vencer.
Desprovido de muitos apegos, ele gosta de pensar e analisar o ser humano.

Como já entrevistei seu pai, Hélio Gracie, pude perceber que Rickson mantém vivo o legado Gracie. Digo legado, não apenas pela parte física da coisa, mas, por outro lado, pelo prisma emocional e filosófico.
Hélio possuía um caderninho, onde estava escrito, quase, uma infinidade de adjetivos. Para cada um deles, ao lado, ele escrevia um conceito; uma explicação uma justificativa.

A partir dali, já se percebe o pensamento de um homem que foi o responsável pela criação de um jiu-jitsu, elaborado para o não uso da força. Esse jiu-jitsu deveria ser chamado Gracie Jiu-Jitsu, que foi aprimorado e, portanto, modificado, do jiu-jitsu inicial, praticado pelos monges budistas que atravessavam desertos e precisavam se defender de ataques. Entretanto, o jiu-jitsu acabou ficando, mundialmente conhecido como Brazilian Jiu-Jitsu. E a família Gracie famosa também, nos quatro cantos do planeta, devido, lá no início, quando Hélio desafiava lutadores para mostrar que o jiu-jitsu era uma arte marcial superior.
E isso acabou sendo confirmado pelas próprias lutas de Vale-Tudo, em que o jiu-jitsu aparecia, sempre, com muita eficiência.

 

Muitos membros da família são lutadores profissionais e professores, no Brasil e no exterior. Rickson mantém fiel a proposta do Hélio e dá exemplo de boa alimentação; conhecimento de si próprio e do ser humano, além de posturas e condutas na vida.
Rickson assumiu cedo a condição de um representante da família. As pessoas já se dirigiam a ele, desde criança, com determinados comentários, como: “Coloca o quimono…”; “você já sabe lutar?” ; “você vai ser campeão?”.
“Sendo assim, eu já absorvi desde garoto, esse conceito e pressão, ao mesmo tempo. Eu interiorizei que as pessoas estariam me olhando e que eu não poderia ser menos do que sou”, afirmou Rickson.
Apesar da pressão que sempre vivenciou por ser um Gracie, ele transformou essa energia, em esforço. Se havia algum sofrimento, este seria revertido para garra e determinação. Isso foi fazendo dele, um grande ídolo, que marcou gerações.

Devido à própria expectativa que foi criada, já no núcleo familiar, Rickson tem um grande auto-conhecimento; ele soube usar essa pressão para conseguir muitas vitórias.
O fato de ser Gracie também sempre gerou, nele, o estigma de ter um nome famoso que os outros não tem. Essa responsabilidade, sempre o obrigou a ser o melhor: treinar mais; se esforçar mais. Por ele ter uma boa estrutura emocional, o fez de forma sábia e segura.

Outro fator também presente no pensamento de seu pai e no seu é a questão da competição. Tanto para um, quanto para o outro, a competição acaba excluindo pessoas, que gostam de treinar, mas não possuem espírito competitivo. Em ambas opiniões, o jiu-jitsu tem um grande poder de modificar e equilibrar o ser humano. Quem é muito dono de si, pode se nivelar àquele que é mais humilde; o tímido é capaz de se soltar mais; aquele que usa força, vai ser capaz de perceber que a alavanca tem grande poder, enfim, que o jiu-jitsu pode nivelar uma turma e um ser humano.


O que fazer quando se luta com uma pessoa que acha que a força é o mais importante num treino de jiu-jitsu?

“Essa capacidade de entendimento profundo, do ser humano. A primeira atitude que tenho que tomar quando percebo que a pessoa está usando força é encontrar uma posição em que ele sinta uma certa impotência. Se essa pessoa achar que a força resolve o problema, ela vai, sempre, partir para a força. Outra alternativa que você pode fazer é cansar essa pessoa e deixá-la na exaustão . Aí eu pergunto: você, agora, está sem gás. Como vai resolver esta situação? Depois disso, ela vai começar a pensar de uma forma, que nunca havia pensado antes. Assim que essa pessoa tiver uma imagem despida de si própria, ela pode pensar num plano B.
Se você, acredita, que na hora do sufoco, existe um segundo plano. Quando o ser humano descobre isso, ele entra em contato com algo muito profundo, de si próprio. Ele encontra saída, onde esta parecia não existir.


Quais os benefícios que o jiu-jitsu pode trazer para a educação infantil?

Os benefícios para crianças, que o jiu-jitsu pode trazer, são inúmeros, seja no campo físico; intelectual e emocional. O jiu-jitsu atende a uma necessidade muito profunda do ser humano: que é de se conhecer.
O jiu-jitsu desenvolve auto-conhecimento das possibilidades; dos medos e, essencialmente, na sua capacidade de pensar sob pressão. Existem diversos fatores num treino: a pressão do oponente; as expectativas com o resultado. Todos os desconfortos fazem você ficar mais perto de situações trazidas pelo cotidiano. Existe um crescimento em cima dessa pressão; um ganho de maior estabilidade e auto-confiança. E com este crescimento, o indivíduo pode olhar para trás e dizer: “estou mais forte hoje, do que ontem”.
O jiu-jitsu aproxima as pessoas, não há frieza. Ele gera emoção; contato. O jiu-jitsu propicia a pessoa um nivel superior de conduta e condicionamento interno.
O conhecimento das suas reais necessidades é passado através do jiu-jitsu. Hoje, posso dizer que não consigo pensar o jiu-jitsu sem incorporá-lo às crianças.


O que você pensa a respeito do jiu-jitsu que é ensinado, hoje, nas academias?

A arte marcial pode se encaixar na vida de qualquer um, mas a competição, se encaixa na vida de alguns, daqueles que são favoráveis a isso. O lado da defesa pessoal abrange a família, como um todo. O chato disso tudo é que hoje, você entra numa academia de jiu-jitsu e dificilmente você vai ver um Programa de Fundamentos ou de Defesa Pessoal. Essa coisa muito “passa a guarda”, “sai de gravata”, treinamento competitivo é o que muito se vê. Não tiro o valor de um ambiente de competição, mas eu acho que a arte marcial atinge muito mais ao fraco e tímido do que apenas aquele grupo de pessoas que precisam apenas de um pouco mais de condição técnica. O jiu-jitsu tem muito a oferecer. Não podemos deixar que o extinto da competição seja a mola mestra dos treinos.

O que é, em sua opinião, ser um bom professor de jiu-jitsu?

O professor não pode ser aquele que se limita a mostrar posição. No jiu-jitsu, o professor é muito mais do que isso. Ele precisa ensinar como lidar com relações humanas. O jiu-jitsu prima pela eficiência e o professor, muitas vezes, acaba super valorizando isso e se esquece de formar o aluno em questões como respeito, por exemplo.
A partir do momento em que você abre a porta e entra um aluno, você acaba sendo responsável por ensinar alguma coisa para ele, que não se restringe, apenas, aos tatames e sim descobertas de si próprio e equilibrio. O professor precisa ter sensibilidade e fazer um trabalho individual. Eu não quero que meu aluno vá embora. Um, bom, professor de jiu-jitsu é um psicólogo. São atitudes baseadas no amor, porque ninguém deve estar ali apenas pelo dinheiro, da aula, e sim pelo amor ao que faz.
A minha idéia hoje é fazer as pessoas campeãs na vida: a pessoa que não conseguia olhar no olho, que passe a encarar. Isso para mim, vale mais do que muitas medalhas. Este valor agregado está sendo cada vez menos usado dentro do jiu-jistu. Essa é a minha missão e para o resto da vida.

Publicada na edição 31 da revista FAIXA PRETA DIGITAL.

Postado por oscardaniotti às 21:55

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