Sem presente, não há futuro
Nada é fruto do acaso. Para um piloto entrar na F1, é necessário, dentre outras coisas, que passe pelas categorias de base. Com o fim da Fórmula Futuro e a incerteza que ronda a Fórmula 3 Sul-americana, as jovens promessas ficaram sem opções para competir de monoposto aqui no Brasil. Bons tempos aqueles em que os competidores saiam do Kart para a Fórmula Renault ou Fórmula Ford – relembre como era essa categoria nesse vídeo da primeira vitória de Rubens Barrichello na F-Ford, em 1989.
Sei que existe a Fórmula +, mas a categoria ainda não tem a força necessária, em âmbito nacional, para ajudar na formação de pilotos. Conheça um pouco dessa categoria nesse vídeo divulgado no início de 2012 pela organização da Fórmula +:
Hoje, os pilotos que pretendem se profissionalizar e competir em monopostos têm de ir para a Europa assim que saem do Kart. Foi-se o tempo em que os brasileiros chegavam à Europa e destruíam a concorrência. Isso acontecia, também, porque já chegavam ao Velho Continente com uma boa bagagem no automobilismo, fruto das categorias de base que existiam no Brasil; o aprendizado era iniciado aqui.
Não faz muito tempo que conversei com Christian Fittipaldi a respeito das categorias de base. O piloto lamentou que “não tem mais aquela “escadinha” para correr na Europa. Na minha época, competi de Fórmula Ford aqui e de F3 Sul-americana, que eram categorias sólidas. Fui para a Europa direto para F3. Se eu não tivesse competido aqui nessas categorias que citei, certamente meus resultados teriam sido outros ou eu teria de fazer outras categorias lá na Europa. Mas não foi isso que aconteceu. Fui correr de Fórmula 3 lá porque estava confiante e tinha aprendido bastante coisa por aqui.”

Com o cenário atual, os pilotos terão de passar mais tempo em cada categoria internacional para aprender; somente depois de uma fase inicial é que podem ter condição de disputar vitórias e títulos. Isso significa mais tempo no exterior; em outras palavras, maior investimento e mais gastos.
Alguns, com orçamentos limitados e a demora na obtenção de bons resultados, veem o sonho da Fórmula 1 ficar pelo caminho. Outros, nem têm a oportunidade de competir em pistas estrangeiras. Nesses casos, a solução é tentar competir profissionalmente no Brasil. Basicamente, as opções se restringem a carros de turismo e a caminhões, na Fórmula Truck.
Para quem foi criado em monopostos, guiar um carro de competição que não seja ‘fórmula’ é bem diferente. Essa guinada na carreira pode ser traumática. O tempo de aprendizado na nova categoria varia de cada um. As reações do carro, a tocada, a estratégia, o regulamento... Tudo é novo!
Dois casos recentes se encaixam nesse cenário. Campeão da temporada 2009 da F3 Sul-americana, Leonardo Cordeiro fez as malas e foi para a Europa no ano seguinte. Após duas temporadas na GP3, inclusive com pódio, Leo Cordeiro optou por retornar ao Brasil.

Hoje, o piloto de 22 anos integra o BMW Team Brasil, competindo com um BMW M3 na GT4. É claro que um competidor que passou a vida acelerando em monoposto sentirá natural dificuldade para se adaptar a carros de turismo. A vitória em uma das baterias da primeira rodada dupla dessa temporada, disputada em Santa Cruz do Sul, deu ânimo ao piloto paulista, que tem talento para conquistar bons resultados na categoria.
Outro caso recente, mas um pouco diferente, é Luir Miranda. O piloto carioca, vice-campeão da Fórmula Futuro em 2009, ficou a pé depois do anúncio da extinção da categoria. Bicampeão brasileiro de Kart, Miranda tem intenção de acelerar carros de turismo para dar continuidade a sua carreira em terra brasilis. O piloto negocia sua entrada no grid da Copa Fiat, do Racing Festival.
A fim de encurtar o tal período de adaptação, Djalma Fogaça lidera um programa de desenvolvimento de pilotos na Fórmula Truck. Toda segunda-feira após cada etapa da categoria de caminhões, o chefe da equipe DF Ford Motorsport permanece no circuito para trabalhar jovens promessas.
Dia desses, conversei com Djalma sobre essa iniciativa. “É fato que existe dificuldade de encontrarmos pilotos para a Fórmula Truck. A partir desse programa, lapidamos novos talentos que poderão estar no grid em pouco tempo. Mesmo para quem tem experiência em automobilismo, correr de caminhão é diferente. Hoje, nossa equipe é a única que trabalha no desenvolvimento de pilotos que buscam se profissionalizar”, explicou Fogaça, campeão da F-Ford em 1988 e com vitoriosas passagens em outras categorias, inclusive na Fórmula Truck.
A iniciativa de Djalma Fogaça é exemplo a ser seguido não só na Truck, mas, também, em outras categorias nacionais. Além disso, é fundamental que a CBA estimule o surgimento de categorias de base de monopostos. E não é só isso: é preciso que o valor investido não seja astronômico; se for, promoverá a fuga de pilotos.
O exemplo mais recente é a Fórmula Futuro. Estima-se que eram necessários R$ 200 mil para o piloto fazer a temporada. Para quem acompanhou a categoria, no ano passado, os grids tinham, em média, sete – sim, eu escrevi sete! – carros por corrida. A moribunda F3 Sul-americana também passou 2011 com grids raquíticos. Uma arruela se soltou e me contou que um piloto tinha de desembolsar mais de R$ 600 mil para fazer a temporada completa. Para um piloto recém-saído do Kart, esses valores são bem altos.












