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Metáfora do Estilingue na Moda



Curador do Claro ParkFashion – evento de moda realizado semana passada, em Brasília – Jackson Araujo, 45 anos, é consultor de moda, publica suas reflexões sobre o mundo contemporâneo na radioblog Shhh.fm e colabora com o WGSN, escrevendo sobre comportamento, música e artes. Considera como um dos fundamentos de seu trabalho a Metáfora do Estilingue, do pensador pernambucano Aloísio Magalhães (1927-1982) – defensor da brasilidade no design e da recuperação da memória artística e cultural – que prega: “Quanto mais se puxar o elástico para trás, mais longe a pedra chegará”. Acompanhamos os desfiles brasilienses e conversamos com Jackson sobre rumos da moda.

No momento em que você deu o start no Claro ParkFashion, uma reunião era realizada no Ministério da Cultura, marcando o início das relações institucionais do MinC com moda, arquitetura e design. As produções serão contempladas nas ações do próprio órgão governamental. O que pensa a respeito?
Finalmente temos uma preocupação mais clara por parte do Estado em tratar a moda como um interesse cultural. Nesse processo, é importante entender que a fundamentação de uma identidade para a moda deve contemplar as próprias contradições do país, buscando na cultura as bases para a criação de novos produtos, valorizando as tradições regionais e a habilidade dos artesãos, realizando trocas consistentes que incentivem a renovação da linha de produção. O país deve funcionar para o design como herança cultural e DNA, não como folclore. Não se pode mais incentivar apenas a criação de coleções temáticas que se apropriam do trabalho dos artesãos para angariar patrocínio das secretarias de Cultura locais sem um envolvimento perene e consistente por parte dos estilistas e marcas. Nesse novo e auspicioso processo, é imprescindível a capacitação profissional dos artesãos, como prega a cartilha da sustentabilidade e do fair trade. Já não cabe mais na moda a briga por interesses localizados. Enquanto a indústria não se organizar como já o fizeram os pecuaristas, produtores de soja e fabricantes de cimento, prosseguiremos nadando em um oceano de egos para naufragar, por exemplo, quando o tal vilão chinês tentar fechar as portas da indústria têxtil nacional.

O que está mudando no formato de se apresentar moda no nosso país?
É preciso entender que “apresentar moda” não diz respeito somente a desfiles, mas envolve todo um novo aprendizado sobre comunicação. Os organizadores dos eventos devem compartilhar o entendimento dos desfiles como ferramenta de comunicação estratégica para as marcas, orientando toda a sua organização a partir desse preceito, do visual merchandising aos projetos editoriais, online e offline. Os que já fazem disso o fio condutor de seu conteúdo estão claramente se destacando, com estratégias inovadoras que passam a atrair o interesse da imprensa especializada e do consumidor ávidos por novidades.

O que pensou de inovador para atrair público e jornalistas em evento direcionado ao comprador final?
Todo o meu processo de trabalho é fundamentado a partir do desejo de transformar o evento de moda em centro gerador de conhecimento, que é a moeda da mais-valia nesse mundo bombardeado pelo excesso de informação. No ParkFashion, buscamos aproximar a fantasia, que a moda do inverno propõe, com a macrotendência do novo luxo, o luxo acessível, sustentável, fundamentado por valores como autoestima e consumo consciente.

Estamos em um tempo de repensar o eu em meio ao turbilhão tecnológico. Como esse cenário está se desenhando na moda?
A Internet 2.0, a partir das redes sociais e do conteúdo gerado pelo consumidor, nos fez entender a importância do indivíduo nos mecanismos de comunicação de marcas e na criação de novos produtos. A moda, como plataforma narrativa do comportamento humano, não podia ficar de fora e tem dado bastante atenção à opinião do consumidor. Desde o seu envolvimento na análise prévia dos produtos antes de chegarem às lojas, até sua participação na criação de campanhas e objetos. Parece uma saudável ida sem volta. Quem já está praticando, marca pontos.

Você inova na música e na arte em movimentos em simbiose com desfiles. Qual o resultado?

Muito positivo. Uma percepção recente do mercado apontava que os consumidores jovens estavam se tornando cada vez mais imunes à propaganda. Cobram maior relevância e interatividade, exigindo das marcas estratégias de comunicação mais focadas em gerar opinião do que propriamente em vender um produto. Assim, se aproximar das artes vem se formatando como uma estratégia poderosa para as grifes. Permaneço atento a isso.

Pontos altos da atual cena fashion nacional...
Paramos de falar em cópia, pois com o passar dos anos, a internet, de certa forma, encurralou os copistas, revelando o nome dos designers verdadeiramente criativos.

Pontos baixos...
Admitir que nomes relevantes na moda do começo dos anos 2000 não conseguiram manter suas marcas ativas, equilibrando criação e comércio, como Fabia Bercsek, Karlla Girotto e Rita Wainer, para citar um trio, cujo trabalho admiro e respeito. E isso é muito triste e revelador. As faculdades de moda se proliferaram pelo país, mas me questiono até que ponto de fato, as grades curriculares incentivam aprendizados nas áreas de negócios e administração. Sorte que existe o Bom Retiro e o Mega Polo Moda do Brás, onde alguns nomes da safra criativa estão conseguindo ganhar dinheiro.

Qual a maior dificuldade de se fazer um evento de grande porte em shopping fora do eixo Rio-São Paulo?
Ter a lucidez de não querer repetir fórmulas que deram certo nesse eixo, criando formatos adequados ao tipo de produto e de negócio do mercado em que se está atuando.

Depois de tantos desfiles, cite as cinco peças fundamentais para mulheres e homens no inverno que se aproxima.
ELAS: um coletinho; um trench coat; uma camisa branca; uma jaqueta militar; qualquer peça de paetês. ELES: uma jaqueta estilo perfecto; uma camisa xadrez; um chapéu de aba curta; uma bota Sebago; uma calça seca de comprimento mais curto.

O que devemos deixar na gaveta ou tirar de circulação imediatamente?
A arrogância.

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Anarquista fashion



Reflexão sobre o novo luxo e ser sustentável com estilo

Italiana criada em São Paulo e formada em estilismo no Studio Berçot, em Paris, Chiara Gadaleta, hoje apresentadora do programa Tamanho Único, no GNT, foi modelo, stylist e consultora de moda. Camaleônica, incorporou a exótica, étnica, motoqueira e, agora, filosofa ao dizer que se aproximou do seu mais puro “eu”. Ela esteve em Brasília para apresentar a expô Joias do lixo – incluindo peças confeccionadas com restos de tecidos, fios, contas, acabamentos com fitas e botões, que seriam descartados – e ministrar palestra sobre o Novo Luxo. “Devemos desconstruir velhos conceitos. O consumidor não é mais aquele do passado, que seguia regras e tendências. Hoje, o novo luxo é individual, pois cada um valoriza suas necessidades”, diz. Jackson Araujo, que convidou Chiara para essa passagem pela capital federal, acrescenta a nossa conversa: “Chiara defende a ideia de um autoconhecimento por parte do indivíduo, observa as mudanças pelas quais a moda está passando para desembocar na construção de uma nova abordagem sobre como ser sustentável com estilo”. E como se dá isso na real, Chiara? “Hoje, o perfume é híbrido. Costumo dizer que é a era do high-low. Veja as contraposições do artesanal/tecnologia e internet/curador. O consumidor era seguidor, mas agora ele dita as regras. Luxo é aderir ao consumo consciente e a moda se tornar a voz da sustentabilidade”. Pois, então, está aí: Chiara criou o blog Ser Sustentável com Estilo.

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2010 – Rito de Passagem para a Moda



Democracia fashion sob o ponto de vista da consultora Cristina Franco, que esteve em Brasília

Será possível o chamado “mundo fashion” estabelecer um diálogo com os “outros mundos”, deixando de lado os estereótipos e clichês que há muito prevalecem? Uma notícia importante é que o Ministério da Cultura marca o início das relações institucionais com moda, arquitetura e design. As produções dessas áreas passariam definitivamente a serem consideradas manifestações da identidade brasileira e por isso contempladas nas ações do próprio MinC. A moda, a indumentária e o estilo de ser de uma época sempre foram referências fundamentais para pesquisadores de todo o mundo identificarem uma sociedade. É verdade que a nossa sonhada aldeia global, ao mesmo tempo em que trouxe benefícios, criou uma grande confusão de identidade. Países como a França já enfrentam a desconfortável pergunta: “o que é ser francês?”. Como a França, outros países estão sofrendo esse efeito colateral. Felizmente isso ainda não chegou por aqui. Talvez porque não tenhamos até agora mergulhado, do jeito que já deveríamos ter feito, em um entendimento mais profundo da nossa identidade. Não é fácil, em um país de dimensões continentais, com 20% da biodiversidade do planeta, com a maior reserva hídrica mundial e rica variedade de matrizes, termos conhecimento de um DNA tão complexo. Por isso, já que o assunto é moda, prefiro falar de artesanato, que, sem dúvida, é um dos ativos mais subutilizados que nosso país tem. A falta de diálogo da cadeia industrial com a cadeia de serviços de artesanato faz com que ainda acreditemos que exista um apagão no Brasil deste tipo de mão-de-obra. É um erro. Nossa diversidade de tipologias de artesanato de linha é enorme. Muitas delas só são encontradas aqui, e se não estimuladas, correm o risco de desaparecerem. Não porque careçam de mão-de-obra para produzi-las, mas pelo gargalo que hoje temos para comercialização destes produtos e pela falta da inclusão de melhores insumos tecnológicos para que esses produtos tenham maior competitividade em mercados que os valorizem. O backbone, a espinha dorsal do item de luxo, está no feito à mão, no artesanato de alto valor agregado, na marca de origem. Marca de origem: uma expressão mágica, uma chancela que um país como o Brasil, hoje enxergado de forma tão positiva no inconsciente coletivo mundial, tem toda propriedade para ter. O Brasil deve ser a grande marca guarda-chuva para a moda brasileira. Este ano, o país foi escolhido para sediar a conferência da International Textile Manufactures Federation, entre 17 e 19 de outubro, em São Paulo. Mais de 300 líderes mundiais virão ao Brasil. Não existe mais tempo, principalmente depois da ressaca financeira de 2008/2009, para a individualidade excessiva de cada marca. É muito caro consolidar uma brand a nível mundial. A recente coleção Chanel para o Verão europeu 2010 investe forte no feito à mão. Uma bolsa de coleção, de tamanho médio, toda em crochê, tem o preço a partir de £ 2.235, ou seja cerca de R$ 6 mil. Você sabia que Nova Russas, no sertão do Ceará, é uma cidade que produz um fantástico trabalho de crochê, inclusive pelos homens? Precisamos usar e divulgar o que temos aqui. Somos uma source fantástica, não só para nossa moda, como para outras marcas internacionais. Nossos códigos estéticos, personalíssimos, oriundos de nossas matrizes, agregados à nossa cadeia industrial produtora de roupas, constituem a única forma de termos um “made in Brasil” com identidade própria e alto potencial competitivo. Por isso, acredito que o maior reconhecimento da moda brasileira por instituições ligadas à cultura seja um forte incentivo para que toda esta diversidade não só possa vir à tona, por meio de uma facilitação de consultas, bem como a partir de um maior entendimento quanto à aplicação desses códigos estéticos. É claro que as diferenças têm de ser administradas de forma madura. Elas existirão sempre. Precisamos entender as forças e fraquezas dentro da cadeia produtiva, as ameaças e as oportunidades, para que possamos fortalecer de forma sustentável o que temos ainda muitas vezes em estado latente. Não existe mais tempo para fogueiras de vaidades, e marketing sem conteúdo real. Tudo ficou muito exposto. E como a gente sabe que a paz só é feita com os inimigos, talvez já seja tempo disso acontecer.

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Entre a fantasia e o real

Robson Cardoso de Amorim

Se a proposta do Claro ParkFashion era também gerar e trocar conhecimento sobre o universo da moda, um concurso de fotografia foi criado com o desafio de se desenvolver um editorial que dialogasse com o tema Fantasia da moda: mistérios de Inverno. O ganhador foi o brasiliense Robson Cardoso de Amorim, 21 anos, estudante de publicidade e propaganda. Ele convocou a amiga Júlia Ritter, estudante de arquitetura, e escolheu como locação um prédio abandonado próximo ao terreno da Universidade de Brasília. “Conferimos várias revistas e pontuamos as tendências para o Inverno. Como nas publicações tudo é lindo e no nosso guarda-roupa nem tanto, decidimos deixar a ideia fluir na hora. Com dois porta-malas repletos de bolsas, sapatos e roupas da minha mãe e de Júlia, seguimos para a UNB. O céu de Brasília costuma ser lindo, de um azul ímpar, mas, nesse dia em especial, para a nossa sorte, estava branco, cheio de nuvens. Já que assuntos como moda costumam me atrair e a Ju estuda arquitetura, juntamos os olhos e clicamos. Tivemos uma sensação de êxtase ao ver o trabalho reconhecido”, comentou Robson.

Robson Cardoso de Amorim

Robson Cardoso de Amorim

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