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1976 - O maior roubo de obras de arte

Jornal do Brasil - Segunda-feira, 2 de fevereiro de 1976
Ladrões roubaram 119 obras de Pablo Picasso que estavam em exibição na capela-mor do Palácio dos Papas em Avignon, Sul da França.

O roubo foi feito por três mascarados armados que amordaçaram e feriram três guardas do palácio. A operação durou aproximadamente uma hora. Antes de fugir os assaltantes cortaram os fios telefônicos e a única pista que deixaram foi um acentuado sotaque espanhol.

A coleção fazia parte de uma exposição de 201 obras de Pablo Picasso pintadas nos últimos 20 meses antes de sua morte. Estavam emprestadas ao Conselho Cultural de Avignon desde janeiro de 1973, pelo próprio autor. Depois de sua morte, aos 91 anos, em abril daquele ano, as obras continuaram expostas na capela-mor à espera de que se concluísse a controvérsia judicial referente à herança de Picasso. As telas não estavam assinadas porque Picasso só o fazia quando delas se separava definitivamente.

Em Paris, o diário France Soir formulou a hipótese de que o roubo teria sido obra de extremistas, cuja inteção seria devolver à Espanha parte de seu patrimônio artístico.

O Palácio dos Papas em Avignon é uma fortaleza medieval de oito torres e altos muros que protegem antigas praças e capelas. Foi residência dos papas durante o Cisma de Avignon (1309 a 1377).


A arte de roubar obras de arte

Especialistas da Interpol e membros da Brigada de Belas-Artes da Polícia Francesa acreditam que o roubo de obras de artes invendáveis tem como principal objetivo a extorsão de companhias de seguros, com as quais os ladrões negociam um valor bem abaixo do valor real assegurado e assim garantem o segredo da operação.

Tambem foi cogitado o roubo como objetivo político com aconteceu em 1974. Terroristas do IRA assaltaram uma galeria em Dublin e pela devolução receberam uma quantia em dinheiro e a libertação de alguns presos políticos.

Amanhã:Em 1974 - O incêndio do Edifício Joelma


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1980 - Show de Sinatra no Maracanã

Capa do Caderno B: Domingo, 20 de janeiro de 1980
"Pago Cr$ 20 mil para não ver nem ouvir Frank Sinatra - disse o homem, tirando da carteira 20 cédulas de barão.

_Desculpas, mas nós só vendemos entradas para quem queira ver e ouvir Frank Sinatra. Não podemos aceitar o seu dinheiro.

_Então me diga onde é que eu posso comprar a minha não entrada. Estou cheio de Sinatra e, onde que que vá, só ouço falar nele, só vejo o retrato dele, só escuto músicas cantadas por ele.

_O senhor há de convir que um acontecimento artístico desse porte...

_ Não convenho. Quero o meu sossego, quero ouvir as fitas de minha escolha, e atualmente nesta cidade não há alternativa. Ou Sinatra ou nada. Então, quero Cr$ 20mil de nada".

Jornal do Brasil


A bem-humorada crônica de Drummond ilustrou a expectativa carioca em torno da concorrida vinda do cantor Frank Sinatra ao Brasil que, depois de quatro dias de shows intimistas, no Hotel Rio Palace, despediu-se do público brasileiro apresentando-se sobre um palco hexagonal para mais de 100 mil pessoas no Maracanã, num espetáculo de luz e sons jamais presenciados. Acompanhado por uma orquestra de 40 músicos, regida pelo maestro Vinnie Falconi, Sinatra cantou um repertório variado, reunindo sucessos de diferentes épocas de sua carreira, entre eles The Lady is a Tramp, My King of Town, e New York, New York.

A exaltação da platéia híbrida, de fãs de diversas partes do Brasil e do exterior, colidiu com o rígido esquema de acesso dado aos profissionais da mídia para a cobertura do show. Somente um fotógrafo de cada órgão de imprensa pode trabalhar no gramado. Aos outros, foram destinados lugares no fosso dos jogadores ou na Tribuna de Imprensa. Nenhum jornalista teve acesso ao gramado.


Com a mídia, uma delicada relação

A relação de Sinatra com a mídia sempre foi um complicado, explosivo e insolúvel caso de incompatibilidade de gênios. Ao longo de sua carreira, incontáveis trocas de insultos e hostilidades marcaram esse convívio. E reacendendo a polêmica sobre essa difícil ligação, jornalistas e fotógrafos encarregados da cobertura do Sinatra durante a sua estadia no Rio de Janeiro enviaram uma carta de protesto à Embaixada Americana. Contestava-se o tratamento de "poucos amigos" concedido à imprensa pelos assessores do cantor, desde sua chegada à cidade, dificultando o trabalho dos profissionais da notícia.


Amanhã: 1945: Libertação de Auschwitz


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1982: Fui falar com Deus

Jornal do Brasil: Quarta-feira, 20 de janeiro de 1982


Elis Regina morreu em São Paulo aos 36 anos, depois de sofrer uma parada cardíaca. Cantora com temperamento forte, ganhou logo no começo de sua carreira o apelido de Pimentinha, devido ao gênio difícil. Mas Seu trabalho sempre foi sinônimo de qualidade elevadíssima no plano vocal.

Rompeu dois casamentos oficiais e nesta época namorava o advogado defensor de presos políticos, Samuel McDowell.

Elis deixou três filhos, João Marcelo com 11 anos de seu primeiro casamento com o compositor Ronaldo Bôscoli; Pedro com 6 anos e Maria Rita com 4 anos, de seu casamento com César Camargo Mariano. Os três seguiram os passos da mãe no ramo da música.

Milhares de pessoas velaram o corpo no Teatro Bandeirantes. Fãs emocionavam-se com o som das músicas cantadas por Elis, que as rádios de São Paulo repetiam a todo instantes. Às 10h o povo cantou Tá Chegando a Hora em tom de lamento, entrecortados por aplausos e novos gritos "Elis, Elis". O cortejo saiu acompanhado por uma multidão a pé que congestionou o trânsito. Entre os artistas Tônia Carrero e Clara Nunes.

Excessivamente franca, a gaúcha Elis Regina Carvalho da Costa teve, ao longo de seus 36 anos de vida, muitos inimigos, por causa de suas opiniões desabusadas, às vezes impertinentes, outras vezes contraditórias, mas sempre muito sinceras. Como artista está entre as pouca que podem se orgulhar de deixar marca tão forte em tudo quanto interpretou ao logo de sua carreira musical, iniciada aos 11 anos de idade, quando se apresentou na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, sua cidade natal. O fôlego da cantora levou-a ao Beco das Garrafas no Rio, onde foi imediatamente erigida em estandarte da bossa nova.


"Minha missão é cantar"

Festival Internacional da Canção Popular em 1966 - Elis Regina canta no final do festival - Data: 24/10/1966 - Fotógrafo: J. ANTONIO


"A voz de Elis Regina é como diamante: puro, frio e cortante".
J. R. Tinhorão

Elis Regina veio para o Sudeste em definitivo em 1964. Foi no Beco das Garrafas que Armando Pittigliani a descobriu e a contratou para a Philips.

Em sua obra nunca falou a universalidade. Num de seus mais perfeitos trabalhos, Elis regravou o repertório de Tom Jobim, com instrumentistas refinados como Oscar Castro Neves, Hélio Delmiro, Luizão, César Camargo e a regência do americano Bill Hitchcock.

A voz que se calou era exclusiva de seu talento interpretativo.

Assista abaixo a versão em vídeo.


Veja também:


Amanhã: Em 1983 - O fim solitário de Mané Garrincha


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1973- Tarsila do Amaral

Jornal do Brasil: Quinta-feira, 18 de janeiro de 1973

"Tarsila não parte. Chega com o futuro"
Paulo Bonfim (poeta)

Tarsila do Amaral morreu de parada cardíaca, quando se recuperava de uma operação de vesícula. Já tinha perdido o movimento das pernas, depois de extrair um linfoma profundo da coluna em julho de 1965. Apesar de ter passado os últimos anos de vida numa cadeira de rodas, era exemplo de abnegação e altivez. Nunca se queixava, estava sempre sorrindo e não parou de pintar, lembraram parentes.

Vaidosa, Tarsila morreu sem revelar sua idade. Sabia ser fiel a suas origens aristocráticas, aos amigos que a cercavam até à memória que guardava de sua beleza.

Em uma de suas últimas entrevistas declarou: "Atualmente quero viver a minha vida, recordar da minha infância e manter minha fé. Por isso posso fazer um céu triste, de aparência tempestuosa. O azul, de que tanto gosto, é, por si só, puro e limpo".

Dos rabiscos da menina em férias, Tarsila passou ao piano, mas logo o trocou pelos pincéis, porque era muito tímida e ficava nervosa ao ser aplaudida em um palco.

Viajou para Paris em 1920 a fim de estudar na Académie Julian com Émile Renard. E alí ficou dois anos, até ser surpreendida pela notícia da eclosão do movimento artístico, da Semana da Arte Moderna.

Teve uma tela sua admitida no Salão Oficial dos Artistas Franceses em 1922 e retornou ao Brasil alguns meses depois das famosas noites do Teatro Municipal paulista. Integrou-se então aos intelectuais do grupo modernista como Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Tarsila costumava dizer do movimento do qual participou sem estar presente: " Acabou o domínio da estética parnasiana".

Antropofágia e sua pintura pau-brasil

Com sua volta e a repercussão da Semana, sua vida ficou divida entre o trabalho e os amigos. A Negra foi sua primeira pintura de tendência antropofágica e A Caipirinha, iniciou sua fase pau-brasil, que abordava temas brasileiros.

A casa de Mário de Andrade, um entusiasta da Semana da Arte, tornou-se ponto de reunião. O Abaporu, um homem que come carne humana, quadro feito a Oswald de Andrade quando ainda eram casados, serviu como base de todo o Movimento Antropofágico de 1928. Em 1968, numa retrospectiva organizada por Araci Amaral no MAM, o publico carioca pôde ver a quase totalidade da obra de Tarsila do Amaral.


Amanhã: 1915 - Lodo e desespero inundam o Rio de Janeiro


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1957 - Hollywood perde Bogart

Jornal do Brasil: Terça-feira, 15 de janeiro de 1957 - página 9








"Ah, bobagem...
eu sou um ator.
Eu apenas faço
o que vem naturalmente".




O ator Humphrey Bogart morreu em Hollywood, na Califórnia, vítima de câncer na garganta, às vésperas de completar 58 anos.

Estava em casa, na companhia da sua esposa, a atriz Lauren Bacall, com quem estava casado desde 1945 e teve dois filhos.



Ícone do cinema, Humphrey DeForest Bogart nasceu em Nova York no Natal de 1899. Após servir na Marinha americana durante a I Guerra Mundial, iniciou a carreira artística no teatro. Estreou no cinema em 1930, mas, sem sucesso, voltou aos palcos. Tornou-se conhecido ao interpretar o bandido Duke Mantee, da obra Floresta Petrificada, na Broadway, em 1935, e na tela, no ano seguinte.

Humphrey Bogart. Reprodução/CPDoc JB

Estrelou mais de 80 filmes ao longo da carreira, marcada por grandes desempenhos. Em Relíquia Macabra (1941), virou mito ao imortalizar o herói Sam Spade. Chegou ao auge de sua carreira como Rick Blaine, no clássico Casablanca (1942), contracenando com Ingrid Bergman uma das mais célebres cenas de despedidas da história do cinema. Mas o reconhecimento maior só chegaria com Charlie Allnut em Uma Aventura na África (1951), papel pelo qual foi premiado com o Oscar de Melhor Ator.

As interpretações de Bogart eram emolduradas por seu biotipo de traços rústicos e temperamento implacável. Uma combinação arrebatadora que lhe garantiu enorme sucesso junto ao público feminino, dentro e fora das telas.

Passados 51 anos de sua morte, a lembrança de Bogie de chapéu de abas, sobretudo de gabardine, quase sempre cigarro na boca de lábios acentuados e olhar destemido se mantém viva, como uma das imagens mais memoráveis de Hollywood em todos os tempos.



Amanhã: 1985 - O fim da ditadura militar


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1976 - O fim sem mistério da Rainha do Crime

Primeira página do Caderno B: Segunda-feira, 13 de janeiro de 1976


"Escrevo para gente sensível,
mais interessada
na descoberta da chave
de um dado enigma
do que na descrição
de cenas cruas e chocantes.

Quando se trata
de morte violenta,
por exemplo,
prefiro insinuá-la
em lugar de descrever
cruelmente
a eliminação
de uma das minhas personagens".
Agatha Christie



Agatha Christie. Reprodução/CPDoc JB
Depois de aniquilar multidões de personagens que povoaram as páginas de quase uma centena de livros publicados a partir dos anos 20, morreu de causas naturais em sua residência, nos arredores de Londres e aos 85 anos, a escritora inglesa Agatha Christie. Cognominada 'Rainha do Crime' e reconhecida como a primeira-dama da literatura policial em todos os tempos, deixou uma legião de leitores fiéis no mundo inteiro.

Mais ligada à trama, à armação do quebra-cabeças, à articulação das peças, ao estímulo da inteligência do que à análise do comportamento de suas personagens, a autora conciliava o assassinato com a amenidade, evitando a descrição das cenas de violência e ambientando quase sempre vítimas, assassinos, suspeitos e detetives em locais requintados. Reflexo de sua perplexidade com o interesse crescente dos leitores na violência gratuita em detrimento da decifração do mistério. Incompreensão que Agatha Christie expôs inúmeras vezes em suas entrevistas, e levou consigo até o fim.

Hercule Poirot. Reprodução/CPDoc JB


O fim de Poirot, a maior criação

Seis meses antes de morrer, Agatha Christie cometeu seu último "assassinato", no livro 'Cai o Pano' (Curtian): eliminou Hercule Poirot, o detetive belga, de bigodes revirados, metódico, impecavelmente vestido e descrito pela escritora como um homem baixinho, de cabelos tingidos.

Protagonista da maioria dos livros de Agatha Christie, Poirot foi criado em 'O Misterioso Caso de Styles' (The Mysterious Affair at Styles), e se tornou um dos mais famosos investigadores da ficção policial, sempre se antecipando à polícia na solução dos enigmas com que se defrontava.



Amanhã: 1937 - Reformas na Educação





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1982: Marília Pera eleita a atriz do ano

Jornal do Brasil: Quarta-feira, 6 de janeiro de 1982)
Marília Pera foi escolhida a melhor atriz de 1981, pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, formada por comentaristas especializados que escrevem em jornais e revistas de várias cidades americanas. A eleição deve-se à atuação da atriz em Pixote, filme de Hector Babenco.

E Burt Lancaster foi eleito o melhor ator por seu papel em Altantic City, considerado o melhor filme do ano, que deu também o título de Melhor Diretor ao francês Louis Malle, radicado nos EUA. O filme brasileiro Pixote ficou em terceiro lugar.

Marília Pera e Hector Babenco já tinham trabalhado juntos em O Rei da Noite, filme de estreia do diretor. O papel de Marília Pera no filme foi definido por Babenco como "uma interpretação delirante" e foi grande o nível de exigência . Para interpretar Sueli, uma mulher contraditória, sem saída, à beira da loucura, prostituta, pivete, bêbada, assaltante e Marília Pera se dedicou de corpo e alma.

Quase todo o elenco dos meninos do filme foi escolhido na periferia de São Paulo. Na época do lançamento, Babenco declarou: "Eu gostaria de que quando terminasse o filme as pessoas se perguntassem onde estão todas as outras crianças. E que reconstituíssem a saga do filme, lembrando como é estreito o funil da sobrevivência".


Performance de grande atriz

Filha dos atores Manoel Pera e Dinorah Marzullo, começou sua carreira com apenas 19 dias, embrulhada dentro de numa cesta interpretando o único papel possível: o de um bebê. Aprendeu desde cedo que o ato de representar tem muito de paixão e de sacrifício.

Ao mesmo tempo em que seu pai sonhava que Marília se tornasse uma grande concertista, proporcionava-lhe aulas de piano e de balé, ensinava-lhe alguns truques teatrais.

Marília Pera abriu seu próprio caminho como atriz, cantora e dançarina.


Confira amanhã: Em 1963 - Brasil desaprova o parlamentarismo







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1988 - O fim do sofrimento de Henfil

Jornal do Brasil: Terça-feira, 5 de janeiro de 1988 - página 7



23/08/1985: Henfil. Luiz Morrier/CPDoc JB
"Eu ficaria aliviado se Henfil partisse hoje."

A afirmação do ator Carlos Moreno foi feita durante um show realizado no teatro paulista Projeto Leste destinado a arrecadar fundos para que Henfil continuasse pagando seu tratamento contra a Aids.

Poucos instantes depois, o sofrimento de Henrique de Souza Filho, chegaria ao fim. Internado há 47 dias no Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, morreu de insuficiência respiratória decorrente da síndrome da imunodeficiência adquirida que ele contraiu em uma transfusão de sangue.



Nascido Henrique de Souza Filho em 1944 no norte de Minas Gerais, conheceu a realidade tipicamente sertaneja da região, experiência que enriqueceria a obra do cartunista que se tornaria 18 anos depois: Henfil.

18/01/1987: Henfil. Aguinaldo Ramos/CPDoc JB
Mineiro visionário

Assim o definiu o amigo, psiquiatra e escritor Hélio Pellegrino. Fez do humor criativo o porta-voz da sua revolta com as injustiças do mundo. Seus desenhos de caráter político, às vezes agressivamente irônicos, outras vezes quase líricos, revelavam seu engajamento na vida pública do país. Oportuno em suas criações, mesmo durante o período mais terrível da repressão, ele sempre achava um jeito de desmascarar, denunciar, ridicularizar, sempre com a arma do riso, aqueles que oprimiam a nação.


Os fradinhos, a Graúna, o cangaceiro Zeferino, o bode Francisco Orellana, o Caboco Mamador, seus personagens de algum modo davam alento aos que eram obrigados a calar sua justa indignação, dizendo aquilo o que eles não podiam dizer.

E nem mesmo a permanente ameaça da morte, primeiro o convívio com a hemofilia, depois com a Aids, o impediram de ser impregnado pela fagulha do humor.

O humor foi a libertação de seu destino.

Amanhã: 1982 - Marília Pera eleita a atriz do ano







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1977 - Morre Dilermando Reis

Houve Dino e Meira, há João Gilberto - em cada mão um estilo, uma época. Antes de todos, houve Dilermando Reis, morto aos 60 anos, vítima de colapso cardíaco.

Jornal do Brasil: 4 de janeiro de 1977
Durante quatro décadas seu nome foi quase um sinônimo de violão e ele cumpriu o ciclo possível no Brasil a um músico de seu tempo: fez o interior, a boemia e as serestas das grandes cidades, tocou nas lojas que vendiam partituras e instrumentos musicais, foi artista de rádio, atração nos cassinos, formou sua própria orquestra, compôs, gravou, ensinou.

Amigo do ex-presidente Juscelino Kubitschek, teve a alegria de poder considerar-se um dos pioneiros da construção de Brasília: "Ajudei a construir, com minhas próprias mãos, o Catetinho. Meu violão foi primeiro ouvido nos céus da nova Capital e fiz também a primeira música em homenagem à cidade que nascia".

Aprendeu a tocar violão ainda criança, com o pai, Francisco Reis. Na adolescência conheceu o concertista cego Levino da Conceição, com quem percorreu o interior do país, até chegar ao Rio já músico formado. Antes de ingressar nas rádios, lecionou e tocou nas casas de música da época, como Bandolim de Ouro e Guitarra de Prata. Num tempo em que a admiração do público convergia muito mais para os cantores do que para os instrumentistas, Dilermando conseguiu manter um programa semanal de meia hora, no qual a atração máxima e única era seu violão, e de 1936 a 1969, quando deixou a Rádio Nacional, esteve sempre entre os artistas mais populares e requisitados. Gravou cerca de 40 discos entre clássicos e populares, reunindo sucessos como 'Alma Nortista', 'Calanguinho', 'Penumbra' e 'Se ela perguntar', a preferida de Juscelino.

16/07/1974: Dilermando Reis.França/CPDoc JB
As parcerias e as admirações musicais

Companheiro de seresta de Francisco Alves e João Petra de Barros, Dilermando era um instrumentalista brasileiríssimo, impecável na execução de valsas e chorinhos.

Admirava muitos dos músicos e autores mais jovens como Baden Powell Carlos Lira, Edu Lobo e Chico Buarque.

Mas não poupava críticas às músicas que considerava meramente comerciais: "Essas músicas de consumo, você a analisa, e não encontra nada, uma parecendo com a outra. Você a ouve porque está muito bem arranjada e muito bem interpretada. Mas ela não fica".

Dilermando ficará.


Amanhã: 1903 - Prefeito Pereira Passos






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