Arquivo de January 2009

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1960 - As histórias da bossa nova

Jornal do Brasil: um novo ritmo chamado bossa nova

Ronaldo Bôscoli contou à repórter Miriam Lima de Alencar, do Jornal do Brasil, que o movimento bossa nova começou com pequenas reuniões familiares nas quais ele e outros rapazes mostravam suas composições, tocavam e cantavam. Naquela época, Carlos Lyra e Roberto Menescal, que também integravam o grupo, ensinavam violão e, com isso conseguiam novos adeptos para o novo ritmo.

O número de participantes aumentou tanto que os encontros antes realizados em salas pequenas foram para os salões. A primeira apresentação do conjunto, que contava ainda com Tom Jobim e João Gilberto, foi realizada em um clube israelita. Foi nesse local que apareceu escrito no quadro negro: "Hoje, João Gilberto e um grupo bossa nova, apresentando sambas modernos."

Tom Jobim confessou na época que não sabia o que era bossa nova. O maestro explicou entretanto que a expressão sempre existiu e que era antiga. "Noel Rosa já falava dela em seus sambas. Considero bossa nova tudo o que está a frente do seu tempo, e que é vanguarda em qualquer atividade". Como exemplos, Jobim citou Bach, Debussy, Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, Niemeyer e Juscelino Kubitschek, a quem ele chamou de "o presidente bossa nova".

Para Ari Barroso, no entanto, nunca existiu bossa nova ou bossa antiga, o que havia era apenas bossa. O compositor elegeu Tom Jobim como o papa do novo gênero musical. Segundo Ari Barroso, Tom conseguiu trazer o ritmo das escolas de samba para as orquestras de salão. E acrescentou: "O mesmo que eu fiz com a Aquarela do Brasil, que trouxe da marcação do tamborim para as grandes orquestras."

João Gilberto, o líder do movimento entre os cantores, podia ser encontrado todos os fins de noite no Bar Plaza, fazendo improvisações ao violão, por brincadeira. Um dia conseguiu tirar do instrumento uma batida diferente, uma marcação totalmente nova. Aos que perguntavam o que era aquele som respondia que conseguira aquilo acompanhando os requebros irregulares das lavadeiras de sua terra, Juazeiro, na Bahia.

O desafio de cantar no Rio
João Gilberto chegou ao Rio em 1954. Começou a carreira tocando e cantando na Rádio Tupi. Não achava gravadora que o aceitasse porque diziam que sua voz era esquisita. Nessa época acompanhava ao violão vários cantores, como Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos, Maísa e Silvinha Teles.

Tom Jobim quis ajudá-lo e o levou para a Odeon onde gravou Chega de saudade. O disco foi enviado para um disc jóquei de São Paulo, que se recusou a tocá-lo e ainda o quebrou em dois pedaços. A música foi lançada logo em seguida e tornou-se um marco da bossa nova. Na sequência vieram Lobo Bobo e Desafinado, que o consagraram como intérprete.

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1997 - Os caminhos de Antonio Callado


Jornal do Brasil: A obra de antonio Callaldo

Antonio Callado formou-se em Direito em 1939, mas nunca advogou. Em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, foi contratado pela BBC de Londres como redator. Em Londres viveu momentos dramáticos, com os bombardeios aéreos promovidos pelos alemães. Depois da libertação de Paris, trabalhou no serviço brasileiro da Radio-Diffusion Française.

Retornou ao Brasil com vasta experiência como correspondente de guerra. Voltou para o Correio da Manhã onde já havia trabalhado quando estudava Direito e passou a colaborar em O Globo. Deixou o jornalismo por um breve período quando foi contratado pela Enciclopédia Britânica para chefiar redação da Enciclopédia Barsa, publicada em 1963. Em seguida foi para o Jornal do Brasil quando foi enviado ao Vietnã para cobrir a guerra.

Callado deu aulas nas universidades de Cambridge, na Grã-Bretanha, e de Columbia, nos Estados Unidos. Em 1975, passou a dedicar-se inteiramente à literatura.
O encontro do escritor e os principais temas de sua obra deu-se por intermédio do jornalismo, desde o período em que esteve na Europa e em lugares como Bogotá, Washington, Xingu e Havana. O escritor, jornalista e teatrólogo morreu dois dias depois de completar 80 anos.


Resistência ao regime militar
Os livros Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1976), e Sempreviva (1981) apresentam um retrato do Brasil durante o regime militar. Sua oposição à ditadura custou-lhe duas prisões. A primeira em 1964, logo após o golpe militar, e a outra em 1968, após o fechamento do Congresso em face do AI-5.

Reuniu quatro de suas peças teatrais no volume A Revolta da Cachaça. Uma delas, Pedro Mico foi transformada em filme estrelado por Pelé.
Callado foi eleito em 1994 para ocupar a cadeira de número 8 da Academia Brasileira de Letras, como sucessor de Austregésilo de Athayde.

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1980 - Peça Calabar é liberada pela Censura

Jornal do Brasil: Censura libera Calabar e Z

A peça Calabar, um elogio à traição, foi liberada depois de ficar seis anos proibida pelo Conselho Nacional de Censura. O espetáculo escrito por Chico Buarque e Ruy Guerra, dirigido por Fernando Peixoto, fora suspenso oito dias antes da estreia. O general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem esclarecer os motivos, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e, ainda proibiu que a proibição fosse divulgada.

O empresário Fernando Torres gastou 30 mil dólares na produção, uma das mais caras do teatro brasileiro até então, com 40 atores no elenco e outros 40 profissionais nos bastidores. Torres disse que obtivera três meses antes da proibição a garantia dos órgãos de censura de Brasília de que o texto não seria vetado.

O prejuízo foi enorme. Para recuperar parte do investimento, o produtor improvisou na época a montagem de outro texto já conhecido do público e liberado pela censura – A torre em concurso. Depois da liberação, Chico Buarque e Ruy Guerra reescreveram o texto original, considerado pelos próprios autores "muito metafórico e obscuro" e a peça entrou em cartaz.

As músicas que compunham a trilha sonora de Calabar, como Bárbara, Ana de Amsterdan, Não existe pecado ao sul do Equador e Tatuagem, fizeram sucesso. A história foi publicada em livro e virou um best seller. A saga do comerciante Domingos Fernandes Calabar passava-se no século 17, durante a invasão holandesa em Pernambuco. Calabar preferiu ficar do lado dos invasores e contra a coroa portuguesa e tornou-se um herói.

O diretor da Censura em 1974, Rogério Nunes, esclareceu em ofício que "A peça teatral faz apologia da traição (...) Exalta a figura execrável do traidor Domingos Fernandes Calabar".

O filme Z também é liberado
No mesmo dia, o Conselho Nacional de Censura liberou para maiores de 14 anos o filme Z, do diretor Costa Gavras, cuja proibição ocorreu em 1975. Z ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1969, com roteiro baseado no livro de Vassili Vassilikos e Yves Montand e Irene Papas no elenco. A história sobre a perseguição e assassinato de um líder de oposição da Grécia chegou às telas brasileiras com mais de 10 anos de atraso.
Os membros do Conselho também aprovaram uma moção enviada ao então governador do Rio, Chagas Freitas, contra o fechamento do Teatro Opinião.

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1977 - As canções de Maysa


Jornal do Brasil: Maysa morre em acidente

A intérprete e compositora de músicas melancólicas e de dor-de-cotovelo começou a carreira aos 12 anos, quando compôs o samba-canção Adeus. Maysa nasceu no Rio e mudou-se aos 3 anos com a família para São Paulo. Aos 18 anos, casou-se com o milionário paulista André Matarazzo, 20 anos mais velho, e passou a cantar raramente em festas de família. Em 1956, grávida do seu único filho, conheceu o produtor Roberto Corte Real, que a levou para gravar um disco. Nesse LP foi lançada a música Meu mundo caiu, um dos seus maiores sucessos como compositora. A renda obtida com as vendas foi doada por insistência do marido a uma campanha contra o câncer.
O casamento de Maysa e André durou dois anos. O fim da união abalou profundamente a cantora, acentuando a sua depressão, que a levou a exceder-se na bebida, no uso de calmantes e a engordar 38 quilos. "Canto porque sou uma angustiada", revelou em um dos shows que fez no Cassino Estoril, em Portugal. Temperamental, confessou em entrevista a O Pasquim que jogara o microfone na cabeça de um espectador que insistia em fumar charuto próximo ao palco.

A convite de Ronaldo Bôscoli veio para o Rio, em 1960, estrear um programa de TV e gravar um disco. No mesmo ano, lançou o LP O Barquinho, que se tornou um marco da bossa nova, um gênero musical diferente do qual estava acostumada a cantar. Os músicos que a acompanharam – Luiz Eça, Hélcio Milito, Bebeto Castilho e Roberto Menescal – formariam mais tarde o famoso Tamba Trio.

O regresso depois de longa turnê


O sucesso do disco O Barquinho rendeu a Maysa uma longa turnê pelo Brasil, além de espetáculos na Argentina e no Uruguai. Em seguida partiu para fazer apresentações na Europa e nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, quatro anos depois e 26 quilos mais magra, participou de novelas, programas de TV e fez shows.

Maysa morreu aos 40 anos quando o carro que dirigia bateu contra a mureta central que divide as duas pistas da Ponte Rio-Niterói. A cantora seguia para Barra de Maricá onde iria passar o fim de semana em sua casa. Os pais de Maysa disseram que ela não dormia havia cinco dias devido a doses de remédio para emagrecer.

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1972 - Caetano Veloso retorna do exílio


Jornal do Brasil: Caetano Veloso faz show no Rio

Caetano Veloso retornou do exílio e agendou três shows no Rio, dois em São Paulo, um em Recife, e dois em Salvador. Os espetáculos do Rio foram realizados no Teatro João Caetano e não seguiam um roteiro nem tinham tempo de duração estabelecido. Tudo iria depender da reação do público. Dos 4 mil ingressos disponíveis, 3.500 já haviam sido reservados antes da abertura das bilheterias.

O ensaio marcado para as 15h30 atrasou duas horas por causa da demora para instalar os equipamentos de som. Caetano manteve-se calmo e observou: "O Brasil parece a Itália. O tempo passa e a gente nem percebe. Não acontece nada"

O cantor e compositor saiu do Brasil em julho de 1969 depois de ser preso com Gilberto Gil, em São Paulo, no fim de 68. Ambos foram acusados de desrespeito ao Hino Nacional e à bandeira brasileira. Os músicos foram transferidos para o Rio e tiveram suas cabeças raspadas; foram liberados dois meses depois, logo após o carnaval de 1969, mas ficaram em regime de confinamento em Salvador.

Pouco meses antes de ser detido Caetano foi vaiado na eliminatória paulista do 3º Festival Internacional da Canção ao cantar É proibido proibir. Foi chamado de alienado e revidou o ataque, tachando a esquerda de burguesa e ignorante. A música foi desclassificada. Já o compacto com a canção A voz do morto, produzido na mesma época, foi censurado pela ditadura militar e recolhido das lojas.

Shows e canções inéditas
O disco Caetano Veloso (1969) foi lançado pouco depois da partida para Londres. No exílio, Caetano fez shows na Inglaterra e em outros países da Europa, lançou dois discos com canções inéditas e tornou-se correspondente de O Pasquim.

Em 1971, o cantor conseguiu um visto de um mês para voltar ao Brasil e acompanhar os festejos dos 40 anos de casamento de seus pais. Ao chegar aqui, sofreu pressão dos militares para fazer uma música de louvor à Rodovia Transamazônica. Caetano recusou-se a atender o pedido e teve de voltar para Londres, e retornou um ano depois.


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1957 - A poesia de Gabriela Mistral

Jornal do Brasil: comentário sobre Gabriel Mistral

Lucila Godoy Alcayaga foi a primeira escritora latino-americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. Descendente de espanhóis, bascos e índios, nasceu em Vicuña, uma vila do norte do Chile, em 1889. Foi poeta, professora e diplomata, e teve uma vida sofrida, cujas dificuldades ela transformou nos temas centrais dos seus poemas, carregados de amor e esperança. O pai abandonou a família quando ela tinha 3 anos, e aos 15 anos Lucila já dava aulas.
Em 1914, venceu um concurso literário com Sonetos de la muerte, assinados com o pseudônimo Gabriela Mistral, formado a partir do nome de dois poetas, o italiano Gabriele D'Annunzio e o francês Frédéric Mistral.

O suicídio do seu noivo em 1907 a marcou por toda a vida e foi abordado em seu primeiro livro de poesias, Desolación (1922). No mesmo ano foi convidada pelo Ministério da Educação do México para planejar a reforma educacional daquele país e criar bibliotecas populares. Depois de receber o Prêmio Nobel, representou o Chile como diplomata em Nápoles, Madri, Lisboa e Rio de Janeiro, e atuou em várias instituições de ensino superior na Europa e na América Latina.
Gabriela Mistral foi cônsul no Brasil no anos 40 e viveu em Petrópolis. O período foi marcado pelo suicídio de seu sobrinho, a quem chamava de filho. A morte da mãe em 1929 a inspirou a escrever o livro Tala.

Cecília Meirelles, que conheceu Gabriela no Rio, a descrevia como uma pessoa de hábitos simples, de extrema dedicação pelas crianças, que procurava realizar uma obra educativa que espelhasse suas preocupações com o futuro da humanidade.

Alguns dos seus poemas mais conhecidos são Piececitos de Niño, Balada, Todas íbamos a ser Reinas, La Oración de la Maestra, El Ángel Guardián, Decálogo del Artista e La Flor del Aire.

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1988 - O humor de Henfil

Jornal do Brasil: O cartunista Henfil


Henfil foi criador de personagens inesquecíveis de histórias em quadrinhos, como os fradinhos Baixim e Cumprido, a ave Graúna, o bode Orellana, Capitão Zeferino e Ubaldo, o paranóico. Os seus textos mordazes são documentos de uma época sombria e tinham como alvo o regime militar. "As palavras para mim não são gratuitas, não consigo usar nenhuma palavra de forma gratuita", dizia o cartunista, que foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.

O mineiro Henrique Souza Filho começou a carreira na Revista Alterosa, em Belo Horizonte, em 1964. Lá nasceram os fradinhos e o pseudônimo Henfil. O apelido foi invenção do editor Roberto Drumond, que juntou as primeiras sílabas dos nomes Henrique e Filho. Um ano depois, Henfil foi para o Diário de Minas. Em seguida, para o Jornal dos Sports, além de colaborar com as revistas Visão, Realidade, Placar e O Cruzeiro. Em 1969, estreou os fradinhos no semanário O Pasquim. Os personagens neuróticos e passionais fizeram sucesso e chamaram a atenção da censura, que impôs cortes às histórias. Em 1972, ingressou no Jornal do Brasil, onde criou Zeferino e seus amigos da caatinga, Graúna e Orellana. Com esse personagens, o cartunista intensificou a crítica à ditadura.
De 1977 a 1980, na Revista Isto É, escreveu suas Cartas da Mãe, que comentavam os assuntos mais importantes do momento. Naquela época, estavam em pauta o exílio do irmão Herbert de Souza, o Betinho, e de outros companheiros, a tortura, as greves dos trabalhadores no ABC, o surgimento de Lula como líder sindical, a campanha pela anistia, e a criação do PT.

Também foi o autor dos livros Hiroxima, meu humor, Diário de um cucaracha, Diretas Já, Henfil na China, Fradim de libertação, e Como se faz humor político. Foi co- autor da peça A Revista do Henfil, além de escrever, dirigir e atuar no filme Tanga - Deu no New York Times

Luta contra a aids

A notícia da morte de Henfil chegou durante o show que os amigos faziam em um teatro paulista para arrecadar fundos para custear o caro tratamento contra a aids A doença foi contraída em uma transfusão de sangue. Henfil era hemofílico e tinha saúde precária, assim como seus dois irmãos, Herbert de Sousa, e Francisco Mário, que também morreram de aids. Além dos irmãos, tinha mais cinco irmãs.
Henfil não se deixava abater pelas dificuldades da vida, e dizia: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores, se não houver flores, valeu a sombra das folhas, senão houver folhas, valeu a intenção da semente"

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