23 de janeiro de 1989 - A morte de Salvador Dalí

Salvador Dalí, aos 84 anos, encerrou sem um cenário daliniano sua saga surrealista - cinco dias depois de ter sido internado em consequência de uma insuficiência cardio-respiratória, em um hospital espanhol. Seu estado de saúde era crítico devido a uma pneumonia, mas se manteve lúcido até o último piscar de olhos. Com o cérebro prejudicado por uma arterioesclerose, um marcapasso no peito, alimentando-se mediante um conduto gastronasal, com parte do corpo queimado – consequência de um incêndio em seu quarto (1984) – na penúltima vez em que foi levado para o hospital pediu uma televisão: desejava saber como noticiaram a sua morte. Não foi um pedido moribundo. Dalí se considerava imortal e acreditava em uma segunda vida.
O pintor estava doente muito antes de sua morte, e o falecimento da esposa, em 1982, piorou seu quadro. Por causa disto, em 1984, já o davam como morto. “Sem Gala, eu não sou Dalí”, dizia em suas entrevistas. Durante seis anos resistiu. Não podia pintar, nem desenhar. Alimentava-se mal. Era um velho dependente da medicina.
A russa Gala, ex-mulher do poeta francês Paul Eluard, foi o grande amor de sua vida. Ele a roubou do rival na década de 1920, cobrindo-a com excremento de cabra e pulando como um selvagem. O excêntrico galanteio funcionou e Gala passou a ser sua parceira, ensinando-o a dar valor ao dinheiro, o que contribuiu para arrecardar a imensa fortuna que Dalí acumulou durante a vida.
A fome pelo dinheiro o fez criar muitos inimigos, principalmente os artistas do movimento surrealista da década de 1920. Dalí garantia que gostava de fazer as pazes com quem brigava, mas muitos de seus amigos, como o cineasta Luís Buñuel – que perdeu o emprego após ser chamado por Dalí de comunista publicamente – jamais o perdoaram pelas duras críticas e pelos comentários públicos e inconvenientes característicos do pintor.
O pintor irreverente
Salvador Dalí nasceu na Catalunha - Espanha, em 1904, e, ao morrer, era o último sobrevivente das vanguardas históricas do século XX, das quais talvez tenha sido o representante mais famoso, depois de Picasso. A fama não se deveu à qualidade da sua pintura, uma coqueluche nos Estados Unidos nos anos 40 e 50, mas foi suficiente para ele sobreviver à expulsão do grupo surrealista, à decadência artística e às críticas da Espanha franquista.
Seu trabalho mais reconhecido foi realizado nas décadas de 20 e 30: era a materialização de imagens oníricas, supostamente reflexos de uma certa realidade interior, havia pouco desvelada pela psicanálise. E aprovadas por Freud, que o declarou um grande pintor, o único dos modernos que não considerava louco. Dalí ajudou a popularizar o inconsciente, uma das noções centrais da teoria psicanalista. E nisto, Salvador Dalí pode ser considerado com certeza um homem da vanguarda.
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