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Jornal do Brasil

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FESTIVAL DO RIO 2017 – Zama de Lucrecia Martel

“Fazer cinema não é aplicar um manual de regras, mas achar as ferramentas, que podem ter diversas naturezas, para encontrar a fenda.”

Lucrécia Martel

Por Rosangela Dantas

Quanto se tem pra dizer sobre a história de alguém? Com o cinema de Lucrécia Martel tudo que há de vida pode ser contado. Zama, um romance de Antonio Di Benedetto (1956), adaptado pela própria Martel, para o cinema, enche a tela de som e sentido.

Quando conhecemos o personagem Don Diego de Zama (Daniel Gimenez Cacho) nas primeiras sequências do filme acreditamos que se trata de um filme sobre aquele homem e tudo à sua volta é pano de fundo para a sua história. Num século XVIII castigado pela degradação humana, onde o negro e o índio servem ao imperio espanhol, um americano espera. Enquanto faz isso, Zama tenta não sucumbir ao fato de ter sido esquecido.

Lucrecia não propõe uma fluidez. A diretora aprisiona a história como se todo o filme fosse a própria clausura de Zama. Apesar da espera de Don Diego, não há esperança naquele lugar. Sentimos que a narrativa não parte de uma linearidade, os acontecimentos surgem e, somente por meio dessa percepção, é que Zama se realiza para o espectador. O ator Daniel Gimenez Cacho nos leva, com seu corpo quase desistente, num perambular que vai e vem, quase sem sentido, se contrapondo à energia de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele) e à sua presença mítica em todos os sentidos.

Sem bandeiras, Martel expõe as feridas de uma colonização. Há um tempo no filme em que tudo parece aguardar algo. Nada se conclui. Há um tédio existêncial sempre à espreita. Fragmentos de um cotidiano inacabado. O círculo não se fecha. Zama espalha sua inércia. E tudo se junta à sua espera.

Para Zama nada mais importa. Como ferrugem, sua expectativa corrói sua vida. Os outros que ali habitam nada dizem a esse Don Diego que aguarda sua partida. Zama não se acha pertencente. Ainda que à míngua, ele se percebe superior àqueles que ali estão. Injusto é que ele próprio ainda esteja ali. Todo o resto está no lugar certo. Somente ele que destoa.

O filme estabelece com o espectador uma relação sensorial, realizando uma característica comum nos filmes de Lucrecia Martel. O som nos coloca em alerta, nos aproximando da cena e nos levando para dentro da história. As mulheres, as relações e a presença dos bichos interagindo com os personagens tornam os quadros de um realismo incômodo. Um silêncio para que se ouça, semelhante a “O pântano” (2001).

Lucrecia conhece as ferramentas e a história só se realiza em seus filmes, quando seu personagem é atravessado pela vida. Então nos damos conta, a história não é só sobre Zama. Ele e os outros esperam.

Onde assistir no festival do Rio

Domingo, 08/10     21:45*   CCLSR – Cine Odeon NET Claro

Segunda, 09/10   19:20*     Reserva Cultural Niterói 2

Quinta, 12/10   21:30   Estação NET Ipanema 2

Sábado, 14/10  19:15   Kinoplex São Luiz 4


* Sessão com convidado(s)

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MOSTRA – Rússia: um quarto de século através do cinema

Enterrem-me atrás do rodapé (2009), filme de Serguey Snezhkin


A Caixa Cultural RJ apresenta, a partir do dia 19/09, a Mostra Rússia um quarto de século através do cinema, com filmes produzidos de 1991 a 2017. Serão 16 produções que trazem um panorama do cinema russo nestes últimos 25 anos. As sessões vão até o dia 01/10, exibindo ficções e documentários de diversos assuntos, que refletem, principalmente, o contexto sociopolítico contemporâneo da Rússia.

Segue a programação completa e um texto sobre um dos filmes,  Leviatã (2014), que será exibido no dia 30/09 às 18h. Este texto foi publicado no JBlog em 2015, a propósito da sua estreia.

Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141min

Por Fabiana Melo Sousa

Marvin John Heemeyer, um soldador, perde uma disputa de terras e revoltado ataca com uma escavadeira a prefeitura de sua cidade e a casa do prefeito. Ele interrompe sua ação quando a máquina destruidora apresenta problemas técnicos e, ao final, Heemeyer comete suicídio.

Esta história que parece uma ficção aconteceu em 2004 no Colorado (EUA) e serviu de inspiração para o longa “Leviatã”, de Andrey Zvyagintsev, uma produção russa indicada ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro de 2015 mas ganhador de outros troféus em festivais como Cannes (Melhor Roteiro).

Em Leviatã, Heemeyer é tomado como argumento pelo diretor Zvyagintsev, que também se inspira em dois clássicos da literatura mundial para apresentar a saga do pescador Kolia (Aleksey Serebryakov), vivendo um inferno ao perder terras para a prefeitura mesmo depois de lutar em todas as instâncias legais e de ver sua vida pessoal devastada por uma série de tragédias.

Sozinho, o pobre homem luta contra o prefeito Vadim Cheeleviat (Roman Madianov) que negocia com uma grande empreiteira a construção de um Centro Comunitário no local e não mede forças para usar o seu poder, aconselhado constantemente por ninguém menos que o Bispo da Cidade. É o indivíduo contra o Estado/Igreja.

A impressionante ossada de uma baleia e os homens são os únicos animais que vemos no filme, mas rapidamente percebemos que a primeira referência é inofensiva diante daqueles que não agem pelo bem comum, mas em benefício próprio – Homo homini lúpus, diria Hobbes.

Não é uma obra que propõe grandes inovações cinematográficas, mas traz uma bela direção e o roteiro não prepara o expectador para algumas surpresas. Por mais que a máxima do filósofo nos pareça coerente, a vida do pescador se torna uma saga bíblica, assim como a de Jó, lançado a todas as provações, nos levando a refletir até que ponto é possível um homem honestamente e passivamente suportar o sofrimento, sem perder as esperanças e a fé. Aliás, homem no sentido literal, pois a representação feminina é subjugada à presença masculina nas esposas servis e prontas para suportar o sofrimento.

O filme merece ser visto por muitas razões, principalmente pela polêmica que ele gerou no país. A vida real não atravessou esta produção apenas no argumento, ela virou febre quando vazou na internet e provocou ira no governo russo.

Lançado no país no início de fevereiro (2015) com uma versão censurada por uma lei do Ministério da Cultura que proíbe palavrões em filmes que recebem recurso público, ele ainda gera conflitos quando alguns representantes do governo e da Igreja Ortodoxa o desaprovaram, acusando-o, dentre outras coisas, de cuspir no poder, arrancando fervorosas declarações, como a de Sergei Markov, membro do Partido Governista Rússia Unida: “No lugar dele (do diretor), tiraria o filme de cartaz, iria à Praça Vermelha, me ajoelharia e pediria perdão”.

Andrey Zvyagintsev afirma em entrevistas que o filme não é um panfleto político contra Putin, pois o roteiro foi escrito há seis anos e traz referências universais, no entanto, seu interesse pela obra como arte não pôde distanciar-se de seu contexto pelo impacto que teve na Rússia. Embora seja um bom filme, talvez a sua verdadeira força esteja em sua apropriação pelo público como bandeira ideológica, principalmente para criticar Putin e cia., reforçados pelas declarações tanto do governo quanto da igreja. Se tudo o que incomoda os poderosos é valioso, “Leviatã” está nesse caminho.

 

Programação:

19 de setembro (terça-feira)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

17h – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

19h15 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital,18 anos

20 de setembro (quarta-feira)

Cinema 2

17h – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

19h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

21 de setembro (quinta-feira)

Cinema 2

17h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

19h – Enterrem-me atrás do rodapé (2009), de Serguey Snezhkin. Rússia, Upscale, 110 min, 18 anos

22 de setembro (sexta-feira)

Cinema 2

17h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov, Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

Destaque para a retrospectiva da obra de Aleksey German realizada após a queda da União Soviética

23 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

Cinema 2

16h30 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

18h30 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

24 de setembro (domingo)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, 18 anos(Estreia em território nacional)

Cinema 2

15h30 – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos

17h40 – É difícil ser um deus (2013), de Aleksey German, Rússia, 177 min, Digital, 18 anos

26 de setembro (terça-feira)

Cinema 2

16h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

18h30 – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

27 de setembro (quarta-feira)

Cinema 1

17h – Palestra Rússia: um quarto de século através do cinema, com Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho

Cinema 2

15h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Relações próximas (2016), de Vitaly Mansky, Letônia/Alemanha/Estônia, Ucrânia, Digital, 18 anos

28 de setembro (quinta-feira)

Cinema 1

18h – Palestra Balabanov e o cinema da Rússia pós-soviética, com Anton Dolin

Cinema 2

16h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov. Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

19h20 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

29 de setembro (sexta-feira)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

19h – Palestra O cinema de Aleksey German, com Anton Dolin

Cinema 2

17h – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos

30 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h30 – Que tal a vida, camaradas?, de Luis Felipe Labaki, Brasil, 15 min, HD, Livre

17h – Mesa Redonda O cinema na Rússia atual: conformismo ou resistência?, com Anton Dolin e Luis Felipe Labaki

Cinema 2

15h – Sob o sol (2015), de Vitaly Mansky. Rússia/Letônia/Alemanha/Republica Tcheca/Coreia do Norte, 106 min, Digital, 18 anos

18h30 – Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141 min, 18 anos

1 de outubro (domingo)

Cinema 1

15h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

17h – Debate Novas vozes do cinema russo, com Anton Dolin

19h15 – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

14h30 – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sufocamento (2017), de Kantemir Balagov, Digital, 18 anos

 

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O Filme da Minha Vida –  um filme calculado

 

Por Rosangela Dantas

“Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” Clarice Lispector

A experiência de assistir a um filme geralmente nos coloca diante de certos sentimentos ou situações provocados por um fio de identificação, e isso não quer dizer, necessariamente, que a história precise nos ser familiar ou idêntica. Por isso, quando entramos no cinema essa experiência, provavelmente, será única.

O Filme da Minha Vida parte do princípio de que o cinema tenha uma fórmula exata para acontecer, esquecendo-se de que, em algumas salas, ele pode não se realizar ou, dependendo do que se pretende com o filme, pode também ser um grande sucesso, mesmo acontecendo apenas enquanto exercício de linguagem.

Sendo mais objetiva, minha experiência com o novo filme de Selton Melo me deixou em suspenso. Por que tamanha beleza nada me disse? Faltou identificação com a história? Não. Falava de amor, abandono, separação, cinema – ingredientes suficientes para servirem de porta aos meus sentimentos e reflexões. Ainda sabendo que, mesmo que a história não me diga respeito, um filme pode arrombar minha subjetividade e me dizer o que me faltava sentir. A experiência pode ser inaugural. E isso pode ser construído por meio da contemplação, do incômodo ou da ausência de sentido.

Assistindo O Filme da Minha Vida e lendo tantas interjeições positivas nas redes sociais e ponderadas críticas sobre a eloquente direção de Selton Melo, só me resta falar de minha experiência como espectadora, não sei se solitária, nessa empreitada de ousar dizer que o filme de Selton Melo padece de vida. Por mais espetacular que sejam todos os elementos que constituem a linguagem cinematográfica, de nada adianta se o filme não alcançar um pouco de vida. Talvez algo que esteja intrinsecamente ligado à espontaneidade, ao calor, ao cheiro, ao suor.

A justeza de alguns elementos como a belíssima fotografia, a economia milimetricamente estudada das atuações, o bom emprego dos recursos na produção, a atenta escolha dos atores e a longa e excelente lista de referências biblio… ops, cinematográficas, presentes nas citações fazem do filme o melhor filme da vida de qualquer um. Será? Talvez. Pois, para não gostar do Filme da Minha Vida é precisso renegar toda uma grámática cinematográfica que faz do cinema uma arte. É claro que essas minhas mal traçadas linhas não fazem de Selton Melo um sofista do audiovisual, mas seu filme me deixa com a sensação de uma estética radicalmente racional e isso não me deixa espaço para outro pensamento se não o de que seu filme é um mero, e no pior sentido que essa palavra possa carregar, produto.

Talvez o rei não esteja nu ou talvez este não seja o filme da minha vida.

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Poesia sem Fim


Por Rosangela Dantas

Com a habilidade de fazer um cinema atravessado pela poesia, Alejandro Jodorowsky conta a própria história, lançando mão do que de melhor pode se fazer com os elementos narrativos. Em Poesia sem Fim, o segundo  filme de um total de cinco que Jodorowsky projeta levar às telas para contar sua trajetória no mundo e na arte, tendo como pontapé inicial – A Dança da Realidade (2013), ele nos leva por uma viagem repleta de encontros poéticos e, por meio de alegorias, constrói os episódios que fazem parte de sua trajetória e o constituem como homem e artista.

Há uma liberdade no discurso que o relata, que o delata enquanto sonhador. O diretor de filmes que está mais preocupado em voar do que em andar, aproveita a oportunidade para desconstruir desavenças, mágoas, arrependimentos, assim como, para se reafirmar. Na ficção de si mesmo, Jodorowsky subverte a realidade e inventa cenas que ficaram faltando em sua vida.

Sua versatilidade artística e sua inquietação poética sucumbem ao diálogo com outras artes. Resta ao cinema ser o espaço cênico dessa narrativa, um mero e prosaico acontecimento é carnavalizado e vira um grande espetáculo, como se a vida não pudesse ser expressada de outra maneira.

Ora repleto de cores intensas, ora repleto de belos movimentos, o filme representa o trágico mais cotidiano que a existência pode manifestar. A forma de Alejandro fazer cinema é da beleza débil de um sonhador. Seus personagens, demasiado humanos, percorrem sua história perplexos com tudo que há de onírico naquele existir, onde os acontecimentos se apresentam como citações da própria arte cinematográfica.

Sem deixar de nos contar sua vida, contaminado pela história do Chile e de seus poetas, Jodorowsky ainda nos devolve Fellini, nos devolve as cores repletas de sentidos e nos resgata da melancolia, depois de nos manter nela afogados.

 

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A Vida após a Vida

Esta árvore já viveu um milênio e meio

Já viu tantas pessoas

Esta árvore não me conhece

A experiência do cinema com o assunto “vida após a morte”, ou melhor, “após esta vida que conhecemos” quase sempre está atrelada aos gêneros suspense, terror ou às histórias de cunho religioso. Na proposta do filme do estreante Zhang Haniy, A Vida após a Vida, a relação que a cultura chinesa trava com os entes queridos, que já partiram dessa vida, disponibiliza uma gama de situações fantásticas às narrativas sobre esse tema.

O filme de Haniy deixa de fora do discurso de seus personagens a palavra morte, enquanto abusa dessa simbologia na paisagem de sua história. Com a aridez do local, que parece estar em processo de remoção das pessoas que ali viviam, o diretor coloca diante de um cinza de árvores secas uma memória de vida e mostra a importância do tempo nas árvores e sua função de testemunha da existência das pessoas e bichos.

O tempo narrativo, a falta de música e os diálogos secos sem muita explicação acabam por tornar este filme uma experiência estética estranha, dependendo do espectador. No campo poético e contemplativo, a fotografia quase congelada nos espera olhar. A única saída para o exercício do sentir.

A vida após a vida nos revela uma maneira filosoficamente mais oriental de estar nesse mundo. O corpo como mero veículo de uma existência que transcende, que não enxerga na matéria um fim, que não sucumbe a uma determinada condição de corpo e que, ao mesmo tempo, se mantem ligado ao mundo pela tradição, cultivando uma memória por meio de ritos.

Uma mãe que retorna do mundo dos mortos em meio a crise do pai com o filho, e o motivo de sua volta é a mudança de uma árvore de lugar. A conclusão desse ritual é mais importante para que ela própria continue sua jornada, como se a situação do filho com o pai fosse uma história apenas deles, que eles teriam que viver e solucionar.

O filme de Zhang Haniy nos tira de uma cristalização cristã e nos resgata a condição de mistério. Nos devolve um pouco da angustia filosófica e nos permite tirar uma folga desse estado de “que seja infinito enquanto dure”.

 

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Joaquim

Por Fabiana Melo Sousa

Libertas Quæ Sera Tamen

É tentador deixar se contaminar pelo discurso de que todos nós somos completos protagonistas e donos dos nossos destinos, mesmo em se tratando de um cenário mais amplo, como as relações políticas que desencadeiam os rumos de um sujeito, de uma cidade, de uma sociedade ou até mesmo de um país.

Preciso explicar: parece que os heróis são sujeitos dotados de super-poderes e que sabem que suas próprias vidas são o quinhão a pagar para que grandes revoluções aconteçam, e nós, que aqui estamos, somos gratos pelas “escolhas” que estes “cristos” fizeram, pessoas “do bem”, “puras” e “sem contradições” que sabiam exatamente o seu destino trágico e ainda assim escolheram seguir na luta.

No belíssimo longa “Joaquim”, de Marcelo Gomes, nosso Cristo é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mas antes de “ir para a cruz” ele tem os longos cabelos “piolhados” cortados a faca pela escrava Preta (Isabél Zuaa). Ele também tem desejos: quer encontrar ouro no Sertão Proibido, quer subir de patente e faz questão de dizer que é filho de portugueses.

Nosso héroi vive com calor, toma a sopa feita e servida pela escrava, talvez a única heroína dessa história, que, em seguida, vai lhe servir sexualmente. A sua profissão de alferes é intercalada com a atividade de dentista e seu escravo particular, sim nosso herói tinha um escravo (Welket Bungué), é um belo negro trazido de algum lugar da África e que o acompanha respeitosamente, embora tenha a sua própria vida e família.

“Joaquim” que se passa num cenário semi-urbano, onde as tabernas dividem espaço com os prédios públicos e os “mendigos” são crianças indígenas, em nada lembra as fotografias de época a que estamos acostumados. Neste cenário, a linguagem cinematográfica substitui as frases de efeito escritas nos livros de histórias por diálogos muitas vezes de difícil compreensão e falados em muitas linguas. O indígena, o negro, a negra, os mestiços falam, cantam e desejam liberdade, ainda que tardia, enquanto o nosso herói corre atrás da promessa de uma vida melhor.

A grande contribuição deste longa é, no entanto, a humanização do herói, é lembrar que Tiradentes era um homem de seu tempo e que acreditava numa revolução humanista e iluminista, onde a civilização poderia dar lugar àquela mestiça e confusa sociedade que em nada avançaria, a não ser que algo de grandioso pudesse ser feito.

De todos os revolucionários, Tiradentes foi o único esquertejado e degolado. Talvez porque preferiu ler as palavras dos intelectuais e das elites mineiras ao invés dos quilombos, ou talvez porque simplesmente acreditou que poderia confiar em seus companheiros que jamais o trairiam. Nunca saberemos, mas o que ficou em nossos livros foi a pálida e triste história dos vencedores brancos e plácidos, representadas em sua cabeça e cabelos longos, iguais ao de um salvador.

O filme é imperdível, e a nossa história também, mesmo que tardia.

 

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Mulheres do Século XX

Semana passada numa rede social comemorou-se o dia dos filhos. Uma data que até então era desconhecida teve muita repercussão – “textões” de mães apaixonadas e muitas imagens ilustraram declarações de amor. Ninguém parecia padecer nesse paraíso que é a maternidade – que bom!

Muito amor materno também é possível ser visto no filme Mulheres do Século XX, filme de Mike Mills que estreou na mesma semana. Dorothea Fields (Annette Bening), uma mãe solteira, de 55 anos, nos propõe uma parceria, olhar junto com ela o crescimento de seu filho de 15 anos, Jamie, e educá-lo. Toda subjetividade do filme é o alimento da relação dos dois. A tensão e o afeto são diluídos em um mesmo copo e tragados em doses homeopáticas pelos personagens daquela casa de três mulheres e dois homens.

Final dos anos 70, a atmosfera dos movimentos culturais e o punk sutilmente batem à porta de Dorothea e, ela, ainda ressaqueada dos seus próprios movimentos, dialoga com essa mulher que vai se manifestando de dentro pra fora e encontrando em Abbie (Greta Gerwing) e Julie (Elle Fanning), sua extensão para tocar seu filho onde sua mão não alcança.

Nessa teia de sentimentos e autodescobertas, três mulheres se revezam na vocação de tornar-se mãe –  uma, sucumbe ao exercício de criar alguém; a outra, assume a condição materna que a natureza a negara e, a terceira, que ainda se despede da função de filha, embarca na viagem de se entender como mãe de um tempo. As três entendendo que educar alguém é se entender nesse mundo e tentar vivê-lo. E para esse homem de 15 anos, enquanto não desvenda esse mistério que é sua mãe, simular uma autonomia para crescer é o que lhe resta.

Sabendo que o argumento do filme é inspirado na história da relação de Mike Mills com a sua mãe, não é difícil entender o olhar apaixonado sobre Jamie e a beleza sincera capturada, apesar da tensão, entre os dois. Um filme cheio de amor e de verdades doces ou doloridas.

 

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Eu Não Sou Seu Negro

Por Fabiana Melo Sousa*

“(…) O que a gente branca tem que fazer é tratar de encontrar em seus próprios corações em primeiro lugar porque foi necessário ter um negro, porque eu não sou um negro eu sou um homem (…) Se eu não sou o negro aqui, e vocês o inventaram, vocês os brancos tem que descobrir por que. E o futuro deste pais depende disso, se você é capaz ou não de fazer essa pergunta”. James Baldwin, 1963.

Dorothy Counts,  em 1957, foi a primeira garota negra a entrar na Universidade  de Harry Harding, na Carolina do Norte (EUA). A reação violenta dos jovens brancos foi amplamente registrada e chegou em James Baldwin, o escritor negro americano que na época morava na França. Baldwin mesmo não sendo parte de nenhuma frente militante ficou chocado e se viu obrigado a voltar para seu país e contribuir para o que estava acontecendo.

O documentário “Eu não sou seu negro”, um dos indicados ao Oscar, de Raoul Peck é baseado no livro inacabado do escritor americano (“Remenber This House”) que pretendia contar a história do negro nos Estados Unidos, tendo como personagens seus amigos Medgar Evers, Malcon X e Martin Luther King, no entanto, essa narrativa é interrompida a cada assassinato de um deles, nenhum dos três chega aos 40 anos de idade.

É um filme que exige alguma entrega do expectador, primeiro porque o roteiro se afasta de uma linearidade temporal quando assume em sua montagem a quebra de ritmo necessária à constatação de que: seja na Carolina do Norte em 1957, ou em Ferguson, recentemente em 2014, a história americana vem registrando o racismo que mata centenas de pessoas no país. Segundo, porque o filme trabalha com o pensamento de Baldwin e suas reflexões que muitas vezes deslocam nossos olhares para a sua perspectiva que é ao mesmo tempo realista e profunda.

O filme possui um realismo evidente ao usar as imagens de arquivo da história da violenta segregação americana – imagens atuais e presentes todas as vezes que uma pessoa negra é assassinada – mas, ao mesmo tempo, se lança na complexidade do pensamento de James Baldwin quando analisa a produção de imagens da indústria cinematográfica.

Os clássicos do cinema não aparecem apenas como ilustração do pensamento de Baldwin, mas como um dos principais elementos de propagação do ideal americano da família branca dos comerciais de margarinas e dos westerns, onde o macho alfa branco protegia e limpava a nação dos selvagens. Baldwin encontra nestas representações importantes elementos de construção de uma identidade onde os negros de hoje eram os índios mortos por John Wayne de ontem.

A desconstrução do ideal americano na perspectiva de um artista negro era o que faltava num bom documentário em Hollywood. Baldwin viveu o autoexílio para conseguir manter-se vivo, literalmente. Diante dos assassinatos de seus companheiros chega a uma conclusão ainda difícil de ser aceita: não haverá avanço nos EUA enquanto a questão do racismo não for enfrentada. O racismo é antes de tudo um problema dos brancos.  E no caso brasileiro – qualquer semelhança com a nossa realidade não será mera coincidência.

 

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e em filosofia pela UNIRIO.

 

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Moonlight: Sob a Luz do Luar (em tempo)

Como analisar o efeito bumerangue de ser negro num mundo em que, não importa o lugar que você esteja ocupando, a cor de sua pele será sempre o que irá nortear o assunto? Não seremos todos preconceituosos, redimidos ou não, em maior ou menor escala?

Moonlight de Barry Jenkins  estará este ano, com certeza, entre os melhores filmes que iremos assistir e digo isso não porque sou vidente, ou porque quero levianamente retrucar essa onda de textos e comentários sobre o fato de que o filme levou a estatueta somente pelo fato de ser um ato politicamente correto da Academia.

Alguns dados:

Moonlight foi aprovado como produção cinematográfica pela grande crítica especializada, salvo alguns incomodados com as temáticas da história;

Moonlight já era lucro antes de ser premiado com o Oscar 2017 de melhor filme;

Moonlight teve um orçamento de US$ 1,5 milhão, o mais baixo de todos os indicados a melhor filme.

Esses dados já nos dão os argumentos necessários para mostrar que nem só de gestos politicamente corretos vive a Academia. Os aspectos que movimentam a industria do audiovisual norteamericana é um fato que precisa estar dentro de suas escolhas politicamente corretas.

Mahershala Ali – Oscar de melhor ator coadjuvante por “Moonlight” 

Agora, se me permitem, vamos falar de cinema, vamos falar de um filme comovente – Moonlight colocou na tela o quase impossível de se mostrar: as entranhas de ser e sentir-se nesse mundo. Se o fio condutor usado pela narrativa é de cunho político, tanto quanto melhor, mas o que importa aqui é como dizer no cinema sem somente se ancorar nas palavras, o que na vida não sabemos externalizar com elas. Economia de gestos e falas são mais do que um recurso estético em Moonlight, é uma necessidade contextual ao assunto abordado. Toda essa engenharia visual de tensão entre a fala e gesto guarda o exercício primoroso de olhar, de cortar, de respirar. E o cinema enquanto arte que tem a capacidade de ser reinventada se permite dizer o filme com a ajuda essencial do silêncio. Assim como na música, o tempo entre um som e outro constrói, com ajuda do que o espectador traz, a angústia do momento seguinte, da cena seguinte.

Atuar em Moonlight é ter que manter o equilíbrio que o filme necessita para uma harmonia de contenção que não prejudique a montagem e, consequentemente, o sentimento narrativo, o envolvimento com a história, seja ele danoso ou salutar. Por isso, a importância dos atores para a eficácia de Moonlight.

A beleza que Barry Jenkins consegue atingir com cenas que emprestam alguns momentos poéticos à história só é possivel por contrastar com o horror que o filme relata. Nada de evidente, o que de mais feio se apresenta no filme mora numa espécie de silêncio que atravessa Chiron por todo o filme. Mas para quem ouve soa como berros.

Não é possível passar impunemente por esse filme, mesmo que ele não seja o seu preferido na disputa em uma premiação cinematográfica. E mais impossível ainda é desclassificá-lo como cinema. Moonlight deixa de falar, prefere mostrar e só te resta sentir. E aceitar –  Moonlight é o vencedor do Oscar 2017 na categoria Melhor Filme.

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La La Land (Déjà vu dançante)

O que nos faz espectador de um de gênero musical? Acho eu que nada de diferente do que nos alimenta em qualquer outro gênero: a narrativa – a história contada ou cantada, sua abordagem e atuação ainda são os gatilhos para que haja uma comunicação, uma relação entre filme e espectador.

Na sala escura, o filme La La Land, de Damien Chazelle, atinge o público na sua mais básica necessidade, o romance. Um enredo que propõe a clássica história de amor e que flerta com o romântico ao lançar mão de uma característica muito comum a esse gênero: a qualidade do impossível no desenlace do casal. Nos primeiros momentos do filme aponta-se para um desfecho que supera as dificuldades e para a ideia de que os protagonistas viverão felizes para sempre. Muito açúcar e pouca energia.

Mas nem só de amor vivem o homem e a mulher, quando o sonho de Sebastian (Ryan Goslig) e Mia (Emma Stone) sucumbe à relação dos dois, alguém parece começar a asfixiar. E a trama ganha um elemento dramático mais potente, um rival a toda aquela promessa de felicidade. Depende de como se quer ser feliz!

Ao trazer para esse tipo de filme o clássico modelo narrativo, a produção não corre riscos com os desavisados que não apreciam o gênero. No mesmo sentido quando se mantém na zona de conforto enquanto musical e aposta nas referências, assumidas como homenagens. La La Land, com muita competência e pouca inovação, foge dos estereotipados musicais quando não se rende a apenas um amontoado de sequencias de videoclipes.

Ao trazer a música de Justin Hurwitz como norteadora da historia de Sebastin e Mia as personagens ganham um vínculo com o público, tanto como casal, como enquanto individuos. E o sonho, seja ele a música de Sebastian ou a atuação de Mia, vira o protagonista da história. E mesmo quando eles (Sebatian e Mia) não respeitam a lógica narrativa romântica, a música é a memória de que o sonho está vivo.

O filme de Damien põe movimento para além das canções e números de dança, mas é sua competência como musical que o coloca como o grande favorito das grandes premiações – como no Oscar 2017, onde foi indicado em 14 categorias. Assim funciona a industria cinematográfica, faturou, recebe indicação, não importa se for musical western ou terror. Raramente haverá uma saudável contradição quando nem sempre o preferido do espectador será o preferido da Academia, mesmo que o espectador seja  essencial para industria.

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