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O Filme da Minha Vida –  um filme calculado

 

Por Rosangela Dantas

“Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” Clarice Lispector

A experiência de assistir a um filme geralmente nos coloca diante de certos sentimentos ou situações provocados por um fio de identificação, e isso não quer dizer, necessariamente, que a história precise nos ser familiar ou idêntica. Por isso, quando entramos no cinema essa experiência, provavelmente, será única.

O Filme da Minha Vida parte do princípio de que o cinema tenha uma fórmula exata para acontecer, esquecendo-se de que, em algumas salas, ele pode não se realizar ou, dependendo do que se pretende com o filme, pode também ser um grande sucesso, mesmo acontecendo apenas enquanto exercício de linguagem.

Sendo mais objetiva, minha experiência com o novo filme de Selton Melo me deixou em suspenso. Por que tamanha beleza nada me disse? Faltou identificação com a história? Não. Falava de amor, abandono, separação, cinema – ingredientes suficientes para servirem de porta aos meus sentimentos e reflexões. Ainda sabendo que, mesmo que a história não me diga respeito, um filme pode arrombar minha subjetividade e me dizer o que me faltava sentir. A experiência pode ser inaugural. E isso pode ser construído por meio da contemplação, do incômodo ou da ausência de sentido.

Assistindo O Filme da Minha Vida e lendo tantas interjeições positivas nas redes sociais e ponderadas críticas sobre a eloquente direção de Selton Melo, só me resta falar de minha experiência como espectadora, não sei se solitária, nessa empreitada de ousar dizer que o filme de Selton Melo padece de vida. Por mais espetacular que sejam todos os elementos que constituem a linguagem cinematográfica, de nada adianta se o filme não alcançar um pouco de vida. Talvez algo que esteja intrinsecamente ligado à espontaneidade, ao calor, ao cheiro, ao suor.

A justeza de alguns elementos como a belíssima fotografia, a economia milimetricamente estudada das atuações, o bom emprego dos recursos na produção, a atenta escolha dos atores e a longa e excelente lista de referências biblio… ops, cinematográficas, presentes nas citações fazem do filme o melhor filme da vida de qualquer um. Será? Talvez. Pois, para não gostar do Filme da Minha Vida é precisso renegar toda uma grámática cinematográfica que faz do cinema uma arte. É claro que essas minhas mal traçadas linhas não fazem de Selton Melo um sofista do audiovisual, mas seu filme me deixa com a sensação de uma estética radicalmente racional e isso não me deixa espaço para outro pensamento se não o de que seu filme é um mero, e no pior sentido que essa palavra possa carregar, produto.

Talvez o rei não esteja nu ou talvez este não seja o filme da minha vida.

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Poesia sem Fim


Por Rosangela Dantas

Com a habilidade de fazer um cinema atravessado pela poesia, Alejandro Jodorowsky conta a própria história, lançando mão do que de melhor pode se fazer com os elementos narrativos. Em Poesia sem Fim, o segundo  filme de um total de cinco que Jodorowsky projeta levar às telas para contar sua trajetória no mundo e na arte, tendo como pontapé inicial – A Dança da Realidade (2013), ele nos leva por uma viagem repleta de encontros poéticos e, por meio de alegorias, constrói os episódios que fazem parte de sua trajetória e o constituem como homem e artista.

Há uma liberdade no discurso que o relata, que o delata enquanto sonhador. O diretor de filmes que está mais preocupado em voar do que em andar, aproveita a oportunidade para desconstruir desavenças, mágoas, arrependimentos, assim como, para se reafirmar. Na ficção de si mesmo, Jodorowsky subverte a realidade e inventa cenas que ficaram faltando em sua vida.

Sua versatilidade artística e sua inquietação poética sucumbem ao diálogo com outras artes. Resta ao cinema ser o espaço cênico dessa narrativa, um mero e prosaico acontecimento é carnavalizado e vira um grande espetáculo, como se a vida não pudesse ser expressada de outra maneira.

Ora repleto de cores intensas, ora repleto de belos movimentos, o filme representa o trágico mais cotidiano que a existência pode manifestar. A forma de Alejandro fazer cinema é da beleza débil de um sonhador. Seus personagens, demasiado humanos, percorrem sua história perplexos com tudo que há de onírico naquele existir, onde os acontecimentos se apresentam como citações da própria arte cinematográfica.

Sem deixar de nos contar sua vida, contaminado pela história do Chile e de seus poetas, Jodorowsky ainda nos devolve Fellini, nos devolve as cores repletas de sentidos e nos resgata da melancolia, depois de nos manter nela afogados.

 

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A Vida após a Vida

Esta árvore já viveu um milênio e meio

Já viu tantas pessoas

Esta árvore não me conhece

A experiência do cinema com o assunto “vida após a morte”, ou melhor, “após esta vida que conhecemos” quase sempre está atrelada aos gêneros suspense, terror ou às histórias de cunho religioso. Na proposta do filme do estreante Zhang Haniy, A Vida após a Vida, a relação que a cultura chinesa trava com os entes queridos, que já partiram dessa vida, disponibiliza uma gama de situações fantásticas às narrativas sobre esse tema.

O filme de Haniy deixa de fora do discurso de seus personagens a palavra morte, enquanto abusa dessa simbologia na paisagem de sua história. Com a aridez do local, que parece estar em processo de remoção das pessoas que ali viviam, o diretor coloca diante de um cinza de árvores secas uma memória de vida e mostra a importância do tempo nas árvores e sua função de testemunha da existência das pessoas e bichos.

O tempo narrativo, a falta de música e os diálogos secos sem muita explicação acabam por tornar este filme uma experiência estética estranha, dependendo do espectador. No campo poético e contemplativo, a fotografia quase congelada nos espera olhar. A única saída para o exercício do sentir.

A vida após a vida nos revela uma maneira filosoficamente mais oriental de estar nesse mundo. O corpo como mero veículo de uma existência que transcende, que não enxerga na matéria um fim, que não sucumbe a uma determinada condição de corpo e que, ao mesmo tempo, se mantem ligado ao mundo pela tradição, cultivando uma memória por meio de ritos.

Uma mãe que retorna do mundo dos mortos em meio a crise do pai com o filho, e o motivo de sua volta é a mudança de uma árvore de lugar. A conclusão desse ritual é mais importante para que ela própria continue sua jornada, como se a situação do filho com o pai fosse uma história apenas deles, que eles teriam que viver e solucionar.

O filme de Zhang Haniy nos tira de uma cristalização cristã e nos resgata a condição de mistério. Nos devolve um pouco da angustia filosófica e nos permite tirar uma folga desse estado de “que seja infinito enquanto dure”.

 

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Joaquim

Por Fabiana Melo Sousa

Libertas Quæ Sera Tamen

É tentador deixar se contaminar pelo discurso de que todos nós somos completos protagonistas e donos dos nossos destinos, mesmo em se tratando de um cenário mais amplo, como as relações políticas que desencadeiam os rumos de um sujeito, de uma cidade, de uma sociedade ou até mesmo de um país.

Preciso explicar: parece que os heróis são sujeitos dotados de super-poderes e que sabem que suas próprias vidas são o quinhão a pagar para que grandes revoluções aconteçam, e nós, que aqui estamos, somos gratos pelas “escolhas” que estes “cristos” fizeram, pessoas “do bem”, “puras” e “sem contradições” que sabiam exatamente o seu destino trágico e ainda assim escolheram seguir na luta.

No belíssimo longa “Joaquim”, de Marcelo Gomes, nosso Cristo é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mas antes de “ir para a cruz” ele tem os longos cabelos “piolhados” cortados a faca pela escrava Preta (Isabél Zuaa). Ele também tem desejos: quer encontrar ouro no Sertão Proibido, quer subir de patente e faz questão de dizer que é filho de portugueses.

Nosso héroi vive com calor, toma a sopa feita e servida pela escrava, talvez a única heroína dessa história, que, em seguida, vai lhe servir sexualmente. A sua profissão de alferes é intercalada com a atividade de dentista e seu escravo particular, sim nosso herói tinha um escravo (Welket Bungué), é um belo negro trazido de algum lugar da África e que o acompanha respeitosamente, embora tenha a sua própria vida e família.

“Joaquim” que se passa num cenário semi-urbano, onde as tabernas dividem espaço com os prédios públicos e os “mendigos” são crianças indígenas, em nada lembra as fotografias de época a que estamos acostumados. Neste cenário, a linguagem cinematográfica substitui as frases de efeito escritas nos livros de histórias por diálogos muitas vezes de difícil compreensão e falados em muitas linguas. O indígena, o negro, a negra, os mestiços falam, cantam e desejam liberdade, ainda que tardia, enquanto o nosso herói corre atrás da promessa de uma vida melhor.

A grande contribuição deste longa é, no entanto, a humanização do herói, é lembrar que Tiradentes era um homem de seu tempo e que acreditava numa revolução humanista e iluminista, onde a civilização poderia dar lugar àquela mestiça e confusa sociedade que em nada avançaria, a não ser que algo de grandioso pudesse ser feito.

De todos os revolucionários, Tiradentes foi o único esquertejado e degolado. Talvez porque preferiu ler as palavras dos intelectuais e das elites mineiras ao invés dos quilombos, ou talvez porque simplesmente acreditou que poderia confiar em seus companheiros que jamais o trairiam. Nunca saberemos, mas o que ficou em nossos livros foi a pálida e triste história dos vencedores brancos e plácidos, representadas em sua cabeça e cabelos longos, iguais ao de um salvador.

O filme é imperdível, e a nossa história também, mesmo que tardia.

 

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Mulheres do Século XX

Semana passada numa rede social comemorou-se o dia dos filhos. Uma data que até então era desconhecida teve muita repercussão – “textões” de mães apaixonadas e muitas imagens ilustraram declarações de amor. Ninguém parecia padecer nesse paraíso que é a maternidade – que bom!

Muito amor materno também é possível ser visto no filme Mulheres do Século XX, filme de Mike Mills que estreou na mesma semana. Dorothea Fields (Annette Bening), uma mãe solteira, de 55 anos, nos propõe uma parceria, olhar junto com ela o crescimento de seu filho de 15 anos, Jamie, e educá-lo. Toda subjetividade do filme é o alimento da relação dos dois. A tensão e o afeto são diluídos em um mesmo copo e tragados em doses homeopáticas pelos personagens daquela casa de três mulheres e dois homens.

Final dos anos 70, a atmosfera dos movimentos culturais e o punk sutilmente batem à porta de Dorothea e, ela, ainda ressaqueada dos seus próprios movimentos, dialoga com essa mulher que vai se manifestando de dentro pra fora e encontrando em Abbie (Greta Gerwing) e Julie (Elle Fanning), sua extensão para tocar seu filho onde sua mão não alcança.

Nessa teia de sentimentos e autodescobertas, três mulheres se revezam na vocação de tornar-se mãe –  uma, sucumbe ao exercício de criar alguém; a outra, assume a condição materna que a natureza a negara e, a terceira, que ainda se despede da função de filha, embarca na viagem de se entender como mãe de um tempo. As três entendendo que educar alguém é se entender nesse mundo e tentar vivê-lo. E para esse homem de 15 anos, enquanto não desvenda esse mistério que é sua mãe, simular uma autonomia para crescer é o que lhe resta.

Sabendo que o argumento do filme é inspirado na história da relação de Mike Mills com a sua mãe, não é difícil entender o olhar apaixonado sobre Jamie e a beleza sincera capturada, apesar da tensão, entre os dois. Um filme cheio de amor e de verdades doces ou doloridas.

 

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Eu Não Sou Seu Negro

Por Fabiana Melo Sousa*

“(…) O que a gente branca tem que fazer é tratar de encontrar em seus próprios corações em primeiro lugar porque foi necessário ter um negro, porque eu não sou um negro eu sou um homem (…) Se eu não sou o negro aqui, e vocês o inventaram, vocês os brancos tem que descobrir por que. E o futuro deste pais depende disso, se você é capaz ou não de fazer essa pergunta”. James Baldwin, 1963.

Dorothy Counts,  em 1957, foi a primeira garota negra a entrar na Universidade  de Harry Harding, na Carolina do Norte (EUA). A reação violenta dos jovens brancos foi amplamente registrada e chegou em James Baldwin, o escritor negro americano que na época morava na França. Baldwin mesmo não sendo parte de nenhuma frente militante ficou chocado e se viu obrigado a voltar para seu país e contribuir para o que estava acontecendo.

O documentário “Eu não sou seu negro”, um dos indicados ao Oscar, de Raoul Peck é baseado no livro inacabado do escritor americano (“Remenber This House”) que pretendia contar a história do negro nos Estados Unidos, tendo como personagens seus amigos Medgar Evers, Malcon X e Martin Luther King, no entanto, essa narrativa é interrompida a cada assassinato de um deles, nenhum dos três chega aos 40 anos de idade.

É um filme que exige alguma entrega do expectador, primeiro porque o roteiro se afasta de uma linearidade temporal quando assume em sua montagem a quebra de ritmo necessária à constatação de que: seja na Carolina do Norte em 1957, ou em Ferguson, recentemente em 2014, a história americana vem registrando o racismo que mata centenas de pessoas no país. Segundo, porque o filme trabalha com o pensamento de Baldwin e suas reflexões que muitas vezes deslocam nossos olhares para a sua perspectiva que é ao mesmo tempo realista e profunda.

O filme possui um realismo evidente ao usar as imagens de arquivo da história da violenta segregação americana – imagens atuais e presentes todas as vezes que uma pessoa negra é assassinada – mas, ao mesmo tempo, se lança na complexidade do pensamento de James Baldwin quando analisa a produção de imagens da indústria cinematográfica.

Os clássicos do cinema não aparecem apenas como ilustração do pensamento de Baldwin, mas como um dos principais elementos de propagação do ideal americano da família branca dos comerciais de margarinas e dos westerns, onde o macho alfa branco protegia e limpava a nação dos selvagens. Baldwin encontra nestas representações importantes elementos de construção de uma identidade onde os negros de hoje eram os índios mortos por John Wayne de ontem.

A desconstrução do ideal americano na perspectiva de um artista negro era o que faltava num bom documentário em Hollywood. Baldwin viveu o autoexílio para conseguir manter-se vivo, literalmente. Diante dos assassinatos de seus companheiros chega a uma conclusão ainda difícil de ser aceita: não haverá avanço nos EUA enquanto a questão do racismo não for enfrentada. O racismo é antes de tudo um problema dos brancos.  E no caso brasileiro – qualquer semelhança com a nossa realidade não será mera coincidência.

 

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e em filosofia pela UNIRIO.

 

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Moonlight: Sob a Luz do Luar (em tempo)

Como analisar o efeito bumerangue de ser negro num mundo em que, não importa o lugar que você esteja ocupando, a cor de sua pele será sempre o que irá nortear o assunto? Não seremos todos preconceituosos, redimidos ou não, em maior ou menor escala?

Moonlight de Barry Jenkins  estará este ano, com certeza, entre os melhores filmes que iremos assistir e digo isso não porque sou vidente, ou porque quero levianamente retrucar essa onda de textos e comentários sobre o fato de que o filme levou a estatueta somente pelo fato de ser um ato politicamente correto da Academia.

Alguns dados:

Moonlight foi aprovado como produção cinematográfica pela grande crítica especializada, salvo alguns incomodados com as temáticas da história;

Moonlight já era lucro antes de ser premiado com o Oscar 2017 de melhor filme;

Moonlight teve um orçamento de US$ 1,5 milhão, o mais baixo de todos os indicados a melhor filme.

Esses dados já nos dão os argumentos necessários para mostrar que nem só de gestos politicamente corretos vive a Academia. Os aspectos que movimentam a industria do audiovisual norteamericana é um fato que precisa estar dentro de suas escolhas politicamente corretas.

Mahershala Ali – Oscar de melhor ator coadjuvante por “Moonlight” 

Agora, se me permitem, vamos falar de cinema, vamos falar de um filme comovente – Moonlight colocou na tela o quase impossível de se mostrar: as entranhas de ser e sentir-se nesse mundo. Se o fio condutor usado pela narrativa é de cunho político, tanto quanto melhor, mas o que importa aqui é como dizer no cinema sem somente se ancorar nas palavras, o que na vida não sabemos externalizar com elas. Economia de gestos e falas são mais do que um recurso estético em Moonlight, é uma necessidade contextual ao assunto abordado. Toda essa engenharia visual de tensão entre a fala e gesto guarda o exercício primoroso de olhar, de cortar, de respirar. E o cinema enquanto arte que tem a capacidade de ser reinventada se permite dizer o filme com a ajuda essencial do silêncio. Assim como na música, o tempo entre um som e outro constrói, com ajuda do que o espectador traz, a angústia do momento seguinte, da cena seguinte.

Atuar em Moonlight é ter que manter o equilíbrio que o filme necessita para uma harmonia de contenção que não prejudique a montagem e, consequentemente, o sentimento narrativo, o envolvimento com a história, seja ele danoso ou salutar. Por isso, a importância dos atores para a eficácia de Moonlight.

A beleza que Barry Jenkins consegue atingir com cenas que emprestam alguns momentos poéticos à história só é possivel por contrastar com o horror que o filme relata. Nada de evidente, o que de mais feio se apresenta no filme mora numa espécie de silêncio que atravessa Chiron por todo o filme. Mas para quem ouve soa como berros.

Não é possível passar impunemente por esse filme, mesmo que ele não seja o seu preferido na disputa em uma premiação cinematográfica. E mais impossível ainda é desclassificá-lo como cinema. Moonlight deixa de falar, prefere mostrar e só te resta sentir. E aceitar –  Moonlight é o vencedor do Oscar 2017 na categoria Melhor Filme.

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La La Land (Déjà vu dançante)

O que nos faz espectador de um de gênero musical? Acho eu que nada de diferente do que nos alimenta em qualquer outro gênero: a narrativa – a história contada ou cantada, sua abordagem e atuação ainda são os gatilhos para que haja uma comunicação, uma relação entre filme e espectador.

Na sala escura, o filme La La Land, de Damien Chazelle, atinge o público na sua mais básica necessidade, o romance. Um enredo que propõe a clássica história de amor e que flerta com o romântico ao lançar mão de uma característica muito comum a esse gênero: a qualidade do impossível no desenlace do casal. Nos primeiros momentos do filme aponta-se para um desfecho que supera as dificuldades e para a ideia de que os protagonistas viverão felizes para sempre. Muito açúcar e pouca energia.

Mas nem só de amor vivem o homem e a mulher, quando o sonho de Sebastian (Ryan Goslig) e Mia (Emma Stone) sucumbe à relação dos dois, alguém parece começar a asfixiar. E a trama ganha um elemento dramático mais potente, um rival a toda aquela promessa de felicidade. Depende de como se quer ser feliz!

Ao trazer para esse tipo de filme o clássico modelo narrativo, a produção não corre riscos com os desavisados que não apreciam o gênero. No mesmo sentido quando se mantém na zona de conforto enquanto musical e aposta nas referências, assumidas como homenagens. La La Land, com muita competência e pouca inovação, foge dos estereotipados musicais quando não se rende a apenas um amontoado de sequencias de videoclipes.

Ao trazer a música de Justin Hurwitz como norteadora da historia de Sebastin e Mia as personagens ganham um vínculo com o público, tanto como casal, como enquanto individuos. E o sonho, seja ele a música de Sebastian ou a atuação de Mia, vira o protagonista da história. E mesmo quando eles (Sebatian e Mia) não respeitam a lógica narrativa romântica, a música é a memória de que o sonho está vivo.

O filme de Damien põe movimento para além das canções e números de dança, mas é sua competência como musical que o coloca como o grande favorito das grandes premiações – como no Oscar 2017, onde foi indicado em 14 categorias. Assim funciona a industria cinematográfica, faturou, recebe indicação, não importa se for musical western ou terror. Raramente haverá uma saudável contradição quando nem sempre o preferido do espectador será o preferido da Academia, mesmo que o espectador seja  essencial para industria.

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Eu, Daniel Blake

Apesar deste espaço estar iniciando seus trabalhos do ano somente hoje, eu não poderia abrir os posts do Leia Cinema 2017 com outro filme se não o fabuloso “Eu, Daniel Blake”. Mesmo sendo uma produção lançada no final de 2016. Um Cinema econômico e certeiro, combinando o comum de um assunto tão urgente com um discurso sofisticado e direto.

Ken Loach não dá chance para divagações. Sua narrativa exata quer dizer simplesmente o que é o sistema de auxílios dos britânicos e deixar as voltas para os burocratas que administram o tempo de vida dos cidadãos que, entre teclados, papeis, números e carimbos, seguem numa espera que dura o tempo de suas sobrevidas.

Daniel Blake (Dave Johns) perambula pela história como se fosse um intruso em sua própria existência. Sua peregrinação é para sair de um entre – a utilidade e a inutilidade – de um lado sua médica, que não lhe dá alta para voltar ao trabalho após um enfarte e, de outro, o sistema de auxílio que o pericia, dizendo que está liberado para trabalhar. Sem poder trabalhar e sem poder receber o auxílio, Blake segue tentando ser ouvido.

O filme tem um diálogo universal e atinge o espectador no que lhe é cotidiano, o tratamento recebido nas instituições “públicas”. Apesar do sistema em questão ser o inglês, essa estrutura onde o cidadão é apenas mais um – reduzido a um número – é a prática da desumanização mais comum no mundo. O filme clama por um poco mais de empatia.

E a universalidade da história se realiza quando os afetos se concretizam. Daniel resiste e, inconformado, luta por uma solução. Sua energia norteia o ritmo do filme. A tensão que acompanha essa espera é intercalada pelo que resta de humanidade no mundo. Nas relações com as pessoas, Blake resgata um pouco de sua utilidade e, no convívio com seus pares surgem os momentos de respiro da historia.

O roteiro de Ken Loach e Paul Laverty não alimenta nenhuma metáfora, não quer florear nada, a intenção é “que não se esmaguem as entrelinhas”,  a subjetividade dos personagens tem o tempo necessário para fazer desse filme uma experiência dura e lírica.

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Mostra Imagens e Complexos – Lançamento do Catálogo com os filmes exibidos e o processo da Mostra de filmes de favela que aconteceu em outubro no Cine Manguinhos

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Hoje, finalmente, acontece o lançamento do catálogo da Mostra de filmes Imagens e Complexos. Uma publicação que se permitiu sair pós Mostra por se tratar de um registro mais abrangente sobre o projeto. O Catálogo traz um resumo do que seja o Imagens e Complexos, o que ele representa para produção audiovisual das favelas, a catalogação dos filmes inscritos e exibidos na Mostra, o resultado e fragmentos de uma pesquisa (ainda introdutória) com alguns dos grupos que produzem cinema nas favelas do Rio, além das resenhas produzidas pela curadoria da mostra sobre cinco filmes, que foram destaques no evento – “A Fonte”  (2015), Beco dos Pancados (2015), Do luto para luta (2016), Olhares da Misericórdia – Serra que atravessa gerações (2015) e Visita (2015).

Segue a baixo o texto sobre o filme Visita, que juntamente com os outros constam no catálogo e que serão exibidos hoje num no evento de lançamento no Complexo do Alemão, no espaço do Raízes em Movimento, parceiro do Imagens e Complexos.

Visita  (2016)  Direção: André Sandino Costa

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O que é isso?

Por Rosangela Dantas

(…) Ele sabia tudo da vida da gente, mas a gente não sabia que ele era o Coutinho. Não sabia que ele era um documentarista, até famoso, uma celebridade na verdade, nesse meio… Ele chegou e ficou de uma maneira tão suave, que a gente nem se preocupou e saber quem ele era (…) (Vera – Santo Forte/Visita, 2015/16)

No caminho da memória de um menino o fio condutor é o cinema. Uma visita ao passado, trilhando a favela Parque da Cidade – a câmera ora num tripé, propondo uma fotografia estática, deixando o movimento por conta da vida na favela, ora caminhando, como quem seguia um rastro de uma história já contada, mas cheia de entrelinhas.

A diversidade religiosa que antes era personagem principal nas indagações de Santo Forte, de Eduardo Coutinho, agora é pano de fundo no percorrer dessa Visita, de André Sandino Costa. Um filme que aposta numa verve afetiva deixada por Coutinho, quase como herança aos seus personagens.

Visita sobe o morro em busca de alguém que, lentamente, será desvelado pelas lembranças do narrador. Suas descrições do local vão, aos poucos, reconstruindo, refazendo o caminho e as casas que seu imaginário preservou. A voz em off aponta a trajetória de um lugar que, apesar das modificações, guarda em si pessoas, que também modificadas, têm em comum, mais do que um filme com Eduardo Coutinho, um encontro.

E será por meio dos relatos, relembrando o sentido de suas espiritualidades, que eles vão desencavando o velho cineasta das palavras – um homem comum que chegou envolto à fumaça de seu onipresente cigarro, com fome de ouvir. A memória dos personagens nos presenteia com um making off de uma produção do documentarista Coutinho. O papo amistoso, a relação de respeito, o cafezinho requentado. Pessoas que deram suas histórias para o diretor e nem assistiram ao filme.    

O filme Visita discursa em primeira pessoa, resgatando um desejo de fazer cinema, indo ao encontro de seu mestre, quase vinte anos depois. A figura meio mítica é desenhada por seu narrador e desmistificada por seus personagens, quase como num jogo de cena, onde a verdade e a mentira, mais uma vez, são ressuscitadas pelo cineasta.

Cada vez mais presente no decorrer do filme, nas palavras de seus personagens, nos becos e histórias suscitadas, Visita vai dando forma a um documentário dramático e, num recorte biográfico, propõe uma materialização, que tem o seu clímax com o diálogo saudoso e, sabiamente, conformado, com D. Thereza – como se Coutinho estivesse ao seu lado, D. Thereza materializa o amigo com suas palavras.

O filme Visita, por meio da memória, pede aos contadores do documentarista Eduardo Coutinho que o ajudem a construir um retrato daquele homem, numa entrevista que em nenhum momento tenta copiar o cineasta e que não espera mais um relato das próprias experiências dos personagens, mas ainda assim, confirma um dos grandes ensinamentos de Coutinho: “(…) O duro é conseguir uma igualdade, que é utópica e temporária, mas que é possível. Na medida em que você não finge que é pobre, índio ou nordestino para ter aceitação. A diferença é algo que ativa a conversa. (…)”

Isso é cinema.

 

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