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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

SESSÃO VITRINE PETROBRAS ANUNCIA OS PRÓXIMOS LANÇAMENTOS E NOVIDADES

Por Rosangela Dantas

Ir ao cinema hoje, mais do que nunca, é uma ousadia econômica. Sobretudo para quem não tem o privilégio de encaixar em seu orçamento mensal gastos com programas culturais. O acesso à cultura e ao entretenimento andam bem restritos, em função disso, toda e qualquer iniciativa que leve ao cinema, teatro, show, quem normalmente não iria por conta do alto custo, faz um grande bem à saúde mental de muita gente.

Em sua trajetória, a Vitrine Filmes vem lançando produções cinematográficas e artistas de grande relevância para o contexto do audiovisual contemporâneo Além disso, contribui, juntamente com a Petrobras, com a formação de plateia, a divulgação do cinema nacional e o aprimoramento crítico/narrativo dos espectadores, por meio do projeto Sessão Vitrine Petrobras.

O projeto é parceiro de cinemas em 24 cidades, tem programação contínua, realizando pré-estreias com a presença da equipe dos filmes e debates. O preço praticado nas salas não ultrapassa o valor de R$ 12,00 (inteira). Cuiabá, Manaus, São Bernardo do Campo e Vitória entram no circuito parceiro do projeto, que também está presente nas cidades de Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Niterói, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Luis, São Paulo e Teresina. Além disso, o espectador pode ter acesso liberado às sessões através do “Cartão Fidelidade Sessão Vitrine Petrobras”, que pode ser comprado no site do projeto (sessaovitrine/cartaofidelidade).

Filmes com carreira em festivais e esperados pelo público serão lançados ao longo de 2018. São eles: “SEVERINA”, de Felipe Hirsch, “TODOS OS PAULOS DO MUNDO”, de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira, “BARONESA”, de Juliana Antunes, “ERA UMA VEZ BRASÍLIA”, de Adirley Queirós, “CAMOCIM”, de Quentin Delaroche, “UNICÓRNIO”, de Eduardo Nunes, e “TINTA BRUTA”, de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, entre outros.

“SEVERINA”, de Felipe Hirsch

Brasil / Uruguai, 103 minutos, Ficção

A vida de um livreiro, melancólico e aspirante a escritor, é abalada pelas aparições e desaparições de sua nova musa que rouba na sua livraria. Logo, ele descobre que ela rouba nas livrarias de outros livreiros também. Então, ele começa a viver um delírio amoroso, na fronteira entre a ficção e a realidade. No entanto, quanto mais se aproxima dela, mais indescritível ela se torna: Por que ela rouba e quais são seus valores? Quem é o homem mais velho com quem ela mora? O que é verdadeiro ou apócrifo nessa história? E, além disso, ele enfim conseguirá ocupar um lugar na vida dela, ao mesmo tempo em que se afasta de sua própria vida?

“TODOS OS PAULOS DO MUNDO”, de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira

RJ, 88 minutos, Documentário

A criação da Babel despeja pelo mundo homens que falam línguas diferentes: todos os rostos, corpos e vozes de Paulo José, encarnados nos personagens que o ator interpretou em sua carreira no teatro, na televisão e no cinema. TODOS OS PAULOS DO MUNDO é um ensaio cinematográfico sobre Paulo José, um dos maiores artistas do Brasil, no ano em que completa 80 anos de vida.

“BARONESA”, de Juliana Antunes

MG, 73 minutos, Híbrido

Uma guerra entre traficantes na Vila Mariquinhas, na Zona Norte de Belo Horizonte, faz com que Andreia queira sair da comunidade onde mora e que ajudou a construir. Dirigido por uma mulher, esse filme é um documentário sobre o cotidiano, o passado, os anseios e como os entes queridos de outra mulher, sem as tintas da delicadeza, do sentimental e toda a moldura edulcorada da tal e tradicional feminilidade.

“ERA UMA VEZ BRASÍLIA”, de Adirley Queirós

DF, 100 minutos, híbrido

Em 1959, o agente intergaláctico WA4 é preso por fazer um loteamento ilegal e é lançado no espaço. Recebe uma missão: vir para a Terra e matar o presidente da República, Juscelino Kubitschek, no dia da inauguração de Brasília. Sua nave perde-se no tempo e aterrissa em 2016 em Ceilândia. Essa é a versão contada por Marquim do Tropa, ator e abduzido. Só Andreia, a rainha do pós-guerra, poderá ajudá-los a montar o exército para matar os monstros que habitam hoje o Congresso Nacional. Este é um documentário gravado no ano 0 P.G. (Pós Golpe), no Distrito Federal e região.

“CAMOCIM”, de Quentin Delaroche

PE, 76 minutos, Documentário

A cada quatro anos, o cotidiano calmo e tranquilo de Camocim de São Félix, pequena cidade de Pernambuco, é chacoalhado. Durante a campanha municipal, a cidade se divide em duas e todas as vidas parecem orbitar em torno da política. No meio deste mercado eleitoral, Mayara, 23 anos, tenta fazer uma campanha “limpa” para eleger seu candidato e amigo César.

“UNICÓRNIO”, de Eduardo Nunes.

RJ, 124 minutos, Ficção

Maria, uma menina, está sentada num banco ao lado de seu pai. A conversa que eles têm ali conduz a narrativa do filme: acompanhamos a história na rústica casa de campo, onde ela mora com a mãe e onde as duas aguardam a volta deste mesmo pai. A relação entre Maria e a sua mãe muda com a chegada de um outro homem.

“TINTA BRUTA”, de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher

RS, 120 minutos, Ficção

Enquanto responde a um processo criminal, Pedro é forçado a lida com a mudança da irmã para o outro lado do país. Sozinho no escuro do seu quarto, ele dança coberto de tinta neon, enquanto milhares de estranhos o assistem pela webcam.

 

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Arábia

 

Por Rosangela Dantas

Quando um filme nos enche de um vazio e da certeza de que a arte, muitas vezes, “serve” para nos representar e nos reapresentar o que o tempo em nós não dá conta de nos fazer perceber.

Arábia, o filme dirigido  e roteirizado por João Dumans e Affonso Uchoa,  quase todo em off, nos leva para um lugar interno onde a oralidade nos transmite, por meio das narrativas mais diversas, a aventura da vida.

A história em questão relata as desventuras de um pacato cidadão, Cristiano (Aristides Sousa) que, numa crônica da sua vida de trabalhador,  narra o cotidiano de um homem que sucumbe a um automatismo sem graxa, rangendo, mas funcionando enquanto engrenagem de uma máquina obediente.

O filme guarda a beleza do mistério do individuo, dos sonhos e das ilusões numa espécie de entrelinha, sem licença pra estar ali. A voz que nos guia durante a projeção nos autoriza a adivinhar seus anseios, sua fúria parada, sua resistência e insistência num tipo de paradoxo da sobrevivência.

O estar no mundo desse “cidadão” é perambular por uma vida sem privilégios, numa contemplação melancólica do horizonte, que ora é o outro, ora é ele próprio. Um personagem cujo maior ato de heroísmo é nos devolver a humanidade.  

E quase como um eu lírico do labor, Cristiano relata em seu diário, um cotidiano lento e violento, de um trabalhador e de suas possíveis utilidades, até que essa máquina homem pifa.

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Torquato Neto – Todas as horas do fim


Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Murilo Mendes

O retrato de um artista prestes a morrer. Suas imagens quase sempre performáticas, retiradas de suas participações na relação apaixonada que teve com o cinema, vão dando o tom do documentário Torquato Neto – Todas as horas do fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando. O cinema brasileiro segue durante todo o filme como uma espécie de norteador visual-poético da história.

 

Não há uma cronologia narrativa que desperte no espectador uma noção natural das con(sequências) quando se ouve uma história. O filme é um tanto fragmentado, com um núcleo fixo. O teor de sua estrutura é construído com o habitual discurso dos entrevistados, uma voz em off que ora vem ilustrada por referências cinematográficas, ora pela própria imagem dos entrevistados, estilizadas de forma sutil e rápida, dentro do padrão estético das imagens de arquivos, produzindo uma uniformização visual conveniente ao filme.

 

Essa proposta faz com que o documentário, sem grandes estripulias, fuja do lugar comum e narre a vida de Torquato com uma onipresente atmosfera de abismo. O diretor entendeu que seria impossível filmar a história do artista sem que filmasse o processo inerente da morte em sua obra e, consequentemente, em sua vida. 

 

O processo criativo na escrita de Torquato Neto, que brota precocemente, já sinaliza para uma angustia perene e o filme não poderia negar isso. Quando assume a poesia enquanto discurso estético, o diretor dá uma chance maior ao documentário. O peso que o suicídio carrega ganha azas e transcende a qualquer julgamento, se for o caso. Portanto, a história documenta e apresenta um artista brasileiro em toda sua complexidade, assim como nos apresenta um ensaio poético sobre um artista morto – a beleza onde quer que ela esteja.

 

O filme nos leva para um espaço da arte brasileira e para um momento histórico que apesar de duro era belo. A música e a poesia podem fazer da vida e da morte algo interessante, cheio de possibilidades, para além da polaridade. Ainda que todas as horas sejam a do fim. 

Por: Rosangela Dantas

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Insistência e Carnaval – Cordão do Boitatá convoca para o carnaval da utopia

Por:

Fabiana Melo Sousa e Rosangela Dantas 

É na base da insistência que o carioca vai botar seu bloco na rua este ano, a mesma insistência que temos para o cinema. A falta de recursos e o desdém do poder público soam como um desvario medonho, uma atmosfera ruim que nem combina com a cidade, bem diferente da Lira do Delírio que nos leva num transe de confetes e serpentinas para o carnaval. Porém, estamos diante de uma cidade fechada, sem a chave pronta pra dar cabo do nosso Orfeu Negro.

E é apesar do mascarado que seguimos brincando a preço de cerveja. Aliás, o “Perfeito” pediu pra pegar leve! Até parece que dá pra engolir este Carnaval no Fogo sem um goró pra ajudar a descer tanto descaso com a nossa purpurina! Assim, Quando o Carnaval Chegar pelo valor de um litrão, os grupos contam com a nossa alegria e uns caraminguás para manter O Som ao Redor.

O Cordão do Boitatá está construindo um “Carnaval da Utopia” com todas as pessoas que quiserem chegar, indo na contramão do Bananas Is My Business. Com mais de 20 anos de folia, o Boi dá o papo pra nós, cariocas, que acreditamos num Rio de Janeiro pra todos. Em carta aberta, o Cordão convoca todos os foliões para O Abraço da Serpente.

 

Segue a carta aberta

https://www.facebook.com/notes/cord%C3%A3o-do-boitat%C3%A1/carta-aberta-do-cord%C3%A3o-do-boitat%C3%A1-2018/1862183810518793/

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Corpo e Alma (Uma mensagem necessária para 2018!!)

Por Rosangela Dantas

Dentro de um silêncio de gestos o filme de  Ildikó Enedi, ganhador do Urso de Ouro, no 67° Festival de Berlim, nos dá a chance de sair da rotineira previsibilidade cinematográfica que nos vem sendo imposta ultimamente. Corpo e Alma, uma produção húngara, tem como veiculo mensageiro de uma história de amor, um cinema cheio de sentido. Ao escrever com a câmera uma espécie de poesia do encontro a diretora nos devolve a condição de espectador/contemplativo.

Em uma época em que as relações padecem de uma comunicação mais próxima e física por conta dos meios tecnológicos, no que tange as projeções que assolam o mundo virtual e suas redes sociais, o filme aponta para uma dificuldade real onde o corpo e a alma por alguma razão não se conectam, deixando espaço apenas para um dia a dia mecânico, solitário, silencioso… Um mundo contemporâneo que alimenta na gente um estado permanente de inadequação.

Uma narrativa que usa a morte e o sangue de animais como justificativa para tanto afastamento humano. Uma fria condição de estar no mundo, tirando das personagens Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) o mais básico da capacidade humana, se comunicar, se relacionar. E é dentro de uma perspectiva “fabulesca” que o fantástico empresta ao razoável as ferramentas para tornar possível a relação entre eles que, descrentes e incapazes, encontram no Amor o caminho de volta para si e para o outro.

Um filme cheio de beleza e reflexão, tanto na sua estética de ser cinema, quanto na sua capacidade de olhar para o mundo. Uma mensagem necessária  para 2018. Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

 

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O Verão de 1993

Por Rosangela Dantas

Por meio da perspectiva de uma menina, a diretora Carla Símon nos conduz em um universo de descobertas e autoconhecimento. A história de Frida (Laia Artigas) nos é apresentada como se em suspenso. As perdas que a pequena garota silenciosa e de olhos triste sofreu parecem ter pausado sua existência e, dar continuidade à sua vida, depende de um monte de respostas que Frida não sabe perguntar.

Com um cinema vivo, o filme coloca em quadros o cotidiano de duas crianças. Enquanto uma está preocupada com a beleza da joaninha, a outra tenta se entender na ausência dos pais, mortos. No contato com a natureza e no amor paciente dos tios, Frida tenta sobreviver a essa nova possibilidade de estar no mundo. Sua busca é a nossa busca. A medida que ela caminha, nos damos conta de que suas escolhas e atitudes são fruto de uma ausência, um vazio que para resistir há que endurecer e quase perder a ternura.

O tempo é tratado com toda sutileza, o tempo existencial de Frida é que comanda o ritmo do filme. Cada tentativa, sucesso e frustração vivenciados pela menina nos atingem. Nosso olhar íntimo sobre a personagem, em função do foco, acaba por nos tornar atentos e cuidadosos com a espera do amadurecimento dos sentimentos daquela pequena.

E assim, como o entendimento de Frida diante da vida começa a surgir, o nosso, acerca da história, também vai se manifestando e, de forma afetuosa, nos damos conta de que o filme trata de um processo doloroso e rico. Continuar às vezes é apavorante, pois como se trata de uma criança o monstro é mais feio.

Frida só encontra o caminho de volta quando ri, ri de chorar. Esse turbilhão de sentimentos te joga de volta à roda viva e se expressar é a única saída. Perguntar, tentar entender é se fazer presente de novo. Uma história cheia de beleza e vida num Verão de 1993.

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A Hora da Estrela no Arquivo em Cartaz 2017

Por Rosangela Dantas

Uma das homenagens do Arquivo em Cartaz –  Festival Internacional de Cinema de Arquivo – 2017 é a adaptação A Hora da Estrela de Suzana Amaral, um filme baseado no livro homônimo de Clarice Lispector. Este é um ano especial para o livro e a autora. Clarice completa 40 anos de morta, no mesmo momento em que A Hora da Estrela também completa 40 anos de publicação.  E foi exatamente o dia de sua morte, 9 de dezembro, escolhido para a exibição do filme de Suzana na Mostra. A Hora da Estrela restaurado pelo CPCB será exibido no Cine Arte UFF na Mostra Homenagens, dentro do Festival.

Um pouco dessa transposição, adaptação literatura/cinema da Hora da estrela

O que foi, por muitos, chamado de uma literatura menos hermética diante dos livros anteriores de Clarice Lispector, é apenas uma maneira de vincular a forma da escrita da autora a uma compreensão mais abrangente por parte dos leitores. O romance “A Hora da Estrela” forja uma objetividade quando “heteronimia” o autor, dando-lhe plenos poderes de narrador, um narrador ativo no discurso e frio no desdenho de sua personagem e objeto de reflexão existencial: Macabea. Clarice, o autor, destrincha a personagem como a um bicho abatido, prestes a ser devorado. Os gritos são para dentro, a vida é anulada, não é extinguida. Macabea está e se ausenta, o corpo existe, mas ela não. O cheiro, a vida e sua simplória condição humana são sinônimos no desenho da personagem. Pistas significativas para um leitor atento e propenso a uma divagação mais profunda acerca do sentido questionável da existência. Para isso, Clarice fornece pistas de aparência simples compondo um quadro com uma certa subjetividade. O painel de informação seja de cunho externo da situação, seja de cunho interno, apresenta ao leitor um motivador que aciona seus mecanismos para uma analise semiótica situando-o com o universo da personagem e, conseqüentemente, com a história.

A discussão do texto parte de uma nordestina rica em possibilidades. Questionamentos sobre o porquê do existir pairam sobre Macabea, não em seu pensamento e sim em seu corpo, em seu mundo, em seu modo de ser, sem ser. O autor descreve e procura dar sentido ao que se é, dentro do que se expressa, no universo de signos montados como um quebra-cabeça da existência humana. O filme, por meio de uma ótica voyer, parte do indivíduo para o meio. Mesmo num debate acerca da infeliz nordestina, o sentimento torna-se similar no que tange ao eu do outro. Macabea é atingida por uma identificação causada, no processo de construção textual, pelo poético e pelo senso comum. O leitor pode seguir um caminho linear e enxergar apenas uma história de uma pobre retirante tentando a vida em uma cidade grande ou, dependendo de suas vontades, ferramentas e anseios literários, pode adentrar em um mundo de significados que irá levá-lo a uma leitura de cunho existencial do seu próprio mundo.

No filme “A hora da Estrela”, a diretora Suzana Amaral capta o núcleo da história e desvenda o mistério de uma mulher supostamente comum. A escolha da atriz serve como ícone para o argumento a ser apresentado porque especificamente aquela atriz carrega as condições físicas, quixotescas  e talento que ajudam na composição da personagem.

A diretora opta por uma narrativa clássica quanto à construção cronológica. Inicia o filme com o off da rádio relógio pautando os segundos do tempo e a voz do locutor perguntando e respondendo assuntos curiosos ou inúteis durante toda passagem dos primeiros créditos. O filme já começa dando respostas ao que não foi perguntado. Terminados os créditos, a primeira cena também se apóia no som – um som produzido por pausados toques em um teclado de uma máquina de escrever, sugerindo que alguém está datilografando muito mal, tal é a distância sonora entre um toque e outro. Enquanto isso, um gato lambe-se numa espécie de depósito, com caixas ao fundo. A câmera desliza fazendo um reconhecimento do ambiente e buscando alguém, até que encontra Macabea e não consegue identificá-la. Suzana Amaral não foge do olhar introspectivo na personagem, mas deixa a história transcorrer com uma certa linearidade de ritmo, com cortes secos e seqüências com quadros lentos ou estagnados, sem prejuízo à leitura do espectador.

A diretora explora bem a riqueza de detalhes proposta pelo livro no que diz respeito à descrição de Macabea. É quase possível enjoar-se diante do perfil mal cheiroso traçado pela cineasta: uma mulher do avesso em pleno estado de dolorosa decomposição existencial; uma dor que não pode ser curada com aspirina. A demonstração mais realista de que, às vezes, pode ser muito feio, sujo e fétido o existir, pode ser percebida durante o decorrer da história que o filme apresenta: a figura de Macabéa, o lugar onde vive, a postura das pessoas à sua volta e sua quase nula presença perambulando pelo mundo. Manifestações muito bem apoiadas no argumento do livro e reforçadas com palavras que completam as imagens. Palavras nascidas de diálogos que constroem o ritmo crescente da personagem na medida em que ela é diminuída.

O filme se apresenta como um recorte do que Macabea traz enquanto personagem, não como resumo. O que é estar no mundo e dar conta disso?

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Guerra dos sexos

Se antes era necessária a discussão sobre gênero, hoje é temática recorrente e quase obrigatória na sociedade. Nessa perspectiva, o cinema vem sendo um grande aliado na propagação desta questão, colocando em pauta uma reflexão sobre as condições da mulher na sociedade contemporânea. Assim, trazer à baila a história da situação da luta por direitos feministas é um grande mérito do registro cinematográfico. A linguagem audiovisual é uma potente ferramenta discursiva, para o bem ou para o mal.

No filme Guerra dos Sexos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, o assunto nada mais é que o registro da luta das jogadoras de tênis pela equiparação dos valores dos prêmios oferecidos nos torneios, que pagavam quantias inferiores para as atletas femininas.

Guerra dos Sexos aborda uma grande disputa de tênis que aconteceu na década de 70, entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder mundial do tênis feminino à época, Billie Jean King (Emma Stone). Um evento que levou a discussão sobre igualdade de gênero a um outro patamar. A grande repercussão da partida, por mais carnavalesca que tenha sido midiaticamente, foi extremamente importante para colocar as tenistas femininas no seu lugar de direito. O filme ainda mostra um Bobby Riggs desesperado para não cair no ostracismo, e a  tenista Billie Jean King em crise com sua sexualidade, alimentando a trama com um pouco de conflito e drama, para além da discussão de gênero e tirando um pouco de dureza do roteiro.

A história é muito bem ambientada. Uma viagem no tempo que nos coloca diante de questões muito atuais, quando hoje, ainda, nos pegamos tendo que enfrentar pensamentos e posturas muito conservadoras. Quando o filme aponta para conquistas que ontem foram arrancadas à duras penas de “porcos chauvinistas”, nos colocando diante de uma confusa conclusão: ainda temos um longo caminho a percorrer e devemos ficar em eterna vigilância.

Um filme leve e colorido mas que guarda em suas entranhas uma ânsia de liberdade de ser e de amar.

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FESTIVAL DO RIO 2017 – Zama de Lucrecia Martel

“Fazer cinema não é aplicar um manual de regras, mas achar as ferramentas, que podem ter diversas naturezas, para encontrar a fenda.”

Lucrécia Martel

Por Rosangela Dantas

Quanto se tem pra dizer sobre a história de alguém? Com o cinema de Lucrécia Martel tudo que há de vida pode ser contado. Zama, um romance de Antonio Di Benedetto (1956), adaptado pela própria Martel, para o cinema, enche a tela de som e sentido.

Quando conhecemos o personagem Don Diego de Zama (Daniel Gimenez Cacho) nas primeiras sequências do filme acreditamos que se trata de um filme sobre aquele homem e tudo à sua volta é pano de fundo para a sua história. Num século XVIII castigado pela degradação humana, onde o negro e o índio servem ao imperio espanhol, um americano espera. Enquanto faz isso, Zama tenta não sucumbir ao fato de ter sido esquecido.

Lucrecia não propõe uma fluidez. A diretora aprisiona a história como se todo o filme fosse a própria clausura de Zama. Apesar da espera de Don Diego, não há esperança naquele lugar. Sentimos que a narrativa não parte de uma linearidade, os acontecimentos surgem e, somente por meio dessa percepção, é que Zama se realiza para o espectador. O ator Daniel Gimenez Cacho nos leva, com seu corpo quase desistente, num perambular que vai e vem, quase sem sentido, se contrapondo à energia de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele) e à sua presença mítica em todos os sentidos.

Sem bandeiras, Martel expõe as feridas de uma colonização. Há um tempo no filme em que tudo parece aguardar algo. Nada se conclui. Há um tédio existêncial sempre à espreita. Fragmentos de um cotidiano inacabado. O círculo não se fecha. Zama espalha sua inércia. E tudo se junta à sua espera.

Para Zama nada mais importa. Como ferrugem, sua expectativa corrói sua vida. Os outros que ali habitam nada dizem a esse Don Diego que aguarda sua partida. Zama não se acha pertencente. Ainda que à míngua, ele se percebe superior àqueles que ali estão. Injusto é que ele próprio ainda esteja ali. Todo o resto está no lugar certo. Somente ele que destoa.

O filme estabelece com o espectador uma relação sensorial, realizando uma característica comum nos filmes de Lucrecia Martel. O som nos coloca em alerta, nos aproximando da cena e nos levando para dentro da história. As mulheres, as relações e a presença dos bichos interagindo com os personagens tornam os quadros de um realismo incômodo. Um silêncio para que se ouça, semelhante a “O pântano” (2001).

Lucrecia conhece as ferramentas e a história só se realiza em seus filmes, quando seu personagem é atravessado pela vida. Então nos damos conta, a história não é só sobre Zama. Ele e os outros esperam.

Onde assistir no festival do Rio

Domingo, 08/10     21:45*   CCLSR – Cine Odeon NET Claro

Segunda, 09/10   19:20*     Reserva Cultural Niterói 2

Quinta, 12/10   21:30   Estação NET Ipanema 2

Sábado, 14/10  19:15   Kinoplex São Luiz 4


* Sessão com convidado(s)

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MOSTRA – Rússia: um quarto de século através do cinema

Enterrem-me atrás do rodapé (2009), filme de Serguey Snezhkin


A Caixa Cultural RJ apresenta, a partir do dia 19/09, a Mostra Rússia um quarto de século através do cinema, com filmes produzidos de 1991 a 2017. Serão 16 produções que trazem um panorama do cinema russo nestes últimos 25 anos. As sessões vão até o dia 01/10, exibindo ficções e documentários de diversos assuntos, que refletem, principalmente, o contexto sociopolítico contemporâneo da Rússia.

Segue a programação completa e um texto sobre um dos filmes,  Leviatã (2014), que será exibido no dia 30/09 às 18h. Este texto foi publicado no JBlog em 2015, a propósito da sua estreia.

Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141min

Por Fabiana Melo Sousa

Marvin John Heemeyer, um soldador, perde uma disputa de terras e revoltado ataca com uma escavadeira a prefeitura de sua cidade e a casa do prefeito. Ele interrompe sua ação quando a máquina destruidora apresenta problemas técnicos e, ao final, Heemeyer comete suicídio.

Esta história que parece uma ficção aconteceu em 2004 no Colorado (EUA) e serviu de inspiração para o longa “Leviatã”, de Andrey Zvyagintsev, uma produção russa indicada ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro de 2015 mas ganhador de outros troféus em festivais como Cannes (Melhor Roteiro).

Em Leviatã, Heemeyer é tomado como argumento pelo diretor Zvyagintsev, que também se inspira em dois clássicos da literatura mundial para apresentar a saga do pescador Kolia (Aleksey Serebryakov), vivendo um inferno ao perder terras para a prefeitura mesmo depois de lutar em todas as instâncias legais e de ver sua vida pessoal devastada por uma série de tragédias.

Sozinho, o pobre homem luta contra o prefeito Vadim Cheeleviat (Roman Madianov) que negocia com uma grande empreiteira a construção de um Centro Comunitário no local e não mede forças para usar o seu poder, aconselhado constantemente por ninguém menos que o Bispo da Cidade. É o indivíduo contra o Estado/Igreja.

A impressionante ossada de uma baleia e os homens são os únicos animais que vemos no filme, mas rapidamente percebemos que a primeira referência é inofensiva diante daqueles que não agem pelo bem comum, mas em benefício próprio – Homo homini lúpus, diria Hobbes.

Não é uma obra que propõe grandes inovações cinematográficas, mas traz uma bela direção e o roteiro não prepara o expectador para algumas surpresas. Por mais que a máxima do filósofo nos pareça coerente, a vida do pescador se torna uma saga bíblica, assim como a de Jó, lançado a todas as provações, nos levando a refletir até que ponto é possível um homem honestamente e passivamente suportar o sofrimento, sem perder as esperanças e a fé. Aliás, homem no sentido literal, pois a representação feminina é subjugada à presença masculina nas esposas servis e prontas para suportar o sofrimento.

O filme merece ser visto por muitas razões, principalmente pela polêmica que ele gerou no país. A vida real não atravessou esta produção apenas no argumento, ela virou febre quando vazou na internet e provocou ira no governo russo.

Lançado no país no início de fevereiro (2015) com uma versão censurada por uma lei do Ministério da Cultura que proíbe palavrões em filmes que recebem recurso público, ele ainda gera conflitos quando alguns representantes do governo e da Igreja Ortodoxa o desaprovaram, acusando-o, dentre outras coisas, de cuspir no poder, arrancando fervorosas declarações, como a de Sergei Markov, membro do Partido Governista Rússia Unida: “No lugar dele (do diretor), tiraria o filme de cartaz, iria à Praça Vermelha, me ajoelharia e pediria perdão”.

Andrey Zvyagintsev afirma em entrevistas que o filme não é um panfleto político contra Putin, pois o roteiro foi escrito há seis anos e traz referências universais, no entanto, seu interesse pela obra como arte não pôde distanciar-se de seu contexto pelo impacto que teve na Rússia. Embora seja um bom filme, talvez a sua verdadeira força esteja em sua apropriação pelo público como bandeira ideológica, principalmente para criticar Putin e cia., reforçados pelas declarações tanto do governo quanto da igreja. Se tudo o que incomoda os poderosos é valioso, “Leviatã” está nesse caminho.

 

Programação:

19 de setembro (terça-feira)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

17h – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

19h15 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital,18 anos

20 de setembro (quarta-feira)

Cinema 2

17h – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

19h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

21 de setembro (quinta-feira)

Cinema 2

17h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

19h – Enterrem-me atrás do rodapé (2009), de Serguey Snezhkin. Rússia, Upscale, 110 min, 18 anos

22 de setembro (sexta-feira)

Cinema 2

17h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov, Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

Destaque para a retrospectiva da obra de Aleksey German realizada após a queda da União Soviética

23 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

Cinema 2

16h30 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

18h30 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

24 de setembro (domingo)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, 18 anos(Estreia em território nacional)

Cinema 2

15h30 – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos

17h40 – É difícil ser um deus (2013), de Aleksey German, Rússia, 177 min, Digital, 18 anos

26 de setembro (terça-feira)

Cinema 2

16h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

18h30 – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

27 de setembro (quarta-feira)

Cinema 1

17h – Palestra Rússia: um quarto de século através do cinema, com Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho

Cinema 2

15h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Relações próximas (2016), de Vitaly Mansky, Letônia/Alemanha/Estônia, Ucrânia, Digital, 18 anos

28 de setembro (quinta-feira)

Cinema 1

18h – Palestra Balabanov e o cinema da Rússia pós-soviética, com Anton Dolin

Cinema 2

16h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov. Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

19h20 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

29 de setembro (sexta-feira)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

19h – Palestra O cinema de Aleksey German, com Anton Dolin

Cinema 2

17h – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos

30 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h30 – Que tal a vida, camaradas?, de Luis Felipe Labaki, Brasil, 15 min, HD, Livre

17h – Mesa Redonda O cinema na Rússia atual: conformismo ou resistência?, com Anton Dolin e Luis Felipe Labaki

Cinema 2

15h – Sob o sol (2015), de Vitaly Mansky. Rússia/Letônia/Alemanha/Republica Tcheca/Coreia do Norte, 106 min, Digital, 18 anos

18h30 – Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141 min, 18 anos

1 de outubro (domingo)

Cinema 1

15h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

17h – Debate Novas vozes do cinema russo, com Anton Dolin

19h15 – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

14h30 – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sufocamento (2017), de Kantemir Balagov, Digital, 18 anos

 

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