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CIDADE DE DEUS – 10 ANOS DEPOIS

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Por Fabiana Melo Sousa*

“É possível a arte mudar o mundo?”
Luciano Vidigal

Arte e vida e o velho confronto entre ficção e realidade. No cinema brasileiro talvez nenhum filme tenha sido tão contundente na aproximação de ambas quanto o longa Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Agora, chega às telas o documentário Cidade de Deus, 10 anos depois, dirigido por Cavi Borges e Luciano Vidigal que, através dos depoimentos de atores do filme, refletem o impacto do longa-ficção em suas vidas pessoais e profissionais.

Não é fácil tomar posições, pois, afinal de contas, o antigo descompromisso da ficção sobre a vida, justificado sob o manto da licença poética, é comumente usado para livrar o filme de Meirelles de qualquer comprometimento negativo que ele tenha causado.

As análises são muitas e dividem opiniões sobre os impactos gerados pela obra, embora todos concordem que o filme ficcional funcionou como uma espécie de representação da realidade das favelas cariocas, gerando muitas controvérsias. Por outro lado, o documentário toma para si o esforço de ser o mais honesto possível com as diversas opiniões dos atores sobre suas trajetórias.

Não é para menos tal esforço, pois o documentário é uma narrativa de Luciano que também trabalhou no filme de Meirelles e que seguiu na carreira artística como diretor e roteirista de cinema e televisão. Ele retrata pessoas e lugares de seu convívio pessoal e, de certa forma, conta também a sua própria vida ao suscitar questões como dinheiro, fama e tráfico de drogas, tanto na vida real quanto na ficcional.

Algumas questões abordadas são polêmicas, como o caso de Rubens Sabino que ainda hoje se encontra em situação de dependência química. É interessante também a narrativa das dificuldades que alguns encontraram para sair do filme e voltar para suas vidas nas favelas. O próprio Luciano afirma que a barreira do racismo também foi vivida pelos atores e atrizes negras que seguiram carreira.

As imagens também depõem neste filme. As incríveis cenas de uma Cidade de Deus cinematográfica são inseridas para comparar passado e presente, registro ficcional, mas que se torna um documento de uma época daqueles jovens e crianças. São sujeitos que têm a rara oportunidade de olhar um momento de glória, como disse um deles “eu gosto muito de pão com ovo, mas naquele momento eu tava sentindo o gostinho do caviar”. Para o expectador, talvez ele possa reviver a experiência estética provocada pela ficção, e repensar seus conceitos sobre violência e favela e também sobre o cinema brasileiro que, desde o longa inspirado na obra de Paulo Lins, vem retratando as favelas em inúmeras narrativas.

E se o tema é arte e vida, é importante lembrar a preparação de elenco de Fátima Toledo na ficção de Meirelles e Kátia, que inaugura um interessante e contundente trabalho de confrontar ator e não ator, fazendo quase desaparecer esta fronteira. Seu método é lembrado na polêmica cena de dez anos atrás, da criança chorando desesperada ao levar o tiro no pé.

O documentário Cidade de Deus, 10 anos depois se diferencia do longa-ficção de 2002 por agora privilegiar o ponto de vista dos atores, afinal, os diretores Fernando Meirelles e Kátia Luund já construiram a sua narrativa com um filme que arrebatou o público brasileiro e estrangeiro, rendeu alguns milhares de dólares e o consagrou Meirelles como artista, no entanto, é impossível não sentir falta de seu depoimento no documentário de Cavi e Luciano, agora em 2015.

Meirelles seria uma espécie de “cereja do bolo” para quem deseja aprofundar reflexões sobre uma obra. Embora divida opiniões, “Cidade de Deus” teve enorme relevância ao inaugurar o gênero “favela movie”, promovendo o cinema brasileiro e trazendo para cá os holofotes da indicação ao Oscar. Kátia, por sua vez, nem sempre é lembrada, um sinal do machismo, tão discutido recentemente na indústria cinematográfica.

Talvez, mais do que ninguém, Meirelles saiba que arte e vida estão mais unidas do que imaginamos e, que analisar seu filme, numa narrativa documental, que confronte opiniões, soe assustador. É como estar no lugar de Buscapé na famosa cena da galinha: tentando inocentemente pegar a ave, ele se vê numa guerra entre polícia e bandido. A imagem em 360º coloca o expectador no lugar do garoto, desesperado, sem saber pra onde ir. Seu único desafio é manter-se vivo em meio ao tiroteio. Assim como na Cidade de Deus, quando se trata de aproximar vida e arte, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, não tem como sair ileso.

Cidade de Deus, 10 anos depois é mais do que a trajetória daqueles indivíduos, ele é uma metalinguagem do cinema brasileiro. Imperdível.

 

 

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e também em filosofia pela UNIRIO. – See more at: http://www.jblog.com.br/leiacinema/#sthash.oOTgbqO2.dpuf

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FLUP 2015, Circuito Cine Favela Festival e Mostra de Cinema Vidigal 75 anos – O cinema, cada vez mais, encontra espaço de exibição nas favelas cariocas

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Por Rosangela Dantas

O cinema encontra espaço de exibição nas favelas cariocas. Há muito tempo que as tecnologias digitais barateiam e incentivam as produções, o que resulta num nicho interessante para o mercado cinematográfico, diversificando a cara dos filmes que ainda residem em uma margem que não alcançam os grandes editais. A representação da favela num discurso quase lugar comum ganha novos contornos, ao menos no que diz respeito à sua perspectiva. Com a “possibilidade” de produzir, os cineastas menos afortunados filmam, apesar da concorrência desleal na busca por um lugar de exibição, pela finalização ou distribuição. Então, qualquer espaço é válido para encontrar um espectador para seu filme.

Paralelamente, um movimento de cineclubes e mostras específicas vão nascendo. O filme foi sempre um bom motivo para um bom papo. Ainda hoje não é diferente, os espaços com menos didatismo se fazem cada vez mais frequentes nas favelas do Rio, o crescente interesse por um audiovisual que discursa sobre o seu dia a dia transforma esses lugares em entretenimentos quase escolares para quem vê no cinema uma maneira de se expressar e dialogar com o mundo. E nessa escola quem lucra é a molecada, pois geralmente os filmes são exibidos com entrada franca e a diversidade se faz presente, tanto na tela, quanto diante dela.

Não é nenhuma novidade espaços alternativos que se proponham a projetar filmes ou projetos que levam cinema para pobre que não vai ao cinema. Não se trata dessa assistência de globo video ou cinema para todos, o que acontece é assistir um filminho e pensar o mundo que estamos filmando. Sem grandes pretensões, esses movimentos de se olhar na tela e produzir sobre si e o outro estão sonorizando vozes e desconstruindo discursos.

Filmes independentes de ser de favela ou não, de autores favelados ou não, ganham espaços e formam plateias. Exibidos em salas que mesmo não sendo salas se prestam a ser cinema e, ainda que algumas vezes recebam meia dúzia de gatos pingados tem mais cinema que muitos multiplexes dentro de shoppings.

Só neste mês de novembro de 2015 acontecem três eventos que levam cinema para três favelas cariocas:

 

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A FLUP 2015 – Festa Literária das Periferias, que acontece na Babilônia/Chapéu Mangueira de 03 a 08/11. A FLUP tem como homenageada Nise da Silveira e para incrementar as comemorações promove dentro da Festa Literária uma maratona de filmes que fará um tributo à grande psiquiatra brasileira, exibindo  a clássica trilogia Imagens do Inconsciente, do cineasta carioca Leon Hirszman, cuja filmografia está sendo restaurada pela Petrobras, além do recente Nise, o Coração da Loucura, de Roberto Berliner, ganhador do prêmio de Melhor Longa de Ficção, voto popular no Festival do Rio 2015.

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Outro evento de novembro será a sequência do Circuito do Cine Favela Festival que percorrerá três favelas com alguns filmes que participaram do festival em junho na Rocinha. Uma realização da TV Tagarela da Rocinha e o Imagens e Complexos, que tem por objetivo promover espaços de discussões sobre o tema “audiovisual e favelas” uma vez que as favelas e periferias brasileiras estão hoje amplamente presentes em imagens do cinema e televisão. No entanto, é necessário perceber quais são os sentidos reproduzidos e produzidos por estas imagens e fazer emergir as novas perspectivas sobre estes lugares aonde vivem mais de 11 milhões de pessoas no Brasil, segundo o IBGE de 2011. Cada Mostra desse circuito traz um tema, no próximo dia 05/11, no Complexo do Alemão, acontece a segunda mostra cujo tema será “Favela Ontem e Hoje”, onde serão exibidos cinco curtas entre documentários e ficções, retratando a favela e o tempo sobre ela. Dentre os filmes serão exibidos ” Quem Matou Gilberto?” de Josinaldo M. de Oliveira um escracho bem humorado num filme de 4 minutos de uma ficção muito real e “Doutor Magarinos – Advogado do Morro”, de Ludmila Curi, um documentário que traz a história de um personagem que de tão interessante quase parece ficção. Após a sessão acontece uma mesa que versará sobres os filmes com a mediação de Fabiana Melo Sousa e os convidados Josinaldo Medeiros e Ludmila Curi.

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E para finalizar essa trilogia cinematográfica nas favelas, durante todo mês de novembro, Memória do Vidigal e o grupo Nós do Morro apresentam a “Mostra de Cinema Vidigal 75 anos”.  O evento tem como foco os 75 anos que a comunidade  comemora este ano. As produções audiovisuais apresentadas terão o Vidigal como personagem ou cenário. Haverá a presença de convidados que participaram dos filmes.

 

Segue a programação:

FLUPP – FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DAS PERIFERIAS

03 a 08 de novembro

Entrada Gratuita

Local: Complexo Babilônia/Chapéu Mangueira, no Leme, Rio de Janeiro.

Afeto Catalisador (Ladeira Ary Barroso, 40).

www.flupp.net.br

 

Quarta-feira, 4 de novembro

19h – Cine Petrobras – Imagens do Inconsciente

Local: Mandala Afeto Catalizador (Estúdio Vertical)

Exibição da trilogia Imagens do Inconsciente, dirigido pelo cineasta Leon Hirzsman. Cada dia um episódio da trilogia.

 

Quinta-feira, 5 de novembro

19h – Cine Petrobras – Imagens do Inconsciente

Local: Mandala Afeto Catalizador (Estúdio Vertical)

Exibição da trilogia Imagens do Inconsciente, dirigido pelo cineasta Leon Hirzsman. Cada dia um episódio da trilogia.

 

Sexta-feira, 6 de novembro

20h– Cine Petrobras – Imagens do Inconsciente

Local: Mandala Afeto Catalizador (Estúdio Vertical)

Exibição da trilogia Imagens do Inconsciente, dirigido pelo cineasta Leon Hirzsman. Cada dia um episódio da trilogia.

 

Sábado, 7 de novembro

20h – Cine Petrobras – “Nise – O coração da Loucura”

Local: Mandala Afeto Catalizador (Estúdio Vertical)

Exibição de Nise – O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner.

                

CIRCUITO DE REPESCAGEM DO CINE FAVELA FESTIVAL

Tema: Favelas Ontem e Hoje – novas imagens e novos desafios

Dia: 05/11, quinta-feira, às 15h

Local: Nave do Conhecimento de Nova Brasília – Praça do Terço, Complexo do Alemão (ao lado do Cine Carioca).

 

Filmes:

Abra a sua mente – Videoclipe – 4min – 2015 – Livre

Direção: Coletiva – Menção Honrosa

Sinopse: É uma homenagem a todos os moradores, ativistas, coletivos e instituições do Complexo do Alemão, que na base da pirâmide, lutam por uma favela com menos violência e mais vida.

 

Alemão f/5.6 – Curta Documentário – 15min – 2014 – 10 anos

Direção: Aline Portugal e Rosilene Faria Melhor Obra Favela Hoje

Sinopse: Alemão f / 5.6 é sobre a relação afetiva do fotógrafo, Rodrigues Moura, com o Complexo do Alemão e 3 famílias imigrantes, que assim como ele, escolheram (adotaram) a comunidade como lugar para se viver.

 

A voz do Povo – Média Ficção – 22min – 2014 – 14 anos

Direção: Germano Weiss – Melhor Longa Ficção

Sinopse: Cleiton é o locutor de promoções do supermercado Superbaratão que sonha em um dia se tornar âncora de telejornal. Além de buscar uma vida melhor, ele quer ter seu talento reconhecido.

 

Quem matou Gilberto? – Curta Ficção – 4min – 2014 – 10 anos

Direção: Coletiva– Melhor Curta Ficção

Sinopse: Após mais um confronto entre a força de pacificação e traficantes do Complexo da Maré, um jovem inocente é morto. O povo protesta! Quem matou Gilberto? É só um dia na periferia.

 

Doutor Magarinos, advogado do morro – Curta Documentário – 22min – 2014 – 10 anos.

Direção: Ludmila Curi – Melhor Obra Favela Ontem

Sinopse: O curta revela a trajetória de um homem que liderou a resistência contra as remoções de favelas promovidas pelo governo do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Magarinos nasceu na elite, lutou por justiça social, morreu na ditadura militar, e deixou uma carta, pedindo que seu corpo fosse velado numa favela e enterrado em cova rasa.

 

Entrada Franca – Classificação 14 anos

 

MOSTRA DE CINEMA VIDIGAL 75 ANOS
DIA 8/11/2015 NA VILA OLÍMPICA – ESPAÇO DO CAMPINHO SHOW

DIAS  9, 16, 23 e 30/11 CASARÃO DO NÓS DO MORRO, as 19h30

Após sessão debate com realizadores e atores convidados.

 

 

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