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BRANCO SAI, PRETO FICA – A única retrospectiva possível

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E por falar em retrospectiva, o cinema sempre me deixa um rastro do que somos e vivemos. Nos despedimos simbolicamente deste ano que se encerra tão cheio de entusiastas do poder, da linguagem, da vida do outro, do bem viver. Um grande ensaio do que poderia ser um ano de mudança e eu não sei porque cargas d’água esse tempo preferiu a estagnação. Um ano que gourmetizou a carniça mais pútrida nas retóricas  de homens limpos de banho tomado.

Dos filmes que assisti este ano o que mais me devolveu a vontade de sentir, me tirando de uma certa letargia, de uma certa enfermidade cujo o diagnóstico era o meu tesão por ela, foi o filme de Adirley Queirós, Branco sai Preto fica, que reinaugura em mim um novo ano e um próspero cinema, sempre que eu assisto. Devolvo a vocês o texto que escrevi sobre ele como uma retrospectiva de um cinema vivo, de uma momento fértil na tela e em mim. Fecho 2015 como abri, querendo viver com todos os sentidos e imagens que me são de direito. FELIZ 2016!!!

“O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.” Millôr Fernandes

Ontem assisti ao documentário Branco Sai, Preto Fica do diretor Adirley Queirós. E o que mais me inquietou nesse filme é que, além de toda sua condição de manifesto, ele não sacrifica seu sentido estético, fazendo do documento uma história fantástica e suscitando em nós um cinema brasileiro amante da linguagem.
A vida não é linear, meu caro. Então não vá ao cinema querendo sempre uma representação narrativa que te sacie os sentidos previsíveis e carentes de um Walt Disney. Se a arte não liberta, ela também não deve aprisionar. Os jogos de sentidos e representações propostos por Queirós são puro exercício e investigação da verdade. O duelo entre documento e ficção ampara o duelo entre o homem e o poder, num sistema onde o branco tem passagem livre e o negro é encurralado. O resto é ironia.

Esse Blade Runner brasiliense demonstra que há uma urgência de um futuro imediato, que a vida e a dignidade só tem um tempo: agora. Ao transcender as características super humanas dos personagens com deficiências, o filme questiona um mundo cheio de aparências, onde o apocalipse é documentado pela ficção por ser real demais. Brasília, nunca esteve tão não-Brasília quanto nessa real Brasília capturada pelo diretor.

Enquanto contam suas histórias, Marquim do Tropa e Chokito confabulam a própria narrativa. Seus personagens se alimentam do que fizeram deles, até que percebermos o que eles fizeram com o que fizeram deles. Isso tudo sem aquela abordagem típica do clichê de superação, muito comum no cinema que se vale do discurso do oprimido. Mesmo porque, no jogo de Queirós, as pessoas viram os personagens e os personagens são pessoas. Tamanha a naturalidade diante das câmeras.
O filme de Adirley Queirós se esquiva de ser panfleto, por mais que esse rótulo paire sobre ele em algumas críticas e muito menos é leviano por navegar entre ficção e documentário. Suas soluções são honestas diante da contundência em assumir os limites de produção. A perda de ritmo nas arriscadas idas e vindas entre o real e o imaginário não permite que o filme perca seu sentido, mas experimente, nos apresentando um resultado artesanal, sem ser pueril.
Branco Sai, Preto Fica fala de futuro nos levando para o passado e nos mostra o presente quase clamando para que paremos de construir esse pretérito imperfeito. Esse hábito de discriminar precisa parar. Nessa via crucis contemporânea os brancos continuam saindo e os pretos ficando. Mortos, alijados, desempregados, analfabetos, pobres…

SINOPSE
O filme cria suas imagens e sons a partir de uma história trágica: dois homens negros, moradores da maior periferia de Brasília, ficam marcados para sempre graças a uma ação criminosa de uma polícia racista e territorialista da Capital Federal. Essa polícia invade um baile black. Tiros, correria e a consumação da tragédia: um homem fica para sempre na cadeira de rodas, o outro perde a perna após um cavalo da polícia montada cair sobre ele. Mas esses homens não se sentem confortados em contar a história de maneira direta e jornalística. Eles querem fabular, querem outras possibilidades de narrar o passado, abrindo para um presente cheio de aventuras e ressignificações, propondo um futuro.

DF, 2014, cor, 93 min, 12 anos
Direção: Adirley Queirós
Elenco: Marquim do Tropa, Shockito, Dilmar Durães, DJ Jamaika e Gleide Firmino
Produtora: Cinco da norte Audiovisuais Ltda-ME
Produção executiva: Simone Gonçalves e Adirley Queirós
Roteiro: Adirley Queirós
Fotografia: Leonardo Feliciano
Montagem: Guille Martins
Som: Francisco Craesmeyer
Direção de arte: Denise Vieira
Cenografia: Denise Vieira
Figurino: Denise Vieira
Trilha sonora: Marquim do Tropa

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As Sufragistas

 

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“Fomos ridicularizadas, agredidas e ignoradas.”

Dos textos que andei lendo sobre o filme muito se diz sobre um roteiro didático, um clímax na personagem errada e uma certa superficialidade. Dois aspectos norteiam o filme As Sufragistas, da diretora Sarah Gavron e da roteirista Abi Morgan, o estético e o político. Mais do que perceber a produção do Reino Unido como um filme capaz de atender aos critérios para conquista de um prêmio cinematográfico é compreender de que forma essa história te afeta.
O filme As Sufragistas carrega em si um discurso que dá vazão aos gritos presos em muitos corpos femininos, que ainda hoje padecem de uma certa obediência ao universo patriarcal, seja em suas relações micro ou macro políticas. Dentro da perspectiva discursiva, a produção inglesa nos coloca diante de uma constante vigília e de uma dolorosa tarefa, continuar lutando. Durante a projeção somos parte do filme e a história parece se realizar mais internamente do que na tela.  A sensação é de que o filme para acontecer precisa da adesão do espectador.
Num ano em que muitos manifestos, inclusive nas redes sociais, acenderam um alerta nas casas e corações de muitos que criam filhos homens, que aceitam piadinhas machistas de colegas, que abstraem aquele assédio fraternal do patrão, que se lisonjeiam com aquelas cantadas viralaje na rua e tantos outros agradinhos cabeludos, o filme traz um dado que nos alivia da culpa e nos fornece a raiva necessária: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”
Ao retratar um grupo de operárias, na Inglaterra de 1912, que reivindicam o direito ao voto, enfrentando a violência da polícia, prisões e rompimento familiar, o roteiro aponta para outras questões que na época também atingiam a mulher na sua cidadania e dignidade humana, o direito sobre o filho, o direito de administrar os próprios bens, o direito trabalhista, o direito sobre o próprio corpo e tantos outros. Com cenas que dispensam a sutileza quando se trata das agressões sofridas pelas mulheres e que permeiam as entrelinhas pelas impossibilidades do gênero.

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As atuações, juntamente com a ótima reconstituição de época, constroem o drama, Maud Watts (Carey Mulligan)  caminha como um fio condutor de uma história que, aos poucos, ela descobre ser a dela e a de muitas ao mesmo tempo; Edith Ellyn (Helena Bonham Carter) numa expressão que guarda força e temor assume com grandeza a liderança de uma causa que se mistura à sua vida; Emmeline Pankhurst (Meryl Streep) a fundadora do movimento britânico do sufragismo se mantém como a alma do movimento daquelas que estavam de frente nas fábricas e no cotidiano onde o assédio e a opressão eram as regras. Meryl Streep tem uma aparição rápida, coerente com a sua personagem e estratégica para a produção, seu nome e sua imagem deram credibilidade à história. E numa mistura de homem e ser humano, o Inspector Arthur Steed (Brendan Gleeson) conduz de forma tradicional as investigações.

Mesmo com toda a força e algum ineditismo do tema e período retratado no cinema, o filme perde uma grande oportunidade de problematizar de forma mais coerente, relacionando com a contemporaneidade. A diretora polemiza, por descuido, falta de consciência política ou ingenuidade, quando escala um elenco totalmente branco quando historicamente o movimento sufragista na Inglaterra teve a participação de duas negras, uma era a indiana Sophia. Enquanto nos EUA a adesão pelas mulheres negras ao movimento foi maior, fazendo com que o filme perdesse muitas espectadoras por lá. Gavron justifica o fato de que quis contar a história a partir das operárias, semi analfabetas e que Sophia seria uma aristocrata que vivia rodeada de privilégios, apesar de fazer parte do movimento. Mas o incômodo não fica por aí, mesmo os figurantes, que aparecem nos bairros das operárias são brancos, deixando a diretora numa saia justa diante de um público que hoje enxerga a representação no cinema e na arte em geral um caminho para visibilidade.
Ainda que o filme sobre as sufragistas incomode pelo seu recorte resumido, se trata de uma produção que dialoga com o nosso tempo e  imprime na gente a sequência dessa história .

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