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O Cavalo de Turim – Béla Tarr fotografa a existência

Por: Fabiana Melo Sousa

 

cavalo Turim 1

Todo agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo o que é orgânico requer não somente luz, mas também escuro. Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante aquele que se forçasse a abster-se de dormir, ou ao animal que tivesse de sobreviver apenas da ruminação e ruminação repetida. Portanto: é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível, sem esquecimento, simplesmente viver. Ou, para explicar-me ainda mais simplesmente sobre meu tema: há uma grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização.

                                                                                                                     

NIETZSCHE. “Da utilidade e desvantagem da história para a vida”. In Considerações extemporâneas.

 

 

O cavalo de Turim, o último longa do cineasta Bela Tarr pode enganar um expectador desavisado. É um filme que parece falar de Nietzsche, parece mostrar a vida de um cavalo e parece retratar o cotidiano que se repete de uma família que espera passivamente a passagem de uma tempestade e é exatamente no que ele aparenta ser que reside a força deste filme.

 

Os três personagens principais – o filósofo, o cavalo e o cocheiro – se encontram em um evento “fora” do filme: no dia 3 de janeiro de 1889, em Turim, Friedrich Nietzsche se aproxima de um cavalo que estava sendo açoitado por seu cocheiro, abraça o animal, soluça em silêncio e depois de ser levado para casa ele se mantém em calado. Suas últimas palavras são “mãe, eu sou um idiota” e assim o alemão vive passivamente até a sua morte, dez anos depois: em silêncio.

 

Cavalo e cocheiro por sua vez seguem juntos, primeiro num longo plano sequência do animal que puxa a carroça e seu dono, sobe morro e chegam num velho estábulo. Ali começa uma coreografia, onde todas as ações são exaustivamente sincronizadas, numa rotina que parece ser calculada mas que por vezes também pode ser apenas a expressão de que daquela vida nada se espera, tudo é previsível.

 

O cocheiro e sua filha seguem rotineiramente trocando suas roupas, cozinhando batatas, almoçando, organizando, descansando. E assim os próximos cinco dias são vividos até que a tempestade vá embora, mas o vento não cessa. Aos poucos o cavalo adoece, a água acaba, o combustível para a lamparina chega ao fim… Só então é que nos damos conta de que a vida não se repete, que cada dia é um, por mais que os gestos e toda coreografia se repetiam, o tempo era outro.

 cavalo Turim 3

Dessa vez somos nós, expectadores, que precisamos nos entregar e pactuar de que há algo de novo naquela repetição, em toda a descrição calculada da câmera que contempla as ações dos personagens. Aqueles sujeitos, dos quais nada sabemos sobre eles, passam a nos interessar.

 

Bela Tarr não se cansa de ruminar com suas longas sequências: a câmera revela o cocheiro e sua filha – ele come com ferocidade, queimando-se ao destrinchar uma enorme batata quente como se fosse um frango, com apenas uma mão; num ritual diário troca de roupa ao deitar-se e levantar-se. Ela troca a roupa do pai, cozinha batatas, come silenciosamente e em alguns instantes o próprio cavalo, que não come e permanece em silêncio no estábulo.

 

Enquanto o ruminar dos seus personagens surgem quando as ações cotidianas são interrompidas e a jovem e o cocheiro sentam de frente a pequena janela e observam alguma coisa no exterior da casa, cada um em seu tempo e em momentos diferentes. O que pensam? O que observam?

cavalo Turim 2

 

E assim seguem os dias, não há nada o que dizer a não ser esperar que algo aconteça. Qual sentido? Diante do insistente ruído do vento que na sua constância já se faz imagem a previsível rotina é então interrompida – um padre em busca de aguardente e um dedo de prosa“é sobre o julgamento do homem, seu próprio julgamento, no qual certamente Deus está envolvido” e um bando de ciganos reclamando a água do poço, deixando para jovem uma bíblia, ambos trazem aos personagens palavras. A fome passa a rondar aquele casebre junto dela o medo da morte. De repente aquele inóspito rancho que parecia ser suficientemente precário ainda apresentaria seus piores dias.

 

Mesmo o homem, mesmo os ciganos que amaldiçoam os donos do poço que lhes negam água, parecem não adiantar para desgarrar o velho e a jovem daquela vida, a esperança só se revela num abrupto esforço de abandonar o local, em vão, pois o cavalo de Turim já não possui forças para caminhar.

 

E assim, Bela Tarr devolve para nós muitas perguntas, não mais sobre Nietzsche, o cocheiro ou o cavalo, mas sobre nós. Somos atravessados por uma vida que parece não ter sentido: qual sentido tem a vida? É preciso comer, trocar de roupas, acender o fogo, olhar pela janela, dormir, seguir em frente.

 

O cineasta defende uma arte que pode nos impulsionar para um futuro, assim como Nietzsche sugere. Parece ser um cineasta que nos remete a um cinema do passado, que não tem mais sentido em tempos atuais. Só parece, pois ele exige de nós um eterno ruminar. 

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A Gangue ( Uma nova oportunidade de assistir a partir de quinta no Cine Joia)

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Um filme na sua condição plena de linguagem nos propõe uma experiência que muitas vezes nos deixa refém dos olhos e ouvidos. O som e a imagem que condicionam o filme dentro de uma possibilidade de compreensão também são responsáveis por nos conduzir dentro de uma perspectiva restrita quando limitamos as sequências somente pelo o que é visto e ouvido. Mas se entendermos a produção cinematográfica enquanto emissora de mensagens e nós espectadores enquanto receptores dessas mensagens, não nos resta nada além do ver e ouvir esse filme? E se um diretor constrói um filme totalmente mudo? Não o mudo de ruído ou música, mas mudo de fala, porque seus personagens não ouvem, ou melhor, usam a língua de sinais? Um filme sem legendas, nem off explicativos, somente a língua utilizada pelos surdos?
Pois é disso que é feito A Gangue, de Myroslav Slaboshpytskiy, ou melhor, da falta de palavras ditas oralmente ou escritas. Se entendermos a língua de sinais como deve ser entendida, como uma língua, então não há nada de errado com o filme, pois há um discurso sendo preferido, uma fala gestual. Assim como qualquer idioma, cada país no mundo possui a sua língua de sinais e é dessa forma que o filme ucraniano é falado.
O filme de Myroslav não é um documentário, trata-se de uma ficção com uma narrativa como outra qualquer, que retrata a vida de estudantes de um internato que está sendo minado por violência, sexo e delinquência. Uma espécie de organização criminosa composta de jovens estudantes de uma escola para surdos. A falta de oralidade causa um certo incômodo, porque acostumados a receber as informações audiovisuais, temos que de repente identificar a mensagem pelo que as imagens nos dão, principalmente pelo gestual dos personagens que se comunicam entre si, sem levar em consideração a possibilidade de se fazer entender por alguém que não fala língua de sinais.

Esse estranhamento nos leva a um nível de atenção outro e passamos a compreender a história com o mínimo que nossas limitações nos permitem. Até o momento em que nos damos conta de que o que mais importa no filme não é a surdez dos alunos, é a sua história. O adolescente Sergei (Grigoriy Fesenko)tentando se adaptar dentro de um ambiente inóspito, cheio de agressividade e distanciamento, depois de muito ser perseguido se enquadra ao sistema e passa a pleitear uma colocação entre os delinquentes.

Assistir ao filme de Slaboshpytskiy é exercitar uma compreensão do outro. Esse que vive no silêncio e nem por isso deixa de sentir, pensar e agir. Com uma câmera sutil, observadora, sem dar muita ênfase para o gestual dos personagens, somos levados à acompanhar o cotidiano, quase todo tempo, noturno, de Sergei. Uma fotografia em preto e branco, colaborando com a fria e distante atmosfera do internato, compõe a aridez do local que tem todo aspecto de um reformatório. Para além da surdez, o diretor precisa dizer sobre o individualismo, a frieza, as descobertas, os desejos e o sucumbir de Sergei à hostilidade daquele lugar.
O cinema nos leva a essas possibilidades de experimentar pontos de vista, ainda que esse ângulo seja pelo falta do dizer sonoro, quando temos que abrir mão do discurso oral e passamos a dar conta de todo um contexto que comunica a história. A Gangue de Myroslav Slaboshpytskiy é um filme interessante pela falta de pedagogia acompanhada de uma incômoda experiência de linguagem.

 

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KUSTURICA E OS MELHORES FILMES DO ANO 2015. Um Rio de Cinema – Mostras com preços atraentes aliviam o verão do carioca.

Chegamos em 2016 e abrimos os trabalhos neste blog trazendo duas mostras que acontecem na Cidade do Rio de Janeiro.

Em tempos em que a palavra “crise” atinge em cheio a Cidade carioca, é sempre uma boa pedida frequentar os centros culturais que oferecem mostras de filmes de qualidade e com um preço bem diferente dos salgados R$30 reais que afastam os expectadores das mais badaladas salas de cinema da Zona Sul, ou mesmo das repetitivas salas em 3D nos shoppings da Zona Norte.

Seguem duas mostras de qualidade com ingressos a R$4 reais a INTEIRA!!! Por mais óbvio que parece vale a pena ressaltar: R$2 reais MEIA-ENTRADA.

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Mostra Melhores Filmes do Ano

Todo mundo tem o seu melhor filme do ano e a crítica de cinema também, por isso há doze anos o CCBB RJ promove a Mostra Melhores Filmes do Ano, que exibe os filmes indicados pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. A ACCRJ elegeu o filme “Mad Max: estrada da fúria” como o melhor de 2015, que será exibido, mas também selecionou alguns sucessos de crítica como “A Pele de Vênus” (La Vénus à la Fourrure) e “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, “Ida” e o brasileiro “Que Horas Ela Volta?”, todos passaram por aqui no Leia Cinema e para a nossa lista, são fortes indicados para você assistir. Confira as resenhas:

ida

Ida

O diretor Pawel Pawlikowski nos brinda com o que há de mais visceral num filme, sua fotografia. Ao propor um universo em preto e banco repleto de tonalidades cinzas nos permite uma experiência de atenção, sem tédio. O silêncio que sua cor nos provoca, talvez espelhe o abismo que mantém Ida (Agata Trzebuchowska) distante de um determinado mundo. Sua tia (Agata Kulesza), que parece em suspenso, será a ponte que fará sua comunicação com o universo que parece não lhe fazer nenhuma falta.

Mas nem só de fotografia sobrevive nossa inquietação com o filme de Pawlikowski. Seu enredo nos arrebata com tamanha simplicidade ao dizer que nem sempre cabemos no mundo.

É nessa fotografia de um tempo outro que surge Ida, com sua ignorância dos prazeres mundanos, para ajudar sua tia a se libertar. Uma noviça que tem sua jornada religiosa interrompida por sua madre superiora, que acha por bem que Ida deva conhecer o mundo e se conhecer antes de fazer seus votos definitivos.

Ao deixar as profundezas de um convento a pequena e frágil noviça leva com ela seu mundo em preto e branco e ao encontrar o oposto universo de sua tia, que vive por viver, não encontra qualquer afinidade ou identificação. Mas as duas seguem juntas a procura de um corpo.

Em sua busca por sua origem e sua história, ambas se conhecem e se permitem algum tipo de afeto. Mas o filme não se limita à promessa de uma reconciliação com a vida e o mundo além dos muros do convento, nos ensina que nossa casa é o nosso corpo e que estar bem independe do “hábito”, seja qual for ele.

O diretor não enquadra somente seus personagens, ele enquadra o que eles sentem. Dando a medida certa para o que pretende dizer sobre o sentido de estar por aí. Ou a falta dele.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Um homem pássaro engaiolado nos bastidores da Broadway. A arte e o mercado assombram o filme Birdman do mexicano Alejandro González Iñarritu, autor de Amores Brutos (2000) e 21Gramas (2003). O diretor transforma o angustiado homem morcego no angustiado homem pássaro. Entre delírios e cinismo realista, Iñarritu acena com a possibilidade da metalinguagem cinematográfica e discursiva. Um diretor mexicano, filmando na industria hollyhoodiana, com um ator tipicamente americano, buscando o reconhecimento na Broadway, ironizando um blockbuster. Resultado: 9 indicações ao Oscar 2015

Riggan Thomson (Michael Keaton) é o homem tentando dar conta de ser humano com toda sua mortalidade e mazelas. Para isso, lança mão dos super poderes de Birdman, um personagem do qual não consegue se livrar. Reconhecido pelo que não é, Thomson se enclausura em uma produção da Broadway na tentativa de superar o estigma de sub ator, que carrega. A busca de um sucesso digno faz do personagem de Keaton um avesso à efêmera fama produzida na internet, ao contrário do colega de elenco, Mike Shiner (Edward Norton), que se auto promove e manipula seu sucesso pelo meio virtual custe o que custar. Tudo isso dentro de uma fotografia nervosa, quase que todo o tempo confinado no interior de um teatro e sonoramente incômodo.

A ilusão na técnica de simular planos sem cortes, trazendo à tona grandes diretores como Hitchcock e Sokurov, as cenas grotescas da mediocridade do ator em busca do sucesso, evidenciando quão raso o mercado pode transformar a arte e o artista, fazem de Birdman um filme moderno e questionador. Tais temas nas mãos de qualquer um, facilmente cairiam no lugar comum das bandeiras, porém, Iñarritu transcende a paráfrase ideológica e nos dá as citações como bônus e, como filme, uma história inquieta, angustiante e trepidante.

Birdman talvez esteja entre o “super-homem” de Nietzsche e o “homem extraordinário” de Dostoiévski, um vácuo, distante do cume de um e da capacidade de produzir algo maior para a humanidade, do outro. É cinema que gosta de cinema, um filme contemporâneo, que não se furta ao seu direito de ganhar prêmio.

pele de venus

A Pele de Vênus

“Não, não há ninguém. Não existe! Uma jovem sexy que saiba se expressar, com uma boa formação clássica, com um pouco de cérebro. Que saiba ao menos pronunciar “inextricável” sem fazer um curso de dicção. Hoje elas parecem ter dez anos, mascam chicletes e falam gírias… Não achei nada! Trinta e cinco babacas, uma metade vestida de puta e outra de sapatão (…) Eu me sairia melhor que a maioria delas, poria um vestido, um par de meias e pronto (…)”

São essas palavras na boca de um diretor de teatro que abrem o novo filme de Roman Polanski A Pele de Vênus. Um jogo de submissão num duelo entre personagens – a atriz e o diretor do teatro submetem a atriz e o ator do filme a um embate de gêneros e linguagens.
O cinema e o teatro nas mãos de Polanski embebidos da literatura erótica de Sacher-Masoch, por meio da peça de David Ives. O filme nos coloca diante da luta de poderes na relação entre um homem e uma mulher, mas é somente como fio condutor que o polonês faz uso dos preceitos masoquistas.

Vanda (Emmanuelle Seigner), na pele de Wanda, anuncia gradativamente quais são suas intenções e nos leva com ela. Mais do que interpretar um papel, a atriz quer ser a personagem e para isso ela faz de si uma mulher grosseira, quase débil, interpretando o pior dela para que sua Wanda seja perfeita. Até que Thomas (Mathieu Amalric) seja escravizado por sua arrogância e preso em sua torre de marfim do purismo, somos cúmplices de um acerto de contas e, para isso, todos fazemos parte do jogo, ora somos espectadores num cinema, ora somos plateia num teatro.

Qualquer redução do filme A Pele de Vênus a um manifesto feminista seria simplista demais para o que Polanski nos apresenta. Uma engenhosa manipulação dramática de identidades nos mantém atentos e excitados, guardando expectativas sobre o descerrar das cortinas. O jogo de simulacros de atuações alimenta no espectador a ideia de estar no teatro assistindo um filme, não o contrário. Pois, enquanto a verve textual tenciona toda a dramaticidade da cena, as ferramentas cinematográficas – corte, enquadramento e luz – constroem uma outra realidade possível. A ilusão perfeita.

Toda a história é feita sobre camadas, a mulher que chega como a própria câmera e surpreende o homem que pensa ser o próprio teatro. O roteiro do filme que anuncia a encenação da peça. Uma personagem cinematográfica, uma “pobre mulher” pleiteando uma poderosa personagem teatral. Um diretor de teatro no cinema e um quase homem na peça.

Na força da interpretação de Emmanuelle é possível fantasiar várias possibilidades, até mesmo que a própria Wanda da peça de David Ives venha na pele da truculenta Vanda para colocar o senhor-sabe-tudo, diretor Thomas, no seu devido lugar. Enquanto ele pensa testar a atriz, é a personagem quem decide testá-lo.

Um filme instigante e, dadas as devidas proporções, estimulante, realizando numa dinâmica de atuação um discurso que aponta para o fato de que a luta pelo poder na relação é uma luta vã. E que talvez Masoch teria razão: “[…]a mulher, tal como a natureza criou e como o homem atualmente a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota – jamais a sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho, for igual a ele.”

Que horas

Que Horas Ela Volta?

Há um grande burburinho em torno da repercussão do filme de Anna Muylaert Que horas Ela Volta? Consagrado pela crítica francesa, o filme que estreia nesta quinta 27 de agosto, chega envolto a uma atmosfera de “já ganhou” a tão famigerada indicação ao Oscar.

Ir ao cinema com a fugaz garantia de satisfação por ter lido uma boa crítica me parece já eliminar um grande percentual de entusiasmo do espectador. E se essa crítica é estrangeira, a impressão que se tem é que todos são acometidos por uma espécie de síndrome de “A roupa nova do rei”. Portanto, todo cuidado é pouco.

Ao lançar mão de uma atriz com o apelo popular como o de Regina Casé, somos impulsionados a indagar se a diretora e roteirista Anna Muylaert não praticou um ato puramente estratégico, com o intuito de alcançar um público que iria ao cinema pelo carisma e identificação que muitos brasileiros possuem com a senhora Casé. Mas é claro que garantir público brasileiro nunca garantiu indicação à estatueta nenhuma. Então, essa possibilidade torna-se remota.

E pra não dizer que não falei dos clichês, o filme carrega ainda o “fardo” de ser uma coprodução Globo Filmes. Claro, fardo aos olhos de quem espera um pouco mais de uma produção cinematográfica. E, convencionou-se esperar que o padrão Globo de cinema joga pesado no marketing, mas se mantém na superfície com o desenvolvimento de seu produto.

O filme de Muylaert transcende até certa medida tais especulações, ele nos movimenta de uma forma muito peculiar. O tema abordado – a relação patrões e empregada doméstica – já teve algumas experiências muito bem sucedidas no cinema tanto em documentário, Doméstica (Brasil, 2012), de Gabriel Mascaro, quanto na ficção A Criada (Chile/México, 2013), de Sebastian Silva. Nestas produções, os sinais dessa farsa na convivência entre patrão e empregada doméstica são aos poucos identificados com a presença de um novo olhar. No caso do documentário é a própria câmera que estranhamente adentra o espaço e permite que o cotidiano delate as fragilidades da relação, enquanto na ficção de Sebastian é a limitação da saúde da criada que propicia um movimento estranho para a sua rotina, mostrando qual o seu lugar.

No longa de Anna Muylaert essa construção, ou melhor, essa desconstrução de relação ideal se realiza com as possibilidades cinematográficas tradicionais, com uma narrativa cheia de cenas de afetos espontâneos e desmistificação de uma realidade enrustidamente unilateral, o filme vai dimensionando essa convivência cheia de restrições invisíveis.

Regina Casé empresta a Val uma maternal figura que, contraditoriamente, deixa uma filha em Recife para trabalhar no Rio de Janeiro na casa de uma família classe média, morando no serviço e cuidando do filho dos patrões. Dez anos depois, a filha chega ao Rio para prestar vestibular e morar com a doméstica.

E é dentro dessa possibilidade de narrar uma simples história que Anna destrincha as nuances de uma perversa luta de classes. Ao adentrar o cotidiano daquela família, Jessica (Camila Márdila), tal qual uma intrusa que observa, cria um descompasso numa harmonia construída por uma subserviência passiva que só era possível diante do “dócil corpo” daquela doméstica. E o grande mérito do filme é nos colocar diante de um dilema: rimos da ingênua doméstica que se sente agredida com a invasão da filha à casa dos patrões ou sentimos piedade daquela mulher, que viveu mais de dez anos com uma família que ela ingenuamente acreditou fazer parte?

A personagem Val não recebe de bandeja a consciência de sua condição de oprimida, ela vai se compreendendo como tal, uma espécie de prisioneira daquela servidão, assim como nós espectadores vamos nos dando conta de que ela não é tão engraçada e sim uma tola.

O filme fala da falta da mãe enquanto desvela o cotidiano de uma família que se ampara na figura de uma serviçal maternal e amorosa. O lugar da doméstica é, por meio de uma planta, identificado como o separado, o inferior, o abafado. A imagem do quarto de empregada guarda as proporções de um quartinho de bagulho. Val é mais um objeto que se guarda nele. E é em muitos momentos na imagem da água, um elemento presente durante o filme, que a diretora faz a travessia da condição de doméstica para a condição humana da personagem – o estranhamento, a aflição, a lucidez de si e o nascer para uma individualidade.

Um assunto tão concreto e ao mesmo tempo tão dissimulado pela sociedade faz do filme de Anna Muylaert algo muito complexo, com uma grande necessidade de ser simples. E é por meio da escolha dos atores e de uma boa direção que a história se realiza, é preciso concentrar tudo nas personas, são elas que sentem, sofrem, aprisionam e libertam.

A mostra este ano homenageia alguns nomes do cinema e tv que faleceram em 2015, a atriz Marilia Pera, a cineasta Chantal Akerman e também o diretor de televisão Carlos Manga.

Além dos filmes, serão realizadas mesas de debates com críticos, cineastas, atrizes e roteiristas.

Na pior das hipóteses, é uma chance de ver o que você não conseguiu assistir em 2015, mesmo que o seu melhor filme do ano não esteja na seleção. Os ingressos custam R$4 reais e meia entrada R$2 reais. É só chegar com 1h de antecedência e aproveitar para conferir o restante da programação do CCBB, ou tomar um cafezinho, que certamente será mais caro do que o ingresso.

Veja programação completa:

http://culturabancodobrasil.com.br/portal/os-melhores-filmes-ano-2015/

Mostra Kusturica: Caixa Cultural RJ entre 6 e 17 de janeiro. Será a maior retrospectiva na América Latina da obra do diretor sérvio Emir Kusturica.

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O cineasta tem em sua trajetória uma coleção de prêmios e participações nos principais festivais de cinema do mundo graças a sua obra que, segundo a curadoria, trata de “temas relacionados a família e as relações interpessoais durante crises políticas e econômicas”. Kusturica é vencedor de duas Palmas de Ouro, um prêmio de Melhor Diretor em Cannes, um Leão de Ouro e outro de Prata em Veneza e um Urso de Prata em Berlim.

Na Mostra serão exibidos 13 filmes: 10 longas dirigidos pelo diretor (em dois deles Kusturica é ator), um documentário sobre a sua vida e obra intitulado “Kusturica: Balkan’s Bad Boy” (Direção e Roteiro Georgi Toshev e Yavor Vesselinov; 2012, Bulgária).

No dia 9 de janeiro às 14h haverá também uma exibição comentada do filme “Underground – mentiras de guerra” (Kusturica, 1995), vencedor da Palma de Ouro e Melhor Filme no Festival de Cannes, com a participação da pesquisadora e professora  Andréa França.

Outra atração será o debate que acontecerá no dia 14 de janeiro com a presença da curadora Fernanda Teixeira, do critico de cinema Leonardo Luiz Ferreira e do roteirista Sylvio Gonçalvez.

Para o público brasileiro/carioca é uma oportunidade impar de conferir uma obra que alinhava as questões políticas de um lugar com os modos como os sujeitos se inserem nestes processos de mudança, algo que vem a calhar numa Cidade Maravilhosa prestes à receber as Olimpíadas mas em meio há uma crise econômica que atinge saúde e educação principalmente. Talvez uma dica de como a arte pode olhar a realidade, sem perder o lirismo. Vale a pena conferir!

Quanto custa? R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia), além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia. Tá bom pra você?

Serviço

Mostra KUSTURICA

Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Cinemas  1

Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô: Estação Carioca)

Telefone: (21) 3980-3815

Data:  6 a 17 de janeiro de 2016 (terça-feira a domingo)

Programaçãohttps://www.facebook.com/kusturica/

Ingressos: R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.

Lotação: cinema 1 – 78 lugares  (mais 3 para cadeirantes);

Bilheteria:  terça-feira a domingo, das 10h às 20h

Classificação Indicativa: Consultar Programação

Acesso para pessoas com deficiência

Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal

 

 

 

 

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