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O Cavalo de Turim – Béla Tarr fotografa a existência

Por: Fabiana Melo Sousa

 

cavalo Turim 1

Todo agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo o que é orgânico requer não somente luz, mas também escuro. Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante aquele que se forçasse a abster-se de dormir, ou ao animal que tivesse de sobreviver apenas da ruminação e ruminação repetida. Portanto: é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível, sem esquecimento, simplesmente viver. Ou, para explicar-me ainda mais simplesmente sobre meu tema: há uma grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização.

                                                                                                                     

NIETZSCHE. “Da utilidade e desvantagem da história para a vida”. In Considerações extemporâneas.

 

 

O cavalo de Turim, o último longa do cineasta Bela Tarr pode enganar um expectador desavisado. É um filme que parece falar de Nietzsche, parece mostrar a vida de um cavalo e parece retratar o cotidiano que se repete de uma família que espera passivamente a passagem de uma tempestade e é exatamente no que ele aparenta ser que reside a força deste filme.

 

Os três personagens principais – o filósofo, o cavalo e o cocheiro – se encontram em um evento “fora” do filme: no dia 3 de janeiro de 1889, em Turim, Friedrich Nietzsche se aproxima de um cavalo que estava sendo açoitado por seu cocheiro, abraça o animal, soluça em silêncio e depois de ser levado para casa ele se mantém em calado. Suas últimas palavras são “mãe, eu sou um idiota” e assim o alemão vive passivamente até a sua morte, dez anos depois: em silêncio.

 

Cavalo e cocheiro por sua vez seguem juntos, primeiro num longo plano sequência do animal que puxa a carroça e seu dono, sobe morro e chegam num velho estábulo. Ali começa uma coreografia, onde todas as ações são exaustivamente sincronizadas, numa rotina que parece ser calculada mas que por vezes também pode ser apenas a expressão de que daquela vida nada se espera, tudo é previsível.

 

O cocheiro e sua filha seguem rotineiramente trocando suas roupas, cozinhando batatas, almoçando, organizando, descansando. E assim os próximos cinco dias são vividos até que a tempestade vá embora, mas o vento não cessa. Aos poucos o cavalo adoece, a água acaba, o combustível para a lamparina chega ao fim… Só então é que nos damos conta de que a vida não se repete, que cada dia é um, por mais que os gestos e toda coreografia se repetiam, o tempo era outro.

 cavalo Turim 3

Dessa vez somos nós, expectadores, que precisamos nos entregar e pactuar de que há algo de novo naquela repetição, em toda a descrição calculada da câmera que contempla as ações dos personagens. Aqueles sujeitos, dos quais nada sabemos sobre eles, passam a nos interessar.

 

Bela Tarr não se cansa de ruminar com suas longas sequências: a câmera revela o cocheiro e sua filha – ele come com ferocidade, queimando-se ao destrinchar uma enorme batata quente como se fosse um frango, com apenas uma mão; num ritual diário troca de roupa ao deitar-se e levantar-se. Ela troca a roupa do pai, cozinha batatas, come silenciosamente e em alguns instantes o próprio cavalo, que não come e permanece em silêncio no estábulo.

 

Enquanto o ruminar dos seus personagens surgem quando as ações cotidianas são interrompidas e a jovem e o cocheiro sentam de frente a pequena janela e observam alguma coisa no exterior da casa, cada um em seu tempo e em momentos diferentes. O que pensam? O que observam?

cavalo Turim 2

 

E assim seguem os dias, não há nada o que dizer a não ser esperar que algo aconteça. Qual sentido? Diante do insistente ruído do vento que na sua constância já se faz imagem a previsível rotina é então interrompida – um padre em busca de aguardente e um dedo de prosa“é sobre o julgamento do homem, seu próprio julgamento, no qual certamente Deus está envolvido” e um bando de ciganos reclamando a água do poço, deixando para jovem uma bíblia, ambos trazem aos personagens palavras. A fome passa a rondar aquele casebre junto dela o medo da morte. De repente aquele inóspito rancho que parecia ser suficientemente precário ainda apresentaria seus piores dias.

 

Mesmo o homem, mesmo os ciganos que amaldiçoam os donos do poço que lhes negam água, parecem não adiantar para desgarrar o velho e a jovem daquela vida, a esperança só se revela num abrupto esforço de abandonar o local, em vão, pois o cavalo de Turim já não possui forças para caminhar.

 

E assim, Bela Tarr devolve para nós muitas perguntas, não mais sobre Nietzsche, o cocheiro ou o cavalo, mas sobre nós. Somos atravessados por uma vida que parece não ter sentido: qual sentido tem a vida? É preciso comer, trocar de roupas, acender o fogo, olhar pela janela, dormir, seguir em frente.

 

O cineasta defende uma arte que pode nos impulsionar para um futuro, assim como Nietzsche sugere. Parece ser um cineasta que nos remete a um cinema do passado, que não tem mais sentido em tempos atuais. Só parece, pois ele exige de nós um eterno ruminar. 

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2 Comentários

Comentários:

  • Lentamente, vamos ruminando a existência cotidiana, exaltando o melhores momentos e lamentando os dias de maior dificuldade. Qual o sentido da vida?

    Gilson

    17 de janeiro de 2016 às 07:44

  • Gostei do assunto, legal a matéria.

    Naira

    20 de janeiro de 2016 às 19:32

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