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A garota Dinamarquesa

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Por: Fabiana Melo Sousa

“A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl, 2015)  se insere na linha dos últimos filmes de Hollywood que estão com um olho no Oscar e o outro nas transformações da sociedade. Para isso, traz uma adaptação romantizada de uma historia que é pouco conhecida, ou era até então, mas que na atualidade dialoga diretamente com a luta dos movimentos LGBTs no mundo. E esse é o valor deste filme.

O anseio pela estatueta limita o filme para uma narrativa romantizada, mesmo que em alguns momentos sintamos algum respiro poético, a exemplo da belíssima cena num bastidor de teatro quando em meio aos figurinos de balé, o personagem Einar Wegener, interpretado por Eddie Redmayne, observa com admiração o seu corpo nu na possibilidade de ser Lili Elbe – não mais apenas vestir roupas femininas mas dispor seu corpo para transformar-se em mulher.

Para contar a transformação de um promissor pintor dinamarquês em uma delicada garota que sonhava em ser mãe e casar com um bom homem, o longa mantém uma narrativa bastante clássica e quase romantiza a vida de Lili, que de romântica não teve nada. Assim, a adaptação deixa afrouxar os dados biográficos da verdadeira história, uma vez que o filme se inspira no romance literário escrito há 18 anos, por David Ebershoff.
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O fato é que o livro e agora o filme tiveram um relevante papel de trazer à tona a história destas mulheres que foram precursoras de uma vida nada convencional. Primeiro, valoriza a pintora Gerda Wegener, que na vida “real” era bissexual e retrata em sua obra a sensualidade feminina. Mesmo depois do seu então marido Einar assumir que queria ser Lili, Gerda foi a maior apoiadora de sua causa: a mudança de sexo, demonstrando uma atitude pioneira tanto na sociedade, quanto na medicina, que precisou de muita luta para abrir caminhos nos estudos de gênero. E evidente, por trazer parte da trajetória de Lili Elbe que desde sempre soube que era uma mulher aprisionada num corpo masculino e aventurou-se em sua única chance de concretizar sua condição, infelizmente sem sucesso, levando-a à morte em 1931, após uma tentativa de inserção de um útero.

Mas a maior relevância deste filme para a sociedade é que ele revela muito da nossa desinformação sobre a pessoa transgênera. O que ela pensa? Quais as diferenças entre uma pessoa nestas condições e a homossexualidade? Porque Lili, com toda a sua história de transgressão, tinha como maior desejo ser esposa, mãe e ter um lar, reproduzindo o papel social já contestado em sua época, mesmo por Gerda, sua esposa?

Talvez, mais do que um problema biográfico do filme, esta lacuna esteja em nossos preconceitos e desinformações, e por isso, das muitas análises que li, fico com a da cartunista Laerte, que consegue perceber em sua trajetória individual pontos de encontro com o filme, como o relato sobre o seu processo de descoberta, relacionando com a trajetória de Lili.

Se Laerte, com sua experiência em vida, percebe algo de importante no filme, acho que devemos prestar atenção, pois diferente da época em que Lili Elbe esteve entre nós, hoje é possível uma abertura ao diálogo e também que se criem referências na arte, ciência e na política para que estas trajetórias deixem de ser solitárias.

Por outro lado, se o longa ficção deixa algumas lacunas, deixo a dica do incrível documentário “Arrependidos” (Angrarna; Regretters. 2010) onde Orlando e Mikael contam como é a vida depois que ambos passaram pela cirurgia de mudança de sexo mas anos depois se arrependeram. A importância deste filme é deixar que os entrevistados contem eles mesmos as suas histórias. O diretor Marcus Lindeen permite que saibamos um pouco mais dos anseios em torno de uma vida que se permite fugir do binarismo homem/mulher, para além da teoria.

Está na hora de escutar mais e falar menos, talvez só assim a palavra diversidade tome seu verdadeiro sentido, quando deixarmos de dialogar entre nós mesmos.

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Boi Neon – Melhor do que carnaval

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 E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
C. Veloso

Assim como a vida, o cinema a toda hora nos impele um olhar mais generoso para o mundo. Desprega nossos pés do chão e nos leva a uma multiplicidade de perspectivas do outro que só o movimento é capaz. Gabriel Mascaro faz do universo da vaquejada o cenário perfeito para discutir a beleza. Boi Neon explode com os estereótipos sem um vidro de perfume se quer, apesar de seu protagonista apreciar fragrâncias sofisticadas. Enquanto o espectador sai do cinema cheirando a estábulos e seus bois e cavalos. Eu disse cheirando e não fedendo!

O realismo e o naturalismo característicos nos filmes pernambucanos não caem no lugar comum do exótico olhar sobre o Nordeste. O filme se apropria de uma geografia muito mais existencial do que espacial. Um lugar que, hoje mais do que nunca, está na pessoa e sua “performance”, muito bem representada na atuação de Maeve Jinkings, tornando orgânica a condição de mais um mamífero.

O desejo, a função mais natural no filme, aparece no roteiro como o é de fato – uma necessidade fisiológica que imprime nas cenas de sexo uma decisão espontânea dos corpos.

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A mulher é colocada num lugar interessante no filme de Mascaro, por um triz não se ergue uma bandeira, salvo pelas atuações e por um roteiro muito mais fotográfico. Durante toda projeção, quando tudo parece ir “muito bem” o boi é derrubado violentamente ao chão, puxado pelo rabo. Ao mesmo tempo que o pelo grosso dos animais é excessivamente acarinhado. Imagens de vida. Assim como o boi é derrubado pelo rabo, o falocentrismo é abatido pela vigilante prenha, quando um bem dotado Juliano Cazarré oferece, fatigado à lente, o seu rabo.

O lugar daqueles corpos que poderia nos surpreender por suas funções trocadas, nos conforta, discursando sobre um cotidiano, quando o não-rótulo dos afazeres do gênero é um simples ato de exercitar o peito muito mais que o olhar. Nos estragamos de dentro pra fora e é de dentro pra fora que devemos nos arejar.

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Como ia dizendo o filme de Gabriel Mascavo quer falar de beleza e, para tanto, ele escolheu um lugar onde homem, mulher e bicho contracenam com suas sinas e a força está em procriar novas sinas.

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