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O Regresso

 

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“Somos Todos Selvagens”

 

Por que alguns filmes são bons mas não agradam? Alejandro González Iñárritu dificilmente perde a viagem com suas produções. Em seus filmes não faltam o bom cinema e uma boa reflexão. Em O Regresso (The Revenant), seu último trabalho, conta a saga do explorador  Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) que volta de sua quase morte em uma situação inóspita, onde o corpo é um fardo e o espírito o guia, vivendo em um estado de consciência agudo na vingança, que funciona como combustível ou anti-inflamatório.

Até aí nenhuma novidade, uma narrativa que move seu herói por meio de uma vingança que em alguns momentos no filme fez parecer que Iñarritu havia pesado a mão no gênero, tamanhas eram as cenas e os discursos clichês. Porém, sua mira fotográfica muito bem conduzida pelo seu competente fotógrafo Emmanuel Lubezki, que levou mais um Oscar este ano, acaba por redimi-lo das nossas lembranças macabras ou da vergonha alheia deste tipo de produção.

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Com imagens que mais parecem palavras desenhadas, construindo sequências que nos propõem leituras, nos enchendo a alma de satisfação de narrativa, O Regresso nos mantém ligados tanto no discurso fílmico quanto no cinematográfico. Fato que nos faz compreender que o áudio visual, assim como a literatura são passíveis de leitura e, quanto mais o diretor souber escrever, mais o espectador precisa saber ler. A beleza dos filmes de Iñarritu reside no discurso e esse, por sua vez, se alimenta dos planos que ele propõe para construir sua ficção, por mais que ela tenha sua origem na realidade.

Assim, como bem diz Antônio Candido a respeito da literatura e outras modalidades que se servem da narrativa –  uma espécie de necessidade universal de ficção e de fantasia, que de certo é coextensiva ao homem, pois aparece invariavelmente em sua vida, como indivíduo e como grupo, ao lado da satisfação das necessidades mais elementares. E isto ocorre no primitivo e no civilizado, na criança e no adulto, no instruído e no analfabeto -, Alejandro González Iñárritu lança mão dessa avidez de produzir suas histórias certo da necessidade do homem de assisti-las. No entanto, não basta para o diretor que essa prévia função comunicativa exista, a sua fruição não se cansa do exercício do olhar, o seu filme é cinema e se sustenta no que a linguagem tem de mais evidente, a imagem. A imagem sob ou sobre alguma coisa.

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O filme com uma história comum, um herói comum e uma  narrativa linear não está nem um pouco interessado em romper ou inaugurar nenhum movimento cinematográfico. É exatamente na trajetoria de Gass que as possibilidades técnico-narrativas se realizam no espectador. Os planos e os encontros poéticos ou ideológicos assumem uma relação paralela do espectador com a obra. O índio fazendo seu acerto de contas com o homem branco, o homem branco fazendo seu acerto de contas com o homem mais branco e, nesse sentido, a identidade do selvagem vai sendo construída num cenário natural.
A palavra vida ganha dimensões muito mais complexas e amplas nas montanhas do norte dos Estados Unidos. Tudo se move, tudo interage com tudo. Os sentimentos são gelados e o desejo parece ser objetivo. Como se cada um carregasse um segredo e sua própria sede de vingança. Quando a história peca, uma cena salva o momento – é um cinema de contribuições entre forma e conteúdo. O duelo entre o urso e Gass mostra a sede de vingança da natureza aclamada no discurso de Leonardo DiCaprio na entrega do Oscar. O duelo em outra cena muitíssimo pertinente, que empresta ao filme uma belíssima referência cinematográfica e histórica, ensaia um outro acerto de contas entre os índios e brancos, uma sequência que nada deixa a desejar aos grandes Westerns.

O Regresso pode, apesar de seus predicados, ser um filme que não agrade muita gente, seja por ser um gênero datado em algumas interpretações ou por sua silenciosa dependência do espectador. No entanto, dificilmente escapamos de sua armadilha ficcional, uma habilidade sem igual de Iñarritu de alimentar com fantasia o bicho homem.

Pode até ser que o mexicano Alejandro González Iñárritu esteja ficando americanizado, com burro do dinheiro e que está muito rico, como gostam de cutucar alguns, mas seus filmes não pedem licença ao tio Sam para fazer ficção de sua História e ganhar o Oscar por isso. Além dos prêmios pelo seu filme, Iñarritu consegue um feito que nenhum outro diretor hollywoodiano conseguiu, deu o primeiro Oscar ao senhor Di Caprio.

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