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MOSTRA IMAGENS E COMPLEXOS – foi dada a largada

 

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A Mostra Imagens e Complexos não poderia ter iniciado de outra forma. Na tarde de ontem os filmes que compunham a sessão Mulheres na direção e Complexos deram o tom da abertura. Produções como Favela que me viu Crescer de Paula Morena, Preto, Favelado, Escravo, Fujão de Ariana Malagrida, Alemão em f/5.6 de Aline Portugal, Rosilene Faria e Esqueça por enquanto de Priscila Gomes trouxeram temáticas diversificadas, trabalhadas a partir de um olhar feminino atravessados pelas vivências e experiências de favelas.

Esta intercessão – favela/gênero foi percebida durante o processo da curadoria da Mostra. Dos filmes inscritos, muitos eram produções de mulheres, o que nos apontou para uma reflexão possível sobre a visibilidade da participação da mulher no universo do audiovisual, que ainda reflete essa diferença de gênero da sociedade como um todo.

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Na mesa de discussão que aconteceu após os filmes, com mediação de Fabiana Melo Sousa e a participação das diretoras Priscila Gomes, Ariana Malagrida, e a produtora de Favela que me viu Crescer,  Mariluci Nascimento, foi possível dialogar com os temas que giraram em torno da mulher no audiovisual, suas angustias num meio ainda protagonizado por homens, tanto técnica quanto discursivamente. Além disso, outro assunto recorrente no que tange à produção de filmes nas favelas foi a questão orçamentária, para as debatedoras a dificuldade de realização de filmes e a realidade do cineasta da favela se intensifica com a falta de acesso a outras necessidades. “Ganhamos um edital e só recebemos a verba dois anos depois. Investimos em equipamentos para uso coletivo (que são utilizados ainda nas nossas produções) e cada integrante da equipe ganhou R$ 100,00 por mês pra produzir o Favela que me viu crescer. Levamos quase dois anos nessa produção.” Contou Mariluci.

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O debate alcançou a atmosfera poética dos filmes exibidos, aquelas senhoras e sua força num contar a história de um lugar com beleza e entusiasmo em Favela que Me Viu Crescer, a mãe e a perda de tantas mães representadas em Preto, Favelado Escravo, Fujão, a história de um homem e seus pensamentos sobre o que é viver e registrar uma favela e sua gente, em Alemão em f/5.6 e o corajoso exercício cinematográfico ficcional em Esqueça por Enquanto.

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Momentos marcantes compuseram a primeira mesa de debates da Mostra, como Ariana dizendo, emocionada, que era a primeira vez que via seu filme em uma tela grande ou quando Priscila contou com entusiasmo que seu roteiro nasceu nos objetos, um exemplo perfeito do que é trabalhar na adversidade, ou ainda quando Mariluci leu uma carta da diretora Paula Morena, justificando sua ausência:

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“O Favela Que Me Viu Crescer envolveu muitas pessoas e conexões, desenharam a primeira mesa da Mostra de Filmes Imagens e Complexos. É até clichê falar, porque qualquer pessoa sabe que um filme não se faz estando sozinho. São muitas mãos e mentes pensantes que ajudam a empreender a produção e erguer o filme. Este foi o meu primeiro filme e, sobretudo, um documentário desenhado numa expectativa de construção a­centrada, dialógica e horizontal desde a sua idealização até realizá­lo. Claro que sempre primando pelo respeito às qualidades importantes do olhar determinante de cada setor que compõe a produção de um filme. Trabalhar com esse espírito não foi/é/será tarefa fácil. O desempenho levando tudo isso em consideração exige sempre ação­/reflexão em todos os processos, conforme nos ensinou o grande educador, Paulo Freire.” (Trecho da carta de Paula Morena, diretora do filme Favela que me viu crescer).

Bem, isso foi só o inicio de um processo que ainda tem muito o que dizer. O cinema como fio condutor de pessoas que se propõem a dialogar com essa cidade que anda precisando tanto de imagens que falam, sentem e vibram com suas histórias.

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MOSTRA DE FILMES IMAGENS E COMPLEXOS

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Às portas do Festival do Rio 2016, tenho o prazer de anunciar a programação de uma Mostra que se faz necessária para o universo de produções do audiovisual Carioca. Um evento no subúrbio do Rio, que aponta para uma reflexão sobre um cinema dentre tantos olhares que esta cidade possui: o cinema produzido na favela.

Com um pouco mais de um mês de inscrições abertas, a Mostra Imagens e Complexos recebeu mais de 60 produções. A curadoria selecionou 30 filmes que serão exibidos no decorrer de quatro dias. De 29 de setembro a 02 de outubro no Cine Teatro Eduardo Coutinho, em Manguinhos, RJ.

Este blog tem muito orgulho em ser parceiro desse projeto e fazer parte da curadoria da Mostra, juntamente com Glória Coutinho, Renato Tutsis e as coordenadoras Fabiana Melo Sousa e Ludmila Oliveira. Um evento que, ao contrário do que possa parecer, não está preocupado com uma “parcela da cidade”,  mas com o todo do Rio de Janeiro. O quão importante é identificar na diversidade de olhares o quanto há de cinema e de cidade ainda por ver.

A lista dos selecionados demonstra que não há um filme de favela e um de outro lugar, há a diferença. A linguagem cinematográfica se faz cada vez mais presente, facilitada pelos meios tecnológicos. O que se torna cada vez mais natural o expressar-se no audiovisual. A Mostra de Filmes Imagens e Complexos é uma das formas da favela se manifestar artística e politicamente, não estamos ‘dando voz’ mas amplificando produções audiovisuais de diferentes formatos e estilos – ressalta Ludmila, uma das coordenadoras da Mostra.

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Dentro da proposta do projeto, um outro resultado, além das exibições dos filmes, fóruns e debates, será o catálogo que, com lançamento em data posterior ao da Mostra, trará os registros dos inscritos e seus processos. A publicação visa catalogar as produções, os produtores e suas respectivas favelas e, ainda, refletir acerca da temática audiovisual e favela. Como explica a coordenadora Fabiana: Embora exista um cenário que aponte para uma diversidade de linguagens e temas de produções audiovisuais faveladas, percebemos que a maioria destas obras não são conhecidas, uma vez que tem dificuldade de entrar nos circuitos de mostras de filmes da Cidade. E mesmo quando estão na internet, elas ficam perdidas, sem muita visibilidade. Acreditamos que o catalogo é uma forma de documentar estas iniciativas e ao mesmo tempo mapear os grupos, indivíduos e localidades aonde se encontram estas pessoas, ao mesmo tempo, é a oportunidade de lançar um debate sobre quais são os anseios e desafios vividos por estes sujeitos que vivem nas favelas e produzem suas imagens e discursos sobre os mais variados temas, mesmo que estes não sejam exatamente sobre as favelas. Acreditamos que o audiovisual, e suas mais variadas expressões, são uma importante instância mediadora entre estas pessoas e o mundo, forjando novos discursos sobre o cinema e sobre a própria cidade, melhor ainda, complexificando o atual cenário de produções de imagens sobre as favelas cariocas.

Entre documentário, ficção e videoclipe, a Mostra terá em sua edição um pouco desse universo de produção que, mesmo à margem de uma convenção cinematográfica, realiza seus projetos visuais. Dentre as produções, estão filmes da Rocinha, Jacarezinho, Complexo do Alemão, Maré e outras favelas do Rio de Janeiro.

PROGRAMAÇÃO

Quinta- Feira 29/09

14h – Mulheres na Direção e Complexos – Sessão I

Favela que me viu crescer (Documentário / 2014/2015 – 15’30”)
Direção: Paula Morena

Preto, Favelado. Escravo, Fujão (Ficção / 2015 – 13’39″)
Direção: Ariana Malagrida

Alemão em f/5.6 (Experimental 2014 – 15’55”)
Direção: Aline Portugal e Rosilene Faria

Esqueça por enquanto (Ficção / 2015 –  7’37”)
Direção: Priscila Gomes

Debate com as realizadoras

17h – O olhar de dentro pra fora e Complexos

Forró do Parque União – A Praça do Forró (Documentário / 2013 –14’24”)
Direção: Renato Oliveira

TV Morrinho (Documentário / 2013 – 11′)
Direção: Chico Serra

Quem São os Makers da Favela? (Documentário / 2016 – 10’35”)
Direção: GatoMÍDIA

9 Centros (Documentário / 2015 – 36’57”)
Direção: Igor Souza, Iury de Carvalho Lobo e Karla Suarez

Sexta-feira 30/09

14h – Poesias e Complexos

Rimadores (Videoclipe / 2016 – 4′)
Direção: Ivan Viana

Lá do Alto (Ficção / 2015 –8′)
Direção: Luciano Vidigal

Transcrição (Ficção 2016 – 5′)
Direção: Iury de Carvalho Lobo e Felipe Dutra

Roda Viva (Documentário Experimental / 2015 – Duração 1’12”)
Direção: Bira Carvalho e Iury de Carvalho Lobo

Alma Boêmia – Morro dos Prazeres (Videoclipe / 2015 – 4’18”)
Direção: Renato Oliveira

16h – Meio Ambiente e Complexos

Olhares da Misericórdia – A serra que atravessa gerações (Documentário / 2015 – 16’38”)
Direção: Álvaro Vinicius

Teto Verde (Documentário / 2015 – 16”)
Direção: Hip Hop Sanduba – Cinemão

A Fonte (Documentário / 2015 – 9’44”)
Direção: Flávio Pé e Flávio Carvalho

Chapéu-Mangueira e Babilônia- A favela vai descer (Documentário – 2016 – 6’58”)
Direção: Girasol Comunicações

Debate com Realizadores

18h – Mulheres na direção e Complexos – Sessão II

Do luto pra luta (Documentário / 2016 – 15’26”)
Direção: Natália Santana

Na Maré da Copa (Documentário / 2015 – 28’57)
Direção: Miriane Peregrino

19h – Fórum dos realizadores

Sábado 01/10

16h – Ficções e Complexos

A mão que balança o bolso (Ficção / 2012 – 457”)
Direção: Renato Oliveira

A mulher do latão (Ficção /2012 – 625”)
Direção: Robespierre Avila Azevedo

Pode me chamar de companheiro (Ficção / 2015 – 6’11”)
Direção:Felipe Dutra

17h – Releituras e Complexos

Visita (Documentário / 2015 – 26′)
Direção:André Sandino Costa

Beco dos Pancados (Experimental / 2015 – 12′)
Direção: Coletiva

18h – Apresentação dos Curtas das Oficinas de Cinema do Cine Manguinhos

Domingo 02/10

17h – Moradia e Complexos

Memórias do Preventório (Documentário / 2003 – 11′)
Direção: Luciano Simplício

Teixeira Ribeiro – Identidade de Um Todo (Documentário Experimental – 1′)
Direção: Iury de Carvalho Lobo

Santa Marta, uma santa Favelada (Documentário / 2013 –12’22”)
Direção: Marlon Silva Da Costa

18h – O real, o simbólico e Complexos

Em busca da Folia (Documentário / 2014 – 6’8”)
Direção: Girasol Comunicações

Um Lobisomem no Santa Marta (Ficção / 2015 – 7’56”)
Direção:Robespierre Avila

A águia que cospe bala (Documentário Experimental Realista / 2014 – 3’4”)
Direção: Girasol Comunicações

18h30min – Encerramento

 

 

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Mate-me Por Favor – ótima estreia

Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
Se o destino adjudicar, esse amor poderá ser capaz,
gatinha.
Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo
mais.
Claudinho e Buchecha

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Por: Fabiana Melo Sousa*

(Texto produzido e postado acerca do Festival de Rio 2015)

A juventude branca e de classe média brasileira é comumente lembrada pelos conflitos pueris e repetitivos de séries de TVs que muitas vezes resumem a adolescência a pouco mais de seis questões (namoro, vestibular, sexo, gravidez na adolescência, preconceito racial, bullying ), no entanto, o filme  Mate-me, por favor, longa-metragem de estréia da cineasta Anita Rocha da Silveira, aponta para algo mais complexo. São adolescentes que parecem viver num mundo à parte, sem intermédio dos pais e tampouco se preparando para as responsabilidades da chegada “da vida adulta”.

O longa retrata o cotidiano de um grupo de jovens que moram, estudam, dançam e “evangelizam” na Barra da Tijuca, mas que se vêem cercadas por uma série de assassinatos de meninas. As atrizes Valentina Herszage (Bia), Mari Oliveira (Mariana), Júlia Roliz (Michele) e Dora Freind (Renata) emprestam seus corpos, linguagem e olhares para interpretarem as amigas inseparáveis que, em meio aos outros corpos brutalmente ceifados, desejam mais do que tudo namorar e transar.

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O corpo destes jovens, os vivos, os mortos e os quase-vivos são uma marca muito interessante, chamando atenção de que nenhum corpo adulto aparece durante toda a trama. Os corpos femininos são lindamente retratados num misto de uma sensualidade ingênua, mas ao mesmo tempo protagonistas de suas vidas quando se lançam ao sexo sem aquela antiga questão da “virgindade”. Os tempos são outros, ainda bem.

Elas vivem suas vidas enquanto seus pais saem para trabalhar e namorar, deixando dinheiro, macarrão instantâneo e a ilusão da segurança das grades dos condomínios, na certeza de que suas filhas e filhos estão protegidos. Cada adolescente vive seus próprios conflitos internos, mediando seus desejos e vontades diante da vida, mas, também compartilham fotos e noticias dos crimes que acontecem em terrenos baldios ao lado de seus apartamentos. Talvez por isso, agarrem com unhas e dentes oportunidades no presente e amem, para depois “orar ao senhor” no culto evangélico que adapta o louvor para o funk, guardando, ainda, um pequeno resquício da infância quando se amedrontam com a antiga lenda urbana da mulher de branco no banheiro (um banheiro que serve pra tudo, inclusive para “pegação”).

O funk é um elemento extremamente interessante para a juventude carioca e amplamente retratado no filme em suas diversas vertentes. Separados pelos estigmas sociais entre as favelas e o “asfalto”, mas culturalmente unidas por esta expressão cultural tipicamente carioca, os adolescentes embalam suas rotinas com este ritmo. Claudinho e Buchecha são talvez os maiores expoentes deste gênero, junto com outros, e que por sua vez, também tiveram um final trágico quando em 2002, Claudinho morre num terrível acidente de carro, quase uma premonição da canção que ficou famosa com o verso “… Buchecha sem Claudinho sou eu assim sem você…”.

E por falar em funk e tragédia, ambos se encontram num caso citado no filme que foi o assassinato de Daniela Perez em 1992 (dez anos antes de Claudinho). Pra mim, que era adolescente funkeira e favelada nos anos 90, foi impossível não recordar do “Rap da Daniela” dos MCs Maskote e Neném. Quem não conhece, segue o link.

O longa-metragem traz soluções muito interessantes que dão força ao suspense, com uma direção de elenco cuidadosa, tirando o melhor de cada uma das meninas que se doaram ao papel (todas em conjunto ganharam o prêmio de “Melhor Interpretação” pela crítica independente italiana no Festival de Veneza deste ano). Destaque também para a mistura de linguagens como a inserção de clipes de dança e a maquiagem. Toda a responsabilidade de uma direção feminina e atenta às questões da atualidade, acompanhando o atual momento em que as mulheres estão muito presentes como diretoras em projetos bem sucedidos.

É um respiro em meio a tantos filmes que só abordam a violência nas favelas, como se somente ali a barbárie estivesse presente, ou as comédias de riso frouxo que não nos levam a lugar nenhum, muitas vezes nem ao riso. O filme, ao contrário, leva para o riso, mas mantém a melancolia que é muitas vezes esquecida pelos olhares adultos, que acreditam que os adolescentes vivem em constante êxtase, sempre a procura de uma festinha.

Espero que “Nosso Sonho” de um cinema brasileiro capaz de olhar para uma vida mais interessante do que a representada no mercado se torne realidade, e “se o destino adjudicar” nosso cinema será capaz, “gatinhaaaaaaa”.

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Sinopse:
Na região da Barra da Tijuca um grupo de adolescente tem suas rotinas transformadas a partir de uma série de assassinatos que começam a acontecer na região. O medo e ao mesmo tempo o fascínio pela morte passam a ser uma constante na vida dessas meninas.

Direção: Anita Rocha da Silveira

Ano: 2015

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e também em filosofia pela UNIRIO.

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Aquarius, primeiramente

“Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…”

(Taiguara)

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Dentro de uma narrativa prosaica, o filme Aquarius, de Cleber Mendonça, se realiza enquanto obra poética e lancinante. Ao fazer uso do mais comum de um cotidiano, nos encontramos diante de uma vida simples cada vez mais cara. Esse contemporâneo viver atrelado ao conceito de qualidade de vida é reservado a poucos.

Aquarius está repleto de som ao redor, e é dentro de um estilo sofisticado de falar do mundo, de seu mundo, que Cleber Mendonça reafirma sua sede de fazer um cinema dialógico. Nessa concepção de apontar sua câmera com uma lente que discursa, apoiada em um roteiro que tem nas palavras os benditos diálogos, anunciando maldições, que pode ser em Boa Viagem, no Recife, em Pernambuco, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, que o autor de Aquarius filma pra falar.

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Como ousas senhor Cleber Mendonça colocar em cena uma mulher velha, sem mama e tão fabulosa?! Sonia Braga serena é um vulcão prestes a explodir. Seu desempenho nos faz querer morar naquela casa, fazer-lhe um sexo oral, lutar por dias melhores. Sua performance anuncia um tempo Hoje, bem marcado pela música de Taiguara, mas destilando também um tempo vivido no corpo, na história de suas coisas, que a mantém viva e sonora. Em tempos em que a palavra de ordem é o desapego, Aquarius se apega a própria historia para se manter fiel ao sentido.

O filme nos acompanha após os créditos finais, as músicas que constituem a personagem reivindicam o direito à poesia de viver. A classe média, incomodada em uma zona de conforto, é convidada a dar lugar a novas classes e novos confortos. A casa e o aconchego da protagonista são quase um acinte. Uma remoção pra quem pode. Pra quem pode se defender.

 

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Mãe Só Há Uma – em tempo

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Do título aos créditos finais, o filme de Anna Muylaert nos propõe um caminhar simples por uma história cheia de sentido. Um cinema disposto a discutir a linguagem e o ser humano, apostando no enquanto a diretora tira o foco de um núcleo narrativo comum e demonstra, por meio dos silêncios dos acontecimentos, que a vida é o que não vivemos, também.

Mãe Só Há Uma encontra numa historia real seu argumento, mas o roteiro frutifica a história e expõe a complexa dimensão que um acontecimento pode desencadear nos restos de historias que nos são impostas. Em Mãe Só Há Uma a diretora e roteirista toca em questões de comportamento e aceitação, exercitando seu olhar para além de um mundo heteronormativo e convencional, que muitas vezes se acha dono do sentido da vida e da família.

Ao relatar de forma subjetiva o sequestro, assunto no filme que só identificamos junto com a vítima, ela nos coloca diante dos dilemas enfrentados pelo personagem que cai de pára-quedas dentro de uma família e que, mais do que impor uma forma de ser socialmente aceito dentro daquele núcleo familiar, impõe também seu amor.

Anna Muylaert aposta na complexidade humana para lançar mão de assuntos e incômodos contemporâneos. A identidade do jovem Pierre (Naomi Nero) é clandestina também para a família que ele achava ser a sua verdadeira. Esse jogo da descoberta de quem eu não sou, acaba por proporcionar ao Felipe (Naomi Nero) a liberdade do desvelar-se diante de seus desconhecidos progenitores.

Com essa dualidade humana, esse duplo que nos mantém muitas vezes sãos diante de uma sociedade hipócrita, Muylaert, quase que como um exercício de metalinguagem, fala dos sequestros que nos são impostos, sobre quem somos, de onde viemos e o que queremos ser. Ao usar uma só atriz (Dani Nefussi) para viver ambas as mães, (Aracy/Gloria) ela acena com a possibilidade de que a mãe sequestradora é tão mãe, quanto a mãe verdadeira é sequestradora.

A diretora que incomodou o país com a situação das domésticas que criam os filhos da classe média brasileira, aponta sua câmera mais uma vez para uma zona fronteiriça, discutindo gênero, identidade, respeito, amor e família. Um filme claramente reflexo de descobertas de sua trajetória como cineasta, mas acima de tudo, como mulher. Mãe Só Há Uma não identifica a verdade, mas ressuscita a dúvida.

 

Anna Muylaert retirou seu filme da lista brasileira que concorreria a uma vaga a lista de indicados ao Oscar de filme estrangeiro, assim como fez Gabbriel Mascaro autor de Boi Neon.

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Visões Periféricas Completa 10 anos

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Por: Fabiana Melo Sousa

“O centro do mundo está em todo lugar. O mundo é o que se vê de onde se está”

Milton Santos em “Encontro com Milton Santos: o mundo visto do lado de cá”, de Silvio Tendler.

O que é periferia, sobretudo num mundo pós-globalizado? O incrível geógrafo Milton Santos (1926-2001) já desconfiava deste termo, principalmente, nos processos de globalização. A “união dos povos” através de uma “aldeia global” mostra-se fracassada, ou como Santos já dizia, revelou-se autoritária diante do esfacelamento das culturas e modos de vidas locais em detrimento do capitalismo, transformou-se no Globaritarismo, como afirmava o baiano.

Há tempos sabe-se desse fracasso global e o deslocamento daquilo que antes chamávamos de centro fez com que as periferias ficassem cada vez mais presentes nas imagens do nosso cotidiano. Assim como os chamados sujeitos periféricos, que muitas vezes expressam por si, suas próprias questões, aqueles que em muitos momentos foram afastados do imaginário de um mundo melhor. Sejam eles moradores de favelas, pessoas trans, mulheres negras, deficientes ou, como em muitos casos, um único sujeito que é atravessado por todas estas dimensões. Pessoas que estão descentralizando o mundo em suas imagens.

A contribuição do Festival Visões Periféricas, que há 10 anos exibe filmes de todos os lugares e experiências de periferias brasileiras, é de aproximar estas imagens “periféricas” a um público que cada vez mais está interessado nos lugares e corpos que desestabilizam os centros.

Este ano de aniversário serão homenageados quatro cineastas: Silvio Tendler, Adélia Sampaio, Filó Filho e Sérgio Peo, que “através de seus trabalhos em cinema e vídeo contribuíram para pensar de forma crítica e corajosa o pais e a sociedade brasileira”, segundo a organização do Visões Periféricas.

A mostra acontece entre os dias 5 e 12 de setembro no OI Futuro Ipanema e no Centro Cultural Justiça Federal.

Vale conferir!

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