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Aquarius, primeiramente

“Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…”

(Taiguara)

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Dentro de uma narrativa prosaica, o filme Aquarius, de Cleber Mendonça, se realiza enquanto obra poética e lancinante. Ao fazer uso do mais comum de um cotidiano, nos encontramos diante de uma vida simples cada vez mais cara. Esse contemporâneo viver atrelado ao conceito de qualidade de vida é reservado a poucos.

Aquarius está repleto de som ao redor, e é dentro de um estilo sofisticado de falar do mundo, de seu mundo, que Cleber Mendonça reafirma sua sede de fazer um cinema dialógico. Nessa concepção de apontar sua câmera com uma lente que discursa, apoiada em um roteiro que tem nas palavras os benditos diálogos, anunciando maldições, que pode ser em Boa Viagem, no Recife, em Pernambuco, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, que o autor de Aquarius filma pra falar.

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Como ousas senhor Cleber Mendonça colocar em cena uma mulher velha, sem mama e tão fabulosa?! Sonia Braga serena é um vulcão prestes a explodir. Seu desempenho nos faz querer morar naquela casa, fazer-lhe um sexo oral, lutar por dias melhores. Sua performance anuncia um tempo Hoje, bem marcado pela música de Taiguara, mas destilando também um tempo vivido no corpo, na história de suas coisas, que a mantém viva e sonora. Em tempos em que a palavra de ordem é o desapego, Aquarius se apega a própria historia para se manter fiel ao sentido.

O filme nos acompanha após os créditos finais, as músicas que constituem a personagem reivindicam o direito à poesia de viver. A classe média, incomodada em uma zona de conforto, é convidada a dar lugar a novas classes e novos confortos. A casa e o aconchego da protagonista são quase um acinte. Uma remoção pra quem pode. Pra quem pode se defender.

 

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