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Mãe Só Há Uma – em tempo

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Do título aos créditos finais, o filme de Anna Muylaert nos propõe um caminhar simples por uma história cheia de sentido. Um cinema disposto a discutir a linguagem e o ser humano, apostando no enquanto a diretora tira o foco de um núcleo narrativo comum e demonstra, por meio dos silêncios dos acontecimentos, que a vida é o que não vivemos, também.

Mãe Só Há Uma encontra numa historia real seu argumento, mas o roteiro frutifica a história e expõe a complexa dimensão que um acontecimento pode desencadear nos restos de historias que nos são impostas. Em Mãe Só Há Uma a diretora e roteirista toca em questões de comportamento e aceitação, exercitando seu olhar para além de um mundo heteronormativo e convencional, que muitas vezes se acha dono do sentido da vida e da família.

Ao relatar de forma subjetiva o sequestro, assunto no filme que só identificamos junto com a vítima, ela nos coloca diante dos dilemas enfrentados pelo personagem que cai de pára-quedas dentro de uma família e que, mais do que impor uma forma de ser socialmente aceito dentro daquele núcleo familiar, impõe também seu amor.

Anna Muylaert aposta na complexidade humana para lançar mão de assuntos e incômodos contemporâneos. A identidade do jovem Pierre (Naomi Nero) é clandestina também para a família que ele achava ser a sua verdadeira. Esse jogo da descoberta de quem eu não sou, acaba por proporcionar ao Felipe (Naomi Nero) a liberdade do desvelar-se diante de seus desconhecidos progenitores.

Com essa dualidade humana, esse duplo que nos mantém muitas vezes sãos diante de uma sociedade hipócrita, Muylaert, quase que como um exercício de metalinguagem, fala dos sequestros que nos são impostos, sobre quem somos, de onde viemos e o que queremos ser. Ao usar uma só atriz (Dani Nefussi) para viver ambas as mães, (Aracy/Gloria) ela acena com a possibilidade de que a mãe sequestradora é tão mãe, quanto a mãe verdadeira é sequestradora.

A diretora que incomodou o país com a situação das domésticas que criam os filhos da classe média brasileira, aponta sua câmera mais uma vez para uma zona fronteiriça, discutindo gênero, identidade, respeito, amor e família. Um filme claramente reflexo de descobertas de sua trajetória como cineasta, mas acima de tudo, como mulher. Mãe Só Há Uma não identifica a verdade, mas ressuscita a dúvida.

 

Anna Muylaert retirou seu filme da lista brasileira que concorreria a uma vaga a lista de indicados ao Oscar de filme estrangeiro, assim como fez Gabbriel Mascaro autor de Boi Neon.

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