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Mate-me Por Favor – ótima estreia

Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
Se o destino adjudicar, esse amor poderá ser capaz,
gatinha.
Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo
mais.
Claudinho e Buchecha

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Por: Fabiana Melo Sousa*

(Texto produzido e postado acerca do Festival de Rio 2015)

A juventude branca e de classe média brasileira é comumente lembrada pelos conflitos pueris e repetitivos de séries de TVs que muitas vezes resumem a adolescência a pouco mais de seis questões (namoro, vestibular, sexo, gravidez na adolescência, preconceito racial, bullying ), no entanto, o filme  Mate-me, por favor, longa-metragem de estréia da cineasta Anita Rocha da Silveira, aponta para algo mais complexo. São adolescentes que parecem viver num mundo à parte, sem intermédio dos pais e tampouco se preparando para as responsabilidades da chegada “da vida adulta”.

O longa retrata o cotidiano de um grupo de jovens que moram, estudam, dançam e “evangelizam” na Barra da Tijuca, mas que se vêem cercadas por uma série de assassinatos de meninas. As atrizes Valentina Herszage (Bia), Mari Oliveira (Mariana), Júlia Roliz (Michele) e Dora Freind (Renata) emprestam seus corpos, linguagem e olhares para interpretarem as amigas inseparáveis que, em meio aos outros corpos brutalmente ceifados, desejam mais do que tudo namorar e transar.

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O corpo destes jovens, os vivos, os mortos e os quase-vivos são uma marca muito interessante, chamando atenção de que nenhum corpo adulto aparece durante toda a trama. Os corpos femininos são lindamente retratados num misto de uma sensualidade ingênua, mas ao mesmo tempo protagonistas de suas vidas quando se lançam ao sexo sem aquela antiga questão da “virgindade”. Os tempos são outros, ainda bem.

Elas vivem suas vidas enquanto seus pais saem para trabalhar e namorar, deixando dinheiro, macarrão instantâneo e a ilusão da segurança das grades dos condomínios, na certeza de que suas filhas e filhos estão protegidos. Cada adolescente vive seus próprios conflitos internos, mediando seus desejos e vontades diante da vida, mas, também compartilham fotos e noticias dos crimes que acontecem em terrenos baldios ao lado de seus apartamentos. Talvez por isso, agarrem com unhas e dentes oportunidades no presente e amem, para depois “orar ao senhor” no culto evangélico que adapta o louvor para o funk, guardando, ainda, um pequeno resquício da infância quando se amedrontam com a antiga lenda urbana da mulher de branco no banheiro (um banheiro que serve pra tudo, inclusive para “pegação”).

O funk é um elemento extremamente interessante para a juventude carioca e amplamente retratado no filme em suas diversas vertentes. Separados pelos estigmas sociais entre as favelas e o “asfalto”, mas culturalmente unidas por esta expressão cultural tipicamente carioca, os adolescentes embalam suas rotinas com este ritmo. Claudinho e Buchecha são talvez os maiores expoentes deste gênero, junto com outros, e que por sua vez, também tiveram um final trágico quando em 2002, Claudinho morre num terrível acidente de carro, quase uma premonição da canção que ficou famosa com o verso “… Buchecha sem Claudinho sou eu assim sem você…”.

E por falar em funk e tragédia, ambos se encontram num caso citado no filme que foi o assassinato de Daniela Perez em 1992 (dez anos antes de Claudinho). Pra mim, que era adolescente funkeira e favelada nos anos 90, foi impossível não recordar do “Rap da Daniela” dos MCs Maskote e Neném. Quem não conhece, segue o link.

O longa-metragem traz soluções muito interessantes que dão força ao suspense, com uma direção de elenco cuidadosa, tirando o melhor de cada uma das meninas que se doaram ao papel (todas em conjunto ganharam o prêmio de “Melhor Interpretação” pela crítica independente italiana no Festival de Veneza deste ano). Destaque também para a mistura de linguagens como a inserção de clipes de dança e a maquiagem. Toda a responsabilidade de uma direção feminina e atenta às questões da atualidade, acompanhando o atual momento em que as mulheres estão muito presentes como diretoras em projetos bem sucedidos.

É um respiro em meio a tantos filmes que só abordam a violência nas favelas, como se somente ali a barbárie estivesse presente, ou as comédias de riso frouxo que não nos levam a lugar nenhum, muitas vezes nem ao riso. O filme, ao contrário, leva para o riso, mas mantém a melancolia que é muitas vezes esquecida pelos olhares adultos, que acreditam que os adolescentes vivem em constante êxtase, sempre a procura de uma festinha.

Espero que “Nosso Sonho” de um cinema brasileiro capaz de olhar para uma vida mais interessante do que a representada no mercado se torne realidade, e “se o destino adjudicar” nosso cinema será capaz, “gatinhaaaaaaa”.

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Sinopse:
Na região da Barra da Tijuca um grupo de adolescente tem suas rotinas transformadas a partir de uma série de assassinatos que começam a acontecer na região. O medo e ao mesmo tempo o fascínio pela morte passam a ser uma constante na vida dessas meninas.

Direção: Anita Rocha da Silveira

Ano: 2015

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e também em filosofia pela UNIRIO.

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