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Imagens e Complexos – encerramento

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Na tarde fria do domingo, dia 02, em clima de eleição, a Mostra Imagens e Complexos encerrou suas atividades, agora é concluir o catálogo dessa primeira experiência. Os filmes exibidos no último dia foram Memórias do Preventório, de Luciano Simplício; Teixeira Ribeiro – Identidade de Um Todo de, Iury de Carvalho Lobo; Santa Marta, uma santa Favelada, de Marlon Silva da Costa; Em busca da Folia, da Girasol Comunicações; Um Lobisomem no Santa Marta, de Robespierre Ávila e A águia que cospe bala, da Girasol Comunicações.

As sessões “Moradia e Complexos” e “O real, o simbólico e Complexos” fecharam uma Mostra de 30 filmes que fizeram do Cine Manguinhos uma espécie de vitrine, apresentando um pouco do que as favelas cariocas vem produzindo no audiovisual. Quatro dias de exibições, debates, encontros, reencontros, apresentações, descobertas e construção de um espaço, onde os produtores de favelas puderam de alguma forma exibir e falar dos seus e de outros filmes.

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O público esperado para a Mostra não alcançou as expectativas de quem estava envolvido com a produção, mas a meta de promover a interação entre os fazedores de cinemas foi concretizada, além do que se deu no decorrer do processo com pesquisas e discussões acerca desse cinema que anda pelos becos, mas falando de uma cidade inteira.  Mais do que uma forma de expressão, os filmes selecionados pela curadoria do Imagens e Complexos estão em busca de um diálogo maior entre a vida e a arte.

A Mostra, coincidência ou não, se deu em pleno processo de encerramento das atividades do Cine Manguinhos. A gestão que atuava até o momento chegou ao final de seu contrato e muito pouco se sabe sobre o que acontecerá com a sala que recebeu o nome do documentarista Eduardo Coutinho. No segundo dia da Mostra, sexta, 30/09, durante o fórum dos realizadores – “ Quem é o dono da Imagem?”, os participantes trouxeram à baila o assunto fechamento/interrupção do cinema em Manguinhos, a sua importância para o público local, sua potência enquanto espaço de exibição e tudo que um aparelho como esse representa politicamente para as localidades que, muitas vezes, tem sua produção cultural restritas às intervenções nas ruas, com poucos espaços que possam acolher seus trabalhos artísticos e seu público.

Desse fórum, foi liberado pela coordenação da Mostra um texto com as reflexões, como forma de registro/protesto, pedindo um pouco de atenção para o fato. Segue abaixo.

“O Fórum Audiovisual e Favela: quem são os donos da Imagem?

O Fórum Audiovisual e Favela: quem são os donos da Imagem? aconteceu no dia 30 de setembro de 2016 no Cine Teatro Eduardo Coutinho como parte da Mostra de Filmes Imagens e Complexos.

Foi um importante momento de reflexão a respeito dos diversos temas abordados durante as mesas temáticas da Mostra, onde as pessoas convidadas apontaram questões que atravessam os cotidianos das favelas cariocas, representadas nas 30 obras selecionadas para serem exibidas entre os dias 28 de setembro e 02 de outubro de 2016.

Questões como a discussão de gênero no audiovisual, o racismo institucional, o preconceito que faveladxs ainda sofrem, a apropriação das imagens das favelas como um capital simbólico que representa a Cidade do Rio de Janeiro, mas sem dar autoria para as pessoas nas favelas, o financiamento das produções que em sua maioria são fruto de esforços coletivos (realizadas “no amor”) e o fechamento do Cine Teatro Eduardo Coutinho.

Diante destas questões o grupo presente destacou os seguintes tópicos:

– Nós moradores de favela representados nas obras apresentadas na Mostra de Filmes Imagens e Complexos refletimos a importância de espaços culturais, como o Cine Manguinhos, e a relevância de oportunidades como esta para a difusão e distribuição de filmes, exemplo dos que foram exibidos nesta Mostra, e realizados em sua maioria sem patrocínio. É necessária uma luta por espaços autônomos de exibição, fora das instâncias partidárias institucionais, para que as favelas e periferias possam ter como direito a cultura com locais bem estruturados;

– O desafio da apropriação dos espaços e equipamentos públicos de favela pelos grupos populares: como mobilizar o morador de Manguinhos que sofreu tantas violações com obras do PAC? É preciso pensar no cinema que foi construído em um contexto de violação de direitos e remoções em Manguinhos e por isso o morador das favelas no entorno não se reconhece neste espaço;

– O tempo que se leva para as populações destes locais se apropriarem destes espaços também tem a ver com as políticas públicas que sempre atuam enquanto projetos temporários e, muitas vezes, eleitoreiros: quando muda o governo, muda também a gestão e com isso a descontinuidade das políticas de culturas locais;

– As pessoas se inibem de estar nestes espaços de equipamentos públicos, então, é preciso ir até as pessoas, é preciso que o movimento popular de favela ocupe os espaços públicos e se aproprie;

– Quais são os produtores culturais de Manguinhos que podem ocupar estes espaços?

– Os grupos de comunicação comunitária de Manguinhos devem estar atentos a atual situação da precarização dos equipamentos de cultura dentro de um contexto nacional de avanço do conservadorismo e de mudanças que visam, claramente, tirar os poucos direitos sociais que são das populações pobres e conquistados com lutas, não foram “favor” de governo nenhum e sim resultados de nossas lutas;

– O audiovisual é também a oportunidade profissional para jovens nas favelas pensarem numa quebra de estereótipos da representação das favelas;

– A favela é sempre a solução e exige e ensina respeito e valorização dos jovens produtores e dos espaços comunitários de comunicação e de troca;

– A produção da favela tem importância para a cidade como um todo e não somente para as favelas em si. Aqui se expressa uma nova forma estética de ser fazer cinema, e por isso, é a possibilidade de ver o cinema fora de uma “caixa tradicional”.

Estes tópicos acima expressam um pouco das questões suscitadas no debate, mas é importante frisar que o momento de troca entre as pessoas que vivem e realizam audiovisual nas favelas é insubstituível.

Por fim, deixamos aqui o nosso agradecimento pela participação e pedimos que todas as pessoas que estiveram conosco possam publicamente se expressar quanto ao conteúdo deste post (publicado na página do Facebook Imagens e Complexos no dia 02/10/2016), e apontarem o nosso possível esquecimento ou distorção de questões levantadas.

Equipe de coordenação Mostra de Filmes Imagens e Complexos 2016

 

 

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