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Mostra Imagens e Complexos – Lançamento do Catálogo com os filmes exibidos e o processo da Mostra de filmes de favela que aconteceu em outubro no Cine Manguinhos

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Hoje, finalmente, acontece o lançamento do catálogo da Mostra de filmes Imagens e Complexos. Uma publicação que se permitiu sair pós Mostra por se tratar de um registro mais abrangente sobre o projeto. O Catálogo traz um resumo do que seja o Imagens e Complexos, o que ele representa para produção audiovisual das favelas, a catalogação dos filmes inscritos e exibidos na Mostra, o resultado e fragmentos de uma pesquisa (ainda introdutória) com alguns dos grupos que produzem cinema nas favelas do Rio, além das resenhas produzidas pela curadoria da mostra sobre cinco filmes, que foram destaques no evento – “A Fonte”  (2015), Beco dos Pancados (2015), Do luto para luta (2016), Olhares da Misericórdia – Serra que atravessa gerações (2015) e Visita (2015).

Segue a baixo o texto sobre o filme Visita, que juntamente com os outros constam no catálogo e que serão exibidos hoje num no evento de lançamento no Complexo do Alemão, no espaço do Raízes em Movimento, parceiro do Imagens e Complexos.

Visita  (2016)  Direção: André Sandino Costa

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O que é isso?

Por Rosangela Dantas

(…) Ele sabia tudo da vida da gente, mas a gente não sabia que ele era o Coutinho. Não sabia que ele era um documentarista, até famoso, uma celebridade na verdade, nesse meio… Ele chegou e ficou de uma maneira tão suave, que a gente nem se preocupou e saber quem ele era (…) (Vera – Santo Forte/Visita, 2015/16)

No caminho da memória de um menino o fio condutor é o cinema. Uma visita ao passado, trilhando a favela Parque da Cidade – a câmera ora num tripé, propondo uma fotografia estática, deixando o movimento por conta da vida na favela, ora caminhando, como quem seguia um rastro de uma história já contada, mas cheia de entrelinhas.

A diversidade religiosa que antes era personagem principal nas indagações de Santo Forte, de Eduardo Coutinho, agora é pano de fundo no percorrer dessa Visita, de André Sandino Costa. Um filme que aposta numa verve afetiva deixada por Coutinho, quase como herança aos seus personagens.

Visita sobe o morro em busca de alguém que, lentamente, será desvelado pelas lembranças do narrador. Suas descrições do local vão, aos poucos, reconstruindo, refazendo o caminho e as casas que seu imaginário preservou. A voz em off aponta a trajetória de um lugar que, apesar das modificações, guarda em si pessoas, que também modificadas, têm em comum, mais do que um filme com Eduardo Coutinho, um encontro.

E será por meio dos relatos, relembrando o sentido de suas espiritualidades, que eles vão desencavando o velho cineasta das palavras – um homem comum que chegou envolto à fumaça de seu onipresente cigarro, com fome de ouvir. A memória dos personagens nos presenteia com um making off de uma produção do documentarista Coutinho. O papo amistoso, a relação de respeito, o cafezinho requentado. Pessoas que deram suas histórias para o diretor e nem assistiram ao filme.    

O filme Visita discursa em primeira pessoa, resgatando um desejo de fazer cinema, indo ao encontro de seu mestre, quase vinte anos depois. A figura meio mítica é desenhada por seu narrador e desmistificada por seus personagens, quase como num jogo de cena, onde a verdade e a mentira, mais uma vez, são ressuscitadas pelo cineasta.

Cada vez mais presente no decorrer do filme, nas palavras de seus personagens, nos becos e histórias suscitadas, Visita vai dando forma a um documentário dramático e, num recorte biográfico, propõe uma materialização, que tem o seu clímax com o diálogo saudoso e, sabiamente, conformado, com D. Thereza – como se Coutinho estivesse ao seu lado, D. Thereza materializa o amigo com suas palavras.

O filme Visita, por meio da memória, pede aos contadores do documentarista Eduardo Coutinho que o ajudem a construir um retrato daquele homem, numa entrevista que em nenhum momento tenta copiar o cineasta e que não espera mais um relato das próprias experiências dos personagens, mas ainda assim, confirma um dos grandes ensinamentos de Coutinho: “(…) O duro é conseguir uma igualdade, que é utópica e temporária, mas que é possível. Na medida em que você não finge que é pobre, índio ou nordestino para ter aceitação. A diferença é algo que ativa a conversa. (…)”

Isso é cinema.

 

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