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La La Land (Déjà vu dançante)

O que nos faz espectador de um de gênero musical? Acho eu que nada de diferente do que nos alimenta em qualquer outro gênero: a narrativa – a história contada ou cantada, sua abordagem e atuação ainda são os gatilhos para que haja uma comunicação, uma relação entre filme e espectador.

Na sala escura, o filme La La Land, de Damien Chazelle, atinge o público na sua mais básica necessidade, o romance. Um enredo que propõe a clássica história de amor e que flerta com o romântico ao lançar mão de uma característica muito comum a esse gênero: a qualidade do impossível no desenlace do casal. Nos primeiros momentos do filme aponta-se para um desfecho que supera as dificuldades e para a ideia de que os protagonistas viverão felizes para sempre. Muito açúcar e pouca energia.

Mas nem só de amor vivem o homem e a mulher, quando o sonho de Sebastian (Ryan Goslig) e Mia (Emma Stone) sucumbe à relação dos dois, alguém parece começar a asfixiar. E a trama ganha um elemento dramático mais potente, um rival a toda aquela promessa de felicidade. Depende de como se quer ser feliz!

Ao trazer para esse tipo de filme o clássico modelo narrativo, a produção não corre riscos com os desavisados que não apreciam o gênero. No mesmo sentido quando se mantém na zona de conforto enquanto musical e aposta nas referências, assumidas como homenagens. La La Land, com muita competência e pouca inovação, foge dos estereotipados musicais quando não se rende a apenas um amontoado de sequencias de videoclipes.

Ao trazer a música de Justin Hurwitz como norteadora da historia de Sebastin e Mia as personagens ganham um vínculo com o público, tanto como casal, como enquanto individuos. E o sonho, seja ele a música de Sebastian ou a atuação de Mia, vira o protagonista da história. E mesmo quando eles (Sebatian e Mia) não respeitam a lógica narrativa romântica, a música é a memória de que o sonho está vivo.

O filme de Damien põe movimento para além das canções e números de dança, mas é sua competência como musical que o coloca como o grande favorito das grandes premiações – como no Oscar 2017, onde foi indicado em 14 categorias. Assim funciona a industria cinematográfica, faturou, recebe indicação, não importa se for musical western ou terror. Raramente haverá uma saudável contradição quando nem sempre o preferido do espectador será o preferido da Academia, mesmo que o espectador seja  essencial para industria.

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Eu, Daniel Blake

Apesar deste espaço estar iniciando seus trabalhos do ano somente hoje, eu não poderia abrir os posts do Leia Cinema 2017 com outro filme se não o fabuloso “Eu, Daniel Blake”. Mesmo sendo uma produção lançada no final de 2016. Um Cinema econômico e certeiro, combinando o comum de um assunto tão urgente com um discurso sofisticado e direto.

Ken Loach não dá chance para divagações. Sua narrativa exata quer dizer simplesmente o que é o sistema de auxílios dos britânicos e deixar as voltas para os burocratas que administram o tempo de vida dos cidadãos que, entre teclados, papeis, números e carimbos, seguem numa espera que dura o tempo de suas sobrevidas.

Daniel Blake (Dave Johns) perambula pela história como se fosse um intruso em sua própria existência. Sua peregrinação é para sair de um entre – a utilidade e a inutilidade – de um lado sua médica, que não lhe dá alta para voltar ao trabalho após um enfarte e, de outro, o sistema de auxílio que o pericia, dizendo que está liberado para trabalhar. Sem poder trabalhar e sem poder receber o auxílio, Blake segue tentando ser ouvido.

O filme tem um diálogo universal e atinge o espectador no que lhe é cotidiano, o tratamento recebido nas instituições “públicas”. Apesar do sistema em questão ser o inglês, essa estrutura onde o cidadão é apenas mais um – reduzido a um número – é a prática da desumanização mais comum no mundo. O filme clama por um poco mais de empatia.

E a universalidade da história se realiza quando os afetos se concretizam. Daniel resiste e, inconformado, luta por uma solução. Sua energia norteia o ritmo do filme. A tensão que acompanha essa espera é intercalada pelo que resta de humanidade no mundo. Nas relações com as pessoas, Blake resgata um pouco de sua utilidade e, no convívio com seus pares surgem os momentos de respiro da historia.

O roteiro de Ken Loach e Paul Laverty não alimenta nenhuma metáfora, não quer florear nada, a intenção é “que não se esmaguem as entrelinhas”,  a subjetividade dos personagens tem o tempo necessário para fazer desse filme uma experiência dura e lírica.

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