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Moonlight: Sob a Luz do Luar (em tempo)

Como analisar o efeito bumerangue de ser negro num mundo em que, não importa o lugar que você esteja ocupando, a cor de sua pele será sempre o que irá nortear o assunto? Não seremos todos preconceituosos, redimidos ou não, em maior ou menor escala?

Moonlight de Barry Jenkins  estará este ano, com certeza, entre os melhores filmes que iremos assistir e digo isso não porque sou vidente, ou porque quero levianamente retrucar essa onda de textos e comentários sobre o fato de que o filme levou a estatueta somente pelo fato de ser um ato politicamente correto da Academia.

Alguns dados:

Moonlight foi aprovado como produção cinematográfica pela grande crítica especializada, salvo alguns incomodados com as temáticas da história;

Moonlight já era lucro antes de ser premiado com o Oscar 2017 de melhor filme;

Moonlight teve um orçamento de US$ 1,5 milhão, o mais baixo de todos os indicados a melhor filme.

Esses dados já nos dão os argumentos necessários para mostrar que nem só de gestos politicamente corretos vive a Academia. Os aspectos que movimentam a industria do audiovisual norteamericana é um fato que precisa estar dentro de suas escolhas politicamente corretas.

Mahershala Ali – Oscar de melhor ator coadjuvante por “Moonlight” 

Agora, se me permitem, vamos falar de cinema, vamos falar de um filme comovente – Moonlight colocou na tela o quase impossível de se mostrar: as entranhas de ser e sentir-se nesse mundo. Se o fio condutor usado pela narrativa é de cunho político, tanto quanto melhor, mas o que importa aqui é como dizer no cinema sem somente se ancorar nas palavras, o que na vida não sabemos externalizar com elas. Economia de gestos e falas são mais do que um recurso estético em Moonlight, é uma necessidade contextual ao assunto abordado. Toda essa engenharia visual de tensão entre a fala e gesto guarda o exercício primoroso de olhar, de cortar, de respirar. E o cinema enquanto arte que tem a capacidade de ser reinventada se permite dizer o filme com a ajuda essencial do silêncio. Assim como na música, o tempo entre um som e outro constrói, com ajuda do que o espectador traz, a angústia do momento seguinte, da cena seguinte.

Atuar em Moonlight é ter que manter o equilíbrio que o filme necessita para uma harmonia de contenção que não prejudique a montagem e, consequentemente, o sentimento narrativo, o envolvimento com a história, seja ele danoso ou salutar. Por isso, a importância dos atores para a eficácia de Moonlight.

A beleza que Barry Jenkins consegue atingir com cenas que emprestam alguns momentos poéticos à história só é possivel por contrastar com o horror que o filme relata. Nada de evidente, o que de mais feio se apresenta no filme mora numa espécie de silêncio que atravessa Chiron por todo o filme. Mas para quem ouve soa como berros.

Não é possível passar impunemente por esse filme, mesmo que ele não seja o seu preferido na disputa em uma premiação cinematográfica. E mais impossível ainda é desclassificá-lo como cinema. Moonlight deixa de falar, prefere mostrar e só te resta sentir. E aceitar –  Moonlight é o vencedor do Oscar 2017 na categoria Melhor Filme.

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1 Comentário

Comentários:

  • Excelente crítica. Para quem o vê com os olhos da alma, torna-se seminal e obrigatório. Para quem teve a infeliz experiência de sentir-se, na infância e/ou juventude, o “diferente”, ou o intolerado…a afinidade ou a sintonia com a história é avassaladora. De alguma forma é como se fizéssemos parte intrínseca da história. Creio que seres sensíveis e altruístas, independentemente, das suas cores de pele e sexualidades, igualmente sentir-se-ão tocados por este enredo perturbador e de realismos/emoções à flor da pele. As questões abordadas, brilhantemente, fazem-no merecedor dos prêmios recebidos. Fiquei com a nítida sensação de que este filme jamais sairá de mim. aabordadas

    Marcos Lúcio

    12 de março de 2017 às 13:22

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