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Joaquim

Por Fabiana Melo Sousa

Libertas Quæ Sera Tamen

É tentador deixar se contaminar pelo discurso de que todos nós somos completos protagonistas e donos dos nossos destinos, mesmo em se tratando de um cenário mais amplo, como as relações políticas que desencadeiam os rumos de um sujeito, de uma cidade, de uma sociedade ou até mesmo de um país.

Preciso explicar: parece que os heróis são sujeitos dotados de super-poderes e que sabem que suas próprias vidas são o quinhão a pagar para que grandes revoluções aconteçam, e nós, que aqui estamos, somos gratos pelas “escolhas” que estes “cristos” fizeram, pessoas “do bem”, “puras” e “sem contradições” que sabiam exatamente o seu destino trágico e ainda assim escolheram seguir na luta.

No belíssimo longa “Joaquim”, de Marcelo Gomes, nosso Cristo é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mas antes de “ir para a cruz” ele tem os longos cabelos “piolhados” cortados a faca pela escrava Preta (Isabél Zuaa). Ele também tem desejos: quer encontrar ouro no Sertão Proibido, quer subir de patente e faz questão de dizer que é filho de portugueses.

Nosso héroi vive com calor, toma a sopa feita e servida pela escrava, talvez a única heroína dessa história, que, em seguida, vai lhe servir sexualmente. A sua profissão de alferes é intercalada com a atividade de dentista e seu escravo particular, sim nosso herói tinha um escravo (Welket Bungué), é um belo negro trazido de algum lugar da África e que o acompanha respeitosamente, embora tenha a sua própria vida e família.

“Joaquim” que se passa num cenário semi-urbano, onde as tabernas dividem espaço com os prédios públicos e os “mendigos” são crianças indígenas, em nada lembra as fotografias de época a que estamos acostumados. Neste cenário, a linguagem cinematográfica substitui as frases de efeito escritas nos livros de histórias por diálogos muitas vezes de difícil compreensão e falados em muitas linguas. O indígena, o negro, a negra, os mestiços falam, cantam e desejam liberdade, ainda que tardia, enquanto o nosso herói corre atrás da promessa de uma vida melhor.

A grande contribuição deste longa é, no entanto, a humanização do herói, é lembrar que Tiradentes era um homem de seu tempo e que acreditava numa revolução humanista e iluminista, onde a civilização poderia dar lugar àquela mestiça e confusa sociedade que em nada avançaria, a não ser que algo de grandioso pudesse ser feito.

De todos os revolucionários, Tiradentes foi o único esquertejado e degolado. Talvez porque preferiu ler as palavras dos intelectuais e das elites mineiras ao invés dos quilombos, ou talvez porque simplesmente acreditou que poderia confiar em seus companheiros que jamais o trairiam. Nunca saberemos, mas o que ficou em nossos livros foi a pálida e triste história dos vencedores brancos e plácidos, representadas em sua cabeça e cabelos longos, iguais ao de um salvador.

O filme é imperdível, e a nossa história também, mesmo que tardia.

 

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