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Jornal do Brasil

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A Vida após a Vida

Esta árvore já viveu um milênio e meio

Já viu tantas pessoas

Esta árvore não me conhece

A experiência do cinema com o assunto “vida após a morte”, ou melhor, “após esta vida que conhecemos” quase sempre está atrelada aos gêneros suspense, terror ou às histórias de cunho religioso. Na proposta do filme do estreante Zhang Haniy, A Vida após a Vida, a relação que a cultura chinesa trava com os entes queridos, que já partiram dessa vida, disponibiliza uma gama de situações fantásticas às narrativas sobre esse tema.

O filme de Haniy deixa de fora do discurso de seus personagens a palavra morte, enquanto abusa dessa simbologia na paisagem de sua história. Com a aridez do local, que parece estar em processo de remoção das pessoas que ali viviam, o diretor coloca diante de um cinza de árvores secas uma memória de vida e mostra a importância do tempo nas árvores e sua função de testemunha da existência das pessoas e bichos.

O tempo narrativo, a falta de música e os diálogos secos sem muita explicação acabam por tornar este filme uma experiência estética estranha, dependendo do espectador. No campo poético e contemplativo, a fotografia quase congelada nos espera olhar. A única saída para o exercício do sentir.

A vida após a vida nos revela uma maneira filosoficamente mais oriental de estar nesse mundo. O corpo como mero veículo de uma existência que transcende, que não enxerga na matéria um fim, que não sucumbe a uma determinada condição de corpo e que, ao mesmo tempo, se mantem ligado ao mundo pela tradição, cultivando uma memória por meio de ritos.

Uma mãe que retorna do mundo dos mortos em meio a crise do pai com o filho, e o motivo de sua volta é a mudança de uma árvore de lugar. A conclusão desse ritual é mais importante para que ela própria continue sua jornada, como se a situação do filho com o pai fosse uma história apenas deles, que eles teriam que viver e solucionar.

O filme de Zhang Haniy nos tira de uma cristalização cristã e nos resgata a condição de mistério. Nos devolve um pouco da angustia filosófica e nos permite tirar uma folga desse estado de “que seja infinito enquanto dure”.

 

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