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O Filme da Minha Vida –  um filme calculado

 

Por Rosangela Dantas

“Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” Clarice Lispector

A experiência de assistir a um filme geralmente nos coloca diante de certos sentimentos ou situações provocados por um fio de identificação, e isso não quer dizer, necessariamente, que a história precise nos ser familiar ou idêntica. Por isso, quando entramos no cinema essa experiência, provavelmente, será única.

O Filme da Minha Vida parte do princípio de que o cinema tenha uma fórmula exata para acontecer, esquecendo-se de que, em algumas salas, ele pode não se realizar ou, dependendo do que se pretende com o filme, pode também ser um grande sucesso, mesmo acontecendo apenas enquanto exercício de linguagem.

Sendo mais objetiva, minha experiência com o novo filme de Selton Melo me deixou em suspenso. Por que tamanha beleza nada me disse? Faltou identificação com a história? Não. Falava de amor, abandono, separação, cinema – ingredientes suficientes para servirem de porta aos meus sentimentos e reflexões. Ainda sabendo que, mesmo que a história não me diga respeito, um filme pode arrombar minha subjetividade e me dizer o que me faltava sentir. A experiência pode ser inaugural. E isso pode ser construído por meio da contemplação, do incômodo ou da ausência de sentido.

Assistindo O Filme da Minha Vida e lendo tantas interjeições positivas nas redes sociais e ponderadas críticas sobre a eloquente direção de Selton Melo, só me resta falar de minha experiência como espectadora, não sei se solitária, nessa empreitada de ousar dizer que o filme de Selton Melo padece de vida. Por mais espetacular que sejam todos os elementos que constituem a linguagem cinematográfica, de nada adianta se o filme não alcançar um pouco de vida. Talvez algo que esteja intrinsecamente ligado à espontaneidade, ao calor, ao cheiro, ao suor.

A justeza de alguns elementos como a belíssima fotografia, a economia milimetricamente estudada das atuações, o bom emprego dos recursos na produção, a atenta escolha dos atores e a longa e excelente lista de referências biblio… ops, cinematográficas, presentes nas citações fazem do filme o melhor filme da vida de qualquer um. Será? Talvez. Pois, para não gostar do Filme da Minha Vida é precisso renegar toda uma grámática cinematográfica que faz do cinema uma arte. É claro que essas minhas mal traçadas linhas não fazem de Selton Melo um sofista do audiovisual, mas seu filme me deixa com a sensação de uma estética radicalmente racional e isso não me deixa espaço para outro pensamento se não o de que seu filme é um mero, e no pior sentido que essa palavra possa carregar, produto.

Talvez o rei não esteja nu ou talvez este não seja o filme da minha vida.

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Poesia sem Fim


Por Rosangela Dantas

Com a habilidade de fazer um cinema atravessado pela poesia, Alejandro Jodorowsky conta a própria história, lançando mão do que de melhor pode se fazer com os elementos narrativos. Em Poesia sem Fim, o segundo  filme de um total de cinco que Jodorowsky projeta levar às telas para contar sua trajetória no mundo e na arte, tendo como pontapé inicial – A Dança da Realidade (2013), ele nos leva por uma viagem repleta de encontros poéticos e, por meio de alegorias, constrói os episódios que fazem parte de sua trajetória e o constituem como homem e artista.

Há uma liberdade no discurso que o relata, que o delata enquanto sonhador. O diretor de filmes que está mais preocupado em voar do que em andar, aproveita a oportunidade para desconstruir desavenças, mágoas, arrependimentos, assim como, para se reafirmar. Na ficção de si mesmo, Jodorowsky subverte a realidade e inventa cenas que ficaram faltando em sua vida.

Sua versatilidade artística e sua inquietação poética sucumbem ao diálogo com outras artes. Resta ao cinema ser o espaço cênico dessa narrativa, um mero e prosaico acontecimento é carnavalizado e vira um grande espetáculo, como se a vida não pudesse ser expressada de outra maneira.

Ora repleto de cores intensas, ora repleto de belos movimentos, o filme representa o trágico mais cotidiano que a existência pode manifestar. A forma de Alejandro fazer cinema é da beleza débil de um sonhador. Seus personagens, demasiado humanos, percorrem sua história perplexos com tudo que há de onírico naquele existir, onde os acontecimentos se apresentam como citações da própria arte cinematográfica.

Sem deixar de nos contar sua vida, contaminado pela história do Chile e de seus poetas, Jodorowsky ainda nos devolve Fellini, nos devolve as cores repletas de sentidos e nos resgata da melancolia, depois de nos manter nela afogados.

 

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