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Jornal do Brasil

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Corpo e Alma (Uma mensagem necessária para 2018!!)

Por Rosangela Dantas

Dentro de um silêncio de gestos o filme de  Ildikó Enedi, ganhador do Urso de Ouro, no 67° Festival de Berlim, nos dá a chance de sair da rotineira previsibilidade cinematográfica que nos vem sendo imposta ultimamente. Corpo e Alma, uma produção húngara, tem como veiculo mensageiro de uma história de amor, um cinema cheio de sentido. Ao escrever com a câmera uma espécie de poesia do encontro a diretora nos devolve a condição de espectador/contemplativo.

Em uma época em que as relações padecem de uma comunicação mais próxima e física por conta dos meios tecnológicos, no que tange as projeções que assolam o mundo virtual e suas redes sociais, o filme aponta para uma dificuldade real onde o corpo e a alma por alguma razão não se conectam, deixando espaço apenas para um dia a dia mecânico, solitário, silencioso… Um mundo contemporâneo que alimenta na gente um estado permanente de inadequação.

Uma narrativa que usa a morte e o sangue de animais como justificativa para tanto afastamento humano. Uma fria condição de estar no mundo, tirando das personagens Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) o mais básico da capacidade humana, se comunicar, se relacionar. E é dentro de uma perspectiva “fabulesca” que o fantástico empresta ao razoável as ferramentas para tornar possível a relação entre eles que, descrentes e incapazes, encontram no Amor o caminho de volta para si e para o outro.

Um filme cheio de beleza e reflexão, tanto na sua estética de ser cinema, quanto na sua capacidade de olhar para o mundo. Uma mensagem necessária  para 2018. Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

 

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O Verão de 1993

Por Rosangela Dantas

Por meio da perspectiva de uma menina, a diretora Carla Símon nos conduz em um universo de descobertas e autoconhecimento. A história de Frida (Laia Artigas) nos é apresentada como se em suspenso. As perdas que a pequena garota silenciosa e de olhos triste sofreu parecem ter pausado sua existência e, dar continuidade à sua vida, depende de um monte de respostas que Frida não sabe perguntar.

Com um cinema vivo, o filme coloca em quadros o cotidiano de duas crianças. Enquanto uma está preocupada com a beleza da joaninha, a outra tenta se entender na ausência dos pais, mortos. No contato com a natureza e no amor paciente dos tios, Frida tenta sobreviver a essa nova possibilidade de estar no mundo. Sua busca é a nossa busca. A medida que ela caminha, nos damos conta de que suas escolhas e atitudes são fruto de uma ausência, um vazio que para resistir há que endurecer e quase perder a ternura.

O tempo é tratado com toda sutileza, o tempo existencial de Frida é que comanda o ritmo do filme. Cada tentativa, sucesso e frustração vivenciados pela menina nos atingem. Nosso olhar íntimo sobre a personagem, em função do foco, acaba por nos tornar atentos e cuidadosos com a espera do amadurecimento dos sentimentos daquela pequena.

E assim, como o entendimento de Frida diante da vida começa a surgir, o nosso, acerca da história, também vai se manifestando e, de forma afetuosa, nos damos conta de que o filme trata de um processo doloroso e rico. Continuar às vezes é apavorante, pois como se trata de uma criança o monstro é mais feio.

Frida só encontra o caminho de volta quando ri, ri de chorar. Esse turbilhão de sentimentos te joga de volta à roda viva e se expressar é a única saída. Perguntar, tentar entender é se fazer presente de novo. Uma história cheia de beleza e vida num Verão de 1993.

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A Hora da Estrela no Arquivo em Cartaz 2017

Por Rosangela Dantas

Uma das homenagens do Arquivo em Cartaz –  Festival Internacional de Cinema de Arquivo – 2017 é a adaptação A Hora da Estrela de Suzana Amaral, um filme baseado no livro homônimo de Clarice Lispector. Este é um ano especial para o livro e a autora. Clarice completa 40 anos de morta, no mesmo momento em que A Hora da Estrela também completa 40 anos de publicação.  E foi exatamente o dia de sua morte, 9 de dezembro, escolhido para a exibição do filme de Suzana na Mostra. A Hora da Estrela restaurado pelo CPCB será exibido no Cine Arte UFF na Mostra Homenagens, dentro do Festival.

Um pouco dessa transposição, adaptação literatura/cinema da Hora da estrela

O que foi, por muitos, chamado de uma literatura menos hermética diante dos livros anteriores de Clarice Lispector, é apenas uma maneira de vincular a forma da escrita da autora a uma compreensão mais abrangente por parte dos leitores. O romance “A Hora da Estrela” forja uma objetividade quando “heteronimia” o autor, dando-lhe plenos poderes de narrador, um narrador ativo no discurso e frio no desdenho de sua personagem e objeto de reflexão existencial: Macabea. Clarice, o autor, destrincha a personagem como a um bicho abatido, prestes a ser devorado. Os gritos são para dentro, a vida é anulada, não é extinguida. Macabea está e se ausenta, o corpo existe, mas ela não. O cheiro, a vida e sua simplória condição humana são sinônimos no desenho da personagem. Pistas significativas para um leitor atento e propenso a uma divagação mais profunda acerca do sentido questionável da existência. Para isso, Clarice fornece pistas de aparência simples compondo um quadro com uma certa subjetividade. O painel de informação seja de cunho externo da situação, seja de cunho interno, apresenta ao leitor um motivador que aciona seus mecanismos para uma analise semiótica situando-o com o universo da personagem e, conseqüentemente, com a história.

A discussão do texto parte de uma nordestina rica em possibilidades. Questionamentos sobre o porquê do existir pairam sobre Macabea, não em seu pensamento e sim em seu corpo, em seu mundo, em seu modo de ser, sem ser. O autor descreve e procura dar sentido ao que se é, dentro do que se expressa, no universo de signos montados como um quebra-cabeça da existência humana. O filme, por meio de uma ótica voyer, parte do indivíduo para o meio. Mesmo num debate acerca da infeliz nordestina, o sentimento torna-se similar no que tange ao eu do outro. Macabea é atingida por uma identificação causada, no processo de construção textual, pelo poético e pelo senso comum. O leitor pode seguir um caminho linear e enxergar apenas uma história de uma pobre retirante tentando a vida em uma cidade grande ou, dependendo de suas vontades, ferramentas e anseios literários, pode adentrar em um mundo de significados que irá levá-lo a uma leitura de cunho existencial do seu próprio mundo.

No filme “A hora da Estrela”, a diretora Suzana Amaral capta o núcleo da história e desvenda o mistério de uma mulher supostamente comum. A escolha da atriz serve como ícone para o argumento a ser apresentado porque especificamente aquela atriz carrega as condições físicas, quixotescas  e talento que ajudam na composição da personagem.

A diretora opta por uma narrativa clássica quanto à construção cronológica. Inicia o filme com o off da rádio relógio pautando os segundos do tempo e a voz do locutor perguntando e respondendo assuntos curiosos ou inúteis durante toda passagem dos primeiros créditos. O filme já começa dando respostas ao que não foi perguntado. Terminados os créditos, a primeira cena também se apóia no som – um som produzido por pausados toques em um teclado de uma máquina de escrever, sugerindo que alguém está datilografando muito mal, tal é a distância sonora entre um toque e outro. Enquanto isso, um gato lambe-se numa espécie de depósito, com caixas ao fundo. A câmera desliza fazendo um reconhecimento do ambiente e buscando alguém, até que encontra Macabea e não consegue identificá-la. Suzana Amaral não foge do olhar introspectivo na personagem, mas deixa a história transcorrer com uma certa linearidade de ritmo, com cortes secos e seqüências com quadros lentos ou estagnados, sem prejuízo à leitura do espectador.

A diretora explora bem a riqueza de detalhes proposta pelo livro no que diz respeito à descrição de Macabea. É quase possível enjoar-se diante do perfil mal cheiroso traçado pela cineasta: uma mulher do avesso em pleno estado de dolorosa decomposição existencial; uma dor que não pode ser curada com aspirina. A demonstração mais realista de que, às vezes, pode ser muito feio, sujo e fétido o existir, pode ser percebida durante o decorrer da história que o filme apresenta: a figura de Macabéa, o lugar onde vive, a postura das pessoas à sua volta e sua quase nula presença perambulando pelo mundo. Manifestações muito bem apoiadas no argumento do livro e reforçadas com palavras que completam as imagens. Palavras nascidas de diálogos que constroem o ritmo crescente da personagem na medida em que ela é diminuída.

O filme se apresenta como um recorte do que Macabea traz enquanto personagem, não como resumo. O que é estar no mundo e dar conta disso?

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