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Torquato Neto – Todas as horas do fim


Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Murilo Mendes

O retrato de um artista prestes a morrer. Suas imagens quase sempre performáticas, retiradas de suas participações na relação apaixonada que teve com o cinema, vão dando o tom do documentário Torquato Neto – Todas as horas do fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando. O cinema brasileiro segue durante todo o filme como uma espécie de norteador visual-poético da história.

 

Não há uma cronologia narrativa que desperte no espectador uma noção natural das con(sequências) quando se ouve uma história. O filme é um tanto fragmentado, com um núcleo fixo. O teor de sua estrutura é construído com o habitual discurso dos entrevistados, uma voz em off que ora vem ilustrada por referências cinematográficas, ora pela própria imagem dos entrevistados, estilizadas de forma sutil e rápida, dentro do padrão estético das imagens de arquivos, produzindo uma uniformização visual conveniente ao filme.

 

Essa proposta faz com que o documentário, sem grandes estripulias, fuja do lugar comum e narre a vida de Torquato com uma onipresente atmosfera de abismo. O diretor entendeu que seria impossível filmar a história do artista sem que filmasse o processo inerente da morte em sua obra e, consequentemente, em sua vida. 

 

O processo criativo na escrita de Torquato Neto, que brota precocemente, já sinaliza para uma angustia perene e o filme não poderia negar isso. Quando assume a poesia enquanto discurso estético, o diretor dá uma chance maior ao documentário. O peso que o suicídio carrega ganha azas e transcende a qualquer julgamento, se for o caso. Portanto, a história documenta e apresenta um artista brasileiro em toda sua complexidade, assim como nos apresenta um ensaio poético sobre um artista morto – a beleza onde quer que ela esteja.

 

O filme nos leva para um espaço da arte brasileira e para um momento histórico que apesar de duro era belo. A música e a poesia podem fazer da vida e da morte algo interessante, cheio de possibilidades, para além da polaridade. Ainda que todas as horas sejam a do fim. 

Por: Rosangela Dantas

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