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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Insistência e Carnaval – Cordão do Boitatá convoca para o carnaval da utopia

Por:

Fabiana Melo Sousa e Rosangela Dantas 

É na base da insistência que o carioca vai botar seu bloco na rua este ano, a mesma insistência que temos para o cinema. A falta de recursos e o desdém do poder público soam como um desvario medonho, uma atmosfera ruim que nem combina com a cidade, bem diferente da Lira do Delírio que nos leva num transe de confetes e serpentinas para o carnaval. Porém, estamos diante de uma cidade fechada, sem a chave pronta pra dar cabo do nosso Orfeu Negro.

E é apesar do mascarado que seguimos brincando a preço de cerveja. Aliás, o “Perfeito” pediu pra pegar leve! Até parece que dá pra engolir este Carnaval no Fogo sem um goró pra ajudar a descer tanto descaso com a nossa purpurina! Assim, Quando o Carnaval Chegar pelo valor de um litrão, os grupos contam com a nossa alegria e uns caraminguás para manter O Som ao Redor.

O Cordão do Boitatá está construindo um “Carnaval da Utopia” com todas as pessoas que quiserem chegar, indo na contramão do Bananas Is My Business. Com mais de 20 anos de folia, o Boi dá o papo pra nós, cariocas, que acreditamos num Rio de Janeiro pra todos. Em carta aberta, o Cordão convoca todos os foliões para O Abraço da Serpente.

 

Segue a carta aberta

https://www.facebook.com/notes/cord%C3%A3o-do-boitat%C3%A1/carta-aberta-do-cord%C3%A3o-do-boitat%C3%A1-2018/1862183810518793/

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Corpo e Alma (Uma mensagem necessária para 2018!!)

Por Rosangela Dantas

Dentro de um silêncio de gestos o filme de  Ildikó Enedi, ganhador do Urso de Ouro, no 67° Festival de Berlim, nos dá a chance de sair da rotineira previsibilidade cinematográfica que nos vem sendo imposta ultimamente. Corpo e Alma, uma produção húngara, tem como veiculo mensageiro de uma história de amor, um cinema cheio de sentido. Ao escrever com a câmera uma espécie de poesia do encontro a diretora nos devolve a condição de espectador/contemplativo.

Em uma época em que as relações padecem de uma comunicação mais próxima e física por conta dos meios tecnológicos, no que tange as projeções que assolam o mundo virtual e suas redes sociais, o filme aponta para uma dificuldade real onde o corpo e a alma por alguma razão não se conectam, deixando espaço apenas para um dia a dia mecânico, solitário, silencioso… Um mundo contemporâneo que alimenta na gente um estado permanente de inadequação.

Uma narrativa que usa a morte e o sangue de animais como justificativa para tanto afastamento humano. Uma fria condição de estar no mundo, tirando das personagens Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) o mais básico da capacidade humana, se comunicar, se relacionar. E é dentro de uma perspectiva “fabulesca” que o fantástico empresta ao razoável as ferramentas para tornar possível a relação entre eles que, descrentes e incapazes, encontram no Amor o caminho de volta para si e para o outro.

Um filme cheio de beleza e reflexão, tanto na sua estética de ser cinema, quanto na sua capacidade de olhar para o mundo. Uma mensagem necessária  para 2018. Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

 

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O Verão de 1993

Por Rosangela Dantas

Por meio da perspectiva de uma menina, a diretora Carla Símon nos conduz em um universo de descobertas e autoconhecimento. A história de Frida (Laia Artigas) nos é apresentada como se em suspenso. As perdas que a pequena garota silenciosa e de olhos triste sofreu parecem ter pausado sua existência e, dar continuidade à sua vida, depende de um monte de respostas que Frida não sabe perguntar.

Com um cinema vivo, o filme coloca em quadros o cotidiano de duas crianças. Enquanto uma está preocupada com a beleza da joaninha, a outra tenta se entender na ausência dos pais, mortos. No contato com a natureza e no amor paciente dos tios, Frida tenta sobreviver a essa nova possibilidade de estar no mundo. Sua busca é a nossa busca. A medida que ela caminha, nos damos conta de que suas escolhas e atitudes são fruto de uma ausência, um vazio que para resistir há que endurecer e quase perder a ternura.

O tempo é tratado com toda sutileza, o tempo existencial de Frida é que comanda o ritmo do filme. Cada tentativa, sucesso e frustração vivenciados pela menina nos atingem. Nosso olhar íntimo sobre a personagem, em função do foco, acaba por nos tornar atentos e cuidadosos com a espera do amadurecimento dos sentimentos daquela pequena.

E assim, como o entendimento de Frida diante da vida começa a surgir, o nosso, acerca da história, também vai se manifestando e, de forma afetuosa, nos damos conta de que o filme trata de um processo doloroso e rico. Continuar às vezes é apavorante, pois como se trata de uma criança o monstro é mais feio.

Frida só encontra o caminho de volta quando ri, ri de chorar. Esse turbilhão de sentimentos te joga de volta à roda viva e se expressar é a única saída. Perguntar, tentar entender é se fazer presente de novo. Uma história cheia de beleza e vida num Verão de 1993.

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A Hora da Estrela no Arquivo em Cartaz 2017

Por Rosangela Dantas

Uma das homenagens do Arquivo em Cartaz –  Festival Internacional de Cinema de Arquivo – 2017 é a adaptação A Hora da Estrela de Suzana Amaral, um filme baseado no livro homônimo de Clarice Lispector. Este é um ano especial para o livro e a autora. Clarice completa 40 anos de morta, no mesmo momento em que A Hora da Estrela também completa 40 anos de publicação.  E foi exatamente o dia de sua morte, 9 de dezembro, escolhido para a exibição do filme de Suzana na Mostra. A Hora da Estrela restaurado pelo CPCB será exibido no Cine Arte UFF na Mostra Homenagens, dentro do Festival.

Um pouco dessa transposição, adaptação literatura/cinema da Hora da estrela

O que foi, por muitos, chamado de uma literatura menos hermética diante dos livros anteriores de Clarice Lispector, é apenas uma maneira de vincular a forma da escrita da autora a uma compreensão mais abrangente por parte dos leitores. O romance “A Hora da Estrela” forja uma objetividade quando “heteronimia” o autor, dando-lhe plenos poderes de narrador, um narrador ativo no discurso e frio no desdenho de sua personagem e objeto de reflexão existencial: Macabea. Clarice, o autor, destrincha a personagem como a um bicho abatido, prestes a ser devorado. Os gritos são para dentro, a vida é anulada, não é extinguida. Macabea está e se ausenta, o corpo existe, mas ela não. O cheiro, a vida e sua simplória condição humana são sinônimos no desenho da personagem. Pistas significativas para um leitor atento e propenso a uma divagação mais profunda acerca do sentido questionável da existência. Para isso, Clarice fornece pistas de aparência simples compondo um quadro com uma certa subjetividade. O painel de informação seja de cunho externo da situação, seja de cunho interno, apresenta ao leitor um motivador que aciona seus mecanismos para uma analise semiótica situando-o com o universo da personagem e, conseqüentemente, com a história.

A discussão do texto parte de uma nordestina rica em possibilidades. Questionamentos sobre o porquê do existir pairam sobre Macabea, não em seu pensamento e sim em seu corpo, em seu mundo, em seu modo de ser, sem ser. O autor descreve e procura dar sentido ao que se é, dentro do que se expressa, no universo de signos montados como um quebra-cabeça da existência humana. O filme, por meio de uma ótica voyer, parte do indivíduo para o meio. Mesmo num debate acerca da infeliz nordestina, o sentimento torna-se similar no que tange ao eu do outro. Macabea é atingida por uma identificação causada, no processo de construção textual, pelo poético e pelo senso comum. O leitor pode seguir um caminho linear e enxergar apenas uma história de uma pobre retirante tentando a vida em uma cidade grande ou, dependendo de suas vontades, ferramentas e anseios literários, pode adentrar em um mundo de significados que irá levá-lo a uma leitura de cunho existencial do seu próprio mundo.

No filme “A hora da Estrela”, a diretora Suzana Amaral capta o núcleo da história e desvenda o mistério de uma mulher supostamente comum. A escolha da atriz serve como ícone para o argumento a ser apresentado porque especificamente aquela atriz carrega as condições físicas, quixotescas  e talento que ajudam na composição da personagem.

A diretora opta por uma narrativa clássica quanto à construção cronológica. Inicia o filme com o off da rádio relógio pautando os segundos do tempo e a voz do locutor perguntando e respondendo assuntos curiosos ou inúteis durante toda passagem dos primeiros créditos. O filme já começa dando respostas ao que não foi perguntado. Terminados os créditos, a primeira cena também se apóia no som – um som produzido por pausados toques em um teclado de uma máquina de escrever, sugerindo que alguém está datilografando muito mal, tal é a distância sonora entre um toque e outro. Enquanto isso, um gato lambe-se numa espécie de depósito, com caixas ao fundo. A câmera desliza fazendo um reconhecimento do ambiente e buscando alguém, até que encontra Macabea e não consegue identificá-la. Suzana Amaral não foge do olhar introspectivo na personagem, mas deixa a história transcorrer com uma certa linearidade de ritmo, com cortes secos e seqüências com quadros lentos ou estagnados, sem prejuízo à leitura do espectador.

A diretora explora bem a riqueza de detalhes proposta pelo livro no que diz respeito à descrição de Macabea. É quase possível enjoar-se diante do perfil mal cheiroso traçado pela cineasta: uma mulher do avesso em pleno estado de dolorosa decomposição existencial; uma dor que não pode ser curada com aspirina. A demonstração mais realista de que, às vezes, pode ser muito feio, sujo e fétido o existir, pode ser percebida durante o decorrer da história que o filme apresenta: a figura de Macabéa, o lugar onde vive, a postura das pessoas à sua volta e sua quase nula presença perambulando pelo mundo. Manifestações muito bem apoiadas no argumento do livro e reforçadas com palavras que completam as imagens. Palavras nascidas de diálogos que constroem o ritmo crescente da personagem na medida em que ela é diminuída.

O filme se apresenta como um recorte do que Macabea traz enquanto personagem, não como resumo. O que é estar no mundo e dar conta disso?

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Guerra dos sexos

Se antes era necessária a discussão sobre gênero, hoje é temática recorrente e quase obrigatória na sociedade. Nessa perspectiva, o cinema vem sendo um grande aliado na propagação desta questão, colocando em pauta uma reflexão sobre as condições da mulher na sociedade contemporânea. Assim, trazer à baila a história da situação da luta por direitos feministas é um grande mérito do registro cinematográfico. A linguagem audiovisual é uma potente ferramenta discursiva, para o bem ou para o mal.

No filme Guerra dos Sexos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, o assunto nada mais é que o registro da luta das jogadoras de tênis pela equiparação dos valores dos prêmios oferecidos nos torneios, que pagavam quantias inferiores para as atletas femininas.

Guerra dos Sexos aborda uma grande disputa de tênis que aconteceu na década de 70, entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder mundial do tênis feminino à época, Billie Jean King (Emma Stone). Um evento que levou a discussão sobre igualdade de gênero a um outro patamar. A grande repercussão da partida, por mais carnavalesca que tenha sido midiaticamente, foi extremamente importante para colocar as tenistas femininas no seu lugar de direito. O filme ainda mostra um Bobby Riggs desesperado para não cair no ostracismo, e a  tenista Billie Jean King em crise com sua sexualidade, alimentando a trama com um pouco de conflito e drama, para além da discussão de gênero e tirando um pouco de dureza do roteiro.

A história é muito bem ambientada. Uma viagem no tempo que nos coloca diante de questões muito atuais, quando hoje, ainda, nos pegamos tendo que enfrentar pensamentos e posturas muito conservadoras. Quando o filme aponta para conquistas que ontem foram arrancadas à duras penas de “porcos chauvinistas”, nos colocando diante de uma confusa conclusão: ainda temos um longo caminho a percorrer e devemos ficar em eterna vigilância.

Um filme leve e colorido mas que guarda em suas entranhas uma ânsia de liberdade de ser e de amar.

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FESTIVAL DO RIO 2017 – Zama de Lucrecia Martel

“Fazer cinema não é aplicar um manual de regras, mas achar as ferramentas, que podem ter diversas naturezas, para encontrar a fenda.”

Lucrécia Martel

Por Rosangela Dantas

Quanto se tem pra dizer sobre a história de alguém? Com o cinema de Lucrécia Martel tudo que há de vida pode ser contado. Zama, um romance de Antonio Di Benedetto (1956), adaptado pela própria Martel, para o cinema, enche a tela de som e sentido.

Quando conhecemos o personagem Don Diego de Zama (Daniel Gimenez Cacho) nas primeiras sequências do filme acreditamos que se trata de um filme sobre aquele homem e tudo à sua volta é pano de fundo para a sua história. Num século XVIII castigado pela degradação humana, onde o negro e o índio servem ao imperio espanhol, um americano espera. Enquanto faz isso, Zama tenta não sucumbir ao fato de ter sido esquecido.

Lucrecia não propõe uma fluidez. A diretora aprisiona a história como se todo o filme fosse a própria clausura de Zama. Apesar da espera de Don Diego, não há esperança naquele lugar. Sentimos que a narrativa não parte de uma linearidade, os acontecimentos surgem e, somente por meio dessa percepção, é que Zama se realiza para o espectador. O ator Daniel Gimenez Cacho nos leva, com seu corpo quase desistente, num perambular que vai e vem, quase sem sentido, se contrapondo à energia de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele) e à sua presença mítica em todos os sentidos.

Sem bandeiras, Martel expõe as feridas de uma colonização. Há um tempo no filme em que tudo parece aguardar algo. Nada se conclui. Há um tédio existêncial sempre à espreita. Fragmentos de um cotidiano inacabado. O círculo não se fecha. Zama espalha sua inércia. E tudo se junta à sua espera.

Para Zama nada mais importa. Como ferrugem, sua expectativa corrói sua vida. Os outros que ali habitam nada dizem a esse Don Diego que aguarda sua partida. Zama não se acha pertencente. Ainda que à míngua, ele se percebe superior àqueles que ali estão. Injusto é que ele próprio ainda esteja ali. Todo o resto está no lugar certo. Somente ele que destoa.

O filme estabelece com o espectador uma relação sensorial, realizando uma característica comum nos filmes de Lucrecia Martel. O som nos coloca em alerta, nos aproximando da cena e nos levando para dentro da história. As mulheres, as relações e a presença dos bichos interagindo com os personagens tornam os quadros de um realismo incômodo. Um silêncio para que se ouça, semelhante a “O pântano” (2001).

Lucrecia conhece as ferramentas e a história só se realiza em seus filmes, quando seu personagem é atravessado pela vida. Então nos damos conta, a história não é só sobre Zama. Ele e os outros esperam.

Onde assistir no festival do Rio

Domingo, 08/10     21:45*   CCLSR – Cine Odeon NET Claro

Segunda, 09/10   19:20*     Reserva Cultural Niterói 2

Quinta, 12/10   21:30   Estação NET Ipanema 2

Sábado, 14/10  19:15   Kinoplex São Luiz 4


* Sessão com convidado(s)

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MOSTRA – Rússia: um quarto de século através do cinema

Enterrem-me atrás do rodapé (2009), filme de Serguey Snezhkin


A Caixa Cultural RJ apresenta, a partir do dia 19/09, a Mostra Rússia um quarto de século através do cinema, com filmes produzidos de 1991 a 2017. Serão 16 produções que trazem um panorama do cinema russo nestes últimos 25 anos. As sessões vão até o dia 01/10, exibindo ficções e documentários de diversos assuntos, que refletem, principalmente, o contexto sociopolítico contemporâneo da Rússia.

Segue a programação completa e um texto sobre um dos filmes,  Leviatã (2014), que será exibido no dia 30/09 às 18h. Este texto foi publicado no JBlog em 2015, a propósito da sua estreia.

Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141min

Por Fabiana Melo Sousa

Marvin John Heemeyer, um soldador, perde uma disputa de terras e revoltado ataca com uma escavadeira a prefeitura de sua cidade e a casa do prefeito. Ele interrompe sua ação quando a máquina destruidora apresenta problemas técnicos e, ao final, Heemeyer comete suicídio.

Esta história que parece uma ficção aconteceu em 2004 no Colorado (EUA) e serviu de inspiração para o longa “Leviatã”, de Andrey Zvyagintsev, uma produção russa indicada ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro de 2015 mas ganhador de outros troféus em festivais como Cannes (Melhor Roteiro).

Em Leviatã, Heemeyer é tomado como argumento pelo diretor Zvyagintsev, que também se inspira em dois clássicos da literatura mundial para apresentar a saga do pescador Kolia (Aleksey Serebryakov), vivendo um inferno ao perder terras para a prefeitura mesmo depois de lutar em todas as instâncias legais e de ver sua vida pessoal devastada por uma série de tragédias.

Sozinho, o pobre homem luta contra o prefeito Vadim Cheeleviat (Roman Madianov) que negocia com uma grande empreiteira a construção de um Centro Comunitário no local e não mede forças para usar o seu poder, aconselhado constantemente por ninguém menos que o Bispo da Cidade. É o indivíduo contra o Estado/Igreja.

A impressionante ossada de uma baleia e os homens são os únicos animais que vemos no filme, mas rapidamente percebemos que a primeira referência é inofensiva diante daqueles que não agem pelo bem comum, mas em benefício próprio – Homo homini lúpus, diria Hobbes.

Não é uma obra que propõe grandes inovações cinematográficas, mas traz uma bela direção e o roteiro não prepara o expectador para algumas surpresas. Por mais que a máxima do filósofo nos pareça coerente, a vida do pescador se torna uma saga bíblica, assim como a de Jó, lançado a todas as provações, nos levando a refletir até que ponto é possível um homem honestamente e passivamente suportar o sofrimento, sem perder as esperanças e a fé. Aliás, homem no sentido literal, pois a representação feminina é subjugada à presença masculina nas esposas servis e prontas para suportar o sofrimento.

O filme merece ser visto por muitas razões, principalmente pela polêmica que ele gerou no país. A vida real não atravessou esta produção apenas no argumento, ela virou febre quando vazou na internet e provocou ira no governo russo.

Lançado no país no início de fevereiro (2015) com uma versão censurada por uma lei do Ministério da Cultura que proíbe palavrões em filmes que recebem recurso público, ele ainda gera conflitos quando alguns representantes do governo e da Igreja Ortodoxa o desaprovaram, acusando-o, dentre outras coisas, de cuspir no poder, arrancando fervorosas declarações, como a de Sergei Markov, membro do Partido Governista Rússia Unida: “No lugar dele (do diretor), tiraria o filme de cartaz, iria à Praça Vermelha, me ajoelharia e pediria perdão”.

Andrey Zvyagintsev afirma em entrevistas que o filme não é um panfleto político contra Putin, pois o roteiro foi escrito há seis anos e traz referências universais, no entanto, seu interesse pela obra como arte não pôde distanciar-se de seu contexto pelo impacto que teve na Rússia. Embora seja um bom filme, talvez a sua verdadeira força esteja em sua apropriação pelo público como bandeira ideológica, principalmente para criticar Putin e cia., reforçados pelas declarações tanto do governo quanto da igreja. Se tudo o que incomoda os poderosos é valioso, “Leviatã” está nesse caminho.

 

Programação:

19 de setembro (terça-feira)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

17h – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

19h15 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital,18 anos

20 de setembro (quarta-feira)

Cinema 2

17h – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

19h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

21 de setembro (quinta-feira)

Cinema 2

17h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

19h – Enterrem-me atrás do rodapé (2009), de Serguey Snezhkin. Rússia, Upscale, 110 min, 18 anos

22 de setembro (sexta-feira)

Cinema 2

17h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov, Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

Destaque para a retrospectiva da obra de Aleksey German realizada após a queda da União Soviética

23 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

Cinema 2

16h30 – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos(Estreia em território nacional)

18h30 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

24 de setembro (domingo)

Cinema 1

19h – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, 18 anos(Estreia em território nacional)

Cinema 2

15h30 – Blues de Grozny (2015), de Nikola Belucci, Suíça, 104 min, Digital, 18 anos

17h40 – É difícil ser um deus (2013), de Aleksey German, Rússia, 177 min, Digital, 18 anos

26 de setembro (terça-feira)

Cinema 2

16h – Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov. Rússia, 90 min, Full HD, 18 anos

18h30 – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

27 de setembro (quarta-feira)

Cinema 1

17h – Palestra Rússia: um quarto de século através do cinema, com Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho

Cinema 2

15h – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Relações próximas (2016), de Vitaly Mansky, Letônia/Alemanha/Estônia, Ucrânia, Digital, 18 anos

28 de setembro (quinta-feira)

Cinema 1

18h – Palestra Balabanov e o cinema da Rússia pós-soviética, com Anton Dolin

Cinema 2

16h – Sobre homens e aberrações (1998), Aleksey Balabanov. Rússia, 93 min, Digital, 18 anos

19h20 – Irmão (1996), de Aleksey Balabanov, Rússia, 97 min, Digital, 18 anos

29 de setembro (sexta-feira)

Cinema 1

16h – Khrustalev, o carro! (1998), de Aleksey German, Rússia/França, 137 min, DVD, 18 anos

19h – Palestra O cinema de Aleksey German, com Anton Dolin

Cinema 2

17h – Fábrica “Esperança” (2014), de Nadezhda Meshaninova, Rússia, 90 min, Digital, 18 anos

30 de setembro (sábado)

Cinema 1

16h30 – Que tal a vida, camaradas?, de Luis Felipe Labaki, Brasil, 15 min, HD, Livre

17h – Mesa Redonda O cinema na Rússia atual: conformismo ou resistência?, com Anton Dolin e Luis Felipe Labaki

Cinema 2

15h – Sob o sol (2015), de Vitaly Mansky. Rússia/Letônia/Alemanha/Republica Tcheca/Coreia do Norte, 106 min, Digital, 18 anos

18h30 – Leviatã (2015), de Andrei Zviagintsvev, Rússia, Digital, 141 min, 18 anos

1 de outubro (domingo)

Cinema 1

15h – Periferia (1998), de Piotr Lutsik, Rússia, 100 min, Digital, 18 anos

17h – Debate Novas vozes do cinema russo, com Anton Dolin

19h15 – Algo melhor por vir (2014), de Hanna Polak, Dinamarca, 100min, Full HD, Livre

Cinema 2

14h30 – O Aluno (2016), de Kirill Serebriannikov, Rússia, Digital, 18 anos

19h – Sufocamento (2017), de Kantemir Balagov, Digital, 18 anos

 

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O Filme da Minha Vida –  um filme calculado

 

Por Rosangela Dantas

“Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” Clarice Lispector

A experiência de assistir a um filme geralmente nos coloca diante de certos sentimentos ou situações provocados por um fio de identificação, e isso não quer dizer, necessariamente, que a história precise nos ser familiar ou idêntica. Por isso, quando entramos no cinema essa experiência, provavelmente, será única.

O Filme da Minha Vida parte do princípio de que o cinema tenha uma fórmula exata para acontecer, esquecendo-se de que, em algumas salas, ele pode não se realizar ou, dependendo do que se pretende com o filme, pode também ser um grande sucesso, mesmo acontecendo apenas enquanto exercício de linguagem.

Sendo mais objetiva, minha experiência com o novo filme de Selton Melo me deixou em suspenso. Por que tamanha beleza nada me disse? Faltou identificação com a história? Não. Falava de amor, abandono, separação, cinema – ingredientes suficientes para servirem de porta aos meus sentimentos e reflexões. Ainda sabendo que, mesmo que a história não me diga respeito, um filme pode arrombar minha subjetividade e me dizer o que me faltava sentir. A experiência pode ser inaugural. E isso pode ser construído por meio da contemplação, do incômodo ou da ausência de sentido.

Assistindo O Filme da Minha Vida e lendo tantas interjeições positivas nas redes sociais e ponderadas críticas sobre a eloquente direção de Selton Melo, só me resta falar de minha experiência como espectadora, não sei se solitária, nessa empreitada de ousar dizer que o filme de Selton Melo padece de vida. Por mais espetacular que sejam todos os elementos que constituem a linguagem cinematográfica, de nada adianta se o filme não alcançar um pouco de vida. Talvez algo que esteja intrinsecamente ligado à espontaneidade, ao calor, ao cheiro, ao suor.

A justeza de alguns elementos como a belíssima fotografia, a economia milimetricamente estudada das atuações, o bom emprego dos recursos na produção, a atenta escolha dos atores e a longa e excelente lista de referências biblio… ops, cinematográficas, presentes nas citações fazem do filme o melhor filme da vida de qualquer um. Será? Talvez. Pois, para não gostar do Filme da Minha Vida é precisso renegar toda uma grámática cinematográfica que faz do cinema uma arte. É claro que essas minhas mal traçadas linhas não fazem de Selton Melo um sofista do audiovisual, mas seu filme me deixa com a sensação de uma estética radicalmente racional e isso não me deixa espaço para outro pensamento se não o de que seu filme é um mero, e no pior sentido que essa palavra possa carregar, produto.

Talvez o rei não esteja nu ou talvez este não seja o filme da minha vida.

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Poesia sem Fim


Por Rosangela Dantas

Com a habilidade de fazer um cinema atravessado pela poesia, Alejandro Jodorowsky conta a própria história, lançando mão do que de melhor pode se fazer com os elementos narrativos. Em Poesia sem Fim, o segundo  filme de um total de cinco que Jodorowsky projeta levar às telas para contar sua trajetória no mundo e na arte, tendo como pontapé inicial – A Dança da Realidade (2013), ele nos leva por uma viagem repleta de encontros poéticos e, por meio de alegorias, constrói os episódios que fazem parte de sua trajetória e o constituem como homem e artista.

Há uma liberdade no discurso que o relata, que o delata enquanto sonhador. O diretor de filmes que está mais preocupado em voar do que em andar, aproveita a oportunidade para desconstruir desavenças, mágoas, arrependimentos, assim como, para se reafirmar. Na ficção de si mesmo, Jodorowsky subverte a realidade e inventa cenas que ficaram faltando em sua vida.

Sua versatilidade artística e sua inquietação poética sucumbem ao diálogo com outras artes. Resta ao cinema ser o espaço cênico dessa narrativa, um mero e prosaico acontecimento é carnavalizado e vira um grande espetáculo, como se a vida não pudesse ser expressada de outra maneira.

Ora repleto de cores intensas, ora repleto de belos movimentos, o filme representa o trágico mais cotidiano que a existência pode manifestar. A forma de Alejandro fazer cinema é da beleza débil de um sonhador. Seus personagens, demasiado humanos, percorrem sua história perplexos com tudo que há de onírico naquele existir, onde os acontecimentos se apresentam como citações da própria arte cinematográfica.

Sem deixar de nos contar sua vida, contaminado pela história do Chile e de seus poetas, Jodorowsky ainda nos devolve Fellini, nos devolve as cores repletas de sentidos e nos resgata da melancolia, depois de nos manter nela afogados.

 

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A Vida após a Vida

Esta árvore já viveu um milênio e meio

Já viu tantas pessoas

Esta árvore não me conhece

A experiência do cinema com o assunto “vida após a morte”, ou melhor, “após esta vida que conhecemos” quase sempre está atrelada aos gêneros suspense, terror ou às histórias de cunho religioso. Na proposta do filme do estreante Zhang Haniy, A Vida após a Vida, a relação que a cultura chinesa trava com os entes queridos, que já partiram dessa vida, disponibiliza uma gama de situações fantásticas às narrativas sobre esse tema.

O filme de Haniy deixa de fora do discurso de seus personagens a palavra morte, enquanto abusa dessa simbologia na paisagem de sua história. Com a aridez do local, que parece estar em processo de remoção das pessoas que ali viviam, o diretor coloca diante de um cinza de árvores secas uma memória de vida e mostra a importância do tempo nas árvores e sua função de testemunha da existência das pessoas e bichos.

O tempo narrativo, a falta de música e os diálogos secos sem muita explicação acabam por tornar este filme uma experiência estética estranha, dependendo do espectador. No campo poético e contemplativo, a fotografia quase congelada nos espera olhar. A única saída para o exercício do sentir.

A vida após a vida nos revela uma maneira filosoficamente mais oriental de estar nesse mundo. O corpo como mero veículo de uma existência que transcende, que não enxerga na matéria um fim, que não sucumbe a uma determinada condição de corpo e que, ao mesmo tempo, se mantem ligado ao mundo pela tradição, cultivando uma memória por meio de ritos.

Uma mãe que retorna do mundo dos mortos em meio a crise do pai com o filho, e o motivo de sua volta é a mudança de uma árvore de lugar. A conclusão desse ritual é mais importante para que ela própria continue sua jornada, como se a situação do filho com o pai fosse uma história apenas deles, que eles teriam que viver e solucionar.

O filme de Zhang Haniy nos tira de uma cristalização cristã e nos resgata a condição de mistério. Nos devolve um pouco da angustia filosófica e nos permite tirar uma folga desse estado de “que seja infinito enquanto dure”.

 

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