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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

La La Land (Déjà vu dançante)

O que nos faz espectador de um de gênero musical? Acho eu que nada de diferente do que nos alimenta em qualquer outro gênero: a narrativa – a história contada ou cantada, sua abordagem e atuação ainda são os gatilhos para que haja uma comunicação, uma relação entre filme e espectador.

Na sala escura, o filme La La Land, de Damien Chazelle, atinge o público na sua mais básica necessidade, o romance. Um enredo que propõe a clássica história de amor e que flerta com o romântico ao lançar mão de uma característica muito comum a esse gênero: a qualidade do impossível no desenlace do casal. Nos primeiros momentos do filme aponta-se para um desfecho que supera as dificuldades e para a ideia de que os protagonistas viverão felizes para sempre. Muito açúcar e pouca energia.

Mas nem só de amor vivem o homem e a mulher, quando o sonho de Sebastian (Ryan Goslig) e Mia (Emma Stone) sucumbe à relação dos dois, alguém parece começar a asfixiar. E a trama ganha um elemento dramático mais potente, um rival a toda aquela promessa de felicidade. Depende de como se quer ser feliz!

Ao trazer para esse tipo de filme o clássico modelo narrativo, a produção não corre riscos com os desavisados que não apreciam o gênero. No mesmo sentido quando se mantém na zona de conforto enquanto musical e aposta nas referências, assumidas como homenagens. La La Land, com muita competência e pouca inovação, foge dos estereotipados musicais quando não se rende a apenas um amontoado de sequencias de videoclipes.

Ao trazer a música de Justin Hurwitz como norteadora da historia de Sebastin e Mia as personagens ganham um vínculo com o público, tanto como casal, como enquanto individuos. E o sonho, seja ele a música de Sebastian ou a atuação de Mia, vira o protagonista da história. E mesmo quando eles (Sebatian e Mia) não respeitam a lógica narrativa romântica, a música é a memória de que o sonho está vivo.

O filme de Damien põe movimento para além das canções e números de dança, mas é sua competência como musical que o coloca como o grande favorito das grandes premiações – como no Oscar 2017, onde foi indicado em 14 categorias. Assim funciona a industria cinematográfica, faturou, recebe indicação, não importa se for musical western ou terror. Raramente haverá uma saudável contradição quando nem sempre o preferido do espectador será o preferido da Academia, mesmo que o espectador seja  essencial para industria.

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Eu, Daniel Blake

Apesar deste espaço estar iniciando seus trabalhos do ano somente hoje, eu não poderia abrir os posts do Leia Cinema 2017 com outro filme se não o fabuloso “Eu, Daniel Blake”. Mesmo sendo uma produção lançada no final de 2016. Um Cinema econômico e certeiro, combinando o comum de um assunto tão urgente com um discurso sofisticado e direto.

Ken Loach não dá chance para divagações. Sua narrativa exata quer dizer simplesmente o que é o sistema de auxílios dos britânicos e deixar as voltas para os burocratas que administram o tempo de vida dos cidadãos que, entre teclados, papeis, números e carimbos, seguem numa espera que dura o tempo de suas sobrevidas.

Daniel Blake (Dave Johns) perambula pela história como se fosse um intruso em sua própria existência. Sua peregrinação é para sair de um entre – a utilidade e a inutilidade – de um lado sua médica, que não lhe dá alta para voltar ao trabalho após um enfarte e, de outro, o sistema de auxílio que o pericia, dizendo que está liberado para trabalhar. Sem poder trabalhar e sem poder receber o auxílio, Blake segue tentando ser ouvido.

O filme tem um diálogo universal e atinge o espectador no que lhe é cotidiano, o tratamento recebido nas instituições “públicas”. Apesar do sistema em questão ser o inglês, essa estrutura onde o cidadão é apenas mais um – reduzido a um número – é a prática da desumanização mais comum no mundo. O filme clama por um poco mais de empatia.

E a universalidade da história se realiza quando os afetos se concretizam. Daniel resiste e, inconformado, luta por uma solução. Sua energia norteia o ritmo do filme. A tensão que acompanha essa espera é intercalada pelo que resta de humanidade no mundo. Nas relações com as pessoas, Blake resgata um pouco de sua utilidade e, no convívio com seus pares surgem os momentos de respiro da historia.

O roteiro de Ken Loach e Paul Laverty não alimenta nenhuma metáfora, não quer florear nada, a intenção é “que não se esmaguem as entrelinhas”,  a subjetividade dos personagens tem o tempo necessário para fazer desse filme uma experiência dura e lírica.

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Mostra Imagens e Complexos – Lançamento do Catálogo com os filmes exibidos e o processo da Mostra de filmes de favela que aconteceu em outubro no Cine Manguinhos

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Hoje, finalmente, acontece o lançamento do catálogo da Mostra de filmes Imagens e Complexos. Uma publicação que se permitiu sair pós Mostra por se tratar de um registro mais abrangente sobre o projeto. O Catálogo traz um resumo do que seja o Imagens e Complexos, o que ele representa para produção audiovisual das favelas, a catalogação dos filmes inscritos e exibidos na Mostra, o resultado e fragmentos de uma pesquisa (ainda introdutória) com alguns dos grupos que produzem cinema nas favelas do Rio, além das resenhas produzidas pela curadoria da mostra sobre cinco filmes, que foram destaques no evento – “A Fonte”  (2015), Beco dos Pancados (2015), Do luto para luta (2016), Olhares da Misericórdia – Serra que atravessa gerações (2015) e Visita (2015).

Segue a baixo o texto sobre o filme Visita, que juntamente com os outros constam no catálogo e que serão exibidos hoje num no evento de lançamento no Complexo do Alemão, no espaço do Raízes em Movimento, parceiro do Imagens e Complexos.

Visita  (2016)  Direção: André Sandino Costa

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O que é isso?

Por Rosangela Dantas

(…) Ele sabia tudo da vida da gente, mas a gente não sabia que ele era o Coutinho. Não sabia que ele era um documentarista, até famoso, uma celebridade na verdade, nesse meio… Ele chegou e ficou de uma maneira tão suave, que a gente nem se preocupou e saber quem ele era (…) (Vera – Santo Forte/Visita, 2015/16)

No caminho da memória de um menino o fio condutor é o cinema. Uma visita ao passado, trilhando a favela Parque da Cidade – a câmera ora num tripé, propondo uma fotografia estática, deixando o movimento por conta da vida na favela, ora caminhando, como quem seguia um rastro de uma história já contada, mas cheia de entrelinhas.

A diversidade religiosa que antes era personagem principal nas indagações de Santo Forte, de Eduardo Coutinho, agora é pano de fundo no percorrer dessa Visita, de André Sandino Costa. Um filme que aposta numa verve afetiva deixada por Coutinho, quase como herança aos seus personagens.

Visita sobe o morro em busca de alguém que, lentamente, será desvelado pelas lembranças do narrador. Suas descrições do local vão, aos poucos, reconstruindo, refazendo o caminho e as casas que seu imaginário preservou. A voz em off aponta a trajetória de um lugar que, apesar das modificações, guarda em si pessoas, que também modificadas, têm em comum, mais do que um filme com Eduardo Coutinho, um encontro.

E será por meio dos relatos, relembrando o sentido de suas espiritualidades, que eles vão desencavando o velho cineasta das palavras – um homem comum que chegou envolto à fumaça de seu onipresente cigarro, com fome de ouvir. A memória dos personagens nos presenteia com um making off de uma produção do documentarista Coutinho. O papo amistoso, a relação de respeito, o cafezinho requentado. Pessoas que deram suas histórias para o diretor e nem assistiram ao filme.    

O filme Visita discursa em primeira pessoa, resgatando um desejo de fazer cinema, indo ao encontro de seu mestre, quase vinte anos depois. A figura meio mítica é desenhada por seu narrador e desmistificada por seus personagens, quase como num jogo de cena, onde a verdade e a mentira, mais uma vez, são ressuscitadas pelo cineasta.

Cada vez mais presente no decorrer do filme, nas palavras de seus personagens, nos becos e histórias suscitadas, Visita vai dando forma a um documentário dramático e, num recorte biográfico, propõe uma materialização, que tem o seu clímax com o diálogo saudoso e, sabiamente, conformado, com D. Thereza – como se Coutinho estivesse ao seu lado, D. Thereza materializa o amigo com suas palavras.

O filme Visita, por meio da memória, pede aos contadores do documentarista Eduardo Coutinho que o ajudem a construir um retrato daquele homem, numa entrevista que em nenhum momento tenta copiar o cineasta e que não espera mais um relato das próprias experiências dos personagens, mas ainda assim, confirma um dos grandes ensinamentos de Coutinho: “(…) O duro é conseguir uma igualdade, que é utópica e temporária, mas que é possível. Na medida em que você não finge que é pobre, índio ou nordestino para ter aceitação. A diferença é algo que ativa a conversa. (…)”

Isso é cinema.

 

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Cinema Novo – Um filme de muitos diretores

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Eryk Rocha assumiu a condição de privilegiado quando resolveu encarar o projeto de contar em um documentário a história do Cinema  Novo. O lugar de privilégio ao qual me refiro não tem nada a ver com o fato de Eryk ser filho de Glauber Rocha, seu pai e um dos pais do Cinema Novo, mas sim, por ter a sensibilidade de se entender nessa empreitada com um olhar muito mais sobre a montagem do que sobre a direção. E o privilégio fica por conta dos diretores do Cinema Novo, que dão ao documentário as imagens de uma história de cinema cheio de significados.
Ao se debruçar sobre uma gama de filmes e imagens que fizeram a trajetória do Cinema Novo, Eryk percebeu que somente uma dialética dessas imagens daria conta da poesia, da política e da história que esse movimento cinematográfico carrega. Somente dentro de um embate estético político discursivo é que se realizaria, com os fragmentos das películas, uma possibilidade lógico-narrativa. E é pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman e outros que o diretor deste doc cheio de afeto e historia compõe seu painel vivo de um cinema brasileiro.

O filme de Eryk Rocha não é um painel de fragmentos aleatório, não é um mosaico ou qualquer coisa do tipo. No seu filme há um diálogo entre as imagens, há um embate de discurso, há uma relação entre as formas que fizeram a história desses filmes. A narrativa proposta por Eryk se vale da metalinguagem, em seu documentário o Cinema Novo se conta. Com sequências clássicas, duelos e amores, os filmes conversam sobre sua própria trajetória estética, restringindo assim os offs tão comuns nesse tipo de produção.

Um apanhado de uma história do cinema que dá um nó em qualquer aula sobre o gênero. O filme estabelece com a realidade contemporânea uma sintonia perfeita, sobre o que acontece com o cinema brasileiro e o seu contexto histórico. Um filme demorado de fazer, um filme pensado, um filme apaixonado. Cheio de referências e inferências. Um filme que nos enche de uma certa inquietação e paixão pelo audiovisual. Somos transportados para uma discussão em pleno Cinema Novo onde tudo é filme. Onde tudo é realidade.

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Imagens e Complexos – encerramento

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Na tarde fria do domingo, dia 02, em clima de eleição, a Mostra Imagens e Complexos encerrou suas atividades, agora é concluir o catálogo dessa primeira experiência. Os filmes exibidos no último dia foram Memórias do Preventório, de Luciano Simplício; Teixeira Ribeiro – Identidade de Um Todo de, Iury de Carvalho Lobo; Santa Marta, uma santa Favelada, de Marlon Silva da Costa; Em busca da Folia, da Girasol Comunicações; Um Lobisomem no Santa Marta, de Robespierre Ávila e A águia que cospe bala, da Girasol Comunicações.

As sessões “Moradia e Complexos” e “O real, o simbólico e Complexos” fecharam uma Mostra de 30 filmes que fizeram do Cine Manguinhos uma espécie de vitrine, apresentando um pouco do que as favelas cariocas vem produzindo no audiovisual. Quatro dias de exibições, debates, encontros, reencontros, apresentações, descobertas e construção de um espaço, onde os produtores de favelas puderam de alguma forma exibir e falar dos seus e de outros filmes.

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O público esperado para a Mostra não alcançou as expectativas de quem estava envolvido com a produção, mas a meta de promover a interação entre os fazedores de cinemas foi concretizada, além do que se deu no decorrer do processo com pesquisas e discussões acerca desse cinema que anda pelos becos, mas falando de uma cidade inteira.  Mais do que uma forma de expressão, os filmes selecionados pela curadoria do Imagens e Complexos estão em busca de um diálogo maior entre a vida e a arte.

A Mostra, coincidência ou não, se deu em pleno processo de encerramento das atividades do Cine Manguinhos. A gestão que atuava até o momento chegou ao final de seu contrato e muito pouco se sabe sobre o que acontecerá com a sala que recebeu o nome do documentarista Eduardo Coutinho. No segundo dia da Mostra, sexta, 30/09, durante o fórum dos realizadores – “ Quem é o dono da Imagem?”, os participantes trouxeram à baila o assunto fechamento/interrupção do cinema em Manguinhos, a sua importância para o público local, sua potência enquanto espaço de exibição e tudo que um aparelho como esse representa politicamente para as localidades que, muitas vezes, tem sua produção cultural restritas às intervenções nas ruas, com poucos espaços que possam acolher seus trabalhos artísticos e seu público.

Desse fórum, foi liberado pela coordenação da Mostra um texto com as reflexões, como forma de registro/protesto, pedindo um pouco de atenção para o fato. Segue abaixo.

“O Fórum Audiovisual e Favela: quem são os donos da Imagem?

O Fórum Audiovisual e Favela: quem são os donos da Imagem? aconteceu no dia 30 de setembro de 2016 no Cine Teatro Eduardo Coutinho como parte da Mostra de Filmes Imagens e Complexos.

Foi um importante momento de reflexão a respeito dos diversos temas abordados durante as mesas temáticas da Mostra, onde as pessoas convidadas apontaram questões que atravessam os cotidianos das favelas cariocas, representadas nas 30 obras selecionadas para serem exibidas entre os dias 28 de setembro e 02 de outubro de 2016.

Questões como a discussão de gênero no audiovisual, o racismo institucional, o preconceito que faveladxs ainda sofrem, a apropriação das imagens das favelas como um capital simbólico que representa a Cidade do Rio de Janeiro, mas sem dar autoria para as pessoas nas favelas, o financiamento das produções que em sua maioria são fruto de esforços coletivos (realizadas “no amor”) e o fechamento do Cine Teatro Eduardo Coutinho.

Diante destas questões o grupo presente destacou os seguintes tópicos:

– Nós moradores de favela representados nas obras apresentadas na Mostra de Filmes Imagens e Complexos refletimos a importância de espaços culturais, como o Cine Manguinhos, e a relevância de oportunidades como esta para a difusão e distribuição de filmes, exemplo dos que foram exibidos nesta Mostra, e realizados em sua maioria sem patrocínio. É necessária uma luta por espaços autônomos de exibição, fora das instâncias partidárias institucionais, para que as favelas e periferias possam ter como direito a cultura com locais bem estruturados;

– O desafio da apropriação dos espaços e equipamentos públicos de favela pelos grupos populares: como mobilizar o morador de Manguinhos que sofreu tantas violações com obras do PAC? É preciso pensar no cinema que foi construído em um contexto de violação de direitos e remoções em Manguinhos e por isso o morador das favelas no entorno não se reconhece neste espaço;

– O tempo que se leva para as populações destes locais se apropriarem destes espaços também tem a ver com as políticas públicas que sempre atuam enquanto projetos temporários e, muitas vezes, eleitoreiros: quando muda o governo, muda também a gestão e com isso a descontinuidade das políticas de culturas locais;

– As pessoas se inibem de estar nestes espaços de equipamentos públicos, então, é preciso ir até as pessoas, é preciso que o movimento popular de favela ocupe os espaços públicos e se aproprie;

– Quais são os produtores culturais de Manguinhos que podem ocupar estes espaços?

– Os grupos de comunicação comunitária de Manguinhos devem estar atentos a atual situação da precarização dos equipamentos de cultura dentro de um contexto nacional de avanço do conservadorismo e de mudanças que visam, claramente, tirar os poucos direitos sociais que são das populações pobres e conquistados com lutas, não foram “favor” de governo nenhum e sim resultados de nossas lutas;

– O audiovisual é também a oportunidade profissional para jovens nas favelas pensarem numa quebra de estereótipos da representação das favelas;

– A favela é sempre a solução e exige e ensina respeito e valorização dos jovens produtores e dos espaços comunitários de comunicação e de troca;

– A produção da favela tem importância para a cidade como um todo e não somente para as favelas em si. Aqui se expressa uma nova forma estética de ser fazer cinema, e por isso, é a possibilidade de ver o cinema fora de uma “caixa tradicional”.

Estes tópicos acima expressam um pouco das questões suscitadas no debate, mas é importante frisar que o momento de troca entre as pessoas que vivem e realizam audiovisual nas favelas é insubstituível.

Por fim, deixamos aqui o nosso agradecimento pela participação e pedimos que todas as pessoas que estiveram conosco possam publicamente se expressar quanto ao conteúdo deste post (publicado na página do Facebook Imagens e Complexos no dia 02/10/2016), e apontarem o nosso possível esquecimento ou distorção de questões levantadas.

Equipe de coordenação Mostra de Filmes Imagens e Complexos 2016

 

 

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MOSTRA IMAGENS E COMPLEXOS – foi dada a largada

 

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A Mostra Imagens e Complexos não poderia ter iniciado de outra forma. Na tarde de ontem os filmes que compunham a sessão Mulheres na direção e Complexos deram o tom da abertura. Produções como Favela que me viu Crescer de Paula Morena, Preto, Favelado, Escravo, Fujão de Ariana Malagrida, Alemão em f/5.6 de Aline Portugal, Rosilene Faria e Esqueça por enquanto de Priscila Gomes trouxeram temáticas diversificadas, trabalhadas a partir de um olhar feminino atravessados pelas vivências e experiências de favelas.

Esta intercessão – favela/gênero foi percebida durante o processo da curadoria da Mostra. Dos filmes inscritos, muitos eram produções de mulheres, o que nos apontou para uma reflexão possível sobre a visibilidade da participação da mulher no universo do audiovisual, que ainda reflete essa diferença de gênero da sociedade como um todo.

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Na mesa de discussão que aconteceu após os filmes, com mediação de Fabiana Melo Sousa e a participação das diretoras Priscila Gomes, Ariana Malagrida, e a produtora de Favela que me viu Crescer,  Mariluci Nascimento, foi possível dialogar com os temas que giraram em torno da mulher no audiovisual, suas angustias num meio ainda protagonizado por homens, tanto técnica quanto discursivamente. Além disso, outro assunto recorrente no que tange à produção de filmes nas favelas foi a questão orçamentária, para as debatedoras a dificuldade de realização de filmes e a realidade do cineasta da favela se intensifica com a falta de acesso a outras necessidades. “Ganhamos um edital e só recebemos a verba dois anos depois. Investimos em equipamentos para uso coletivo (que são utilizados ainda nas nossas produções) e cada integrante da equipe ganhou R$ 100,00 por mês pra produzir o Favela que me viu crescer. Levamos quase dois anos nessa produção.” Contou Mariluci.

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O debate alcançou a atmosfera poética dos filmes exibidos, aquelas senhoras e sua força num contar a história de um lugar com beleza e entusiasmo em Favela que Me Viu Crescer, a mãe e a perda de tantas mães representadas em Preto, Favelado Escravo, Fujão, a história de um homem e seus pensamentos sobre o que é viver e registrar uma favela e sua gente, em Alemão em f/5.6 e o corajoso exercício cinematográfico ficcional em Esqueça por Enquanto.

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Momentos marcantes compuseram a primeira mesa de debates da Mostra, como Ariana dizendo, emocionada, que era a primeira vez que via seu filme em uma tela grande ou quando Priscila contou com entusiasmo que seu roteiro nasceu nos objetos, um exemplo perfeito do que é trabalhar na adversidade, ou ainda quando Mariluci leu uma carta da diretora Paula Morena, justificando sua ausência:

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“O Favela Que Me Viu Crescer envolveu muitas pessoas e conexões, desenharam a primeira mesa da Mostra de Filmes Imagens e Complexos. É até clichê falar, porque qualquer pessoa sabe que um filme não se faz estando sozinho. São muitas mãos e mentes pensantes que ajudam a empreender a produção e erguer o filme. Este foi o meu primeiro filme e, sobretudo, um documentário desenhado numa expectativa de construção a­centrada, dialógica e horizontal desde a sua idealização até realizá­lo. Claro que sempre primando pelo respeito às qualidades importantes do olhar determinante de cada setor que compõe a produção de um filme. Trabalhar com esse espírito não foi/é/será tarefa fácil. O desempenho levando tudo isso em consideração exige sempre ação­/reflexão em todos os processos, conforme nos ensinou o grande educador, Paulo Freire.” (Trecho da carta de Paula Morena, diretora do filme Favela que me viu crescer).

Bem, isso foi só o inicio de um processo que ainda tem muito o que dizer. O cinema como fio condutor de pessoas que se propõem a dialogar com essa cidade que anda precisando tanto de imagens que falam, sentem e vibram com suas histórias.

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MOSTRA DE FILMES IMAGENS E COMPLEXOS

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Às portas do Festival do Rio 2016, tenho o prazer de anunciar a programação de uma Mostra que se faz necessária para o universo de produções do audiovisual Carioca. Um evento no subúrbio do Rio, que aponta para uma reflexão sobre um cinema dentre tantos olhares que esta cidade possui: o cinema produzido na favela.

Com um pouco mais de um mês de inscrições abertas, a Mostra Imagens e Complexos recebeu mais de 60 produções. A curadoria selecionou 30 filmes que serão exibidos no decorrer de quatro dias. De 29 de setembro a 02 de outubro no Cine Teatro Eduardo Coutinho, em Manguinhos, RJ.

Este blog tem muito orgulho em ser parceiro desse projeto e fazer parte da curadoria da Mostra, juntamente com Glória Coutinho, Renato Tutsis e as coordenadoras Fabiana Melo Sousa e Ludmila Oliveira. Um evento que, ao contrário do que possa parecer, não está preocupado com uma “parcela da cidade”,  mas com o todo do Rio de Janeiro. O quão importante é identificar na diversidade de olhares o quanto há de cinema e de cidade ainda por ver.

A lista dos selecionados demonstra que não há um filme de favela e um de outro lugar, há a diferença. A linguagem cinematográfica se faz cada vez mais presente, facilitada pelos meios tecnológicos. O que se torna cada vez mais natural o expressar-se no audiovisual. A Mostra de Filmes Imagens e Complexos é uma das formas da favela se manifestar artística e politicamente, não estamos ‘dando voz’ mas amplificando produções audiovisuais de diferentes formatos e estilos – ressalta Ludmila, uma das coordenadoras da Mostra.

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Dentro da proposta do projeto, um outro resultado, além das exibições dos filmes, fóruns e debates, será o catálogo que, com lançamento em data posterior ao da Mostra, trará os registros dos inscritos e seus processos. A publicação visa catalogar as produções, os produtores e suas respectivas favelas e, ainda, refletir acerca da temática audiovisual e favela. Como explica a coordenadora Fabiana: Embora exista um cenário que aponte para uma diversidade de linguagens e temas de produções audiovisuais faveladas, percebemos que a maioria destas obras não são conhecidas, uma vez que tem dificuldade de entrar nos circuitos de mostras de filmes da Cidade. E mesmo quando estão na internet, elas ficam perdidas, sem muita visibilidade. Acreditamos que o catalogo é uma forma de documentar estas iniciativas e ao mesmo tempo mapear os grupos, indivíduos e localidades aonde se encontram estas pessoas, ao mesmo tempo, é a oportunidade de lançar um debate sobre quais são os anseios e desafios vividos por estes sujeitos que vivem nas favelas e produzem suas imagens e discursos sobre os mais variados temas, mesmo que estes não sejam exatamente sobre as favelas. Acreditamos que o audiovisual, e suas mais variadas expressões, são uma importante instância mediadora entre estas pessoas e o mundo, forjando novos discursos sobre o cinema e sobre a própria cidade, melhor ainda, complexificando o atual cenário de produções de imagens sobre as favelas cariocas.

Entre documentário, ficção e videoclipe, a Mostra terá em sua edição um pouco desse universo de produção que, mesmo à margem de uma convenção cinematográfica, realiza seus projetos visuais. Dentre as produções, estão filmes da Rocinha, Jacarezinho, Complexo do Alemão, Maré e outras favelas do Rio de Janeiro.

PROGRAMAÇÃO

Quinta- Feira 29/09

14h – Mulheres na Direção e Complexos – Sessão I

Favela que me viu crescer (Documentário / 2014/2015 – 15’30”)
Direção: Paula Morena

Preto, Favelado. Escravo, Fujão (Ficção / 2015 – 13’39″)
Direção: Ariana Malagrida

Alemão em f/5.6 (Experimental 2014 – 15’55”)
Direção: Aline Portugal e Rosilene Faria

Esqueça por enquanto (Ficção / 2015 –  7’37”)
Direção: Priscila Gomes

Debate com as realizadoras

17h – O olhar de dentro pra fora e Complexos

Forró do Parque União – A Praça do Forró (Documentário / 2013 –14’24”)
Direção: Renato Oliveira

TV Morrinho (Documentário / 2013 – 11′)
Direção: Chico Serra

Quem São os Makers da Favela? (Documentário / 2016 – 10’35”)
Direção: GatoMÍDIA

9 Centros (Documentário / 2015 – 36’57”)
Direção: Igor Souza, Iury de Carvalho Lobo e Karla Suarez

Sexta-feira 30/09

14h – Poesias e Complexos

Rimadores (Videoclipe / 2016 – 4′)
Direção: Ivan Viana

Lá do Alto (Ficção / 2015 –8′)
Direção: Luciano Vidigal

Transcrição (Ficção 2016 – 5′)
Direção: Iury de Carvalho Lobo e Felipe Dutra

Roda Viva (Documentário Experimental / 2015 – Duração 1’12”)
Direção: Bira Carvalho e Iury de Carvalho Lobo

Alma Boêmia – Morro dos Prazeres (Videoclipe / 2015 – 4’18”)
Direção: Renato Oliveira

16h – Meio Ambiente e Complexos

Olhares da Misericórdia – A serra que atravessa gerações (Documentário / 2015 – 16’38”)
Direção: Álvaro Vinicius

Teto Verde (Documentário / 2015 – 16”)
Direção: Hip Hop Sanduba – Cinemão

A Fonte (Documentário / 2015 – 9’44”)
Direção: Flávio Pé e Flávio Carvalho

Chapéu-Mangueira e Babilônia- A favela vai descer (Documentário – 2016 – 6’58”)
Direção: Girasol Comunicações

Debate com Realizadores

18h – Mulheres na direção e Complexos – Sessão II

Do luto pra luta (Documentário / 2016 – 15’26”)
Direção: Natália Santana

Na Maré da Copa (Documentário / 2015 – 28’57)
Direção: Miriane Peregrino

19h – Fórum dos realizadores

Sábado 01/10

16h – Ficções e Complexos

A mão que balança o bolso (Ficção / 2012 – 457”)
Direção: Renato Oliveira

A mulher do latão (Ficção /2012 – 625”)
Direção: Robespierre Avila Azevedo

Pode me chamar de companheiro (Ficção / 2015 – 6’11”)
Direção:Felipe Dutra

17h – Releituras e Complexos

Visita (Documentário / 2015 – 26′)
Direção:André Sandino Costa

Beco dos Pancados (Experimental / 2015 – 12′)
Direção: Coletiva

18h – Apresentação dos Curtas das Oficinas de Cinema do Cine Manguinhos

Domingo 02/10

17h – Moradia e Complexos

Memórias do Preventório (Documentário / 2003 – 11′)
Direção: Luciano Simplício

Teixeira Ribeiro – Identidade de Um Todo (Documentário Experimental – 1′)
Direção: Iury de Carvalho Lobo

Santa Marta, uma santa Favelada (Documentário / 2013 –12’22”)
Direção: Marlon Silva Da Costa

18h – O real, o simbólico e Complexos

Em busca da Folia (Documentário / 2014 – 6’8”)
Direção: Girasol Comunicações

Um Lobisomem no Santa Marta (Ficção / 2015 – 7’56”)
Direção:Robespierre Avila

A águia que cospe bala (Documentário Experimental Realista / 2014 – 3’4”)
Direção: Girasol Comunicações

18h30min – Encerramento

 

 

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Mate-me Por Favor – ótima estreia

Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
Se o destino adjudicar, esse amor poderá ser capaz,
gatinha.
Nosso sonho não vai terminar desse jeito que você faz,
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo
mais.
Claudinho e Buchecha

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Por: Fabiana Melo Sousa*

(Texto produzido e postado acerca do Festival de Rio 2015)

A juventude branca e de classe média brasileira é comumente lembrada pelos conflitos pueris e repetitivos de séries de TVs que muitas vezes resumem a adolescência a pouco mais de seis questões (namoro, vestibular, sexo, gravidez na adolescência, preconceito racial, bullying ), no entanto, o filme  Mate-me, por favor, longa-metragem de estréia da cineasta Anita Rocha da Silveira, aponta para algo mais complexo. São adolescentes que parecem viver num mundo à parte, sem intermédio dos pais e tampouco se preparando para as responsabilidades da chegada “da vida adulta”.

O longa retrata o cotidiano de um grupo de jovens que moram, estudam, dançam e “evangelizam” na Barra da Tijuca, mas que se vêem cercadas por uma série de assassinatos de meninas. As atrizes Valentina Herszage (Bia), Mari Oliveira (Mariana), Júlia Roliz (Michele) e Dora Freind (Renata) emprestam seus corpos, linguagem e olhares para interpretarem as amigas inseparáveis que, em meio aos outros corpos brutalmente ceifados, desejam mais do que tudo namorar e transar.

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O corpo destes jovens, os vivos, os mortos e os quase-vivos são uma marca muito interessante, chamando atenção de que nenhum corpo adulto aparece durante toda a trama. Os corpos femininos são lindamente retratados num misto de uma sensualidade ingênua, mas ao mesmo tempo protagonistas de suas vidas quando se lançam ao sexo sem aquela antiga questão da “virgindade”. Os tempos são outros, ainda bem.

Elas vivem suas vidas enquanto seus pais saem para trabalhar e namorar, deixando dinheiro, macarrão instantâneo e a ilusão da segurança das grades dos condomínios, na certeza de que suas filhas e filhos estão protegidos. Cada adolescente vive seus próprios conflitos internos, mediando seus desejos e vontades diante da vida, mas, também compartilham fotos e noticias dos crimes que acontecem em terrenos baldios ao lado de seus apartamentos. Talvez por isso, agarrem com unhas e dentes oportunidades no presente e amem, para depois “orar ao senhor” no culto evangélico que adapta o louvor para o funk, guardando, ainda, um pequeno resquício da infância quando se amedrontam com a antiga lenda urbana da mulher de branco no banheiro (um banheiro que serve pra tudo, inclusive para “pegação”).

O funk é um elemento extremamente interessante para a juventude carioca e amplamente retratado no filme em suas diversas vertentes. Separados pelos estigmas sociais entre as favelas e o “asfalto”, mas culturalmente unidas por esta expressão cultural tipicamente carioca, os adolescentes embalam suas rotinas com este ritmo. Claudinho e Buchecha são talvez os maiores expoentes deste gênero, junto com outros, e que por sua vez, também tiveram um final trágico quando em 2002, Claudinho morre num terrível acidente de carro, quase uma premonição da canção que ficou famosa com o verso “… Buchecha sem Claudinho sou eu assim sem você…”.

E por falar em funk e tragédia, ambos se encontram num caso citado no filme que foi o assassinato de Daniela Perez em 1992 (dez anos antes de Claudinho). Pra mim, que era adolescente funkeira e favelada nos anos 90, foi impossível não recordar do “Rap da Daniela” dos MCs Maskote e Neném. Quem não conhece, segue o link.

O longa-metragem traz soluções muito interessantes que dão força ao suspense, com uma direção de elenco cuidadosa, tirando o melhor de cada uma das meninas que se doaram ao papel (todas em conjunto ganharam o prêmio de “Melhor Interpretação” pela crítica independente italiana no Festival de Veneza deste ano). Destaque também para a mistura de linguagens como a inserção de clipes de dança e a maquiagem. Toda a responsabilidade de uma direção feminina e atenta às questões da atualidade, acompanhando o atual momento em que as mulheres estão muito presentes como diretoras em projetos bem sucedidos.

É um respiro em meio a tantos filmes que só abordam a violência nas favelas, como se somente ali a barbárie estivesse presente, ou as comédias de riso frouxo que não nos levam a lugar nenhum, muitas vezes nem ao riso. O filme, ao contrário, leva para o riso, mas mantém a melancolia que é muitas vezes esquecida pelos olhares adultos, que acreditam que os adolescentes vivem em constante êxtase, sempre a procura de uma festinha.

Espero que “Nosso Sonho” de um cinema brasileiro capaz de olhar para uma vida mais interessante do que a representada no mercado se torne realidade, e “se o destino adjudicar” nosso cinema será capaz, “gatinhaaaaaaa”.

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Sinopse:
Na região da Barra da Tijuca um grupo de adolescente tem suas rotinas transformadas a partir de uma série de assassinatos que começam a acontecer na região. O medo e ao mesmo tempo o fascínio pela morte passam a ser uma constante na vida dessas meninas.

Direção: Anita Rocha da Silveira

Ano: 2015

*Fabiana Melo Sousa é documentarista e pesquisadora sobre imagens e favela. Atua na TV Tagarela da Rocinha e na Mostra de Filmes “Imagens e Complexos”. Tem formação em direção cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e também em filosofia pela UNIRIO.

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Aquarius, primeiramente

“Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…”

(Taiguara)

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Dentro de uma narrativa prosaica, o filme Aquarius, de Cleber Mendonça, se realiza enquanto obra poética e lancinante. Ao fazer uso do mais comum de um cotidiano, nos encontramos diante de uma vida simples cada vez mais cara. Esse contemporâneo viver atrelado ao conceito de qualidade de vida é reservado a poucos.

Aquarius está repleto de som ao redor, e é dentro de um estilo sofisticado de falar do mundo, de seu mundo, que Cleber Mendonça reafirma sua sede de fazer um cinema dialógico. Nessa concepção de apontar sua câmera com uma lente que discursa, apoiada em um roteiro que tem nas palavras os benditos diálogos, anunciando maldições, que pode ser em Boa Viagem, no Recife, em Pernambuco, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, que o autor de Aquarius filma pra falar.

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Como ousas senhor Cleber Mendonça colocar em cena uma mulher velha, sem mama e tão fabulosa?! Sonia Braga serena é um vulcão prestes a explodir. Seu desempenho nos faz querer morar naquela casa, fazer-lhe um sexo oral, lutar por dias melhores. Sua performance anuncia um tempo Hoje, bem marcado pela música de Taiguara, mas destilando também um tempo vivido no corpo, na história de suas coisas, que a mantém viva e sonora. Em tempos em que a palavra de ordem é o desapego, Aquarius se apega a própria historia para se manter fiel ao sentido.

O filme nos acompanha após os créditos finais, as músicas que constituem a personagem reivindicam o direito à poesia de viver. A classe média, incomodada em uma zona de conforto, é convidada a dar lugar a novas classes e novos confortos. A casa e o aconchego da protagonista são quase um acinte. Uma remoção pra quem pode. Pra quem pode se defender.

 

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Mãe Só Há Uma – em tempo

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Do título aos créditos finais, o filme de Anna Muylaert nos propõe um caminhar simples por uma história cheia de sentido. Um cinema disposto a discutir a linguagem e o ser humano, apostando no enquanto a diretora tira o foco de um núcleo narrativo comum e demonstra, por meio dos silêncios dos acontecimentos, que a vida é o que não vivemos, também.

Mãe Só Há Uma encontra numa historia real seu argumento, mas o roteiro frutifica a história e expõe a complexa dimensão que um acontecimento pode desencadear nos restos de historias que nos são impostas. Em Mãe Só Há Uma a diretora e roteirista toca em questões de comportamento e aceitação, exercitando seu olhar para além de um mundo heteronormativo e convencional, que muitas vezes se acha dono do sentido da vida e da família.

Ao relatar de forma subjetiva o sequestro, assunto no filme que só identificamos junto com a vítima, ela nos coloca diante dos dilemas enfrentados pelo personagem que cai de pára-quedas dentro de uma família e que, mais do que impor uma forma de ser socialmente aceito dentro daquele núcleo familiar, impõe também seu amor.

Anna Muylaert aposta na complexidade humana para lançar mão de assuntos e incômodos contemporâneos. A identidade do jovem Pierre (Naomi Nero) é clandestina também para a família que ele achava ser a sua verdadeira. Esse jogo da descoberta de quem eu não sou, acaba por proporcionar ao Felipe (Naomi Nero) a liberdade do desvelar-se diante de seus desconhecidos progenitores.

Com essa dualidade humana, esse duplo que nos mantém muitas vezes sãos diante de uma sociedade hipócrita, Muylaert, quase que como um exercício de metalinguagem, fala dos sequestros que nos são impostos, sobre quem somos, de onde viemos e o que queremos ser. Ao usar uma só atriz (Dani Nefussi) para viver ambas as mães, (Aracy/Gloria) ela acena com a possibilidade de que a mãe sequestradora é tão mãe, quanto a mãe verdadeira é sequestradora.

A diretora que incomodou o país com a situação das domésticas que criam os filhos da classe média brasileira, aponta sua câmera mais uma vez para uma zona fronteiriça, discutindo gênero, identidade, respeito, amor e família. Um filme claramente reflexo de descobertas de sua trajetória como cineasta, mas acima de tudo, como mulher. Mãe Só Há Uma não identifica a verdade, mas ressuscita a dúvida.

 

Anna Muylaert retirou seu filme da lista brasileira que concorreria a uma vaga a lista de indicados ao Oscar de filme estrangeiro, assim como fez Gabbriel Mascaro autor de Boi Neon.

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