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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Aquarius, primeiramente

“Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…”

(Taiguara)

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Dentro de uma narrativa prosaica, o filme Aquarius, de Cleber Mendonça, se realiza enquanto obra poética e lancinante. Ao fazer uso do mais comum de um cotidiano, nos encontramos diante de uma vida simples cada vez mais cara. Esse contemporâneo viver atrelado ao conceito de qualidade de vida é reservado a poucos.

Aquarius está repleto de som ao redor, e é dentro de um estilo sofisticado de falar do mundo, de seu mundo, que Cleber Mendonça reafirma sua sede de fazer um cinema dialógico. Nessa concepção de apontar sua câmera com uma lente que discursa, apoiada em um roteiro que tem nas palavras os benditos diálogos, anunciando maldições, que pode ser em Boa Viagem, no Recife, em Pernambuco, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, que o autor de Aquarius filma pra falar.

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Como ousas senhor Cleber Mendonça colocar em cena uma mulher velha, sem mama e tão fabulosa?! Sonia Braga serena é um vulcão prestes a explodir. Seu desempenho nos faz querer morar naquela casa, fazer-lhe um sexo oral, lutar por dias melhores. Sua performance anuncia um tempo Hoje, bem marcado pela música de Taiguara, mas destilando também um tempo vivido no corpo, na história de suas coisas, que a mantém viva e sonora. Em tempos em que a palavra de ordem é o desapego, Aquarius se apega a própria historia para se manter fiel ao sentido.

O filme nos acompanha após os créditos finais, as músicas que constituem a personagem reivindicam o direito à poesia de viver. A classe média, incomodada em uma zona de conforto, é convidada a dar lugar a novas classes e novos confortos. A casa e o aconchego da protagonista são quase um acinte. Uma remoção pra quem pode. Pra quem pode se defender.

 

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Mãe Só Há Uma – em tempo

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Do título aos créditos finais, o filme de Anna Muylaert nos propõe um caminhar simples por uma história cheia de sentido. Um cinema disposto a discutir a linguagem e o ser humano, apostando no enquanto a diretora tira o foco de um núcleo narrativo comum e demonstra, por meio dos silêncios dos acontecimentos, que a vida é o que não vivemos, também.

Mãe Só Há Uma encontra numa historia real seu argumento, mas o roteiro frutifica a história e expõe a complexa dimensão que um acontecimento pode desencadear nos restos de historias que nos são impostas. Em Mãe Só Há Uma a diretora e roteirista toca em questões de comportamento e aceitação, exercitando seu olhar para além de um mundo heteronormativo e convencional, que muitas vezes se acha dono do sentido da vida e da família.

Ao relatar de forma subjetiva o sequestro, assunto no filme que só identificamos junto com a vítima, ela nos coloca diante dos dilemas enfrentados pelo personagem que cai de pára-quedas dentro de uma família e que, mais do que impor uma forma de ser socialmente aceito dentro daquele núcleo familiar, impõe também seu amor.

Anna Muylaert aposta na complexidade humana para lançar mão de assuntos e incômodos contemporâneos. A identidade do jovem Pierre (Naomi Nero) é clandestina também para a família que ele achava ser a sua verdadeira. Esse jogo da descoberta de quem eu não sou, acaba por proporcionar ao Felipe (Naomi Nero) a liberdade do desvelar-se diante de seus desconhecidos progenitores.

Com essa dualidade humana, esse duplo que nos mantém muitas vezes sãos diante de uma sociedade hipócrita, Muylaert, quase que como um exercício de metalinguagem, fala dos sequestros que nos são impostos, sobre quem somos, de onde viemos e o que queremos ser. Ao usar uma só atriz (Dani Nefussi) para viver ambas as mães, (Aracy/Gloria) ela acena com a possibilidade de que a mãe sequestradora é tão mãe, quanto a mãe verdadeira é sequestradora.

A diretora que incomodou o país com a situação das domésticas que criam os filhos da classe média brasileira, aponta sua câmera mais uma vez para uma zona fronteiriça, discutindo gênero, identidade, respeito, amor e família. Um filme claramente reflexo de descobertas de sua trajetória como cineasta, mas acima de tudo, como mulher. Mãe Só Há Uma não identifica a verdade, mas ressuscita a dúvida.

 

Anna Muylaert retirou seu filme da lista brasileira que concorreria a uma vaga a lista de indicados ao Oscar de filme estrangeiro, assim como fez Gabbriel Mascaro autor de Boi Neon.

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Visões Periféricas Completa 10 anos

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Por: Fabiana Melo Sousa

“O centro do mundo está em todo lugar. O mundo é o que se vê de onde se está”

Milton Santos em “Encontro com Milton Santos: o mundo visto do lado de cá”, de Silvio Tendler.

O que é periferia, sobretudo num mundo pós-globalizado? O incrível geógrafo Milton Santos (1926-2001) já desconfiava deste termo, principalmente, nos processos de globalização. A “união dos povos” através de uma “aldeia global” mostra-se fracassada, ou como Santos já dizia, revelou-se autoritária diante do esfacelamento das culturas e modos de vidas locais em detrimento do capitalismo, transformou-se no Globaritarismo, como afirmava o baiano.

Há tempos sabe-se desse fracasso global e o deslocamento daquilo que antes chamávamos de centro fez com que as periferias ficassem cada vez mais presentes nas imagens do nosso cotidiano. Assim como os chamados sujeitos periféricos, que muitas vezes expressam por si, suas próprias questões, aqueles que em muitos momentos foram afastados do imaginário de um mundo melhor. Sejam eles moradores de favelas, pessoas trans, mulheres negras, deficientes ou, como em muitos casos, um único sujeito que é atravessado por todas estas dimensões. Pessoas que estão descentralizando o mundo em suas imagens.

A contribuição do Festival Visões Periféricas, que há 10 anos exibe filmes de todos os lugares e experiências de periferias brasileiras, é de aproximar estas imagens “periféricas” a um público que cada vez mais está interessado nos lugares e corpos que desestabilizam os centros.

Este ano de aniversário serão homenageados quatro cineastas: Silvio Tendler, Adélia Sampaio, Filó Filho e Sérgio Peo, que “através de seus trabalhos em cinema e vídeo contribuíram para pensar de forma crítica e corajosa o pais e a sociedade brasileira”, segundo a organização do Visões Periféricas.

A mostra acontece entre os dias 5 e 12 de setembro no OI Futuro Ipanema e no Centro Cultural Justiça Federal.

Vale conferir!

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Mostra Imagens e Complexos – Inscrições Abertas até 31 de agosto!

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O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.

Orson Welles

Imagens e Complexos mais do que uma Mostra é um processo reflexivo sobre como andam as produções audiovisuais nas favelas do Rio de Janeiro. Essa proposta nasce da necessidade de olhar um pouco mais de perto o que a cidade tem produzido para além do que chega às salas de cinema. Filmes que, naturalmente, estejam relacionados com os processos de vida de seus realizadores – um material que discursa sobre seus meios de produções e suas questões existenciais.

Fabiana Melo Sousa e Ludmila Oliveira, oriundas de favelas do Rio e que sempre tiveram suas vidas atravessadas pela linguagem do audiovisual, coordenam esse projeto, que traz à baila as produções dos favelados e suas representações.

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Quem são esses cineastas? Para onde estão apontando suas câmeras, celulares, seu olhar? De que estética estamos falando? Além da seleção para exibição dos filmes durante quatro dias no Cineteatro Eduardo Coutinho, em Manguinhos e a participação nas mesas de discussões, a Mostra Imagens e Complexos tem como propósito maior catalogar essas produções que se inscreverem, como um pontapé inicial, estimulando uma espécie de registro, onde seja possível identificar esses produtores e, quem sabe, democratizar o acesso a essas múltiplas formas de expressão cinematográficas que permeiam essa cidade tão plural, caótica, poética, diversa… Por esse motivo, o Catálogo será lançado após a Mostra.

Durante algum tempo o Imagens e Complexos aconteceu de forma mais intimista, em encontros esporádicos e itinerantes. Na Biblioteca Parque de Manguinhos com exibição de “Rocinha 77” (1977), de Sérgio Péo; na ONG Raízes em Movimento (durante o Faveladoc), no Complexo do Alemão, onde foi exibido “Amator” (1979), de Krzysztof Kieslowski, discutindo os limites da realidade no documentário; nas duas exibições do curta “Mater Dolorosa” (2014), de Daniel Caetano e Tamur Aimara, a primeira, na mesa de debates com Fabiana Melo Sousa e Maria de Fátima (mãe do dançarino Douglas Pereira, conhecido como DG), como parte das atividades do I Seminário de Filosofia e Artes na Contemporaneidade, na UNIRIO e a segunda, no Centro Comunitário da Favela do Cantagalo, a propósito de uma homenagem a Maria de Fátima; também aconteceu em parceria nas exibições de repescagem do Cine Favela da Rocinha e na sessão do CineClube do Cine Manguinhos, com a temática infanto-juvenil. Essas sessões e discussões tinham como motivadores os encontros de produtores locais e o pensamento que circunda essas imagens e representações que ora reproduzem, ora rompem com certos estereótipos. Uma produção audiovisual que estabelece uma comunicação com a História, contando, reproduzindo ou criando narrativas.

Somente após a premiação do “Favela Criativa” é que o projeto ganhou a possibilidade de ser efetivado enquanto Mostra, com estrutura e parcerias, e, de forma introdutória, promoverá a visibilidade de alguns indivíduos e grupos que realizam filmes ou formas de expressão audiovisual cujos espaços para exibição sejam inexistentes. As coordenadoras Fabiana e Ludmila convocam a todos que residam em favela e que produzam seus filmes com qualquer temática a se inscreverem e fazerem dessa Mostra mais um espaço de cultura, memória e arte dessa cidade. As inscrições seguem abertas até o dia 31 de agosto para qualquer tipo de filme. A Mostra Imagens e Complexos acontecerá na última semana de setembro, no Cineteatro Eduardo Coutinho, ao lado da Biblioteca Parque Manguinhos.

 Segundo a coordenação, não é uma proposta da Mostra identificar, enquanto gênero, o filme produzido em favela, nem separar por território o cinema carioca – a favela faz assim e o asfalto faz assado. Mesmo que o processo de discussão esbarre no contexto “Favela Movie”, termo cunhado para caracterizar os filmes sobre favela e suas mazelas, que guarda em suas características principais a violência e o papel da polícia, a exemplo de Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), o interesse da Mostra Imagens e Complexos recai nas Reflexões e encontros sobre a representação das favelas e periferias nas produções audiovisuais, é um interesse sobre qualquer tipo de filme que este sujeito esteja produzindo, em um momento em que a cidade não pode mais ser entendida sem a favela.

A Mostra não tem a pretensão de ser precursora no que tange a exibir separadamente filmes sobre favela e periferia, mesmo porque já existem eventos que se propõem a isso, como Visões Periféricas, Cine Favela Festival da Rocinha, entre outros Brasil a fora. O que importa é o mapeamento, é criar espaços de exibição com formação de plateia para um cinema mais orgânico, sem fronteiras e de fluxo constante.

SERVIÇO:

Mostra de Filmes Imagens e Complexos Edital.

01 a 31 de agosto de 2016 – inscrições por meio do formulário de inscrição.

09 de setembro de 2016 – divulgação dos filmes selecionados e da programação completa da Mostra pela fanpage Imagens e Complexos e pelos sites de nossos parceiros.

 

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Julieta

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Por: Rosangela Dantas
O diretor espanhol Pedro Almodóvar continua apostando nos segredos. Julieta (2016), seu último filme, tem mais uma vez como elemento narrativo impulsionador uma história secreta. Não uma dessas que o autor costuma ter para conduzir sua trama, um pecado ou um descuido imoral de suas personagens. Em Julieta somos convidadas a participar de um discurso em primeira pessoa onde uma mulher, uma mãe segue a cultivar seu bem mais precioso, a culpa pelo sofrimento alheio.

Juntas vamos escrevendo uma carta onde todas as faltas e perdas são culpa nossa. O tempo no filme mexe com cabelos, olhos e perdas. As mudanças não exigem explicações, o desenrolar da história soa preguiçoso, mas a direção quer ser completa no que apresenta quadro a quadro.

No filme, a íntima companhia de Julieta somos nós, a ouvir seus clamores abafados e a esbanjar beleza, com imagens de um mundo arrumado e distante. Como se quisesse conquistar a sutileza, Almodóvar fala baixo sobre uma maternidade padecente em um paraíso insuficiente. Julieta não cessa de parir. O suicídio, o trágico, outra mulher, a morte.

As mulheres que o diretor persegue não pretendem ser felizes, elas se enredam em torno de um pescador apático e macho. A amante, a esposa, a filha e a fiel empregada no exercício de amor são levadas à condição de coadjuvante na existência protagonista daquela típica bela espécime masculina, que se mantém no centro da história, na vida e na morte.

Doer é o que o diretor quer que suas personagens façam. Nem que para isso ele as coloque em um altar, impressas em uma bela fotografia, ao som de uma música interminável. E nada é mínimo no sofrimento de Julieta.

Julieta é um filme sobre mulheres, feito por Almodóvar e eu sou uma mulher, a escrever sobre esse filme, feito por um homem.

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MOSTRA “CINECLUBES LIVRES” CHEGA À ROCINHA

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A Mostra Cine Clubes Livres é uma realização da Mostra de Filmes Livres (MFL), um evento responsável pela propagação de uma produção audiovisual “sem teto”. Há 15 anos, a MFL exibe no CCBB produções independentes, em qualquer formato, que não tenham recebido recursos públicos e que sejam experiências audiovisuais que, em seu gozo pleno de linguagem cinematográfica, não se restrinjam a uma gramática prescrita pelo mercado. A palavra livre que o título da Mostra carrega não se encerra aí, ela propõe um libertar, não só na condição de imagem e discurso das produções exibidas todo ano desde 2001, quando iniciou suas exibições, como também possibilita o encontro entre o espectador e esse cinema com sessões gratuitas.

outubro-acabou-300x300  Hoje, 15 anos depois, além do objetivo de dar espaço aos filmes, que já alcançaram um nível pra lá de “caseiros”, livres de empecilhos para exibição, sobretudo financeiros, a MFL intensificou as exibições, alcançando um maior número de cineclubes e, além da tradicional mostra anual no Centro Cultural Banco do Brasil, a MFL2016 percorreu o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, durante o primeiro semestre e ainda usa parte deste acervo, contando também com produções inéditas, em exibições nos cineclubes que estejam interessados em receber uma espécie de repescagem itinerante. Com isso, a mostra ganha dinamismo, priorizando e ampliando a plateia para esses filmes que teriam pouca chance de chegar a uma sala ou mostra convencional. Os filmes chegam a um maior número de público, tornando esse evento cada vez mais democrático, livre.

Este ano o número de espaços que receberão as sessões aumentaram, no Rio de Janeiro o cineclube da TV Tagarela na Rocinha abrigará pela primeira vez o CineClube Livre.   As exibições serão no próximo sábado, 16 de julho, com a Sessão Premiados I e dia 13 de agosto, com a Sessão Mundo Livre. O cineclube Tv Tagarela, como de costume, acontecerá ao ar livre neste sábado e no dia 16 será realizado internamente.

As atividades do cineclube da Tv Tagarela tem por objetivo divulgar suas e outras produções audiovisuais, debater a respeito de temas da atualidade, tendo o vídeo/filme como dispositivo. O espaço também ajuda a criar oportunidade de firmar parcerias com produtores e cineclubistas de vários lugares. Como aconteceu recentemente com a exibição do filme Sabotage: Maestro do Canão (2015), documentário de Ivan 13P. Agora surge a oportunidade de receber o Cineclube Livre – um caminho que leva à troca de experiências e uma aproximação interessante entre o audiovisual e o público, neste caso, da Rocinha.

Sete produções farão parte das sessões:

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RUBY – Direção de Jorge Loureiro, Guilherme Soster e Luciano Sherer;

(RUBY) Brasil, Uruguai (RS)2014  cor – digital / 17 min.  Ficção, Documentário

Sinopse: Pequeno retrato de um artista outsider chamado Ruby, que vive sozinho em uma casa perto da praia. Livre

OUTUBRO ACABOU – direção de Karen Akerman  e Miguel Seabra Lopes;

Gênero: Ficção – Duração: 23 min     Ano: 2015     Formato: Digital

País: Brasil     Local de Produção: RJ  Cor: Cor e P&B

Subgênero:Grande Prêmio 2016

Sinopse: Além do indômito desejo de realizar as enormidades que o tentavam, nada mais era sagrado.

CARRUAGEM RAJANTE – direção de Lívia de Paiva e Jorge Polo.

Ficção. HD. 21’ . Cor. RJ. 2016. 12 Anos

Sinopse Enquanto a estrada se transforma, ele também, criando uma brisa que se espalha.

PARQUE SOVIÉTICO – Direção, roteiro e produção: Karen Black

(RJ) – fic – digital – 10’ – 2013.

Sinopse: Amor é guerra fria.

INDIAN WELLS – Direção de Luca Boskovitz e Thomaz Arruda; SP, 17′

Sinopse “Nunca pensei que o tédio pudesse ser a causa de um olhar, ou que o tênis pudesse ser a razão para um filme.”

ESCAPE FROM MY EYES – Direção de Felipe Bragança;

Documentário /  Cor / Color DCP 34 ‘  Brasil / Alemanha – 2015

Sinopse “Eles vêem um homem negro e acho que eles viram um leão.” Documentário e ficção se misturam para transmitir as memórias e sonhos de três refugiados de guerra que vivem em tendas em uma praça no coração de Berlim.

SUGAR FREEZES – Direção de Louise Botkay – 14 anos

 

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Informações:

https://www.facebook.com/tvtagarela/

http://www.barracoadentro.com/15-mostra-do-filme-livre-na-favela-da-rocinha/

 

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O Conto dos Contos

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Em tempos de redescoberta dos contos de fadas, quando as séries de TV e o cinema voltam a saciar sua sede de narrativas nas histórias maravilhosas, o diretor Matteo Garrone, inspirado nos contos infantis de Giambattista Basile, escritos no século XVII, apresenta O Conto dos Contos, um filme que, diferente dos recém lançados, não está interessado na desconstrução ou releitura dos contos e, nem por isso limita as histórias a uma adaptação Disney.


Em três reinos muito muito distantes de O Conto dos Contos reis e rainha vivem histórias com questões bem contemporâneas como a vaidade, o egoísmo, a arrogância… dentro de muita fantasia. Os três episódios que se passam em três palácios diferentes pouco se propõem ao mal fadado final feliz. Os atos de seus personagens são os estopins para as tramas que se desenvolvem como consequência, atuando como lições ou castigos. As três histórias se entrecortam, sacrificando um pouco o seu ritmo. Mas o respaldo que o gênero narrativo carrega não deixa o espectador na mão. Seu imaginário o mantém na história.


Há no filme uma atmosfera construída principalmente pela música, uma fotografia que coloca os personagens quase que em páginas de livros ou em sonhos. As atuações denotam a economia nos gestos e sons, como se o filme precisasse ficar mais próximo das ilustrações. Entramos em um mundo de fantasia e esperamos que as fadas façam seus trabalhos e nos entreguem uma solução para que o bem vença o mal. Mas na medida em que o filme se desenrola, ficamos mais confusos sobre quem é ou o que é o bem.

Muita beleza e bizarrice desenhando cenas onde Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, John C. Reilly, Stacy Martin protagonizam momentos onde a fantasia é exigente com seus agraciados. A fertilidade, a juventude e o amor têm seu preço e a magia está mais para uma relação de harmonia entre o homem e a natureza do pra uma varinha de condão.

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Ele está de volta

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POR FABIANA MELO SOUSA

 

“O pior analfabeto é o analfabeto político”

Bertolt Brecht

Qualquer comentário sobre o longa Ele está de volta (Alemanha, 2015) de David Wnendt não tem espaço para delongas: adaptado do romance de mesmo nome, escrito por Timur Vermes (lançado em 2014, na Alemanha), o filme traz uma sátira da sociedade atual a partir de um evento “fantástico”, o retorno inusitado e encarnado de Adolf Hitler (Oliver Masucci), que reaparece nas proximidades do local onde provavelmente suicidou-se em 1945.

Classificado como comédia pelo “Netflix” o filme exige do expectador uma dose de esclarecimento para não sucumbir ao sarcasmo diante da semelhança que não é mera coincidência com a realidade. Numa corriqueira consulta ao Wikipedia, assim como Hitler o faz de forma emocionada no longa, é possível descobrir que o termo sarcasmo, vindo do grego, significa queimar a carne. Nada mais apropriado diante de uma produção que toca num assunto tão pungente na atualidade da Europa e do mundo, a presença do pensamento fascista na sociedade.

Esta tese parece tão absurda que leva o diretor  a tensionar para o espectador a ficção e a realidade, quando acompanha seu personagem fictício Hitler pela Alemanha, numa espécie de “turnê”. O ditador sai em busca de adeptos para sua causa, após interpretar a seu modo as mudanças históricas no mundo nesses 70 anos e, ironicamente, chegar à conclusão de que o único pensamento que ainda mantinha algo de original da ideologia fascista na atualidade são os defensores da natureza e os veganos.

Segundo o diretor, em 300 horas de material filmado apenas duas pessoas se incomodaram claramente com a presença e as atitudes de Adolf Hitler, o restante brincou, tirou selfie e muitos aproveitaram para falar de política e confessar ao Führer que os imigrantes seriam um sério problema para o país, teve quem defendesse a ideia de que a mistura de “raças” estava diminuindo o QI do povo alemão.

Fabian Sawatski (Fabian Busch) um medíocre produtor de televisão, desempregado, sem talento, vê sua chance de sucesso em Adolf ao encontrá-lo. Rapidamente apresenta para o nazista a internet e a televisão. A partir daí, o jogo da indústria de entretenimento é convertido em ideologia. Em meio a programas de humor apelativos, Hitler começa a espalhar o seu pensamento ganhando milhares de fãs. Assume o lugar do apresentador principal que usa da sua “liberdade de expressão” para fazer piadas sobre negros, imigrantes e mulheres, levando o público as gargalhadas.

O filme pode cansar pelo seu “realismo insistente”, apesar do argumento fantástico, pois em dado momento a mensagem está mais do que clara, mesmo tendo colocado na boca do seu personagem principal a obviedade dos fatos, o roteiro não quer deixar dúvidas para o espectador, talvez por se tratar de um tema tão delicado, principalmente quando vem pela via do humor.

Parece que o risível como primeira reação a algo tão absurdo venha do que temos de mais raso, o senso comum impregnado com nossos preconceitos muitas vezes em forma de piadas e sob o clássico argumento: liberdade de expressão.

Analisando os últimos acontecimentos, não tem muito tempo que ríamos de um fascista que pedia a volta da ditadura no Brasil, pois bem, entre risadas e desdém, escutamos saudações a torturadores em pleno congresso nacional, transmitidas ao vivo pela televisão a milhares de pessoas. Com esta ficção/realidade que se tornou o Brasil, talvez a lição de que o filme traga é que a idiotice é o primeiro terreno onde crescem os discursos de ódio que são vazios em pensamentos mas cheios de intenções, que com meia dúzia de palavras de ordem são eficazes para a destruição da liberdade, sempre em nome do bem comum.

O real atual é tão absurdo que precisamos da ficção para olhar com mais afinco, e principalmente, para que, daqui há 50 anos, não digamos: eu não sabia. Pois, estava claro, como sempre esteve. Saibamos cuspir nos reacionários enquanto é tempo.

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Que Tempo o Tempo Tem

“Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa”

(Água Viva – C. Lispector)

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E por falar em tempo, assisti no sábado ao documentário “Quanto tempo o tempo tem” numa sessão para professores, em Botafogo. Muitos ali, aposentados. Enquanto a sessão não se iniciava e algumas conversas rolavam, como é de praxe, ouvi um senhor indagar a uma senhora que se sentou ao seu lado: “Então, falta pouco para aquela coisa sair de lá! Né? Você é contra ou a favor que ela saia?!” “Eu, eu sou a favor!!!” (falou indignada a senhora enquanto se ajeitava na cadeira). “E você?!” “Claro que sim! Amanhã à noite acho que já teremos o resultado de nossa vitória… Já teremos tirado aquela ratazana de lá!

Fui acometida por um grande mal estar que paralisou meu corpo e meus pensamentos, como se por alguns minutos parte de mim sofresse uma morte súbita. Talvez o tempo de minha existência ali, naquele instante, tenha se descompassado com relação ao inventivo tempo dos calendários que o homem foi capaz de criar. Nada em mim pensava, só sentia. Não ansiava por uma identificação ideológica, mas humana e aquele discurso me deu a exata noção do tempo que estou vivendo. No domingo, aprendi muito sobre ódio e poder, mas esse tempo que já passou, permanece. E eles venceram(?)

Após assistir ao filme fiquei procurando razão para meu incômodo em relação a um documentário tão limpinho e cheiroso, tão bem produzido e articulado, tão bem cronometrado e fotografado. Não consegui chegar a nenhuma conclusão específica ou mesmo digna de ser ratificada como problema principal. Talvez o que me trouxe tanto incômodo estivesse entre mim e a tela. Como se tudo que estamos vivendo nesses tempos em “nosso” país fosse o estopim para que eu exigisse de “Quanto tempo o tempo tem” um pouco mais do tempo Histórico, aquele que nos mostra do que somos constituídos, que se preserva na memória de tantas imagens cinematográficas, de arquivos que transcendem a divisão do calendário e nos colocam diante de uma reflexão sobre um retroceder perigoso e doentio.

O documentário de Adriana L. Dutra e co-dirigido por Walter Carvalho se propõe uma discussão sobre o tempo. Uma coletânea de entrevistas com escritores, pensadores, filósofos e cientistas, marcadas pelo passado, presente e futuro. Um apanhado de conceituações numa espécie de aula, camuflando o didatismo, elegendo o espaço e a história como fio condutores dessa reflexão teórica, que pra minha exigência histórica e temporal soaram rasas.

“Quanto tempo o tempo tem” prefere parar no tempo e documentar sua ideia de tempo dentro dos padrões mais caretas de se contar/documentar algo. Senti falta do tempo passar, do tempo que transforma, do tempo que não passa, senti falta de um filme, de um contar inventivo, de menos formato televisivo, de um tempo do outro, senti falta de assistir um filme numa cadeira da sala escura de um cinema, não queria estar numa torturante sala de aula, aprendendo sobre o tempo desenhado e vazio das coisas.

A fotografia de Walter Carvalho nas luzes da cidade, nos faróis dos carros, num movimento de engrenagens de um relógio, em nada surpreendem, sobretudo em seu trabalho. Mais uma variação sobre o mesmo tema visitado em Janela da Alma.

Não basta toda a tecnologia, todos os contatos e o quanto se é articulado em um determinado meio, para um filme acontecer é preciso mais, é preciso o exercício da linguagem.

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O Regresso

 

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“Somos Todos Selvagens”

 

Por que alguns filmes são bons mas não agradam? Alejandro González Iñárritu dificilmente perde a viagem com suas produções. Em seus filmes não faltam o bom cinema e uma boa reflexão. Em O Regresso (The Revenant), seu último trabalho, conta a saga do explorador  Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) que volta de sua quase morte em uma situação inóspita, onde o corpo é um fardo e o espírito o guia, vivendo em um estado de consciência agudo na vingança, que funciona como combustível ou anti-inflamatório.

Até aí nenhuma novidade, uma narrativa que move seu herói por meio de uma vingança que em alguns momentos no filme fez parecer que Iñarritu havia pesado a mão no gênero, tamanhas eram as cenas e os discursos clichês. Porém, sua mira fotográfica muito bem conduzida pelo seu competente fotógrafo Emmanuel Lubezki, que levou mais um Oscar este ano, acaba por redimi-lo das nossas lembranças macabras ou da vergonha alheia deste tipo de produção.

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Com imagens que mais parecem palavras desenhadas, construindo sequências que nos propõem leituras, nos enchendo a alma de satisfação de narrativa, O Regresso nos mantém ligados tanto no discurso fílmico quanto no cinematográfico. Fato que nos faz compreender que o áudio visual, assim como a literatura são passíveis de leitura e, quanto mais o diretor souber escrever, mais o espectador precisa saber ler. A beleza dos filmes de Iñarritu reside no discurso e esse, por sua vez, se alimenta dos planos que ele propõe para construir sua ficção, por mais que ela tenha sua origem na realidade.

Assim, como bem diz Antônio Candido a respeito da literatura e outras modalidades que se servem da narrativa –  uma espécie de necessidade universal de ficção e de fantasia, que de certo é coextensiva ao homem, pois aparece invariavelmente em sua vida, como indivíduo e como grupo, ao lado da satisfação das necessidades mais elementares. E isto ocorre no primitivo e no civilizado, na criança e no adulto, no instruído e no analfabeto -, Alejandro González Iñárritu lança mão dessa avidez de produzir suas histórias certo da necessidade do homem de assisti-las. No entanto, não basta para o diretor que essa prévia função comunicativa exista, a sua fruição não se cansa do exercício do olhar, o seu filme é cinema e se sustenta no que a linguagem tem de mais evidente, a imagem. A imagem sob ou sobre alguma coisa.

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O filme com uma história comum, um herói comum e uma  narrativa linear não está nem um pouco interessado em romper ou inaugurar nenhum movimento cinematográfico. É exatamente na trajetoria de Gass que as possibilidades técnico-narrativas se realizam no espectador. Os planos e os encontros poéticos ou ideológicos assumem uma relação paralela do espectador com a obra. O índio fazendo seu acerto de contas com o homem branco, o homem branco fazendo seu acerto de contas com o homem mais branco e, nesse sentido, a identidade do selvagem vai sendo construída num cenário natural.
A palavra vida ganha dimensões muito mais complexas e amplas nas montanhas do norte dos Estados Unidos. Tudo se move, tudo interage com tudo. Os sentimentos são gelados e o desejo parece ser objetivo. Como se cada um carregasse um segredo e sua própria sede de vingança. Quando a história peca, uma cena salva o momento – é um cinema de contribuições entre forma e conteúdo. O duelo entre o urso e Gass mostra a sede de vingança da natureza aclamada no discurso de Leonardo DiCaprio na entrega do Oscar. O duelo em outra cena muitíssimo pertinente, que empresta ao filme uma belíssima referência cinematográfica e histórica, ensaia um outro acerto de contas entre os índios e brancos, uma sequência que nada deixa a desejar aos grandes Westerns.

O Regresso pode, apesar de seus predicados, ser um filme que não agrade muita gente, seja por ser um gênero datado em algumas interpretações ou por sua silenciosa dependência do espectador. No entanto, dificilmente escapamos de sua armadilha ficcional, uma habilidade sem igual de Iñarritu de alimentar com fantasia o bicho homem.

Pode até ser que o mexicano Alejandro González Iñárritu esteja ficando americanizado, com burro do dinheiro e que está muito rico, como gostam de cutucar alguns, mas seus filmes não pedem licença ao tio Sam para fazer ficção de sua História e ganhar o Oscar por isso. Além dos prêmios pelo seu filme, Iñarritu consegue um feito que nenhum outro diretor hollywoodiano conseguiu, deu o primeiro Oscar ao senhor Di Caprio.

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