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Julieta

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Por: Rosangela Dantas
O diretor espanhol Pedro Almodóvar continua apostando nos segredos. Julieta (2016), seu último filme, tem mais uma vez como elemento narrativo impulsionador uma história secreta. Não uma dessas que o autor costuma ter para conduzir sua trama, um pecado ou um descuido imoral de suas personagens. Em Julieta somos convidadas a participar de um discurso em primeira pessoa onde uma mulher, uma mãe segue a cultivar seu bem mais precioso, a culpa pelo sofrimento alheio.

Juntas vamos escrevendo uma carta onde todas as faltas e perdas são culpa nossa. O tempo no filme mexe com cabelos, olhos e perdas. As mudanças não exigem explicações, o desenrolar da história soa preguiçoso, mas a direção quer ser completa no que apresenta quadro a quadro.

No filme, a íntima companhia de Julieta somos nós, a ouvir seus clamores abafados e a esbanjar beleza, com imagens de um mundo arrumado e distante. Como se quisesse conquistar a sutileza, Almodóvar fala baixo sobre uma maternidade padecente em um paraíso insuficiente. Julieta não cessa de parir. O suicídio, o trágico, outra mulher, a morte.

As mulheres que o diretor persegue não pretendem ser felizes, elas se enredam em torno de um pescador apático e macho. A amante, a esposa, a filha e a fiel empregada no exercício de amor são levadas à condição de coadjuvante na existência protagonista daquela típica bela espécime masculina, que se mantém no centro da história, na vida e na morte.

Doer é o que o diretor quer que suas personagens façam. Nem que para isso ele as coloque em um altar, impressas em uma bela fotografia, ao som de uma música interminável. E nada é mínimo no sofrimento de Julieta.

Julieta é um filme sobre mulheres, feito por Almodóvar e eu sou uma mulher, a escrever sobre esse filme, feito por um homem.

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MOSTRA “CINECLUBES LIVRES” CHEGA À ROCINHA

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A Mostra Cine Clubes Livres é uma realização da Mostra de Filmes Livres (MFL), um evento responsável pela propagação de uma produção audiovisual “sem teto”. Há 15 anos, a MFL exibe no CCBB produções independentes, em qualquer formato, que não tenham recebido recursos públicos e que sejam experiências audiovisuais que, em seu gozo pleno de linguagem cinematográfica, não se restrinjam a uma gramática prescrita pelo mercado. A palavra livre que o título da Mostra carrega não se encerra aí, ela propõe um libertar, não só na condição de imagem e discurso das produções exibidas todo ano desde 2001, quando iniciou suas exibições, como também possibilita o encontro entre o espectador e esse cinema com sessões gratuitas.

outubro-acabou-300x300  Hoje, 15 anos depois, além do objetivo de dar espaço aos filmes, que já alcançaram um nível pra lá de “caseiros”, livres de empecilhos para exibição, sobretudo financeiros, a MFL intensificou as exibições, alcançando um maior número de cineclubes e, além da tradicional mostra anual no Centro Cultural Banco do Brasil, a MFL2016 percorreu o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, durante o primeiro semestre e ainda usa parte deste acervo, contando também com produções inéditas, em exibições nos cineclubes que estejam interessados em receber uma espécie de repescagem itinerante. Com isso, a mostra ganha dinamismo, priorizando e ampliando a plateia para esses filmes que teriam pouca chance de chegar a uma sala ou mostra convencional. Os filmes chegam a um maior número de público, tornando esse evento cada vez mais democrático, livre.

Este ano o número de espaços que receberão as sessões aumentaram, no Rio de Janeiro o cineclube da TV Tagarela na Rocinha abrigará pela primeira vez o CineClube Livre.   As exibições serão no próximo sábado, 16 de julho, com a Sessão Premiados I e dia 13 de agosto, com a Sessão Mundo Livre. O cineclube Tv Tagarela, como de costume, acontecerá ao ar livre neste sábado e no dia 16 será realizado internamente.

As atividades do cineclube da Tv Tagarela tem por objetivo divulgar suas e outras produções audiovisuais, debater a respeito de temas da atualidade, tendo o vídeo/filme como dispositivo. O espaço também ajuda a criar oportunidade de firmar parcerias com produtores e cineclubistas de vários lugares. Como aconteceu recentemente com a exibição do filme Sabotage: Maestro do Canão (2015), documentário de Ivan 13P. Agora surge a oportunidade de receber o Cineclube Livre – um caminho que leva à troca de experiências e uma aproximação interessante entre o audiovisual e o público, neste caso, da Rocinha.

Sete produções farão parte das sessões:

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RUBY – Direção de Jorge Loureiro, Guilherme Soster e Luciano Sherer;

(RUBY) Brasil, Uruguai (RS)2014  cor – digital / 17 min.  Ficção, Documentário

Sinopse: Pequeno retrato de um artista outsider chamado Ruby, que vive sozinho em uma casa perto da praia. Livre

OUTUBRO ACABOU – direção de Karen Akerman  e Miguel Seabra Lopes;

Gênero: Ficção – Duração: 23 min     Ano: 2015     Formato: Digital

País: Brasil     Local de Produção: RJ  Cor: Cor e P&B

Subgênero:Grande Prêmio 2016

Sinopse: Além do indômito desejo de realizar as enormidades que o tentavam, nada mais era sagrado.

CARRUAGEM RAJANTE – direção de Lívia de Paiva e Jorge Polo.

Ficção. HD. 21’ . Cor. RJ. 2016. 12 Anos

Sinopse Enquanto a estrada se transforma, ele também, criando uma brisa que se espalha.

PARQUE SOVIÉTICO – Direção, roteiro e produção: Karen Black

(RJ) – fic – digital – 10’ – 2013.

Sinopse: Amor é guerra fria.

INDIAN WELLS – Direção de Luca Boskovitz e Thomaz Arruda; SP, 17′

Sinopse “Nunca pensei que o tédio pudesse ser a causa de um olhar, ou que o tênis pudesse ser a razão para um filme.”

ESCAPE FROM MY EYES – Direção de Felipe Bragança;

Documentário /  Cor / Color DCP 34 ‘  Brasil / Alemanha – 2015

Sinopse “Eles vêem um homem negro e acho que eles viram um leão.” Documentário e ficção se misturam para transmitir as memórias e sonhos de três refugiados de guerra que vivem em tendas em uma praça no coração de Berlim.

SUGAR FREEZES – Direção de Louise Botkay – 14 anos

 

13227089_1004317992977796_1649018788240485217_n                                          Foto: Arquivo TV Tagarela

Informações:

https://www.facebook.com/tvtagarela/

http://www.barracoadentro.com/15-mostra-do-filme-livre-na-favela-da-rocinha/

 

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O Conto dos Contos

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Em tempos de redescoberta dos contos de fadas, quando as séries de TV e o cinema voltam a saciar sua sede de narrativas nas histórias maravilhosas, o diretor Matteo Garrone, inspirado nos contos infantis de Giambattista Basile, escritos no século XVII, apresenta O Conto dos Contos, um filme que, diferente dos recém lançados, não está interessado na desconstrução ou releitura dos contos e, nem por isso limita as histórias a uma adaptação Disney.


Em três reinos muito muito distantes de O Conto dos Contos reis e rainha vivem histórias com questões bem contemporâneas como a vaidade, o egoísmo, a arrogância… dentro de muita fantasia. Os três episódios que se passam em três palácios diferentes pouco se propõem ao mal fadado final feliz. Os atos de seus personagens são os estopins para as tramas que se desenvolvem como consequência, atuando como lições ou castigos. As três histórias se entrecortam, sacrificando um pouco o seu ritmo. Mas o respaldo que o gênero narrativo carrega não deixa o espectador na mão. Seu imaginário o mantém na história.


Há no filme uma atmosfera construída principalmente pela música, uma fotografia que coloca os personagens quase que em páginas de livros ou em sonhos. As atuações denotam a economia nos gestos e sons, como se o filme precisasse ficar mais próximo das ilustrações. Entramos em um mundo de fantasia e esperamos que as fadas façam seus trabalhos e nos entreguem uma solução para que o bem vença o mal. Mas na medida em que o filme se desenrola, ficamos mais confusos sobre quem é ou o que é o bem.

Muita beleza e bizarrice desenhando cenas onde Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, John C. Reilly, Stacy Martin protagonizam momentos onde a fantasia é exigente com seus agraciados. A fertilidade, a juventude e o amor têm seu preço e a magia está mais para uma relação de harmonia entre o homem e a natureza do pra uma varinha de condão.

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Ele está de volta

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POR FABIANA MELO SOUSA

 

“O pior analfabeto é o analfabeto político”

Bertolt Brecht

Qualquer comentário sobre o longa Ele está de volta (Alemanha, 2015) de David Wnendt não tem espaço para delongas: adaptado do romance de mesmo nome, escrito por Timur Vermes (lançado em 2014, na Alemanha), o filme traz uma sátira da sociedade atual a partir de um evento “fantástico”, o retorno inusitado e encarnado de Adolf Hitler (Oliver Masucci), que reaparece nas proximidades do local onde provavelmente suicidou-se em 1945.

Classificado como comédia pelo “Netflix” o filme exige do expectador uma dose de esclarecimento para não sucumbir ao sarcasmo diante da semelhança que não é mera coincidência com a realidade. Numa corriqueira consulta ao Wikipedia, assim como Hitler o faz de forma emocionada no longa, é possível descobrir que o termo sarcasmo, vindo do grego, significa queimar a carne. Nada mais apropriado diante de uma produção que toca num assunto tão pungente na atualidade da Europa e do mundo, a presença do pensamento fascista na sociedade.

Esta tese parece tão absurda que leva o diretor  a tensionar para o espectador a ficção e a realidade, quando acompanha seu personagem fictício Hitler pela Alemanha, numa espécie de “turnê”. O ditador sai em busca de adeptos para sua causa, após interpretar a seu modo as mudanças históricas no mundo nesses 70 anos e, ironicamente, chegar à conclusão de que o único pensamento que ainda mantinha algo de original da ideologia fascista na atualidade são os defensores da natureza e os veganos.

Segundo o diretor, em 300 horas de material filmado apenas duas pessoas se incomodaram claramente com a presença e as atitudes de Adolf Hitler, o restante brincou, tirou selfie e muitos aproveitaram para falar de política e confessar ao Führer que os imigrantes seriam um sério problema para o país, teve quem defendesse a ideia de que a mistura de “raças” estava diminuindo o QI do povo alemão.

Fabian Sawatski (Fabian Busch) um medíocre produtor de televisão, desempregado, sem talento, vê sua chance de sucesso em Adolf ao encontrá-lo. Rapidamente apresenta para o nazista a internet e a televisão. A partir daí, o jogo da indústria de entretenimento é convertido em ideologia. Em meio a programas de humor apelativos, Hitler começa a espalhar o seu pensamento ganhando milhares de fãs. Assume o lugar do apresentador principal que usa da sua “liberdade de expressão” para fazer piadas sobre negros, imigrantes e mulheres, levando o público as gargalhadas.

O filme pode cansar pelo seu “realismo insistente”, apesar do argumento fantástico, pois em dado momento a mensagem está mais do que clara, mesmo tendo colocado na boca do seu personagem principal a obviedade dos fatos, o roteiro não quer deixar dúvidas para o espectador, talvez por se tratar de um tema tão delicado, principalmente quando vem pela via do humor.

Parece que o risível como primeira reação a algo tão absurdo venha do que temos de mais raso, o senso comum impregnado com nossos preconceitos muitas vezes em forma de piadas e sob o clássico argumento: liberdade de expressão.

Analisando os últimos acontecimentos, não tem muito tempo que ríamos de um fascista que pedia a volta da ditadura no Brasil, pois bem, entre risadas e desdém, escutamos saudações a torturadores em pleno congresso nacional, transmitidas ao vivo pela televisão a milhares de pessoas. Com esta ficção/realidade que se tornou o Brasil, talvez a lição de que o filme traga é que a idiotice é o primeiro terreno onde crescem os discursos de ódio que são vazios em pensamentos mas cheios de intenções, que com meia dúzia de palavras de ordem são eficazes para a destruição da liberdade, sempre em nome do bem comum.

O real atual é tão absurdo que precisamos da ficção para olhar com mais afinco, e principalmente, para que, daqui há 50 anos, não digamos: eu não sabia. Pois, estava claro, como sempre esteve. Saibamos cuspir nos reacionários enquanto é tempo.

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Que Tempo o Tempo Tem

“Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa”

(Água Viva – C. Lispector)

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E por falar em tempo, assisti no sábado ao documentário “Quanto tempo o tempo tem” numa sessão para professores, em Botafogo. Muitos ali, aposentados. Enquanto a sessão não se iniciava e algumas conversas rolavam, como é de praxe, ouvi um senhor indagar a uma senhora que se sentou ao seu lado: “Então, falta pouco para aquela coisa sair de lá! Né? Você é contra ou a favor que ela saia?!” “Eu, eu sou a favor!!!” (falou indignada a senhora enquanto se ajeitava na cadeira). “E você?!” “Claro que sim! Amanhã à noite acho que já teremos o resultado de nossa vitória… Já teremos tirado aquela ratazana de lá!

Fui acometida por um grande mal estar que paralisou meu corpo e meus pensamentos, como se por alguns minutos parte de mim sofresse uma morte súbita. Talvez o tempo de minha existência ali, naquele instante, tenha se descompassado com relação ao inventivo tempo dos calendários que o homem foi capaz de criar. Nada em mim pensava, só sentia. Não ansiava por uma identificação ideológica, mas humana e aquele discurso me deu a exata noção do tempo que estou vivendo. No domingo, aprendi muito sobre ódio e poder, mas esse tempo que já passou, permanece. E eles venceram(?)

Após assistir ao filme fiquei procurando razão para meu incômodo em relação a um documentário tão limpinho e cheiroso, tão bem produzido e articulado, tão bem cronometrado e fotografado. Não consegui chegar a nenhuma conclusão específica ou mesmo digna de ser ratificada como problema principal. Talvez o que me trouxe tanto incômodo estivesse entre mim e a tela. Como se tudo que estamos vivendo nesses tempos em “nosso” país fosse o estopim para que eu exigisse de “Quanto tempo o tempo tem” um pouco mais do tempo Histórico, aquele que nos mostra do que somos constituídos, que se preserva na memória de tantas imagens cinematográficas, de arquivos que transcendem a divisão do calendário e nos colocam diante de uma reflexão sobre um retroceder perigoso e doentio.

O documentário de Adriana L. Dutra e co-dirigido por Walter Carvalho se propõe uma discussão sobre o tempo. Uma coletânea de entrevistas com escritores, pensadores, filósofos e cientistas, marcadas pelo passado, presente e futuro. Um apanhado de conceituações numa espécie de aula, camuflando o didatismo, elegendo o espaço e a história como fio condutores dessa reflexão teórica, que pra minha exigência histórica e temporal soaram rasas.

“Quanto tempo o tempo tem” prefere parar no tempo e documentar sua ideia de tempo dentro dos padrões mais caretas de se contar/documentar algo. Senti falta do tempo passar, do tempo que transforma, do tempo que não passa, senti falta de um filme, de um contar inventivo, de menos formato televisivo, de um tempo do outro, senti falta de assistir um filme numa cadeira da sala escura de um cinema, não queria estar numa torturante sala de aula, aprendendo sobre o tempo desenhado e vazio das coisas.

A fotografia de Walter Carvalho nas luzes da cidade, nos faróis dos carros, num movimento de engrenagens de um relógio, em nada surpreendem, sobretudo em seu trabalho. Mais uma variação sobre o mesmo tema visitado em Janela da Alma.

Não basta toda a tecnologia, todos os contatos e o quanto se é articulado em um determinado meio, para um filme acontecer é preciso mais, é preciso o exercício da linguagem.

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O Regresso

 

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“Somos Todos Selvagens”

 

Por que alguns filmes são bons mas não agradam? Alejandro González Iñárritu dificilmente perde a viagem com suas produções. Em seus filmes não faltam o bom cinema e uma boa reflexão. Em O Regresso (The Revenant), seu último trabalho, conta a saga do explorador  Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) que volta de sua quase morte em uma situação inóspita, onde o corpo é um fardo e o espírito o guia, vivendo em um estado de consciência agudo na vingança, que funciona como combustível ou anti-inflamatório.

Até aí nenhuma novidade, uma narrativa que move seu herói por meio de uma vingança que em alguns momentos no filme fez parecer que Iñarritu havia pesado a mão no gênero, tamanhas eram as cenas e os discursos clichês. Porém, sua mira fotográfica muito bem conduzida pelo seu competente fotógrafo Emmanuel Lubezki, que levou mais um Oscar este ano, acaba por redimi-lo das nossas lembranças macabras ou da vergonha alheia deste tipo de produção.

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Com imagens que mais parecem palavras desenhadas, construindo sequências que nos propõem leituras, nos enchendo a alma de satisfação de narrativa, O Regresso nos mantém ligados tanto no discurso fílmico quanto no cinematográfico. Fato que nos faz compreender que o áudio visual, assim como a literatura são passíveis de leitura e, quanto mais o diretor souber escrever, mais o espectador precisa saber ler. A beleza dos filmes de Iñarritu reside no discurso e esse, por sua vez, se alimenta dos planos que ele propõe para construir sua ficção, por mais que ela tenha sua origem na realidade.

Assim, como bem diz Antônio Candido a respeito da literatura e outras modalidades que se servem da narrativa –  uma espécie de necessidade universal de ficção e de fantasia, que de certo é coextensiva ao homem, pois aparece invariavelmente em sua vida, como indivíduo e como grupo, ao lado da satisfação das necessidades mais elementares. E isto ocorre no primitivo e no civilizado, na criança e no adulto, no instruído e no analfabeto -, Alejandro González Iñárritu lança mão dessa avidez de produzir suas histórias certo da necessidade do homem de assisti-las. No entanto, não basta para o diretor que essa prévia função comunicativa exista, a sua fruição não se cansa do exercício do olhar, o seu filme é cinema e se sustenta no que a linguagem tem de mais evidente, a imagem. A imagem sob ou sobre alguma coisa.

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O filme com uma história comum, um herói comum e uma  narrativa linear não está nem um pouco interessado em romper ou inaugurar nenhum movimento cinematográfico. É exatamente na trajetoria de Gass que as possibilidades técnico-narrativas se realizam no espectador. Os planos e os encontros poéticos ou ideológicos assumem uma relação paralela do espectador com a obra. O índio fazendo seu acerto de contas com o homem branco, o homem branco fazendo seu acerto de contas com o homem mais branco e, nesse sentido, a identidade do selvagem vai sendo construída num cenário natural.
A palavra vida ganha dimensões muito mais complexas e amplas nas montanhas do norte dos Estados Unidos. Tudo se move, tudo interage com tudo. Os sentimentos são gelados e o desejo parece ser objetivo. Como se cada um carregasse um segredo e sua própria sede de vingança. Quando a história peca, uma cena salva o momento – é um cinema de contribuições entre forma e conteúdo. O duelo entre o urso e Gass mostra a sede de vingança da natureza aclamada no discurso de Leonardo DiCaprio na entrega do Oscar. O duelo em outra cena muitíssimo pertinente, que empresta ao filme uma belíssima referência cinematográfica e histórica, ensaia um outro acerto de contas entre os índios e brancos, uma sequência que nada deixa a desejar aos grandes Westerns.

O Regresso pode, apesar de seus predicados, ser um filme que não agrade muita gente, seja por ser um gênero datado em algumas interpretações ou por sua silenciosa dependência do espectador. No entanto, dificilmente escapamos de sua armadilha ficcional, uma habilidade sem igual de Iñarritu de alimentar com fantasia o bicho homem.

Pode até ser que o mexicano Alejandro González Iñárritu esteja ficando americanizado, com burro do dinheiro e que está muito rico, como gostam de cutucar alguns, mas seus filmes não pedem licença ao tio Sam para fazer ficção de sua História e ganhar o Oscar por isso. Além dos prêmios pelo seu filme, Iñarritu consegue um feito que nenhum outro diretor hollywoodiano conseguiu, deu o primeiro Oscar ao senhor Di Caprio.

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A garota Dinamarquesa

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Por: Fabiana Melo Sousa

“A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl, 2015)  se insere na linha dos últimos filmes de Hollywood que estão com um olho no Oscar e o outro nas transformações da sociedade. Para isso, traz uma adaptação romantizada de uma historia que é pouco conhecida, ou era até então, mas que na atualidade dialoga diretamente com a luta dos movimentos LGBTs no mundo. E esse é o valor deste filme.

O anseio pela estatueta limita o filme para uma narrativa romantizada, mesmo que em alguns momentos sintamos algum respiro poético, a exemplo da belíssima cena num bastidor de teatro quando em meio aos figurinos de balé, o personagem Einar Wegener, interpretado por Eddie Redmayne, observa com admiração o seu corpo nu na possibilidade de ser Lili Elbe – não mais apenas vestir roupas femininas mas dispor seu corpo para transformar-se em mulher.

Para contar a transformação de um promissor pintor dinamarquês em uma delicada garota que sonhava em ser mãe e casar com um bom homem, o longa mantém uma narrativa bastante clássica e quase romantiza a vida de Lili, que de romântica não teve nada. Assim, a adaptação deixa afrouxar os dados biográficos da verdadeira história, uma vez que o filme se inspira no romance literário escrito há 18 anos, por David Ebershoff.
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O fato é que o livro e agora o filme tiveram um relevante papel de trazer à tona a história destas mulheres que foram precursoras de uma vida nada convencional. Primeiro, valoriza a pintora Gerda Wegener, que na vida “real” era bissexual e retrata em sua obra a sensualidade feminina. Mesmo depois do seu então marido Einar assumir que queria ser Lili, Gerda foi a maior apoiadora de sua causa: a mudança de sexo, demonstrando uma atitude pioneira tanto na sociedade, quanto na medicina, que precisou de muita luta para abrir caminhos nos estudos de gênero. E evidente, por trazer parte da trajetória de Lili Elbe que desde sempre soube que era uma mulher aprisionada num corpo masculino e aventurou-se em sua única chance de concretizar sua condição, infelizmente sem sucesso, levando-a à morte em 1931, após uma tentativa de inserção de um útero.

Mas a maior relevância deste filme para a sociedade é que ele revela muito da nossa desinformação sobre a pessoa transgênera. O que ela pensa? Quais as diferenças entre uma pessoa nestas condições e a homossexualidade? Porque Lili, com toda a sua história de transgressão, tinha como maior desejo ser esposa, mãe e ter um lar, reproduzindo o papel social já contestado em sua época, mesmo por Gerda, sua esposa?

Talvez, mais do que um problema biográfico do filme, esta lacuna esteja em nossos preconceitos e desinformações, e por isso, das muitas análises que li, fico com a da cartunista Laerte, que consegue perceber em sua trajetória individual pontos de encontro com o filme, como o relato sobre o seu processo de descoberta, relacionando com a trajetória de Lili.

Se Laerte, com sua experiência em vida, percebe algo de importante no filme, acho que devemos prestar atenção, pois diferente da época em que Lili Elbe esteve entre nós, hoje é possível uma abertura ao diálogo e também que se criem referências na arte, ciência e na política para que estas trajetórias deixem de ser solitárias.

Por outro lado, se o longa ficção deixa algumas lacunas, deixo a dica do incrível documentário “Arrependidos” (Angrarna; Regretters. 2010) onde Orlando e Mikael contam como é a vida depois que ambos passaram pela cirurgia de mudança de sexo mas anos depois se arrependeram. A importância deste filme é deixar que os entrevistados contem eles mesmos as suas histórias. O diretor Marcus Lindeen permite que saibamos um pouco mais dos anseios em torno de uma vida que se permite fugir do binarismo homem/mulher, para além da teoria.

Está na hora de escutar mais e falar menos, talvez só assim a palavra diversidade tome seu verdadeiro sentido, quando deixarmos de dialogar entre nós mesmos.

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Boi Neon – Melhor do que carnaval

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 E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
C. Veloso

Assim como a vida, o cinema a toda hora nos impele um olhar mais generoso para o mundo. Desprega nossos pés do chão e nos leva a uma multiplicidade de perspectivas do outro que só o movimento é capaz. Gabriel Mascaro faz do universo da vaquejada o cenário perfeito para discutir a beleza. Boi Neon explode com os estereótipos sem um vidro de perfume se quer, apesar de seu protagonista apreciar fragrâncias sofisticadas. Enquanto o espectador sai do cinema cheirando a estábulos e seus bois e cavalos. Eu disse cheirando e não fedendo!

O realismo e o naturalismo característicos nos filmes pernambucanos não caem no lugar comum do exótico olhar sobre o Nordeste. O filme se apropria de uma geografia muito mais existencial do que espacial. Um lugar que, hoje mais do que nunca, está na pessoa e sua “performance”, muito bem representada na atuação de Maeve Jinkings, tornando orgânica a condição de mais um mamífero.

O desejo, a função mais natural no filme, aparece no roteiro como o é de fato – uma necessidade fisiológica que imprime nas cenas de sexo uma decisão espontânea dos corpos.

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A mulher é colocada num lugar interessante no filme de Mascaro, por um triz não se ergue uma bandeira, salvo pelas atuações e por um roteiro muito mais fotográfico. Durante toda projeção, quando tudo parece ir “muito bem” o boi é derrubado violentamente ao chão, puxado pelo rabo. Ao mesmo tempo que o pelo grosso dos animais é excessivamente acarinhado. Imagens de vida. Assim como o boi é derrubado pelo rabo, o falocentrismo é abatido pela vigilante prenha, quando um bem dotado Juliano Cazarré oferece, fatigado à lente, o seu rabo.

O lugar daqueles corpos que poderia nos surpreender por suas funções trocadas, nos conforta, discursando sobre um cotidiano, quando o não-rótulo dos afazeres do gênero é um simples ato de exercitar o peito muito mais que o olhar. Nos estragamos de dentro pra fora e é de dentro pra fora que devemos nos arejar.

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Como ia dizendo o filme de Gabriel Mascavo quer falar de beleza e, para tanto, ele escolheu um lugar onde homem, mulher e bicho contracenam com suas sinas e a força está em procriar novas sinas.

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O Cavalo de Turim – Béla Tarr fotografa a existência

Por: Fabiana Melo Sousa

 

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Todo agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo o que é orgânico requer não somente luz, mas também escuro. Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante aquele que se forçasse a abster-se de dormir, ou ao animal que tivesse de sobreviver apenas da ruminação e ruminação repetida. Portanto: é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível, sem esquecimento, simplesmente viver. Ou, para explicar-me ainda mais simplesmente sobre meu tema: há uma grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização.

                                                                                                                     

NIETZSCHE. “Da utilidade e desvantagem da história para a vida”. In Considerações extemporâneas.

 

 

O cavalo de Turim, o último longa do cineasta Bela Tarr pode enganar um expectador desavisado. É um filme que parece falar de Nietzsche, parece mostrar a vida de um cavalo e parece retratar o cotidiano que se repete de uma família que espera passivamente a passagem de uma tempestade e é exatamente no que ele aparenta ser que reside a força deste filme.

 

Os três personagens principais – o filósofo, o cavalo e o cocheiro – se encontram em um evento “fora” do filme: no dia 3 de janeiro de 1889, em Turim, Friedrich Nietzsche se aproxima de um cavalo que estava sendo açoitado por seu cocheiro, abraça o animal, soluça em silêncio e depois de ser levado para casa ele se mantém em calado. Suas últimas palavras são “mãe, eu sou um idiota” e assim o alemão vive passivamente até a sua morte, dez anos depois: em silêncio.

 

Cavalo e cocheiro por sua vez seguem juntos, primeiro num longo plano sequência do animal que puxa a carroça e seu dono, sobe morro e chegam num velho estábulo. Ali começa uma coreografia, onde todas as ações são exaustivamente sincronizadas, numa rotina que parece ser calculada mas que por vezes também pode ser apenas a expressão de que daquela vida nada se espera, tudo é previsível.

 

O cocheiro e sua filha seguem rotineiramente trocando suas roupas, cozinhando batatas, almoçando, organizando, descansando. E assim os próximos cinco dias são vividos até que a tempestade vá embora, mas o vento não cessa. Aos poucos o cavalo adoece, a água acaba, o combustível para a lamparina chega ao fim… Só então é que nos damos conta de que a vida não se repete, que cada dia é um, por mais que os gestos e toda coreografia se repetiam, o tempo era outro.

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Dessa vez somos nós, expectadores, que precisamos nos entregar e pactuar de que há algo de novo naquela repetição, em toda a descrição calculada da câmera que contempla as ações dos personagens. Aqueles sujeitos, dos quais nada sabemos sobre eles, passam a nos interessar.

 

Bela Tarr não se cansa de ruminar com suas longas sequências: a câmera revela o cocheiro e sua filha – ele come com ferocidade, queimando-se ao destrinchar uma enorme batata quente como se fosse um frango, com apenas uma mão; num ritual diário troca de roupa ao deitar-se e levantar-se. Ela troca a roupa do pai, cozinha batatas, come silenciosamente e em alguns instantes o próprio cavalo, que não come e permanece em silêncio no estábulo.

 

Enquanto o ruminar dos seus personagens surgem quando as ações cotidianas são interrompidas e a jovem e o cocheiro sentam de frente a pequena janela e observam alguma coisa no exterior da casa, cada um em seu tempo e em momentos diferentes. O que pensam? O que observam?

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E assim seguem os dias, não há nada o que dizer a não ser esperar que algo aconteça. Qual sentido? Diante do insistente ruído do vento que na sua constância já se faz imagem a previsível rotina é então interrompida – um padre em busca de aguardente e um dedo de prosa“é sobre o julgamento do homem, seu próprio julgamento, no qual certamente Deus está envolvido” e um bando de ciganos reclamando a água do poço, deixando para jovem uma bíblia, ambos trazem aos personagens palavras. A fome passa a rondar aquele casebre junto dela o medo da morte. De repente aquele inóspito rancho que parecia ser suficientemente precário ainda apresentaria seus piores dias.

 

Mesmo o homem, mesmo os ciganos que amaldiçoam os donos do poço que lhes negam água, parecem não adiantar para desgarrar o velho e a jovem daquela vida, a esperança só se revela num abrupto esforço de abandonar o local, em vão, pois o cavalo de Turim já não possui forças para caminhar.

 

E assim, Bela Tarr devolve para nós muitas perguntas, não mais sobre Nietzsche, o cocheiro ou o cavalo, mas sobre nós. Somos atravessados por uma vida que parece não ter sentido: qual sentido tem a vida? É preciso comer, trocar de roupas, acender o fogo, olhar pela janela, dormir, seguir em frente.

 

O cineasta defende uma arte que pode nos impulsionar para um futuro, assim como Nietzsche sugere. Parece ser um cineasta que nos remete a um cinema do passado, que não tem mais sentido em tempos atuais. Só parece, pois ele exige de nós um eterno ruminar. 

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A Gangue ( Uma nova oportunidade de assistir a partir de quinta no Cine Joia)

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Um filme na sua condição plena de linguagem nos propõe uma experiência que muitas vezes nos deixa refém dos olhos e ouvidos. O som e a imagem que condicionam o filme dentro de uma possibilidade de compreensão também são responsáveis por nos conduzir dentro de uma perspectiva restrita quando limitamos as sequências somente pelo o que é visto e ouvido. Mas se entendermos a produção cinematográfica enquanto emissora de mensagens e nós espectadores enquanto receptores dessas mensagens, não nos resta nada além do ver e ouvir esse filme? E se um diretor constrói um filme totalmente mudo? Não o mudo de ruído ou música, mas mudo de fala, porque seus personagens não ouvem, ou melhor, usam a língua de sinais? Um filme sem legendas, nem off explicativos, somente a língua utilizada pelos surdos?
Pois é disso que é feito A Gangue, de Myroslav Slaboshpytskiy, ou melhor, da falta de palavras ditas oralmente ou escritas. Se entendermos a língua de sinais como deve ser entendida, como uma língua, então não há nada de errado com o filme, pois há um discurso sendo preferido, uma fala gestual. Assim como qualquer idioma, cada país no mundo possui a sua língua de sinais e é dessa forma que o filme ucraniano é falado.
O filme de Myroslav não é um documentário, trata-se de uma ficção com uma narrativa como outra qualquer, que retrata a vida de estudantes de um internato que está sendo minado por violência, sexo e delinquência. Uma espécie de organização criminosa composta de jovens estudantes de uma escola para surdos. A falta de oralidade causa um certo incômodo, porque acostumados a receber as informações audiovisuais, temos que de repente identificar a mensagem pelo que as imagens nos dão, principalmente pelo gestual dos personagens que se comunicam entre si, sem levar em consideração a possibilidade de se fazer entender por alguém que não fala língua de sinais.

Esse estranhamento nos leva a um nível de atenção outro e passamos a compreender a história com o mínimo que nossas limitações nos permitem. Até o momento em que nos damos conta de que o que mais importa no filme não é a surdez dos alunos, é a sua história. O adolescente Sergei (Grigoriy Fesenko)tentando se adaptar dentro de um ambiente inóspito, cheio de agressividade e distanciamento, depois de muito ser perseguido se enquadra ao sistema e passa a pleitear uma colocação entre os delinquentes.

Assistir ao filme de Slaboshpytskiy é exercitar uma compreensão do outro. Esse que vive no silêncio e nem por isso deixa de sentir, pensar e agir. Com uma câmera sutil, observadora, sem dar muita ênfase para o gestual dos personagens, somos levados à acompanhar o cotidiano, quase todo tempo, noturno, de Sergei. Uma fotografia em preto e branco, colaborando com a fria e distante atmosfera do internato, compõe a aridez do local que tem todo aspecto de um reformatório. Para além da surdez, o diretor precisa dizer sobre o individualismo, a frieza, as descobertas, os desejos e o sucumbir de Sergei à hostilidade daquele lugar.
O cinema nos leva a essas possibilidades de experimentar pontos de vista, ainda que esse ângulo seja pelo falta do dizer sonoro, quando temos que abrir mão do discurso oral e passamos a dar conta de todo um contexto que comunica a história. A Gangue de Myroslav Slaboshpytskiy é um filme interessante pela falta de pedagogia acompanhada de uma incômoda experiência de linguagem.

 

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