Vidas perdidas, maconha e oxi
A abertura de uma manchete do Correio Braziliense (domingo, 17 de abril de 2011) é direta, depois de simbolismo com a citação de nomes femininos. “O Brasil faz de conta que não está vendo um fenômeno que se alastra no país: o assassinato de mulheres”. E de outras vidas perdidas. A percepção é de que a sociedade está anestesiada, à base de “é a vida...", num cenário de mortes. “A média oficial de crimes de gênero (contra a mulher) cresceu 30% na última década, percentual que esconde tragédia muito maior. No Pará, houve um aumento de 256% no mesmo período. Em Alagoas, 104%. Em Almirante Tamandaré (Paraná), existe uma organização criminosa especializada em matar mulheres”.
“Elas perdem a vida baleadas, esfaqueadas ou espancadas por maridos, namorados, irmãos e até pais”, escreve o jornal Estado de Minas, do mesmo grupo de comunicação.
Há quem defina a informação a seguir como “boa notícia”. Homicídios caem 41%, e SP deixa de ser zona epidêmica, escreve a Folha de S. Paulo (dia 16). “A taxa nos últimos 12 meses recuou a 9,9 por 100 mil habitantes – em 1999, chegou a 35,3. A Organização Mundial da Saúde considera tolerável um índice anual de 10 mortes por 100 mil”.
No Brasil, como um todo, a epidemia do crime continua: 25,4 homicídios por 100 mil habitantes. Só em São Paulo, “foram 4.088 casos de homicídios nos últimos 12 meses, 11 por dia”.
MORTES PREVISÍVEIS
A Folha de S. Paulo (dia 17) revela que metade dos acidentes com óbito em vias federais de 2 Estados ocorreu em lugares já listados como perigosos pelo governo. O jornal mapeou os pontos de rodovias federais em Minas Gerais e no Espírito Santo onde 213 pessoas morreram no Carnaval e verificou que, de 144 ocorrências fatais, 70 aconteceram em lugares já apontados pelo governo como perigosos. Em cinco anos e meio, eles registraram ao menos 3.917 acidentes, com 1.441 feridos e 127 mortos. “Mesmo levando em conta a responsabilidade dos motoristas, a existência de locais que concentram acidentes, mortos e feridos pode ser indício de deficiência em sinalização, pavimento ou geometria das pistas”.
O Brasil faz de conta que não sabe, também, que “em 10 anos, mortes de motociclistas sobem 753%”, como reporta O Globo (dia 13). “De 1998 a 2008, o número de mortes em acidentes com motocicletas cresceu 753,8%, informa o Mapa da Violência 2011. O aumento é muito maior que o da frota de motos: 368,8%. Só em 2008, morreram 8.939 motoqueiros, mais do que os motoristas e passageiros de automóveis: 8.120. Na década, foram 369 mil mortes no trânsito”.
ENQUANTO ISSO, AS DROGAS E A PLANTAÇÃO DE MACONHA
O oxi se espalha no país, informa O Globo (dia 17). “Uma nova droga entrou no Brasil pelo Acre e se espalha por vários estados: o oxi, um subproduto da cocaína mais barato e devastador que o crack”. Em Rio Branco, capital do Acre, viciados perambulam pelas ruas. No Norte-Nordeste, há vários registros da droga, que já chegou a São Paulo. No Rio, não há apreensões.
Enquanto isso, a Folha de S. Paulo (dia 17) destaca, na capa, que o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP) defendeu em debate a liberação do plantio de maconha e a criação de cooperativas de usuários. Segundo ele, não há por que vetar a droga se o sanduíche do McDonald´s, "talvez o maior crime", não é proibido.
Paulo Teixeira raciocina na contramão do que prega o governo. A presidente Dilma Rousseff inclui entre suas prioridades o combate "sem tréguas" ao crime organizado e às drogas. Segundo ele, o melhor modelo é o da Espanha: cooperativas de usuários, onde se produz para o consumo dos próprios usuários, sem fins lucrativos. (...) "Cabe ao Estado dizer que faz mal à saúde. Não existe crime de autolesão. Se eu quero, eu posso usar, tenho direitos como usuário. E isso o Estado não pode te negar", disse Teixeira.
No Senado, o líder do PT, Humberto Costa (PE), saiu em defesa de Teixeira, informa o jornal paulista. (dia 18). "A legalização seria uma maneira de combater o tráfico, mas não tem unanimidade. Os desdobramentos precisam ser estudados", disse Costa, que foi ministro da Saúde no governo Lula.
O ATRASO
O triste cenário acima tem reflexo também no atraso tecnológico do Brasil. O início da produção do primeiro chip brasileiro está marcado, finalmente, para 2012, algo que pelos planos originais deveria ter ocorrido em agosto de 2007. O fabricante será o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), como parte de um projeto que completa dez anos desde a doação dos primeiros equipamentos pela Motorola. Nesse período, recebeu investimentos de R$ 500 milhões, escreve o Valor Econômico.
JORNALISMO: LIÇÕES
O depoimento do jornalista Juca Kfouri (ex-Placar, ex-Rede Globo, colunista da Folha de S. Paulo, comentarista na CBN-São Paulo etc.) para Celso Sabadin e Francisco Ucha, do Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), é imperdível por todos que gostam de jornalismo.
A publicação, de março, tem circulação dirigida, mas espera-se que a entrevista dele apareça no endereço eletrônico da entidade, http://www.abi.org.br/. São 10 páginas em papel.
Juca Kfouri, o repórter que revelou a identidade de Carlos Zéfiro, do chamado catecismo erótico, opina: “Você não quer conversar comigo, não preciso conversar com você. Eu sei te observar, eu sei ouvir o que está em torno, eu não vou pedir pelo amor de Deus para você conversar comigo. Não vou sacrificar minha independência para você me dar uma entrevista por nada. Não preciso. Melhor que dê, mais respeitoso que dê, e vou te respeitar ao te entrevistar, mas não vou te bajular, e não vou te levantar a bola. É assim que deve ser. Infelizmente, na nossa imprensa eletrônica esportiva, raras são as figuras que levam isto deste jeito”.
Partilho, no geral, de um pensamento de Kfouri sobre os rumos da imprensa: “Percebo que cada vez mais há consciência da necessidade da pós-notícia, que não faz mais sentido dizer simplesmente que o Papa morreu. No jornal do dia seguinte eu quero saber para onde vai a Igreja Católica, não que o Papa morreu. O El País já faz isso muito bem. O Diário de S. Paulo está tentando fazer isso, talvez não seja o ideal, por ser um veículo popular, e fica no meio do caminho. Quero ver alguém ter coragem de fazer uma primeira página, por exemplo, se o Corinthians for campeão no domingo, na segunda a manchete não ser “Corinthians campeão”. Quero ver. Eu faria. Eu acho que essa é a trilha que pode rejuvenescer o jornalismo”.
“Elas perdem a vida baleadas, esfaqueadas ou espancadas por maridos, namorados, irmãos e até pais”, escreve o jornal Estado de Minas, do mesmo grupo de comunicação.
Há quem defina a informação a seguir como “boa notícia”. Homicídios caem 41%, e SP deixa de ser zona epidêmica, escreve a Folha de S. Paulo (dia 16). “A taxa nos últimos 12 meses recuou a 9,9 por 100 mil habitantes – em 1999, chegou a 35,3. A Organização Mundial da Saúde considera tolerável um índice anual de 10 mortes por 100 mil”.
No Brasil, como um todo, a epidemia do crime continua: 25,4 homicídios por 100 mil habitantes. Só em São Paulo, “foram 4.088 casos de homicídios nos últimos 12 meses, 11 por dia”.
MORTES PREVISÍVEIS
A Folha de S. Paulo (dia 17) revela que metade dos acidentes com óbito em vias federais de 2 Estados ocorreu em lugares já listados como perigosos pelo governo. O jornal mapeou os pontos de rodovias federais em Minas Gerais e no Espírito Santo onde 213 pessoas morreram no Carnaval e verificou que, de 144 ocorrências fatais, 70 aconteceram em lugares já apontados pelo governo como perigosos. Em cinco anos e meio, eles registraram ao menos 3.917 acidentes, com 1.441 feridos e 127 mortos. “Mesmo levando em conta a responsabilidade dos motoristas, a existência de locais que concentram acidentes, mortos e feridos pode ser indício de deficiência em sinalização, pavimento ou geometria das pistas”.
O Brasil faz de conta que não sabe, também, que “em 10 anos, mortes de motociclistas sobem 753%”, como reporta O Globo (dia 13). “De 1998 a 2008, o número de mortes em acidentes com motocicletas cresceu 753,8%, informa o Mapa da Violência 2011. O aumento é muito maior que o da frota de motos: 368,8%. Só em 2008, morreram 8.939 motoqueiros, mais do que os motoristas e passageiros de automóveis: 8.120. Na década, foram 369 mil mortes no trânsito”.
ENQUANTO ISSO, AS DROGAS E A PLANTAÇÃO DE MACONHA
O oxi se espalha no país, informa O Globo (dia 17). “Uma nova droga entrou no Brasil pelo Acre e se espalha por vários estados: o oxi, um subproduto da cocaína mais barato e devastador que o crack”. Em Rio Branco, capital do Acre, viciados perambulam pelas ruas. No Norte-Nordeste, há vários registros da droga, que já chegou a São Paulo. No Rio, não há apreensões.
Enquanto isso, a Folha de S. Paulo (dia 17) destaca, na capa, que o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP) defendeu em debate a liberação do plantio de maconha e a criação de cooperativas de usuários. Segundo ele, não há por que vetar a droga se o sanduíche do McDonald´s, "talvez o maior crime", não é proibido.
Paulo Teixeira raciocina na contramão do que prega o governo. A presidente Dilma Rousseff inclui entre suas prioridades o combate "sem tréguas" ao crime organizado e às drogas. Segundo ele, o melhor modelo é o da Espanha: cooperativas de usuários, onde se produz para o consumo dos próprios usuários, sem fins lucrativos. (...) "Cabe ao Estado dizer que faz mal à saúde. Não existe crime de autolesão. Se eu quero, eu posso usar, tenho direitos como usuário. E isso o Estado não pode te negar", disse Teixeira.
No Senado, o líder do PT, Humberto Costa (PE), saiu em defesa de Teixeira, informa o jornal paulista. (dia 18). "A legalização seria uma maneira de combater o tráfico, mas não tem unanimidade. Os desdobramentos precisam ser estudados", disse Costa, que foi ministro da Saúde no governo Lula.
O ATRASO
O triste cenário acima tem reflexo também no atraso tecnológico do Brasil. O início da produção do primeiro chip brasileiro está marcado, finalmente, para 2012, algo que pelos planos originais deveria ter ocorrido em agosto de 2007. O fabricante será o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), como parte de um projeto que completa dez anos desde a doação dos primeiros equipamentos pela Motorola. Nesse período, recebeu investimentos de R$ 500 milhões, escreve o Valor Econômico.
JORNALISMO: LIÇÕES
O depoimento do jornalista Juca Kfouri (ex-Placar, ex-Rede Globo, colunista da Folha de S. Paulo, comentarista na CBN-São Paulo etc.) para Celso Sabadin e Francisco Ucha, do Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), é imperdível por todos que gostam de jornalismo.
A publicação, de março, tem circulação dirigida, mas espera-se que a entrevista dele apareça no endereço eletrônico da entidade, http://www.abi.org.br/. São 10 páginas em papel.
Juca Kfouri, o repórter que revelou a identidade de Carlos Zéfiro, do chamado catecismo erótico, opina: “Você não quer conversar comigo, não preciso conversar com você. Eu sei te observar, eu sei ouvir o que está em torno, eu não vou pedir pelo amor de Deus para você conversar comigo. Não vou sacrificar minha independência para você me dar uma entrevista por nada. Não preciso. Melhor que dê, mais respeitoso que dê, e vou te respeitar ao te entrevistar, mas não vou te bajular, e não vou te levantar a bola. É assim que deve ser. Infelizmente, na nossa imprensa eletrônica esportiva, raras são as figuras que levam isto deste jeito”.
Partilho, no geral, de um pensamento de Kfouri sobre os rumos da imprensa: “Percebo que cada vez mais há consciência da necessidade da pós-notícia, que não faz mais sentido dizer simplesmente que o Papa morreu. No jornal do dia seguinte eu quero saber para onde vai a Igreja Católica, não que o Papa morreu. O El País já faz isso muito bem. O Diário de S. Paulo está tentando fazer isso, talvez não seja o ideal, por ser um veículo popular, e fica no meio do caminho. Quero ver alguém ter coragem de fazer uma primeira página, por exemplo, se o Corinthians for campeão no domingo, na segunda a manchete não ser “Corinthians campeão”. Quero ver. Eu faria. Eu acho que essa é a trilha que pode rejuvenescer o jornalismo”.