Arquivo de January 2011

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Igreja e o espetáculo da fé

A Igreja Católica ocupa, como instituição no Brasil, ocupa o segundo lugar em credibilidade, abaixo apenas das Forças Armadas, conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mas não anula a tensão interna. O episcopado fica entusiasmado, embora alguns teólogos e assessores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) atribuam essa boa imagem não a seu desempenho, mas ao descrédito de concorrentes, especialmente da classe política, escreve o repórter José Maria Mayrink, em O Estado de S. Paulo. "Em questões políticas pode haver divergências, mas mesmo assim a Igreja tem voz ativa, como ocorreu no caso da aprovação da Lei da Ficha Limpa", observa o professor Felipe de Aquino, membro do movimento carismático Associação Canção Nova.

O dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, atribui a uma disputa interna no episcopado a polêmica criada em cima da discussão sobre o aborto. "Acredito que todo esse conflito à sombra do processo eleitoral tinha como alvo não evitar a eleição da Dilma, mas assegurar aos conservadores a vitória da eleição na CNBB", afirmou o teólogo e ex-assessor do presidente Lula no programa Fome Zero.

PEDOFILIA – Na reportagem do Estadão, afirma-se que as denúncias de pedofilia no clero repercutiram relativamente pouco no Brasil, porque os casos ocorridos aqui foram poucos, em comparação com outros países. "Se a Igreja já vinha sofrendo uma crise de credibilidade, a pedofilia aprofundou essa crise e não adianta dizer que a pedofilia está presente na família e no mundo civil, porque o padre foi trabalhado, desde o século 16, como um alter Christus ("outro Cristo"), uma figura tão exaltada que é impossível deixar de haver consequências", disse o padre o padre Manoel Godoy, diretor do Instituto de Teologia Santo Tomás de Aquino, em Belo Horizonte.

Por outro lado, o texto mostra que a Igreja Católica prega uma coisa e os católicos fazem outra, sobretudo na área moral, quando entra em jogo a sexualidade. Não é só o aborto, mas também questões como controle de natalidade, sexo antes do casamento, segunda união de descasados e inseminação artificial. A doutrina continua inalterada nas normas de documentos oficiais, mas no foro íntimo a situação muda.

D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, considera que todos - bispos, padres, freiras e leigos - têm de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo, adaptando os documentos e a orientação do Concílio Vaticano II à nova realidade. A Igreja tem de se renovar, diz o bispo, para enfrentar os desafios atuais, que são o consumismo, o relativismo, as drogas e o sexo, especialmente para os jovens, por causa da falta de horizonte. D. Angélico defende a ordenação de homens casados, para atender as comunidades abandonadas. O Brasil tem 20.561 padres para cerca de 130 milhões de católicos. “É pouco para as 10.218 paróquias de 273 dioceses do País”.

No Brasil, do total de 459 bispos, 273 (59%) foram nomeados pelo papa polonês João Paulo II e 102 (22%), pelo seu sucessor alemão, Bento XVI.

“O NOVO ASTRO DA FÉ” – Tema principal da revista IstoÉ (data de capa 2/2/2011), o ex-lavrador Valdemiro Santiago construiu um império religioso com mais de três mil templos espalhados pelo mundo e, com fama de milagreiro, lidera a igreja evangélica que mais cresce no Brasil – a Igreja Mundial do Poder de Deus. Santiago foi da Universal do Reino de Deus por 18 anos, de onde saiu em 1977 depois de um suposto desentendimento com o bispo Edir Macedo.

O milagre é o carro-chefe da Igreja Mundial, que tem um aparato de comunicação competente, segundo a revista. Usa 22 horas diárias da Rede 21 de Televisão. Em um programa no início de janeiro, Santiago protagonizou, uma situação do tipo milagreiro. A seu lado, caminhando, um ex-paralítico afirmava ter permanecido imóvel por 15 anos. “A reportagem de IstoÉ tentou contato com esse homem, mas membros da cúpula da Mundial disseram ser impossível localizá-lo, pois as fichas de identificação ainda não estão informatizadas e há muitos casos como o dele”, escreve a publicação.

“Os evangélicos somavam 26,1 milhões de fiéis em 2000. Especialistas estimam um salto de mais de 50%, totalizando 40 milhões de ovelhas, nos dados do Censo 2010”.

LIVRE DE PRECONCEITOS – O Paquistão é uma ex-colônia britânica de 180 milhões de habitantes cuja imagem no ocidente é frequentemente associada ao terrorismo e fanatismo religioso. O jornalista brasileiro Fernando Scheller, durante seu mestrado na Alemanha, conviveu em um ambiente multicultural. Na universidade, conheceu outros estudantes estrangeiros, entre eles, o jovem paquistanês Ishfaq Khan, de quem se tornou amigo. Da amizade, nasceu o convite para visitar o Paquistão, mostra reportagem de Deutsche Welle.

Fernando Scheller decidiu, em 2008, viver uma experiência ainda mais marcante: acompanhar o cotidiano da família Khan durante dois meses na cidade de Mardan, na fronteira com o Afeganistão. “Como jornalista, sempre achei que o específico é mais interessante do que o geral. Por isso, meu objetivo foi retratar um microcosmo desconhecido para a maioria das pessoas. Uma visão livre de preconceitos ou visões pré-concebidas”. Assim nasceu o livro-reportagem Paquistão: viagem à terra dos puros, lançado em novembro de 2010 no Brasil. “O povo paquistanês é tão vítima do terrorismo quanto o resto do mundo”, afirma Scheller. Saiba mais em:

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,14775382,00.html

TODO DIA – Dia sim, outro também, o noticiário de jornais brasileiros traz informações sobre o nível de corrupção que assola o Brasil. O Correio Braziliense de hoje (31), por exemplo, escreve sobre farra em compra de remédios. “Sete hospitais universitários (o Rio está presente) e sete das Forças Armadas pagaram valores superfaturados em até 1.380% por medicamentos e insumos”.

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Para que as chuvas matem menos em 2011

Depois da tragédia de centenas de mortos, desabrigados e desalojados na Região Serrana, o Rio de Janeiro vai providenciar o que a lei exige para municípios, e que a especulação imobiliária resiste em acatar. Estado vai criar planos diretores e instalar agências de fomento nos municípios atingidos, anuncia O Globo. O óbvio: Os projetos determinarão as áreas a serem ocupadas e as que não poderão mais ser habitadas.

A Veja (data de capa 26/1/2011) propõe oito soluções para que as chuvas matem menos em 2011. 1- Mapear áreas de risco. 2- Fiscalizar a ocupação irregular do solo (“O Código Florestal proíbe construção em topo de morros, em encostas com inclinação superior a 45 graus e a menos de 30 metros de distância do leito dos rios – só que é amplamente desrespeitado no território nacional”). 3 – Remoções em áreas de risco. 4- Contenção de encostas. 5- Construções mais seguras (“Criar regras para construção de casas e prédios é atribuição de cada município brasileiro. Espantosamente, na Região Serrana do Rio, não existem leis a respeito”). 6- Sistema eficaz de radares. 7- Alertas de emergência. 8- Coordenação de ações (“O que predomina nesse campo é o completo improviso, como ocorreu no último dia 14 de janeiro. Ali se viu um exemplo de solidariedade das pessoas comuns – e um show de incompetência por parte das autoridades”, escreve Veja.) Das oito propostas, três demandam custo alto e prazo longo de execução (remoções, contenção de encostas e construções mais seguras).

NENHUMA DESCULPA – A revista Carta Capital (data de capa 26/1/2011) dedica sua capa – “Abandonados à própria sorte” – para a tragédia no Rio. O texto da reportagem “Abandonados no descaso”, começa com a frase certeira: “O Brasil não é Blangadesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século XXI, que pessoas morram em deslizamentos de terra causados por chuvas”. A crítica é da consultora externa da ONU (Organização das Nações Unidas) e diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir.

Segundo a revista, “o governo culpa os céus, mas o povo padece é da negligência das autoridades”. “Os deslizamentos e inundações eram inevitáveis, mas um sistema eficiente de alerta e defesa civil teria poupado vidas”.

POBREZA - O pano de fundo desse cenário é o atraso e a pobreza no Brasil. A mesma Veja destaca, em outro tema, que até o FMI (Fundo Monetário Internacional) quer diminuir o abismo que separa os muito ricos dos muito pobres. É um caso de pragmatismo. “Para que todos vivam melhor, inclusive os mais ricos, o ideal é que o fosso material a separar as pessoas seja menos profundo. Tudo funciona melhor em um ambiente com diferenças menos agudas”.

Charge que ilustra o texto mostra diálogo entre pai e filho: “A coisa é cíclica, filho. Às vezes, os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres; outras vezes, os ricos ficam mais ricos, e os pobres ficam na mesma”.

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