Arquivo de July 2011

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Bobos ou omissos?

O leitor mais atento observa, certamente, que cresce impressionantemente o noticiário de corrupção política e promiscuidade nas relações entre o público e privado. A indignação não é proporcional.

À parte o atual escândalo no Ministério do Transportes, o cenário é preocupante e pede a atenção de toda a sociedade – afinal, o poder político a reflete.

DINHEIRAMA PÚBLICA

O tema corrupção se faz presente até em comentário esportivo. Dia 22 de julho, em O Estado de S. Paulo, o jornalista Antero Greco escreve o artigo “Anestesia Geral”, tratando da “dinheirama pública para construir estádios para a Copa do Mundo de 2014”.

Reproduzo parcialmente os três primeiros parágrafos do texto: “Indignação é necessária na vida para impedir que o senso crítico adormeça e os vivaldinos deitem e rolem à vontade. Infelizmente, vivemos período de apatia, em que se questiona pouco ou nada, em que absurdos soam como fatos normais e inevitáveis. Estamos todos anestesiados e preocupados com nosso umbigo e interesses”.

“Não me atrevo a falar de política, que não é minha praia, pelo menos neste espaço. A desfaçatez é tão grande que hoje em dia corruptos nem agem na moita; fazem às claras mesmo, certos da impunidade. Então, me limito ao esporte, que, com temas que o recheiam, é suficiente para ilustrar a tese do parágrafo acima”.

“Repare quantos episódios brotam à nossa frente sem que ocorra ira popular. Ou nem tentamos analisar os porquês de certos peixes que nos vendem. No máximo, há uns tontos que se atrevem a ir contra a maré e são desqualificados por gente que se lixa um montão para decência”. (...)

ESTRADAS DA CORRUPÇÃO

O Correio Braziliense, dia 18, destacou na capa que até 43% do dinheiro sujo do mundo, segundo duas entidades, circulam por aqui. No Brasil. “Os danos causados pelo tempo, pelo tráfego e pelas chuvas sobre os 212 mil quilômetros asfaltados sob responsabilidade do setor público levam para o ralo todos os anos R$ 5 bilhões, segundo cálculo do Banco Mundial (Bird). Obras de péssima qualidade nas rodovias, muitas movidas a corrupção, impõem perdas à economia do Brasil e matam 45 mil anualmente”. O jornal reporta caso de duas ferrovias que nem começaram a ser construídas, mas já há suspeita de desvios, escreve Sílvio Ribas.

QUEREM ENGANAR QEM?

O escritor João Ubaldo Ribeiro, também no Estadão (dia 17), pergunta: “Estão querendo enganar quem?”. O assunto são as obras para a Copa de 2014 no Brasil, mas vai mais longe. “Se for feita uma enquete, tenho certeza de que a grande maioria dos brasileiros acredita que vai haver roubo nessas obras, com sigilo, sem sigilo, de que forma for. Existirá sempre um jeito de roubar, entendido isto como faturamento fraudulento, propinas, desvios de materiais e serviços e, enfim, todo tipo de trambique aplicável, num repertório em que seguramente somos líderes mundiais”, escreve João Ubaldo.

“É difícil assistir a um noticiário de televisão em que não seja mostrado o desbaratamento e prisão (e imediata soltura, em questão de segundos) de pelo menos uma quadrilha que fraudava algum órgão público. (...) E os parlamentares, se não são todos ladrões em sentido amplo, são beneficiários impudentes de uma abundância obscena de privilégios, a começar pelo imoralíssimo foro especial, que os põe numa acintosa classe acima dos governados, a quem não prestam satisfações e cuja vontade ignoram, se não coincide com seus interesses”.

João Ubaldo Ribeiro comenta o cotidiano da sociedade. “E ninguém, afinal, é punido por nada. Se antes isso se aplicava somente aos ricos e poderosos, agora vale para todos. A melhor maneira de matar alguém no Brasil é ficar bêbado, pegar o carro e atropelar a vítima. Aí o atropelador se recusa a usar o bafômetro e vai para casa, responder a processo em liberdade, para, no caso difícil de vir a ser condenado, cumprir a pena também em liberdade”.

O escritor completa o texto assim: “Nós sabemos de tudo e não somos bobos, somos apenas omissos, submissos, cínicos e cada vez mais moralmente insensíveis - ninguém é perfeito”.

DEMONIZAÇÃO

As conseqüências da corrupção pública e privada prejudicam, gravemente, o desenvolvimento brasileiro. Há um recado importante dado, neste cenário, pela presidente Dilma Rousseff, em um texto da Folha de S. Paulo, dia 23 – e que o JBWiki!, do Jornal do Brasil, soube destacar.

Ao falar sobre a crise no Ministério dos Transportes, lembrou que demissões ocorrerão independentemente dos "endereços partidários". E acrescentou: “não se pode demonizar a política".

Não mesmo. A política é a via de solução democrática, creio. Sem ela, só autoritarismo, só ditadura.

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Propinas. Pagot?

A semana segue difícil para o governo Dilma Rousseff, como vem acontecento nos últimos dias. Já caíram os ministros Antônio Palocci – que teve destino igual no governo Lula – e Alfredo Nascimento (Transportes). A revista Carta Capital (13/7/2011, data de capa), alinhada ao governo, resume: “Dilma busca seu governo. Palocci e Nascimento já se foram. Há outros na fila”.

Enquanto isso, o escândalo de propinas no Ministério dos Transportes segue repercutindo. Não à toa. “Capital de empresa de filho de ministro cresce 86.500%. “O Ministério Público Federal no Amazonas investiga suposto enriquecimento ilícito de Gustavo Morais Pereira, de 27 anos, filho do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Criada em 2005 com capital de R$ 60 mil, uma das empresas de Pereira tem agora patrimônio de R$ 52 milhões - crescimento de 86.500%”, segundo O Globo (6).

O Ministério dos Transportes tinha comitê para administrar propinas, reporta O Estado de S. Paulo (dia 8). "Planalto recebeu denúncias de que órgão criado para fiscalizar obras estava achacando empresários".

O colunista da Folha de S. Paulo (dia 3), Elio Gaspari, revela uma esperança: “Dilma poderia aproveitar a faxina no setor e acabar com o projeto do trem-bala”. O leilão da obra, adiado várias vezes por desinteresse da iniciativa privada, está marcado para segunda-feira, 11. Atualizo na terça-feira, 12. Não houve leilão novamente. O governo insiste. Vai fatiar o projeto em dois. "Ninguém o quer, porque não existe um projeto de engenharia detalhado que dê garantia de que vá mesmo custar R$ 34 bilhões. As empresas dizem que o projeto pode custar R$ 50 bilhões, R$ 55 bilhões ou R$ 60 bilhões. Ninguém sabe direito. Não adianta fazer uma mudança no projeto de leilão. Tem de fazer um estudo de engenharia para saber, afinal de contas, quanto vai custar esse projeto", escreve Miriam Leitão na Agência de Notícias Jornal Floripa (12).

MENSALÃO

Paralelamente, o mensalão do PT (2005) voltou ao noticiário no fim-de-semana, mas já perdeu força. “Cinco anos depois do início da ação contra os envolvidos no mensalão do governo Lula, a Procuradoria Geral da República reafirma que uma quadrilha chefiada pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, usou dinheiro público para comprar apoio no Congresso. "Foi um plano criminoso voltado para a compra de votos no Congresso. Trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber", afirmou o procurador-geral, Roberto Gurgel, nas alegações finais ao Supremo Tribunal Federal. Gurgel pediu a condenação de 36 pessoas. A pena de Dirceu pode ir a 111 anos de prisão, e a de Marcos Valério, a 1.727 anos”, segundo O Globo (dia 9).

Na Folha de S. Paulo, o destaque foi “Mensalão teve R$ 75 milhões em empréstimo falso, diz Gurgel”. “Nos relatos finais enviados ao STF sobre o mensalão, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, diz que empréstimos fraudulentos dos bancos Rural e BMG ao grupo de Marcos Valério e ao PT superaram R$ 75 milhões, informa Felipe Seligman. O valor é 25% maior do que era conhecido. Ex-chefe da Casa Civil, Jose Dirceu diz que o parecer não traz provas”.

FRAUDE EM LICITAÇÃO

Outro problema veio à tona. Documentos revelam fraude em licitação de R$ 300 milhões da Petrobrás, escreve O Estado de S. Paulo domingo, dia 10. Documentos e imagens obtidos pelo Estado mostram que a Petrobrás e uma empresa do senador e tesoureiro do PMDB, Eunício Oliveira (CE), fraudaram este ano uma licitação de R$ 300 milhões na Bacia de Campos, região de exploração do pré-sal no Rio, informa o repórter Leandro Colon. A Manchester Serviços Ltda., cujo dono é Eunício, soube com antecedência, de dentro da Petrobrás, da relação de seus concorrentes na disputa por um contrato na área de consultorias e gestão empresarial. De posse das informações, a Manchester procurou as empresas e fez acordo para ganhar o contrato. Estatal nega conhecer acerto”.

O jornal mantém o tema nas manchetes segunda-feira, dia 12 de julho. ‘Empresa diz ter alertado Petrobrás sobre fraude. A direção da Seebla Engenharia afirmou ontem ao Estado ter alertado a Petrobrás no dia 11 de maio sobre o assédio da empresa Manchester Serviços Ltda, que pertence ao senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), para fazer um acerto numa licitação de R$ 300 milhões na Bacia de Campos, região de exploração do pré-sal no Rio. (...) O diretor da ouvidoria da Seebla, Milton Rodrigues Junior, disse que relatou a Petrobrás "chantagem" “ameaça de retaliação” pela Manchester antes da licitação, ocorrida em 31 de março. (...) A Petrobrás “rechaça com veemência as insinuações de favorecimento" na licitação. Em nota, o senador Eunício Oliveira disse desafiar "que alguém apresente prova" de sua interferência em concorrências’.

O BOY DE MOGI DAS CRUZES

O deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), também envolvido no caso do mensalão, é apontado como o principal operador do escândalo no Ministério dos Transportes. O Valor Econômico destaca (dia 11) o "Boy" de Mogi, do malufismo ao petismo.

Vale ler: “Foi na década de 1960, numa Mogi das Cruzes de 40 mil habitantes, que o deputado federal Valdemar Costa Neto, secretário-geral do PR, ganhou o apelido de "Boy", pelo hábito de andar a bordo de carros e motocicletas, inacessíveis, à época, à maioria dos jovens da cidade. O pai, Valdemar Costa Filho, foi prefeito quatro vezes. Andava armado e orgulhava-se da amizade com o então governador Paulo Maluf, a quem atribuía a viabilidade de obras como a rodovia Mogi-Bertioga.

No sexto mandato consecutivo como deputado federal, Valdemar hoje tem mais prestígio entre as lideranças políticas da cidade do que entre os eleitores. Costuma ciceronear caravanas de vereadores da cidade em suas incursões pelos ministérios. Em maio, levou o então diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antônio Pagot, à cidade para assinar contratos. A atuação, no entanto, ainda não foi capaz de lhe devolver o capital eleitoral de antes do mensalão. No ano passado, Mogi lhe deu apenas 18,6 mil votos, 40% do que havia conseguido lá antes do mensalão”.

MAGGI E PAGOT

Terça-feira, 12, Pagot presta depoimento no Senado. O diretor do Ministério dos Transportes é ligado ao senador Blairo Maggi (PR-MT), o “rei da soja”. Maggi afirmou que todos os aumentos de despesa em obras sob responsabilidade do Dnit foram autorizados pelos coordenadores do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e necessitaram do aval do Ministério do Planejamento.

Em entrevista a Jorge Bastos Moreno, de O Globo (dia 11), o senador adiantou o que Luiz Antonio Pagot, diretor-geral do Dnit afastado no escândalo que levou a queda do ministro dos Transportes, deverá dizer amanhã em depoimento no Senado: "Ele é um executivo, não um formulador. Ele executa ordens".

A fala de Pagot preocupa o governo Dilma.

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Itamar e o reencontro da história

Não morreu de repente. Embora com grande repercussão no fim de semana, o ex-presidente da República, Itamar Franco (PPS-MG), que cumpria seu terceiro mandato de senador, estava internado em São Paulo, com leucemia, há 42 dias. Mais de um mês, com uma cobertura menor dos meios de comunicação.

Itamar Augusto Cautiero Franco (81 anos – 1930-2011) morreu no sábado, 2 de julho de 2011. Na véspera, comemorou-se o Plano Real, que nasceu com ele há 17 anos. Sua morte chega a ser um reencontro da história.

O Real, símbolo da estabilidade econômica brasileira, surgiu da vontade política de Itamar Franco, em 1994, que delegou a Fernando Henrique Cardoso, FHC, o comando da implantação do plano econômico. Foi “O fiador do Real”, como escreve domingo, 3, o jornal O Estado de S. Paulo.

Itamar foi ousado. Tirou o sociólogo FHC do Ministério de Relações Exteriores e o colocou no Ministério da Fazenda. Com o Real, elegeu Fernando Henrique, que soube capitalizar politicamente o sucesso que produziu. Não teve o apoio do PT para o Plano Real. (O PT tirou do partido a ex-prefeita de São Paulo e hoje deputada Luiza Erundina por ela ter aceitado integrar o governo de Itamar.) Itamar rompeu com o sucessor, diante de problemas da economia de Minas Gerais, que governou.

Depois, apoiou Luiz Inácio Lula da Silva na eleição para o primeiro mandato. Lula soube ampliar fortemente os benefícios da estabilidade econômica, impulsionou importantes programas sociais e elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Itamar, na sucessão de Lula, fez campanha por José Serra (PSDB-SP). Elegeu-se senador por Minas Gerais, ao lado de Aécio Neves.

O LEGADO DE ITAMAR

Importante mesmo é o legado de Itamar Franco. No cenário do Brasil Tiririca – que me perdoem os palhaços -, símbolo usado pelo wiki-repórter Júlio Ferreira, no JBWiki!, Itamar foi um político respeitável. Como a maioria, esteve em diferentes partidos. Foi um dos fundadores do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), nascido na ditadura para ser apresentado como a insipiente oposição. Morreu no PPS.

Numa série recente da Globo News, Itamar afirmou que gostaria de ser conhecido pela sua contribuição à democracia. Reclamou do destaque dados a seu topete e a namoradas. Lembrou a Carlos Monforte, o entrevistador, que, antes de assumir a sucessão de Fernando Collor de Mello, tirado do poder por um impeachment, reuniu os presidentes de todos os partidos políticos da época.

Perguntou-lhes se queriam que convocasse nova eleição presidencial já que restavam dois anos de mandato (1992-1994). Ficou em silêncio por 3 minutos, disse. Assumiu o cargo, frente à concordância exposta pelo silêncio de todos.

Num momento de crise, Itamar Franco fez, reconhecidamente, uma transição democrática, sem turbulências.

Recorro a um artigo, publicado no Jornal do Brasil sábado (2), para definir o ex-presidente. “O Itamar que conheci (...) foi o mesmo durante os 13 anos em que fui seu assessor e ajudante-de-ordens e posteriormente nos cargos que me nomeou no Governo de Minas Gerais, em especial para dirigir a Prodemge (Companhia de Processamento de Dados de Minas Gerais): um homem correto, simples, respeitoso, inteligente, de grande sagacidade política, patriota e do tipo que não leva desaforos para casa”, escreve Antonio Carlos Passos de Carvalho, meu amigo pessoal.

Itamar era assim: “Recordo-me perfeitamente da última reunião ministerial do ano em dezembro de 1991, quando se assistiu o Sr. Collor de Mello cumprimentar o diretor do tesouro pelo superávit alcançado e ao mesmo tempo comemorar uma decisão judicial suspendendo o reajuste das aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. No regresso à pé para o anexo II do Palácio do Planalto, aonde ficava o gabinete, para minha surpresa Itamar falou baixinho e com ar de indignado: “Comandante, o que achou?” Respondi-lhe: “fiquei muito chocado”. Sua resposta: “nunca mais volto aqui, a não ser que seja convocado”.

Antonio Carlos Passos de Carvalho registra ainda que Itamar Franco comparecia às reuniões do ministério como convidado apenas. “Sou testemunha da sua conduta ética durante o processo de impeachment em 1992”.

REENCONTRO DA HISTÓRIA

Na véspera da morte de Itamar, o ex-presidente FHC foi homenageado pelo aniversário recente (80 anos) e pelo Plano Real. Dias antes a ação de seu governo pela contribuição dada desenvolvimento sócio-econômico brasileiro foi reconhecida pela presidente Dilma Rousseff, contrariando a posição do PT frente ao tucano. Li, na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, que FHC pretendia visitar Itamar no hospital em São Paulo. Não importa, nem sei se foi.

O reencontro da história que a morte de Itamar Franco proporciona relaciona-se especialmente com um texto do ex-presidente José Sarney (PMDB-Amapá), presidente do Senado. Sarney publica semanalmente uma coluna em diferentes veículos brasileiros, entre eles o Jornal do Brasil. Na véspera da morte de Itamar, escreveu sobre seus planos econômicos, a reboque da comemoração do Real-17 anos.

Para Sarney, seu Plano Cruzado não foi somente um plano econômico. "Foi um plano de consequências políticas que mudaram o país". (...) “Paguei - e até hoje pago - um custo de feridas não cicatrizadas. Mas foi nossa decisão que, desdobrada nos planos Bresser e Verão, veio até o Real. Este já estava idealizado pelo ministro do Planejamento do meu governo, João Sayad. Mas eu não tinha condições políticas de fazê-lo. (...) O presidente FHC contou que quando reuniu os economistas para construir um novo plano, eles disseram: "Já está pronto, é só implantá-lo", escreveu na Folha de S. Paulo sexta-feira, dia 1° de junho. Conclui com parcialidade: “A inflação de 80% de março de 1990 não era minha, mas das expectativas do futuro governo” (Collor de Mello, presidente; Itamar, vice.)

Sarney, oriundo da Arena, criada pela ditadura, hoje resiste à divulgação de documentos históricos, depois de 50 anos, em companhia de Fernando Collor de Mello, agora senador, ambos da base aliada do atual governo.

OS DESASTRES DO CRUZADO

A economia em seu governo e o que Sarney escreve podem ser comparados numa rápida pesquisa na Internet. Assim, reporto-me, resumidamente, por exemplo, a um texto de Manoel Ruiz, de setembro de 2003, publicado em Sociedade Digital. (http://www.sociedadedigital.com.br/artigo.php?artigo=112&item=4).

O Plano Cruzado já mostrava a sua fragilidade com quatro meses de vida. (...) “As mercadorias desapareceram das prateleiras dos supermercados, os fornecedores cobravam ágio e a inflação volta a subir. (...) “O povo não entendia a gravidade do problema e no final de 1986, o PMDB ainda conseguiu bons resultados nas eleições, por conta do Plano Cruzado”.

O artigo avalia que o Plano Cruzado II foi outro desastre, porque a inflação disparou, os combustíveis subiram 60,16%, automóveis 80%, bebidas 100%. “As exportações caíram enquanto as importações aumentavam, esgotando as reservas cambiais”.

O "Plano Bresser" foi apresentado por Luiz Carlos Bresser Pereira ,que assumiu o Ministério da Fazenda em 29 de abril de 1987, com sérios problemas de inflação e um mês depois de sua posse a inflação atingiu 23,26%. Bresser deixa o ministério em 6 de janeiro de 1988, substituído por Maílson da Nóbrega, que tenta conviver com a inflação fazendo ajustes localizados. Sua política foi denominada de "Feijão com Arroz". A inflação chega a 933% - isso mesmo, novecentos e trinta e três por cento - e o governo lança mais um plano econômico.

O "Plano Verão" foi apresentado por Maílson da Nóbrega, em 15 de janeiro de 1989. “Para se ter idéia da gravidade em que se encontrava a nossa economia, de fevereiro de 1989 a fevereiro de 1990, a inflação atingiu 2.751%”, escreve Manoel Ruiz. Dois mil, setecentos e cinquenta e um por cento.

INFLAÇÃO ACUMULADA: 322.829.174.615%.

O Correio do Estado, de Campo Grande (MS), na véspera da morte de Itamar Franco, publica que, em 17 anos de Real (dezessete anos, entre julho de 1994 e maio de 2011) a inflação somou 286%, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

De acordo com o coordenador dos cursos de Gestão Financeira e Ciências Contábeis da Veris Faculdades, Fabrício Pessato Ferreira, “o brasileiro tem muito o que comemorar” com o Real. Ele fez o cálculo da inflação acumulada entre 1986 (ano do Plano Cruzado) até junho de 1994 (antes do Real entrar em circulação), e verificou que ela era de 322.829.174.615%, (trezentos e vinte e dois bilhões, oitocentos e vinte e nove milhões, cento e setenta e quatro mil e seiscentos e quinze por cento), medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

“Quem não viveu esses períodos da alta inflação, não sabe o que é você chegar de manhã para comprar o pão com um valor e, à tarde, o mesmo tipo de pão estar custando muito mais”, conta Ferreira. “São coisas que a gente tem dificuldades para explicar para pessoas de outros países e mesmo para os jovens de hoje”.

ZEZÉ PERRELA

O Brasil e o atual Senado Federal perdem Itamar Franco, hoje louvado.

Entra em seu lugar o suplente Zezé Perrela (PDT-MG), presidente do Cruzeiro, empresário de frigoríficos e pecuarista. Foi deputado federal e deputado estadual. Zezé assumiu a presidência do Cruzeiro pela primeira vez no biênio 1995/96, dando início à ''dinastia'' da família Perrela no clube mineiro, segundo o portal Terra, parceiro do Jornal do Brasil.

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