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Papo de Ambiente – JBlog – Jornal do Brasil

Costa Barros não é Leblon

Confesso tristeza por ser escrever sobre esse mesmo tema repetidamente, acompanhado de desânimo frente à péssima perspectiva.  É uma escrita sobre fatos que já não deviam acontecer. Desta vez as vítimas foram cinco jovens amigos, Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos, Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos, Cleiton Corrêa de Souza, de 18, Carlos Eduardo da Silva de Souza, de 16, e Roberto de Souza Penha, de 16. Vítimas da contumaz impunidade, da cumplicidade das autoridades, do descaso de parte da sociedade; da diferente valoração da vida, de acordo com a cor da pele, com o saldo bancário, com a localização geográfica.

Mais uma vez são jovens negros assassinados pela polícia militar – assim mesmo, com letra minúscula. Foi em Costa Barros, bem longe do Leblon, de Ipanema, Copacabana, Lagoa, Flamengo, Botafogo… Numa região onde a polícia se dá ao direito de fazer tocaia, ficar à espreita, com faróis apagados e pronta para emboscar um carro cheio de pessoas. Pronta para descarregar suas armas, como se a ela tivesse sido dado o poder de tirar a vida de quem desejar.

A desculpa esfarrapada – para variar – é de que havia informação de um “bonde” de traficantes, blá blá blá. E aí, se fossem traficantes, de onde os assassinos fardados deduziram que teriam ou têm liberdade para matá-los? Quem lhes concedeu o poder de adotar a pena de morte neste país?

Talvez seus cúmplices, que permanecem sentados em seus gabinetes, prontos para justificar este tipo de ação. Ávidos para dizerem que as medidas cabíveis serão adotadas com rigor. Dizerem que o treinamento oferecido aos policiais será aprimorado, que o fato é chocante e não pode se repetir. Tudo da boca pra fora. Mais uma vez o blá blá blá infindo.

Mas chama atenção também a pouca ou nenhuma indignação que cinco assassinatos cometidos por pessoas que deveriam defender a vida em sociedade praticam. A carne preta é a mais barata no mercado, canta Elza. É real. Uma morte da classe média na Lagoa causa comoção, justa. Mortes em Paris causam comoção. Cinco mortes em Costa Barros ou duas mil na Nigéria, não. A comoção e a indignação são seletivas. E deixo claro que também me comovo com a Lagoa ou Paris.

Essas mortes como as de Costa Barros apenas ratificam as estatísticas, afinal, diariamente, 28 crianças e adolescentes são assassinados no Brasil, que ostenta a segunda colocação desse macabro ranking mundial. Atrás apenas da Nigéria. Segundo a Unicef, se mantidas a atuais condições, 42 mil adolescentes devem ser assassinados por aqui até 2019. Portanto, parece que estas chacinas regulares são inevitáveis e compõem uma fatalidade para justificar as previsões. Não necessitam de lamentos. Que o choro se limite às mães, pais e irmãos, quando estes sobreviveram para chegar ao momento da perda.

Vale lembrar que estes adolescentes assassinados são e serão majoritariamente negros e moradores das periferias. Para cada branco jovem assassinado são mortos quatro negros e em sua maioria do sexo masculino.

A garantia da impunidade, com certeza, facilita a vida dos assassinos, policiais ou não. As estatísticas apontam que entre 92% e 95% dos homicídios no Brasil não são solucionados. Fato agravado quando cometidos por policiais pelos chamados “autos de resistência”, um flanco aberto à impunidade e fraudes processuais.

Dessa vez quatro policiais estão presos. Palmas para o delegado que não embarcou na versão desses bandidos, autuados em flagrante por homicídio doloso e fraude processual e um deles apenas por fraude. O cenário imagino como o de uma guerra. Afinal, foram contados mais de 50 disparos contra o carro dos jovens. E, não bastasse os assassinatos e as tentativas de fraudes para incriminar os assassinados, ainda há relatos de ameaças de morte contra a mãe de um dos jovens, que apenas tentava se aproximar do filho agonizante ou já morto.

A pm do Rio devia se envergonhar do título de ser a que mais mata no país, quando não, porque é também a que mais morre. Outro dia conversava sobre a baixa indignação da população quando do assassinato de um pm por bandidos. O fato é que a pm se perdeu ao longo do tempo. Perdeu o respeito da população e ela própria não se dá ao respeito. Centenas ou milhares de seus soldados, sargentos, tenentes e até alguns coronéis e ex-comandantes estão presos sob as mais diversas acusações. Seja corrupção, associação com outros criminosos ou assassinatos. pms que fornecem armas aos bandidos para que estes combatam a própria pm. É o fundo do poço. Comportamento que reflete no relacionamento com a sociedade, que perdeu também o respeito e hoje flutua entre o medo e desprezo. Confiança? Impossível.

Não sou especialista em formação profissional de policiais, mas tenho a impressão de que eles são formados para agirem como agem. Nunca com foco na proteção da sociedade civil, formada pelo cidadão comum, mas sim em defesa do patrimônio, do status quo, do capital.

Os fragmentos de notícias que temos sobre os métodos de treinamento/capacitação desses profissionais não deixam muita margem para imaginar ações cidadãs, práticas não truculentas. São relatos de crueldade e perversidade a que são submetidos e que, supostamente, formariam o caráter profissional. Para mim têm mais jeito de deformação de caráter. Creio que seria fundamental , pelo menos, assegurar que seus resultados não inspirassem ações ilegais e/ou marginais. A tal da formação militar da pm tem que ser alterada desde a seleção para ingresso nas forças até a hora da reforma. É preciso deixar claro que o papel da instituição é o de defesa da cidadania, com respeito à população, aos direitos humanos, à diversidade.

Embora tenham sido criadas como instrumentos de proteção dos mais poderosos contra os pobres, as polícias não podem continua a ser guiadas por estes objetivos. A cidade é de todos e a cidadania também. Ao assumir o papel de gestora do racismo geográfico, a pm amplia a distância que cada vez a separa mais da população.

A polícia não tem o direito de classificar cidadãos em primeira, segunda, terceira classe de acordo com seus critérios. A mobilidade de todos deve ser assegurada. Impedir o livre trânsito é crime. Exigir que alguém tenha dinheiro de passagem para ir à praia é uma violência que avilta a dignidade.

Viva a tecnologia que tem permitido à população registrar boa parte das barbaridades historicamente cometidas e que ficavam encobertas. Salve as redes sociais que dão espaços à indignação e cobrança. Vamos pressionar, cobrar exigir o respeito à vida.

Fecho com duas letras de músicas que ajudam a sintetizar tudo isso acima:

Como diz Moacyr Luz:

Estranhou o que?
Preto pega surf, pega praia, preto pega jacaré

Preto vê vitrine, olha o magazine, compra se quiser
Preto põe sapato, usa pé de pato, pq tem os pés
come sashimi, bebe champangne e também tem rolex
Estranhou o que?
Preto pode ter o mesmo que você
Estranhou o que?
Preto pode ter o mesmo que você
Preto joga chame, come carne, preto roda de Chofer
Anda de avião, craque de Gamão, troca de talher
Preto lê exame, férias em Miami, premio molière
pede uma suíte, roupa de boutique, preto da rolé
Estranhou o que?
Preto pode ter o mesmo que você…

A outra do Caetano:

Quando você for convidado pra subir no adro

Da fundação casa de Jorge Amado

Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos

Dando porrada na nuca de malandros pretos

De ladrões mulatos e outros quase brancos

Tratados como pretos

Só pra mostrar aos outros quase pretos

(E são quase todos pretos)

E aos quase brancos pobres como pretos

Como é que pretos, pobres e mulatos

E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados

 

 

Postado por ivanaccioly

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