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O efêmero e o eterno

Por Mauro Santayana


Um arquiteto de São Paulo, que provavelmente ainda não tenha tido a oportunidade de mostrar seu talento criador, criticou Oscar Niemeyer a propósito da Cidade Administrativa Tancredo Neves. Se o objetivo era atingir o governador de Minas, em benefício de alguns interesses políticos de seu estado, o crítico paulistano poderia ter poupado o mais importante arquiteto do mundo. Oscar, tendo ultrapassado os 102 anos, com o mesmo vigor intelectual e os mesmos sentimentos da juventude, está muito além da aleivosia do rapaz que o atacou.

As razões são singelas e até mesmo humanas: bem mais jovem de quem o critica, Oscar já havia construído exitosa carreira: participara, com Corbusier e outros, da concepção do Edifício do Ministério da Educação, no Rio, e criara o belo conjunto da Pampulha, que, com suas linhas audazes, marca o início da arquitetura moderna brasileira. Aos 40 anos, Oscar participou da equipe que projetou os edifícios das Nações Unidas, em Nova York.

Há muito que se discute a natureza da arquitetura. Ela deve, ao mesmo tempo, proteger o ato de viver e expressar a arte. Algumas escolas de arquitetura, como é o caso notável da Bauhaus, de Walter Gropius, concentram-se na funcionalidade em prejuízo da estética. Gênios, como Corbusier, Frank Lloyd Wright, Frank Gehry, Luigi Nervi e Oscar Niemeyer, cada um deles com seu estilo próprio, souberam e sabem revestir a funcionalidade com a beleza.

Desde os Jardins Suspensos da Babilônia, a beleza é inseparável da arquitetura. Os templos gregos e romanos, construídos com a mesma filosofia de Oscar, são fascinantes contratos do artista com a natureza. As edificações obedecem aos limites do solo, dos ventos, das chuvas, do calor e do frio, mas também buscam harmonizar-se com a paisagem. A grande ousadia dos arquitetos do século 20, a partir de Oscar, favorecida pelo concreto armado, foi privilegiar as curvas, abrindo os grandes espaços internos, levantando as estruturas sobre pilotis, harmonizando, como concebeu Corbusier, as fachadas com os jardins.

O concreto armado é a maravilhosa síntese entre a estética e a técnica. Para servir à estética, o jardineiro francês Joseph Monier combinou o concreto com o metal. Encarregado de adornar os bulevares de Paris, abertos pelo prefeito Haussmann, com plantas floridas, Monier percebeu que era impossível moldar grandes vasos em cerâmica. Tentou o cimento, mas os vasos se fragmentavam sob o peso da terra. Teve a intuição de reforçar as paredes dos vasos com arame e hastes de ferro. O método foi patenteado em 1867 e passou a ser usado na construção civil.

A necessidade da beleza criou o novo material que possibilitou também as monumentais obras de engenharia como as represas Hoover, no Colorado, de Assuã, no Nilo, de Itaipu, no Paraná, e a de Três Gargantas, no ,
Yang-tsé, além das extensas pontes e elevados viadutos.

É natural que haja inimigos ideológicos do comunista Oscar Niemeyer. É natural que haja os que se incomodem com a gloriosa carreira do criador da Pampulha, que, arquiteto de dois séculos, vê agora inaugurado um dos mais expressivos e ousados conjuntos de sua carreira inigualável. É bom que Oscar – com seu forte entusiasmo juvenil de sempre – tenha dedicado, de novo, todo o seu talento para desenhar a sede do governo de Minas Gerais, situada a poucos quilômetros da Pampulha. Só a ânsia pela beleza e a emoção da solidariedade nos distinguem na natureza, nos fazem humanos – e nos diferenciam dos insanos predadores de nossa própria espécie. Causa indignação que se atrevam a atacar um homem da estatura ética e intelectual de Oscar.

O arquiteto é acusado de ser homem do passado. Por enquanto, a moderníssima modernidade neoliberal não foi capaz de produzir homens como Ictínius e Callicrates, os arquitetos do Parthenon de Atenas, Marcus Agripa e Adriano, que conceberam o Pantheon de Roma. Nem como Niemeyer e seus grandes colegas, os escultores em concreto do século 20. Oscar continua, em nosso século, na vanguarda da arquitetura, do humanismo, da solidariedade, do patriotismo. Como se diz em Minas, respeito é bom, e dele todos gostamos.

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Por que Aécio não deve aceitar ser vice

Por Christian Klein

O que a oposição ganharia com a formação da chapa puro-sangue, convencendo o governador de Minas, Aécio Neves, a ser o vice do governador de São Paulo, José Serra? Na coluna de domingo, destaquei os incentivos institucionais gerados pelo sistema político brasileiro para que os partidos formem chapas, digamos, “mestiças”, para usar um termo caro a Aécio. Em resumo, com tantas legendas no quadro pluripartidário, é um desperdício não se aproveitar o posto de vice para atrair um sócio no empreendimento de conquistar a Presidência da República (o raciocínio é o mesmo para outros cargos majoritários, como o de governador e de prefeito).

Ter o vice de um outro partido significa muito: aumenta os recursos eleitorais disponíveis (como o financiamento de campanha) em virtude do engajamento mais interessado de um parceiro que eventualmente poderá herdar a cadeira de presidente; garante, antecipadamente, um parceiro fiel na futura aliança governamental; e emite sinais para o eleitorado. A notícia veiculada na época do mensalão de que, em 2002, o então PL (hoje PR) teria pago R$ 10 milhões ao PT em negociação que envolvia a vaga de vice na chapa do candidato Lula dá uma dimensão do quanto está em jogo. Se verídica a suspeita, o preço, porém, pode ter saído muito barato ao PT, diante do que a participação de José Alencar representou para o partido: um sinal de que os petistas já não eram mais tão radicais e convidavam um empresário para sua chapa. Deu certo.

Como estratégia eleitoral, a vaga de vice vale. É uma peça importante, que é utilizada quase sempre sob o princípio que, na falta de expressão melhor, podemos chamar de não redundância. Lula/Alencar (2002 e 2006) foi uma chapa ideologicamente não redundante, ao juntar esquerda e direita; do mesmo modo que Lula/Brizola (1998) foi partidariamente não redundante, ao reunir à época os líderes das duas maiores legendas da esquerda brasileira. A chapa FHC/Marco Maciel (1994 e 1998) atendeu a um dos critérios mais tradicionais de não redundância, o geográfico, ao agregar as forças de um partido forte no Sudeste e de outro, o PFL (hoje DEM), que dominava o Nordeste, segunda região mais populosa do país.

Mas será que a vaga de vice tem a mesma importância para quem vai ocupá-la? Como estratégia de projeto de poder, o posto geralmente gera mais atrativos aos partidos do que aos candidatos. Ser político com pretensões, numa democracia, requer ser um líder. E quase todos os profissionais do ramo têm ambições políticas. A função de vice, neste sentido, é dos cargos menos atraentes na estrutura de oportunidades do sistema político. Salvo, é claro, a possibilidade, não desprezível, de o ocupante substituir o titular, em caso de morte, impeachment etc – probabilidade que, transformada em expectativa de avanço na carreira política, suscitaria comportamento ganancioso. Obviamente, os líderes, os cabeças de chapa, preferem evitar tal situação. E esta é a segunda razão para que os escolhidos para vice sejam políticos frequentemente sem grande brilho ou pretensões exacerbadas. O vice é aquele que não incomoda, não faz sombra. É o mais importante cargo de confiança. É Joe Biden, em vez de Hillary Clinton, como Obama quis.

A combinação destes dois fatores – a pouca atratividade de uma função secundária, de substituto, de reserva, aliada à preferência do titular por alguém que não divirja com suas ideias próprias – faz com que o posto de vice não combine com estrelas da vida pública.

A não ser em casos de desespero, como parece ser a pressão atual sobre Aécio Neves, esperado reforço para o time que se vê perdendo o jogo, diante do crescimento nas pesquisas da candidata do governo, a ministra Dilma Rousseff. O que o governador de Minas ganharia ao exercer o papel de coadjuvante numa chapa com Serra? Ele, nada. Abandonaria o seu distrito, o seu estado e sua trajetória de líder para atuar numa posição subalterna. Já a oposição ganharia provavelmente alguma coisa: mais votos no segundo maior colégio eleitoral do país e a oportunidade de especular sobre a saúde de Dilma, lembrando que a Presidência pode cair no colo do PMDB. E que há algo para “Temer”.

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Nos vestiários da disputa política

Três meses nos separam da Copa do Mundo da África do Sul, e o uso de metáforas futebolísticas para interpretar as movimentações políticas, tão apreciado e fartamente explorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nunca foi tão oportuno. O palmeirense governador de São Paulo, José Serra, por exemplo, deve estar se sentindo como aquele grande clube às vésperas de um clássico. PT e PSDB decidiram os últimos quatro “campeonatos”, com duas vitórias para cada lado. A rivalidade entre as duas agremiações, a principal da democracia partidária brasileira, é histórica. Hoje, o tucanato é como aquele time que liderou quase a totalidade da competição, mas que na reta final acumulou alguns resultados ruins enquanto o adversário cresceu de desempenho e praticamente igualou o número de pontos somados na tabela de classificação que é a preferência do eleitorado, como mostram as mais recentes sondagens de intenção de voto.
Serra, no entanto, é apenas um jogador, ainda que o principal, do time da oposição. E, para seu infortúnio, não faltam caneladas e botinadas dos próprios companheiros no treino que é a pré-campanha. Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de aliados, que o censuram por não colocar o time em campo e permitir a ascensão petista. E do governador Aécio Neves, que indiretamente o acusa de, arrogantemente, desejar colocar Minas Gerais a reboque de projetos políticos equivocados e apreensivos.
Nem tudo é desespero nos vestiários tucanos, todavia. Inteligentemente, o PSDB se esforça e deve conseguir, na própria base aliada, reforços para o confronto final com o PT. As negociações para que partidos como PTB e PSC se juntem ao elenco da oposição avançam. Além disso, em breve a agonia dos críticos de Serra chegará ao fim, junto com o encerramento do prazo para desincompatibilização de cargos no Executivo para aqueles que, como o governador paulista, desejem se candidatar nas eleições de outubro. E Serra terá que deixar de lado a estratégia defensiva que caracterizou sua atuação até o momento e revelar, finalmente, o tamanho do poderio ofensivo que conseguirá empregar no confronto com o PT.
O campo governista, por sua vez, também tem sua cota de problemas para administrar. Os maiores, ainda que até o momento não configurem uma ameaça ao crescimento da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, estão concentrados na delicada relação entre o PMDB e PT. Será necessária alguma dose de cautela para que as plataformas eleitorais das duas legendas sejam compatibilizadas em um programa de governo sem maiores rachas no elenco. E a alimentação, por parte de setores do PT, da preferência pelo nome do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para a vaga de vice na chapa de Dilma, ainda impulsiona ciumeiras na ala peemedebista da aliança. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e seus auxiliares próximos, na linha de frente do ataque governista no Congresso em muitos episódios da administração Lula, se sentem um pouco como aquele atacante que, embora artilheiro do time, tem que lidar constantemente com especulações sobre a chegada de uma nova contratação de peso para o setor.
Habilidoso, o presidente Lula tenta exercer o papel de treinador experiente e consagrado para aplacar as vaidades da equipe governista, ainda que num passado recente elas tenham sido estimuladas pelo próprio. Do ponto de vista da solidez da aliança com o PMDB, o petista já deu um passo importante para conseguir “fechar o grupo” em torno dos objetivos eleitorais. Os diretórios estaduais do PT foram enquadrados, de maneira dura em alguns casos, e tudo indica que o partido deve mesmo abrir mão de candidaturas próprias em estados decisivos, como Minas Gerais, para satisfazer as vontades do aliado. O número de postulantes petistas aos governos estaduais deve ser o menor em muitos anos. Um sacrifício útil e necessário para garantir que o PMDB, um partido marcado pela predominância dos interesses regionais, entre em campo ao lado de Dilma com empenho semelhante ao dos próprios petistas.

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