Política pequena não elege presidente
Por Cristian Klein
O mais importante na eleição de um candidato a presidente não é a política pequena das inaugurações de obras públicas, do discurso palanqueiro em cidades do interior para uma plateia muitas vezes formada por uma claque manipulada pelos chefes locais ou por um público já simpatizante. Como dito na coluna passada, o que importa é a grande política.
O sucesso do governo Lula, capaz de catapultar a candidatura de uma desconhecida da massa como a ministra Dilma Rousseff, tem mais a ver com um pacote de políticas públicas abrangentes lançadas e ampliadas nos últimos anos – Bolsa Família; ProUni; Minha Casa, Minha Vida –, além de ganhos econômicos percebidos pela população, do que com inaugurações apressadas de última hora. Assim também foi com Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu por ter controlado a inflação e criado o Plano Real. Tanto Lula quanto FHC não precisaram cortar fitas ou descerrar placas para trombetear e capitalizar tais realizações. O escopo de atuação de um presidente e de um governo federal está num outro plano, sobretudo no nível dos direitos e da condução dos rumos da economia.
No entanto, a onda de inaugurações protagonizadas por Dilma Rousseff (PT) e pelo governador paulista José Serra (PSDB), neste início de ano eleitoral, tem despertado uma série de críticas e denúncias na Justiça a respeito do abuso da máquina pública e da propaganda antecipada. Inaugurações tornaram-se vilãs, suspeitas, até prova em contrário. Não deveriam, pois obras públicas são – ou é de se esperar que sejam – um produto essencial para o bem-estar da população.
Mas os candidatos têm dado razões de sobra para se criar um clima de inconformismo. A sensação que se tem é que as inaugurações estão sempre envoltas num show de ilusionismo dos políticos, que querem faturar a todo custo. Vale “inaugurar” uma obra três vezes enquanto está em andamento; vale maquete, pedra fundamental, hospital concluído com verbas do governador aliado, escola que está longe de funcionar e fábrica que já está operando há tempos. Isso, o teatro, o engano, é o pior.
Até porque, a Justiça Eleitoral muitas vezes tem pouco a fazer em relação aos abusos da máquina pública e à propaganda antecipada. A legislação é falha, frouxa, tem lacunas e permite manobras e artimanhas, facilmente utilizadas por políticos experientes. Basta ter-se o cuidado de não falar explicitamente que há um candidato sobre o palanque querendo levar vantagem com a inauguração. Expectativa que – não fossem os excessos e o dom de iludir – é perfeitamente compreensível. Todo político tem o dever de prestar contas à população (accountability) e o direito ao credit claiming, ou seja, de reivindicar para si o crédito de suas realizações (e não de ficções, por pressuposto). Graças a esses mecanismos, os eleitores aprimoram suas escolhas nas melhores democracias.
Paradoxalmente, o fato de as inaugurações terem se tornado o centro do debate – deste jeito atropelado, mal ajambrado – pode estar trabalhando contra as intenções dos políticos e do marketing. É possível que os custos, em razão da veiculação das notícias negativas, sejam maiores que os benefícios esperados. Ou que o saldo fique neutralizado. Pelo caminho, oposição e governo têm se abastecido de munição uma contra a outra.
Outro ponto interessante, que reforça o argumento de que a inauguração de muitas e diferentes obras não é uma garantia de dividendos eleitorais, tem a ver com o caráter fragmentado, pulverizado da empreitada. Pesquisa realizada recentemente pelo governo mostra que a maioria dos cidadãos (51,8%) desconhece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da candidatura dilmista. E mesmo entre os que conhecem, 70,2% dos entrevistados não souberam citar uma obra sequer do PAC. Programa menos badalado, porém com mais foco – ataca o problema do déficit habitacional – o Minha Casa, Minha Vida é bem mais conhecido (70,6%). É curioso e mais um indício de que o cacoete das obras, disseminado na política local, não necessariamente funciona eleitoralmente no âmbito nacional.
O mais importante na eleição de um candidato a presidente não é a política pequena das inaugurações de obras públicas, do discurso palanqueiro em cidades do interior para uma plateia muitas vezes formada por uma claque manipulada pelos chefes locais ou por um público já simpatizante. Como dito na coluna passada, o que importa é a grande política.
O sucesso do governo Lula, capaz de catapultar a candidatura de uma desconhecida da massa como a ministra Dilma Rousseff, tem mais a ver com um pacote de políticas públicas abrangentes lançadas e ampliadas nos últimos anos – Bolsa Família; ProUni; Minha Casa, Minha Vida –, além de ganhos econômicos percebidos pela população, do que com inaugurações apressadas de última hora. Assim também foi com Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu por ter controlado a inflação e criado o Plano Real. Tanto Lula quanto FHC não precisaram cortar fitas ou descerrar placas para trombetear e capitalizar tais realizações. O escopo de atuação de um presidente e de um governo federal está num outro plano, sobretudo no nível dos direitos e da condução dos rumos da economia.
No entanto, a onda de inaugurações protagonizadas por Dilma Rousseff (PT) e pelo governador paulista José Serra (PSDB), neste início de ano eleitoral, tem despertado uma série de críticas e denúncias na Justiça a respeito do abuso da máquina pública e da propaganda antecipada. Inaugurações tornaram-se vilãs, suspeitas, até prova em contrário. Não deveriam, pois obras públicas são – ou é de se esperar que sejam – um produto essencial para o bem-estar da população.
Mas os candidatos têm dado razões de sobra para se criar um clima de inconformismo. A sensação que se tem é que as inaugurações estão sempre envoltas num show de ilusionismo dos políticos, que querem faturar a todo custo. Vale “inaugurar” uma obra três vezes enquanto está em andamento; vale maquete, pedra fundamental, hospital concluído com verbas do governador aliado, escola que está longe de funcionar e fábrica que já está operando há tempos. Isso, o teatro, o engano, é o pior.
Até porque, a Justiça Eleitoral muitas vezes tem pouco a fazer em relação aos abusos da máquina pública e à propaganda antecipada. A legislação é falha, frouxa, tem lacunas e permite manobras e artimanhas, facilmente utilizadas por políticos experientes. Basta ter-se o cuidado de não falar explicitamente que há um candidato sobre o palanque querendo levar vantagem com a inauguração. Expectativa que – não fossem os excessos e o dom de iludir – é perfeitamente compreensível. Todo político tem o dever de prestar contas à população (accountability) e o direito ao credit claiming, ou seja, de reivindicar para si o crédito de suas realizações (e não de ficções, por pressuposto). Graças a esses mecanismos, os eleitores aprimoram suas escolhas nas melhores democracias.
Paradoxalmente, o fato de as inaugurações terem se tornado o centro do debate – deste jeito atropelado, mal ajambrado – pode estar trabalhando contra as intenções dos políticos e do marketing. É possível que os custos, em razão da veiculação das notícias negativas, sejam maiores que os benefícios esperados. Ou que o saldo fique neutralizado. Pelo caminho, oposição e governo têm se abastecido de munição uma contra a outra.
Outro ponto interessante, que reforça o argumento de que a inauguração de muitas e diferentes obras não é uma garantia de dividendos eleitorais, tem a ver com o caráter fragmentado, pulverizado da empreitada. Pesquisa realizada recentemente pelo governo mostra que a maioria dos cidadãos (51,8%) desconhece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da candidatura dilmista. E mesmo entre os que conhecem, 70,2% dos entrevistados não souberam citar uma obra sequer do PAC. Programa menos badalado, porém com mais foco – ataca o problema do déficit habitacional – o Minha Casa, Minha Vida é bem mais conhecido (70,6%). É curioso e mais um indício de que o cacoete das obras, disseminado na política local, não necessariamente funciona eleitoralmente no âmbito nacional.