Arquivo de May 2010

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Mais problema do que solução

Por Wilson Figueiredo

Quem trouxe à baila, com senso de oportunidade, a questão relativa aos candidatos a vice, cuja escolha não pode mais ser adiada sob pena de trazer consequências imprevisíveis, foi o (pré) candidato José Serra, que em tom de desabafo reconheceu que o melhor companheiro de chapa, pelo menos no que lhe diz respeito, é aquele que aporrinhar menos. Foi na mosca. Os pretendentes formam um enxame e, quando chega a estação eleitoral, não há repelente que os disperse.

Vice dá trabalho. Antes, durante e depois de aprovado. Nem é por falha pessoal, mas pela própria distância entre a aparência e a impaciência que possa movê-lo tendo em vista apenas dois mandatos seguidos. A própria palavra vice, tal e qual, deve ter alvoroçado Roma no seu auge, ela define de modo restritivo a função de uma pessoa que substitui outra na expectativa da oportunidade. O sentido original, em latim, implica também a expectativa de vir a ser. Vice tem a ver com vez, oportunidade, alternativa, sucessão. Entra na composição de muitas expressões que fazem parte do dia a dia universal. Por natureza, vice – com ampla variedade de aplicações – frequenta vida militar, civil, política, eclesiástica. É inesgotável sua aplicação, e não falha no que depender da natureza humana (na maioria das vezes, o vice não dignifica a função).

Às exceções compete confirmar as regras: não existe vice do papa, que com isso se poupa de muitos aborrecimentos, assim na terra como no céu. Como José Serra acaba de dizer em bom português, o melhor vice é o que menos aporrinha, e não só na expectativa de ganhar a função ociosa. Em bom português, aporrinhar vem a ser o que chateia para ser escolhido e, daí por diante, se for premiado, sustenta uma incógnita. Titular e vice são unidos pela desconfiança recíproca.

Ninguém pode dizer que tenha ouvido falar de vice-ditador. Melhor não tê-lo do que se aborrecer – e se arrepender – por não contê-lo. Getulio Vargas, nos áureos tempos, dispensou os préstimos formais dos vices. Serra considera que o melhor vice vem a ser o menos insistente. Uma sombra como o senador Marco Maciel era em relação a Fernando Henrique, de quem foi vice para ninguém botar defeito, exatamente pelo dom de apagar-se diante do Sol. Talvez nem ele se lembre.

A evidência de que vice é mais problema do que solução é que esta já é a mais inutilmente prolongada campanha pré-eleitoral da República, e até agora não há ninguém garantido. Mesmo porque vices não passam pelo crivo das pesquisas de opinião. São avaliados no olho e no currículo ético. Além do mais, há um cuidado sobrenatural no trato do assunto, porque a fama de azarado é incurável. Bem fez a monarquia que, mesmo sobrevivendo por amostragem, não recorre a votos para resolver questão de família.

No dia em que o espírito republicano, sem apelar para golpes de Estado (abaixo da cintura), enxotar da Constituição o vice, que é o apêndice da democracia, valerá por uma operação preventiva de apendicite. Nunca mais se registrarão os problemas correlatos. Um vice-presidente, para manter tudo no plano das ideias e no mais alto nível, não gera em língua portuguesa uma peça teatral com sotaque shakespeareano. Só um novo Nelson Rodrigues situaria nossos vices no seu devido nicho.

A diferença entre o governante eleito e o ditador, no caso do vice-presidente, resolve-se democraticamente com a supressão do vice. Ponto para ditador, que não quer uma Vice-Presidência para tirar-lhe o sono. As crises entram em cena por intermédio dos vices, que começam a aporrinhar muito antes de se elegerem, montados na garupa do candidato a presidente. Além do mais, a democracia acaba desqualificada pela dispensa de votos próprios, sem os quais o vice chega ao poder pela porta dos fundos. Quando tinham votos, nem por isso a democracia se sentiu em casa, na sua passagem por aqui entre 1946 e 1964, por ocasião da crise final do governo Vargas: o presidente e o seu vice (pelas razões que pedem desculpas por manterem silêncio em respeito ao presidente e sem desrespeito ao vice) mudaram o curso da História do Brasil. O resto não precisou esperar.

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Eleição ingrata para Aécio Neves

Por Cristian Klein
Era previsível. A desistência de Aécio Neves, agora de maneira enfática, em concorrer como vice na chapa presidencial tucana encabeçada por José Serra vem só confirmar o que se mostrava improvável: o atrelamento do futuro político do ex-governador mineiro ao do ex paulista. Em qualquer cenário, Aécio perderia.
Se os dois fossem bem-sucedidos, e vencessem a eleição, os louros iriam, obviamente, para Serra, sua inteligência, sua proeza de derrotar indiretamente o presidente Lula e sua capacidade de agregação, de dobrar até um correligionário e convencê-lo a ser seu vice de luxo.
Se os dois perdessem, Aécio seria o terceiro grão-tucano atingido pela maldição da derrota que acompanha os últimos concorrentes do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, em 2006, e o próprio Serra, em 2002. De Serra, dada sua trajetória e a dificuldade que terá de quebrar a máquina do governo e a popularidade de Lula, já se diz que está sempre na contramão. Quando a maioria queria mudança, após os dois mandatos de FHC, era o candidato da situação. Quando quase todos desejam continuidade, é o representante da oposição.
Mas a responsabilidade pelo fracasso também sobraria para Aécio. Os votos de Minas Gerais seriam calculados, comparados, esmiuçados para ver até que ponto o ex-governador poderia mais (para utilizarmos a expressão oposicionista que será martelada durante a campanha). Por garantia, já que o potencial regional de Aécio de “transferir” votos para a candidatura presidencial tucana será avaliado de toda maneira, estando ele dentro ou fora da chapa, o líder mineiro minimiza agora seu poder de influência na disputa nacional. Defende não haver razão de tanta expectativa em relação a seu engajamento e à votação em Minas – tida como decisiva por alguns – , pois o estado agrega apenas 10% do eleitorado brasileiro, enquanto o Nordeste muito mais, 27%. Aécio também afirma ter pesquisas que mostram que sua presença na chapa tucana aumentaria em, no máximo, 5% as preferências por Serra em Minas. Ou seja, apenas meio porcento dos votos nacionais.
Em se tratando de um líder do porte de Aécio Neves, tanta modéstia, ainda que de político mineiro, é de se desconfiar. Está claro que o trabalho do ex-governador é o de desconstruir, de desinflar o enorme balão de ensaio, enchido com muita pressão pelos oposicionistas. O clamor por seu nome, como agora, sempre coincidiu com os momentos de desespero, resultado das baixas nas pesquisas de opinião e da falta de alternativas entre as legendas aliadas ao PSDB.
O fato é que se Aécio optasse por ser vice daria uma demonstração raríssima de desprendimento – alguém poderia dizer desinteligência –, pois num país como o Brasil o cargo não é visto como um trampolim para voos maiores, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos. Como já disse aqui, a candidatura tucana teria o que ganhar – talvez mais do que o reles 0,5% que o ex-governador aponta agora ser sua contribuição à chapa – mas Aécio, não.
A escolha do vice tem funções estratégicas. Emite sinais para ampliar o eleitorado – ao criar um mix, complementando geográfica, partidária ou ideologicamente o perfil do candidato e do partido que encabeçam a chapa – e sela a aliança com um parceiro que será importante para a governabilidade. É uma decisão que pode, de fato, cacifar uma candidatura. Como foi a escolha do empresário José Alencar, em 2002, indicando que o Partido dos Trabalhadores e Lula já não eram mais tão radicais.
No entanto, como estratégia de projeto de poder, o posto de vice gera mais atrativos aos partidos do que aos candidatos. Para um político com pretensões, o cargo não permite colher os créditos na realização de políticas públicas, algo que torna tão desejável, por exemplo, o cargo de ministro de Estado.
Seja como for, esta será uma eleição ingrata a Aécio. Governador durante os últimos oito anos, não pôde avançar ao sonho da Presidência e ainda vê ameaçado o que conquistou. Sua posição é frágil, está acossado pela aliança PT-PMDB. Mas até em Minas pode perder, mesmo ganhando. Afinal, a história brasileira é prolífica em produzir casos de traição de apadrinhados políticos.

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Democracia sem olhar para trás

Por Wilson Figueiredo


Passou sem ser percebido, talvez à moda mineira, um dado digno da maior consideração às vésperas de se desencadear a campanha presidencial. Não é segredo, e muito menos coisa desprezível, que os dois candidatos à frente nas pesquisas de opinião pública são oriundos da esquerda, na qual se formaram e dela se afastaram o suficiente para não comprometerem a taxa democrática de cada um. É de se supor que Dilma Roussseff e José Serra, em duas gerações de equivalente iniciação política através de períodos históricos com características opostas – um sob a Constituição de 1946, outro sob o AI-5 – tenham se identificado com a militância política de esquerda e apresentem saldo suficiente em favor da democracia.

A pequena e ocasional convergência entre José Serra e Dilma Rousseff se deve menos à evolução política para a esquerda do que ao esgotamento do exaurido padrão brasileiro de fazer política à moda tradicional, para não dizer pior. Apenas para salvar aparências, a diferença entre os candidatos em cena se reduz ao mínimo. Ganhe quem ganhar, essa diferença custa barato. A questão se situa praticamente na economia, e no que for acessório. Por último, conviria realçar a contribuição histórica do presidente Lula, cuja carta aos brasileiros lhe abriu crédito na classe média, colocada mais embaixo na escala social, e lhe valeu a eleição e a reeleição. A burguesia leu tudo nas entrelinhas, nas quais não está escrito mas subentendido. Nada, porém, com a esquerda, da qual quer distância. A fórmula clássica é eleger-se pela esquerda e governar pela direita. Não falha. Lula já está longe.

A exposição das candidaturas José Serra e Dilma Rousseff deve ter em vista mais cuidado para os dois não perderem a esquiva confiança da classe média, que emergiu do anonimato na onda da democracia que fala por si mesma e pela eleição direta. Chega de citações entre aspas retiradas da teoria e não perfilhadas pela realidade. A sucessão presidencial tem dialeto próprio, e fala por si mesma a circunstância de serem José Serra (pelo PSDB) e Dilma Rousseff (pelo PT) candidatos de mais alta cotação nas pesquisas. Trata-se do Brasil pós-Lula, queira ou não o presidente. Dissipou-se o velho medo de que a esquerda venha cobrar mais do que se dispõe nossa vã democracia a pagar.




Dilma e Serra estão, portanto, dispensados de demonstrar e se desculpar por terem tido iniciação política pela esquerda. A diferença (que não é pequena) entre eles se deve a circunstâncias políticas anteriores às respectivas candidaturas e a condições históricas adversas, pois em 1968 a geração que queria se inserir (vá lá) no processo se recusou a aceitar que a solução tivesse de ser política, e apostou o que não tinha em projetos revolucionários. Ao contrário, a geração – já adulta – dos jovens que haviam apostado na Constituição de 1946 estava preparada para a prova de paciência política, e se dispôs a desgastar o poder autoritário com paciência, coerência e resignação até a apoteótica derrota do regime e seu candidato na eleição indireta. José Serra aprendeu política com a esquerda que apostou na arte do possível. Na etapa seguinte, a geração de Dilma Rousseff viu no AI-5 a oportunidade de ir mais longe do que ter como prêmio de consolação uma Constituição burguesa. Ficou pelo caminho. De volta do exílio, Serra se apresentou e participou de um jogo que também será eterno enquanto durar.



Depois de cumpridos quatro mandatos de presidentes pelo voto direto, o Brasil se considerou em condições de eleger Lula. E o fez. Nada aconteceu que justificasse o temor tradicional. Os dois candidatos que marcam passo nas pesquisas devem ter aprendido que é perfeitamente possível conciliar esquerda e democracia mediante o uso de ferramentas legais. Cumpre-lhes demonstrar com atos que é contraproducente o medo da democracia. Pelo menos enquanto a vida política brasileira não se distanciar de um ponto, ainda não localizado, em que as imperfeições ponham em risco a estabilidade política. A impressão é que o país acelerou suas possibilidades, e aquele que olhar para trás corre o risco de virar estátua de sal.

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A Copa salva Serra e Dilma

Por Villas-Bôas Corrêa

Os candidatos José Serra e Dilma Rousseff , que se enfrentam na pré-campanha para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficam devendo à Seleção Brasileira do técnico Dunga a salvação do ridículo em que se afundavam no bate-boca sobre coisa nenhuma. A candidata Marina Silva não aspira a mais do que a coerência de sua luta na defesa do meio ambiente. Já o candidato oposicionista, o ex-governador tucano de São Paulo, José Serra, e a candidata Dilma Rousseff, escolhida e lançada pelo presidente sem dar a mínima importância ao PT, jogam as ambições e os sonhos pela cadeira no Palácio do Planalto.
Até aqui, por falta de coisa melhor, Dilma bate na tecla de continuadora de Lula e dos programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida para a construção de milhões de residências populares ao preço de penca de bananas e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que escancara as portas do paraíso. Serra esperou o prazo final da desincompatibilização para confirmar a candidatura, carimbada pelo PSDB e tenta recuperar a liderança nas pesquisas, ora dividida com com Dilma. Francamente, munição discutível para uma pré-campanha de candidato à sucessão de Lula, com a popularidade passando da lua em disparada para o infinito.
Antes que a zombaria contaminasse candidatos e candidaturas, a Seleção Brasileira alçou voo, desfilou por Brasília em volta de cinco horas para ser recepcionada pelo presidente Lula e pela primeira-dama, Marisa Letícia, em meia hora de descontração simpática. Lula não precisa fingir que gosta de futebol, peladeiro desde a infância, torcedor do Corinthians e do Flamengo e que ainda dá os seus chutes nos rachas na Granja do Torto.
Com a Seleção ninguém pode. Até a estreia contra a Coreia do Norte (15 de junho), cada dia dos craques será acompanhado, sob o controle de Dunga, pela população de olhos grudados na telinha. Com os amistosos para garantir assunto para as conversas e discussões contra Zimbábue (dia 2) e Tanzânia (dia 7), adversários escolhidos com as cautelas para evitar qualquer contratempo Se a taça do hexacampeonato coroar o esforço, uma quinzena será pouco para as comemorações em Brasília e em todos os estados. Só depois, a murcha pré-campanha interrompida terá que dar o ar da sua graça. À dupla de favoritos faria bem uma recauchutagem. Serra está subindo o tom em cada discurso para marcar o seu lugar na oposição. Tática sem alternativa, mas de eficiência discutível. Lula não é candidato, mas o pajé da candidata Dilma.
Os candidatos à reeleição a mandatos parlamentares, para mais quatro anos de fruição de um dos melhores empregos do mundo, com pouco o que fazer e a penca de escandalosas mordomias – algumas com a mancha de uma punga no cofre da Viúva – estacam à porta de Brasília e dão meia-volta para não enfrentar a crise ética, moral que contamina a cidade construída para ser o Distrito Federal, a capital administrada por gerente de livre nomeação do presidente da República. E que desde a inauguração precipitada, antes de estar pronta, transformou-se na inacreditável baderna dos mais de 3 milhões de habitantes, dez vezes mais do que os 300 mil do previsto no plano de Lúcio Costa.
A crise é Brasília. Sem enfrentá-la com a reforma política, que todos prometem até serem eleitos e depois esquecem com o maior descaramento. O presidente Lula desfrutou da solução perfeita: tem casa e palácio em Brasília, e lá pouco para. E com os mais de 100 dias por ano em viagens pelo mundo, conquistou a popularidade nos cinco continentes. Se a Seleção de Dunga chegar à final, Lula dificilmente resistirá à justa tentação de correr o risco de assistir à decisão do hexacampeonato na tribuna de honra. E de voltar ao Brasil no mesmo avião dos seis vezes campeões do mundo. Nem precisará fazer campanha: Dilma será eleita. E aí começa outro capítulo da história de uma campanha presidencial, que será decidida pelo voto que não será conquistado apenas pelas promessas desacreditadas mas pela Seleção que reuniu os craques brasileiros espalhados pelos grandes times do mundo.

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Dois candidatos à procura de ideias

Por Mauro Santayana

A decisão final, para aqueles que ainda tinham ilusões, foi anunciada: Aécio Neves é candidato ao Senado. Os que conhecem a política de Minas e a biografia do ex-governador não esperavam outra notícia. Ele seria tolo se concordasse em renunciar à autonomia política e ao prosseguimento de sua carreira, como senhor de suas próprias opções, em troca de se tornar coadjuvante no Poder Executivo.
Exposta à realidade dos fatos, a candidatura de José Serra terá que se organizar com seriedade. Será obrigada a anunciar programa de governo claro e objetivo. Por enquanto, ele se tem mantido dentro de um círculo de giz e, que se registre, quando se arrisca a rompê-lo, comete equívocos perigosos. Esses equívocos, se mais danos não causarem, esmaecem sua experiência política e retórica acadêmica e servem para compensar os erros cometidos pela sua principal contendora. Os desastres verbais, de um e de outro lado, provavelmente contribuem para que o jogo, até o momento, e, de acordo com as pesquisas, permaneça empatado.
Foi lamentável, para não dizer mais, a referência que o ex-ministro da Saúde fez aos preservativos produzidos na China, quando de sua gestão. A informalidade do encontro na CNI, que lhe serviu de desculpa, não autorizava o mau gosto das frases. Se for eleito, Serra terá que conversar com os chineses, que, senhores de memória milenar, sempre se lembrarão do spregio do candidato, em momento de descuido. Em política, cada vírgula corresponde a um compromisso, cada reticência pode ser decifrada como inaceitável insulto, e todas as palavras têm peso.
Dilma e Serra cometem o mesmo pecado, o de não sujigar, com energia, a própria língua. A palavra que se pronuncia é como a flecha que se dispara, a pedra que se atira, conforme a velha imagem poética, e, ao contrário dos projéteis sólidos, que podem perder-se do objetivo, o verbo sempre o atinge.
Mais grave, porque alveja o vizinho de parede-meia, foi a referência de Serra ao problema do narcotráfico e à Bolívia. O candidato atribui ao governo de Morales o contrabando de cocaína para o Brasil. Em primeiro lugar, o tráfico de cocaína pelas fronteiras do Oeste e do Norte é tão antigo quanto a produção e o consumo do narcótico. Em segundo lugar, não cabe à Bolívia fiscalizar o que sai mas, sim, o que entra. Não podemos pedir ao vizinho que cuide de nosso portão, nem da solidez de nosso muro. Ele vigia a sua parte; cabe-nos vigiar a nossa. É conhecido o argumento do grande fabricante de bebidas, Samuel Bronfman, dono da poderosa Seagram, quando a grande destilaria canadense, então a maior indústria do ramo no mundo, era a principal produtora da bebida contrabandeada para os Estados Unidos durante a Lei Seca: “Eu vendo a mercadoria dentro do Canadá, e a transporto até a fronteira. Depois disso, nada mais tenho a ver com o negócio”.
Não cabia a ele, nem ao Canadá, vigiar a inviolabilidade do território norte-americano. No caso, como registra a história, os gângsteres ianques, exploradores dos bares clandestinos, com o financiamento secreto dos banqueiros, encarregavam-se de passar as bebidas de Bronfman para o outro lado e distribuí-la. Os canadenses argumentavam que o comércio e o consumo de álcool não eram proibidos em seu país, logo não o podiam coibir. E Bronfman pagava rigorosamente seus impostos. No caso da fronteira com a Bolívia, cabe ao Brasil impedir que os narcotraficantes e os contrabandistas de armas e outras mercadorias, brasileiros ou bolivianos, continuem entrando e saindo do país com a facilidade que se conhece.
Para a conquista dos indecisos, os candidatos deverão empolgar o povo com alguma mensagem nova e forte, exposta com clareza e elegância. À candidata indicada por Lula não bastará o apoio do presidente, com todo o seu prestígio. Ela terá de expressar sua maturidade e suas ideias próprias ao povo. Para o candidato da oposição, a tarefa é ainda mais difícil: cabe-lhe trazer mensagem nova, que não signifique retrocesso no caminho de desenvolvimento, mas tampouco indique mero continuísmo sob outra bandeira. Enfim, a nação espera por alguma coisa que seja mais do que já tem, com um ou com o outro postulante.

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Só ajuda quem não atrapalha

Por Mauro Santayana

É natural que o presidente Barack Obama concorde em postergar a visita que faria ao Brasil ainda durante o governo do presidente Lula. O governo norte-americano tinha interesse na visita de Obama ainda no ano passado, mas as dificuldades da agenda impediram a viagem. A visita foi adiada para este primeiro semestre. O governo brasileiro ponderou que, se ela se fizesse depois disso, poderia “contaminar” o processo eleitoral. Novamente a pressão dos fatos políticos, internos e externos, com a exigência da ação presidencial junto ao Congresso norte-americano, em decisões cruciais para o país, impediu Obama de vir nesta primeira metade do ano. Não há nada, portanto, que se possa considerar desaire para o presidente Lula e o Brasil.

Mas as razões de Estado, que a diplomacia conhece, não as conhecem a inveja nem a esperteza política. Começou a circular – e foi acolhido por um jornal de São Paulo – a informação de que, por detrás dos fatos, houve manobra vitoriosa de contre-diplomatie, praticada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Senhor da intimidade do ex-presidente Bill Clinton, com quem participa de um clube de ex-presidentes (para o qual nunca foi convidado Itamar Franco), o autoproclamado líder da oposição teria persuadido Clinton e sua mulher a dissuadirem Obama de realizar a viagem. Há, nesse boato, que os partidários do ex-presidente se encarregam de espalhar, a intenção deliberada de ofuscar os grandes êxitos da diplomacia brasileira no atual governo – sobretudo quando obtivemos, juntamente com a Turquia, acordo alentador com o governo de Ahmadinejad.

Se houve realmente essa intervenção de Fernando Henrique, tratou-se de chover no molhado, porque, ainda que Obama o quisesse, não lhe teria sido possível vir, e coube ao próprio governo brasileiro desaconselhar a visita no segundo semestre.

Há que se considerar que a vinda de Obama tanto poderia ser favorável à candidata do PT quanto prejudicial. Tudo dependeria das circunstâncias, e as circunstâncias não têm agenda prévia, nem obedecem aos protocolos diplomáticos.

De qualquer forma, coube a Obama seguir a prudência de nosso governo. Ele terá que esperar o próximo governante brasileiro para uma visita, que será importante para os dois países. Por mais o presidente se informe, mediante os canais diplomáticos e a imprensa, do que é o Brasil, a presença pessoal é decisiva para que ele “sinta” o nosso país, para que conheça o nosso povo, com o qual ele se disse identificado, quando ganhou as eleições de 2008. Há uma observação de Ortega y Gasset – e, provavelmente de outros, pela sua forte obviedade – de que qualquer um pode ler dez anos seguintes sobre Paris e não a conhecerá mais do que aquele que nela estiver e a sentir por dez minutos. Por isso mesmo alguns espertalhões enlatavam o ar de Paris e o vendiam aos turistas encantados.

Obama, se tiver a oportunidade de sobrevoar algumas cidades brasileiras, visitar uma universidade pública e conversar com alguns integrantes da verdadeira intelligentsia nacional, na certa entenderá que não somos, como pensam muitos, entre eles certos brasileiros, apenas uma banana republic mais extensa e mais populosa. Entenderá que os Estados Unidos nos devem ter como interlocutores sérios, e não dóceis vassalos. Uma associação livre, honrada, de plena igualdade, entre os nossos dois povos, seria conveniente ao Hemisfério e ao mundo, nestas horas de grande incerteza. Mas, até hoje, a diplomacia norte-americana se tem pautado pela arrogante divisa – atribuída, entre outros, a Summer Welles, e repetida depois por Henry Kissinger – de que “os Estados Unidos não têm amigos; têm interesses”. Esses interesses os fazem aproximar-se de nosso povo, como ocorreu para o esforço comum contra o nazifascismo, e os fazem cooptar os seus deslumbrados admiradores brasileiros, para golpear as nossas instituições, como fizeram em 1954, contra Vargas, e em 1964, contra Jango.

Não faria mal o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso desmentir – se é que ainda não o fez – a aleivosia que lhe atribuem. Ela só pode prejudicar a candidatura de José Serra, como a prejudicaram outras trapalhadas de que tem sido protagonista o ex-presidente.

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Está faltando a força da emoção

Por Mauro Santayana


O comparecimento dos três aspirantes à cadeira presidencial, ontem, no encontro promovido pela Confederação Nacional da Indústria, não foi propriamente um debate. Cada um deles exerceu seu monólogo, respondendo apenas às perguntas interessadas dos empresários. Como se tratou de auditório preocupado com seus negócios, os problemas econômicos dominaram a reunião. Todos levaram papéis, mas apenas Dilma Rousseff seguiu o escrito; Marina consultou-os eventualmente; e José Serra deles se valeu para conferir algumas cifras.

Não foi um momento político, mas encontro técnico e burocrático, porque lhe faltou emoção. Combinar emoção e razão, de forma equilibrada, não é fácil, como apontam todos os especialistas no comportamento humano. Quando a razão prepondera, os argumentos não chegam às glândulas da decisão com a força pretendida. Quando a emoção sobrepuja a razão, corre-se o risco de que a demagogia impere, com os efeitos dramáticos que a História oferece. O equilíbrio é difícil, mas necessário aos postulantes e, mais ainda, às sociedades políticas que serão governadas.

Nota-se, até o momento, certo cuidado da parte dos três candidatos. Esquivam-se de ataques mais duros, cada um deles esperando os erros adversários. É lugar-comum concluir que as eleições não se ganham: as eleições se perdem. Os que cometem menos erros levam vantagem. Quando Milton Campos se elegeu governador de Minas, em 1947, seus adversários políticos mas amigos – como costuma ocorrer ali – foram cumprimentá-lo: “Você ganhou, Milton, parabéns”. O vitorioso sorriu, modesto: “Não ganhei. Vocês é que perderam”.

A candidata Marina Silva tentou trazer um pouco de emoção, ao narrar a infância e a adolescência de menina pobre, que consegue deixar o chão do sofrimento mediante o Mobral, que lhe permitiu licença universitária como professora de história. José Serra também o fez: identificou-se com o proletariado de São Paulo, ao lembrar que, menino, morava em uma residência de operários, na antiga vila de trabalhadores construída pelo industrial Matarazzo, na Mooca. Mas o fez com certa curva retórica, ao dizer que essa circunstância o aproximava da indústria: de seu quarto ouvia o barulho de uma máquina que funcionava quase do outro lado da parede.

Ainda que a social-democracia brasileira esteja contaminada – e está – pelo neoliberalismo que imperou durante os dois mandatos de Fernando Henrique, seu candidato não pode ser identificado pessoalmente com as elites tradicionais. Ele procede da imigração italiana pobre. Não se identifica com aquela parcela que, chegando ao Brasil com algum capital, aqui se enriqueceu. Marina vem do chão do povo. Dilma Rousseff, nascida em classe média de Minas – filha de imigrante europeu – identifica-se com a esquerda por sua inegável militância política. Nenhum deles procede, pelo nascimento, da elite, mas a origem de classe, que pode ser uma recomendação, nem sempre é certificado suficiente. Muitos filhos da classe operária se tornaram fiéis aliados dos exploradores, e alguns (bem poucos, é certo), nascidos no fausto, se dedicaram a lutar contra as injustiças do capitalismo predador. Mas é alentador que, depois de um chefe de Estado como o metalúrgico Luiz Inácio, haja candidatos portadores de diplomas universitários, sim, mas sem sobrenomes tradicionais.

Os monólogos de ontem não chegaram ao coração dos eleitores, ainda que tenham sido acompanhados pelas imagens da internet e por algumas emissoras de televisão. Faltou-lhes o calor do contraponto. Talvez por isso, a reação dos eleitores tenha sido moderada, e mais ou menos equilibrada no apoio aos expositores.

Cabe uma nota final sobre os cuidados que Dilma Rousseff tem com sua aparência. É inaceitável que a critiquem por cuidar de sua maquiagem, de seus cabelos e de suas roupas. Apresentar-se bem aos eleitores – e aos anfitriões estrangeiros – é expressão de respeito. Se ela se descuidasse, seria criticada por isso. Na verdade, seus acusadores agem como os clássicos tartufos. Não querendo, ou não podendo, contestar sua honestidade funcional, desconhecer seus méritos de administradora, nem negar sua autenticidade política, só encontram, para criticá-la, a natural preocupação com a maquiagem e o penteado.

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Para cima e para baixo

Por Wilson Figueiredo


Mais cedo ou mais tarde (de preferência a segunda hipótese), quem não se deixa ofuscar por pesquisas de opinião vai reconhecer que já deveria ter desconfiado de que o foco da sucessão deste ano realçou com mais tinta o presidente Lula em relação à sucessão em 2014 do que, daqui a quatro meses, a própria candidata Dilma Rousseff. Ouvirá a explicação de que foi razão tática. Até aqui a campanha eleitoral reincidiu exageradamente na embromação do eleitor com elogios que o próprio Luiz Inácio Lula da Silva não se poupa, enquanto a oposição ainda não sabe por onde recomeçar. A campanha empacou, e a Copa do Mundo serve de desculpa esfarrapada para tudo que está em jogo.


Quem é de se preocupar com fatos menores tende a se contentar com a aparência, mas nada tem a declarar sobre a candidata Dilma Rousseff, que acaba de pôr os pés no patamar que lhe permite ver de mais perto o parceiro José Serra – dois pontos para cima ou para abaixo não importam – no seu horizonte. Nenhum dos dois quer atirar a primeira pedra. O eleitorado não se recusa a arriscar juízos de valor definitivos sobre os personagens, e seus currículos, mas espera que as respectivas propostas de governo não venham a ser programas de índio.


Há dois anos dona Dilma vinha trotando na trilha presidencial, enquanto Lula se esquivava ao foco do terceiro mandato para não ficar mal com o que o país tem de melhor, que vem a ser a consciência democrática aguçada. Na segunda metade do século passado, a própria eleição indireta tornou-se a saída de emergência para a ditadura. E a oposição, antes de botar para fora a eleição indireta, a utilizou – como última ratio – para a ditadura sair de cena e não mais voltar. Foi a última gentileza e guardou como lembrança a honra de chegar ao poder graças à moral da fábula.


As pesquisas de opinião estão sustentando, nas movediças margens de oscilação para mais e para menos, o clima eleitoral, e contribuindo para a normalidade de eleições presidenciais desde que os constituintes de 1986/88, sentindo-se na própria casa da sogra, desataram alguns nós que perturbavam a vida republicana nos períodos legais e hiatos ditatoriais. Eram resultados francamente pífios para um país que se considerava herdeiro do futuro. A temporada democrática anterior (1945-1964) não havia resistido à maioria simples para eleger presidentes. Cada sucessão, uma baixaria golpista Finalmente, a maioria absoluta veio, viu e ficou. As pesquisas também vão para a História do Brasil.




Não foi só a maioria absoluta, cuja sabedoria é exigir do vencedor a metade do total de votos mais um de lambujem, que extirpou pela raiz o golpismo que contaminava a pureza democrática na fonte republicana. Por fora do constitucionalismo fervente, discreta como é da preferência mineira, a pesquisa eleitoral teve função didática que ainda espera o levantamento histórico de sua contribuição – pelo menos no Brasil – para a democracia, finalmente, dizer a que veio.

As pesquisas prepararam o brasileiro para aceitar o resultado da eleição sem desatino emocional. O teste foi a eleição de Lula, que veio devagar, pelas bordas, até o mingau esfriar, como preferia Leonel Brizola, mas ficou para ele. Elegeu-se, reelegeu-se e quase conseguia por fora um terceiro mandato. Em conclusão: aquele oposicionismo de chiliques está curado. O acompanhamento das oscilações, pequenas ou grandes, no curso das campanhas eleitorais, neutraliza os desatinos golpistas que privavam da razão a anterior oposição. O custo das pesquisas é muito inferior à farta distribuição de preservativos pelo Ministério da Saúde. E mais barato do que a oferta oficial de tranquilizantes ao eleitor médio, que se desincumbe do ato de votar e não mais quer saber do que será que será. Finalmente, o brasileiro descobriu que uma eleição perdida não é o fim do mundo. Nem sequer paga o custo de uma ditadura a mais ou a menos.

Em vez da criação de dias nacionais disto e daquilo, os legisladores poderiam juntar-se e propor, entre Rio e São Paulo, um monumento imponente às pesquisas de opinião como um dos pilares com que a democracia pode contar no Brasil. Claro, enquanto achar que vale a pena.

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No desempate, a dianteira de Dilma

Por Cristian Klein

A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada no sábado, comprovou o que já havia sido detectado pelo instituto Sensus há uma semana: o crescimento da pré-candidata do governo à Presidência, Dilma Rousseff (PT). Depois de um refluxo, a petista voltou a avançar e agora está empatada com o ex-governador paulista José Serra (PSDB). Ambos têm 37%. A pesquisa, porém, traz vários elementos que devem estar levando os tucanos a arrancarem a plumagem: apesar do cenário de equilíbrio, os números apontam um quadro bem mais favorável à ex-ministra da Casa Civil.
Nas respostas espontâneas, em que os entrevistados dizem sua opção sem a ajuda da lista com os nomes dos candidatos, Dilma já abre uma vantagem considerável: 19% a 14%. É um feito e tanto, visto que não é a petista que conta com um recall do eleitorado, e sim José Serra, que já disputou uma eleição presidencial, em 2002. A façanha se dá graças à intensa aparição na mídia, em entrevistas e participação em programas populares, e à associação de sua imagem à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O poder de transferência de votos de Lula, antes posto em dúvida, vai se confirmando.
É essa mesma capacidade que faz os números da pergunta espontânea ainda mais favoráveis a Dilma. Há 5% que citaram o presidente, que não pode concorrer a novo mandato, outros 3% que afirmam que votarão “no candidato do Lula” e mais 1% que diz preferir o “candidato do PT”. Isto significa que mais 9% das preferências estão na órbita da candidatura, prontos para se converterem em opção por Dilma Rousseff, que totalizaria assim 28%, o dobro do percentual apresentado por José Serra.
As respostas espontâneas costumam ser um bom indicador da consolidação da preferência. Dilma e Serra estão empatados na pesquisa estimulada, em 37%. Mas o que os dados sugerem é que há mais convictos entre aqueles que afirmam votar na candidata do governo. Outros números que vão na mesma direção dizem respeito à rejeição dos eleitores aos concorrentes. Dilma e Serra apareciam com a mesma taxa, ambos com 24%. Mas, agora, enquanto a proporção dos que afirmam que não votariam na petista de jeito nenhum caiu para 20%, a rejeição ao tucano subiu para 27%.
A pesquisa do Datafolha, contudo, retrata oscilações que refletem as preferências dos eleitores poucos dias depois da propaganda partidária do Partido dos Trabalhadores, em rádio e TV, veiculada em 13 de maio. O programa, burlando a legislação eleitoral, foi uma clara peça publicitária da campanha presidencial governista. Quase todo o tempo foi dedicado a incensar a imagem de Dilma como sucessora das conquistas da era Lula, que chegou a compará-la ao ex-presidente e líder do movimento contra o apartheid na África do Sul, Nelson Mandela. Como se faz somente na estreia do horário eleitoral gratuito, o programa apresentou uma incisiva biografia da (pré-)candidata. Falou-se mais de Dilma do que do PT.
A burla, a despeito de eventuais punições do TSE, foi realizada de modo competente. O programa não escondeu, pelo contrário, fez questão de lembrar um dos pontos mais polêmicos da trajetória de Dilma: sua participação na luta armada contra a ditadura, taxada de terrorismo por membros mais radicais da oposição. É o que se chama de vacina, em jargão do marketing político. Antes que a pecha impingida pelos adversários se propague pelo eleitorado, Dilma assumiu o que fez num momento de polarização da história política do Brasil e afirmou seu compromisso com os valores democráticos, ao dizer que mudou junto com o país.
Difícil mensurar o quanto o programa de 13 de maio contribuiu para o crescimento de Dilma na última pesquisa do Datafolha. Até porque a subida observada pelo Sensus, em que a petista apareceu na frente de Serra pela primeira vez, havia sido detectada com entrevistas feitas antes da apresentação da propaganda do partido. Mas, com certeza, teve um papel importante na construção da imagem da pré-candidata em grande parcela do eleitorado.

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Antes que o vento sopre

Por Wilson Figueiredo


Antes que a direção favorável dos ventos mude, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou ter chegado sem esforço à conclusão de que deve ao poder tudo que aprendeu e, em seguido, se convenceu sem dificuldade de que ele também foi “bom para o Brasil”. A conclusão, portanto, é que tudo acabou bem para os dois.

A recíproca não deixa de ser verdadeira. Os brasileiros também devem ter aprendido com ele o suficiente. O Brasil, nem tanto. Terá desaprendido o suficiente para temer pelos costumes políticos. Sem ter como aplicar politicamente o sucesso nas pesquisas, Lula se recusa a ouvir falar de consequências imprevisíveis, que não mostram pressa em se manifestar. Como dizia o próprio conselheiro Acácio, que cedia precedência às causas, as consequências podiam esperar. Por culpa de outras questões, a entrevista ao jornal espanhol El País ficou sem repercussão e um Lula diferente, sem leitores.
Chefe de Estado (observou, certamente em portunhol, que vem a ser a maneira espanhola de pronunciar palavras em português) “não é pessoa, mas instituição. Não tem vontade própria todo santo dia” e, se quiser governar, fica obrigado a “fazer acordos que sejam possíveis”. Olha o mensalão aí. O presidente Lula carimbou a definição segundo a qual política é a arte do possível, sem desconsiderar os que pensam exatamente o contrário.

Mesmo assim, a circunstância presidencial não tem impedido Lula de tentar o impossível e aprender que recuar também é atributo político, sem o qual governantes se estrepam. Quanto à conclusão de que foi bom para o Brasil, o tempo dirá. Que ele se tenha em conta mais alta do que os que o precederam, fica também para depois. A última palavra será a do tempo, e pela boca da História, que não aprecia lorotas.



Luiz Inácio Lula da Silva ainda aproveitou a oportunidade para declarar que nada o obriga “a gostar de um presidente porque é de esquerda ou de direita; ou, ao contrário, de abominar outro governante por ser direitista”. Estando em solo espanhol, foi delicadeza fazer a barretada com a citação nominal do ex-presidente José Maria Aznar, conservador, e do socialista José Luis Zapatero. Uma no cravo, outra na ferradura. E aí Lula foi mais Lula ao sacar do bolso a frase embrulhadinha para concluir que, “no exercício do poder, sou um cidadão, como diria, multinacional e não multideológico”. Ainda bem. Que seria de nós se não fosse?

À medida que o fim do segundo mandato tarda mas não falha, o presidente acelera o processo político com o que aprendeu e o que, ao sair, ainda está aprendendo. Deu dados suficientes para ser decifrado ao menos um dos mistérios que envolvem a lenda de que era metalúrgico de esquerda e conseguiu, sem alarde, fazer mais do que a direita pretendia e muito menos do que seu anterior discurso de esquerda autorizava.

A afirmação de que Marx – que não é autor cujas páginas costume frequentar – recomendou “primeiro construir o capitalismo e depois fazer o socialismo” é, primeiro, um escudo, depois, uma derrapagem. A questão é que o capitalismo jamais designaria o socialismo herdeiro do seu saldo histórico. Há uma ordem natural que o capitalismo não precisou observar, pois existiu antes de haver teoria e continua fagueiro até hoje. Já o socialismo encheu tratados de teorias luminosas, que a realidade insiste em contradizer, na prática, para baralhar as cabeças. Trata o socialismo como o primo pobre que estudou demais e se empanturrou de teoria e dissidências intermináveis.
A história vai ter dificuldades em classificar Lula, seja à esquerda, que ele recusa terminantemente, seja à direita, na qual não confia por instinto. Na verdade, ele reeditou o personagem de Molière que se abalou quando soube que era prosador sem desconfiar, ainda que por exclusão: não sendo poeta, só lhe restava ser prosador. Não havia outra. Lula também ficou confuso, sem saber se era, politicamente, de esquerda ou de direita, até perceber que, não sendo esquerdista, não tinha como não ser de direita. Pronto. Guardou segredo e se satisfez em recuar para o centro com uma carta de intenções que lhe valeram (as intenções, fique claro) a eleição e a reeleição e ainda lhe reservam o juízo final.
(Por serem inesgotáveis, entrevistas do presidente Lula continuam sempre na próxima oportunidade)

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A volta antecipada de Lula

Por Villas-Bôas Corrêa

O presidente Luiz Inácio da Silva antecipou sua volta ao Brasil em boa hora. Desembarcou sem necessidade de muitas explicações. Mas a dissimulação do malogro da sua jogada no campo internacional para tentar a pacificação do Irã ainda é um desafio para o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com a agenda de conversas com os chanceleres dos países do Conselho de Segurança da ONU. E não é sem tempo. Passava da hora de Lula pingar um ponto final ou um ponto e vírgula na agenda de viagens pelo mundo e tirar umas férias no Brasil para o exercício do mandato para o qual foi eleito e reeleito.
Na fila de espera, a sanção com ou sem vetos da medida provisória, aprovada pelo Senado, que reajusta em 7,7% as aposentadorias acima do salário mínimo. O buraco no INSS será de R$ 1,6 bilhão, que é uma cifra de entontecer os imprensados da classe média pelos ricos, como os parlamentares e cupinchas nomeados em pacotes para as sinecuras na Petrobras e outros ninhos de petistas e aliados.
Os bem informados palacianos adiantam que Lula, quando saiu do Brasil estava inclinado a sancionar o reajuste, com o veto ao fim do fator previdenciário. A sua irritação explodiu em várias declarações. No encerramento da Marcha dos Prefeitos criticou senadores e deputados, com larga distribuição de carapuças: “Tem gente que acha que ganha votos fazendo agrados ao povo. Mas, quando o povo compreender o que significa isso, essas pessoas podem não ganhar o tanto de voto que esperam ganhar”. Uma no cravo e outra na ferradura. Lula deve manter o reajuste de 7,7% para os aposentados e vetar o fator previdenciário, que condiciona o pagamento das aposentadorias ao tempo de serviço do beneficiado.
Na ausência do presidente, o Senado aprovou por unanimidade o moralizador projeto Ficha Limpa, que veta candidaturas de políticos condenados em instâncias colegiadas da Justiça. O texto, aprovado pela Câmara e pelo Senado, vai a sanção presidencial. Num cálculo em cima da perna, o senador Demóstenes Torre (DEM-GO) estima que nunca menos de 25% dos candidatos devem ser barrados pela ficha suja. E justifica a sua previsão com o sólido argumento de que “o número vai ser muito grande, pelo menos um em cada quatro, porque tem muita gente acostumada a praticar irregularidades, e o leque de crimes que passam a provocar inelegibilidades se amplia muito”.
Mas a advertência do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ricardo Lewandowski, é um esguicho na expectativa de que a lei moralizadora enquadre os candidatos já condenados. Segundo o ministro, ela só penalizará os condenados entre a sanção de Lula e o registro das candidaturas.
Se a longa ausência poupou o presidente das tricas e intrigas de uma pré-campanha por ele antecipada, em desafio à Justiça Eleitoral, o outro lado da moeda apresenta a conta dos inconvenientes. A sua candidata Dilma Rousseff exagerou nos cuidados milionários com a aparência. Está entre as mulheres mais elegantes do Brasil. Mudou a cor do cabelo, puxado para o alto para destacar a testa, as sobrancelhas finas circundam os olhos em arco fino, que acaba no ponto exato. E não repete vestidos, blusas e saias do guarda-roupa de exuberante elegância. As pesquisas coincidem na subida da candidata, degrau por degrau, na escalada do favoritismo.

Mas, campanha para valer, só a partir de 6 de julho, daqui a um mês e meio. Com a Copa do Mundo no meio. O respeito ao vitorioso Dunga, um devoto da coerência, vai passar pelo teste da Copa da África do Sul. A rota do avião que levará a Seleção partirá de Curitiba na próxima quarta-feira, rumo a Joanesburgo, mas vai fazer uma escala em Brasília para ser recepcionada pelo presidente Lula, o que significa mais cinco horas de viagem. Para o presidente, andar de avião é tão rotineiro como passear nos jardins do Palácio Alvorada ou jogar uma pelada na Granja do Torto. E não tão simples assim. No clima ainda morno da pré-campanha, a conquista do hexacampeonato será um trunfo a mais nos quatro ases do baralho das urnas. E a Seleção da coerência de Dunga ignorou os meninos do Santos. A decisão será logo após a Copa do Mundo, nos dias 27 de julho e 4 de agosto. E do Santos apenas Robinho foi convocado e é titular da Seleção. Ganso e Neymar foram esquecidos.

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Uma ociosa insistência

Por Mauro Santayana

Voltam alguns tucanos paulistas a insistir na pressão sobre o ex-governador Aécio Neves para que aceite compor a chapa de seu partido, como candidato a vice-presidente de José Serra. Agem como se a vitória do paulista fosse questão de salvação do país, diante de uma catástrofe, e como se essa vitória dependesse apenas da aquiescência do mineiro em ser o segundo na postulação. Com todo o respeito, essa insistência revela menosprezo pela inteligência política do neto de Tancredo Neves.

Em primeiro lugar, por mais méritos tenham os dois candidatos, a eleição é sempre incerteza. Se Aécio fosse decisivo para a vitória da oposição, o correto teria sido caber a ele a cabeça de chapa. O partido, sem embargo, não quis correr o risco de consultar as bases. Confiou, com suas informações e razões, em que o candidato José Serra, com a força das bases eleitorais e econômicas de São Paulo, poderia desprezar a etapa das prévias e impor-se à nação. Foi uma escolha que Aécio, ao pressenti-la, não contestou, preferindo – como anunciou em dezembro – dedicar a Minas todas as suas preocupações. O raciocínio pode parecer presunçoso, mas se funda na experiência histórica: o Brasil precisa de Minas, como o eixo de sua razão política e alicerce de sua soberania. Quando falta à República o bom-senso de Minas, todos os desacertos são possíveis. Por isso mesmo – ou seja, para oferecer ao Brasil a solidez das montanhas – os mineiros, de um modo geral, dão tanta atenção à Presidência da República quanto a dão ao governo do estado. Os homens públicos mineiros consideram indispensável passar pelo Palácio da Liberdade, antes de postular a Presidência da República. Assim o fizeram todos os mineiros que chefiaram o Estado nacional, como foram Affonso Pena, Wenceslau Braz, Artur Bernardes, Juscelino Kubitschek e – de forma transcendental – Tancredo Neves.

A candidatura de José Serra não será beneficiada se Aécio a ela se dedicar como postulante à Vice-Presidência, em prejuízo de sua indispensável presença em Minas, cujo eleitorado decidirá, como fiel da balança, os resultados de outubro. Será no decorrer de sua postulação, já anunciada, ao Senado Federal que o mineiro ajudará o candidato de seu partido. E, como senador, sua influência no Congresso garantirá a Serra, se ele se eleger, suporte muito mais importante do que a sua presença na aprazível residência vice-presidencial do Jaburu.

O homem público ideal é aquele que concilia a natural ambição de realização pessoal com suas convicções. Sem ideias políticas sólidas, as ambições pessoais militam no vazio e, quase sempre, conduzem a governos desastrados. Por outro lado, as ideias, para que se realizem no poder, pedem o empenho que só a expectativa da glória impõe ao candidato.

Aécio já trafegou grande parte do caminho político para contentar-se com a Vice-Presidência. Os dois casos em que mineiros se elegeram vice-presidentes, dentro do processo atual, de vinculação automática ao candidato à Presidência, são atípicos. Itamar, como tantos outros brasileiros honrados, sentiu-se atraído pela disputa ao lado de Collor, diante de seu (falso, como vimos) programa de moralização do Estado. Mas soube legitimar-se no momento em que as circunstâncias o levaram à chefia do Estado, com desempenho ético singular. José Alencar se tornou, realmente, a presença necessária ao lado de Lula, a fim de retirar do candidato a pecha de revolucionário alucinado.

Serra não precisa de quem o avalize. Suas posições são conhecidas e não ameaçam o mercado como, de resto, também não o ameaça a candidatura situacionista. Ninguém, de bom-senso, renuncia ao que já tem. Aécio, de acordo com todas as evidências, tem garantida a sua eleição para o Senado. A eleição de Serra é possível, mas não é certa. Cabe-lhe, isso sim, esforçar-se para conduzir o processo eleitoral mineiro, a fim de eleger sucessor que saiba respeitar os velhos compromissos de Minas.

No Senado, o ex-governador terá a oportunidade de lutar pelo compromisso que os mineiros assumiram, desde a Inconfidência, com a Federação, ou seja, o de buscar a rigorosa isonomia de direitos de todos os Estados brasileiros, contra a hegemonia política de algumas regiões sobre as outras.

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De como exercer a ousadia moral

Por Mauro Santayana

Velha teoria explica as guerras generalizadas como inevitável irritação da História: as situações envelhecem e se tornam insuportáveis, para estourar nos conflitos sangrentos. Alguns as veem como autorregeneração do mundo, ao contribuir para o equilíbrio demográfico. Outros a atribuem à centelha diabólica que dorme no coração dos homens e incendeia o ódio coletivo. O mundo finará sem que entendamos a fisiologia do absurdo. Para os humanistas, são repugnantes os massacres coletivos tanto como os assassinatos singulares.

De qualquer forma, a História tem como eixo a tensão permanente entre guerra e paz; entre a competição e o entendimento; entre o egoísmo que se multiplica no racismo e a solidariedade internacional. Uma coisa é inegável: quando os mais fortes querem, não lhes faltam argumentos trôpegos para justificar a agressão. La Fontaine soube reduzir esse comportamento no diálogo entre o lobo e o cordeiro. Quando o lobo quer, os filhos são responsáveis por falsas culpas dos pais e as águas sobem os rios.

É interessante registrar, no episódio da questão do Irã, algumas dúvidas que assaltam o homem comum. A primeira delas – e devo essa observação a um amigo – é a do direito de os possuidores das armas atômicas decidirem quem pode e quem não pode desenvolver a tecnologia nuclear. Mais ainda, quando o árbitro maior é o governo do país que a usou criminosamente, ao arrasar, sem nenhuma razão tática ou estratégica, duas cidades inteiras e indefesas do Japão. Reduzidas as dimensões do absurdo, podemos aceitar como lícitas as associações criminosas, como as dos narcotraficantes dos morros. Possuidores de bom armamento, impõem sua lei às comunidades e constroem sua própria legislação, cobram tributos e exigem obediência, sob a ameaça dos fuzis e da tortura. Chegaremos assim a uma sociologia política, abonada indiretamente por Weber e outros, que admite todo poder de facto, sem discutir sua legitimidade ética.

O momento histórico é de grande oportunidade para a Humanidade – e de grande perigo, também. A República dos Estados Unidos é um lobo ferido em suas entranhas. Por mais disfarcem o choque, a eleição de Barack Hussein Obama lanhou as glândulas da tradição conservadora da Nova Inglaterra. A águia encolheu suas asas. A maioria dos estados e, neles, a maioria dos eleitores, decidiu por um homem mestiço, filho de pai negro e mãe branca, nascido em uma colônia dissimulada em estado, o Havaí; e que passou o período mais importante da formação, o da adolescência, na Ásia: na Indonésia muçulmana e no arquipélago em que nasceu.

No inconsciente coletivo, os Estados Unidos já sentem a decadência, que se acelerou com o neoliberalismo. Eles poderão administrá-la com inteligência, integrando-se em uma Humanidade que necessita, com urgência, de novos parâmetros e de nova tecnologia, capazes de preservar a natureza, hoje em acelerada erosão, ou entrar em desespero. Se entrarem em desespero, conduzirão o mundo a nova guerra, mas isso não parece provável, diante da crescente consciência antibélica de seu povo.

Por enquanto os falcões parecem contar com a Europa e com a China, no caso do Irã. Mas não há, nos horizontes movediços de hoje, país suficientemente forte, capaz de impor-se aos demais. A Europa desce a ladeira, com sua bolsa de euros de barro, e a União Europeia se encontra ameaçada de fragmentação. A China é uma nebulosa impenetrável. O capitalismo financeiro descolou-se de qualquer compromisso ético, se é que o teve um dia. O sistema se torna mais selvagem quando se vale dos instrumentos tecnológicos de operação universal e instantânea.

É nesse momento que a presença do Brasil começa a impor-se no cenário internacional. Não temos armas atômicas, não dispomos de exércitos numerosos e bem equipados, mas somos chamados a manter o bom-senso, e manter o bom-senso é exercer a ousadia moral.

Digam o que disserem os quislings domésticos, o Brasil ganhou o respeito do mundo ao buscar a paz no Oriente Médio. Se contribuirmos para evitar o conflito, nosso será o mérito; se não houver o êxito, fica, na História, o testemunho de um esforço destemido e honrado – e não menos meritório.

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Uma questão diplomática

Por Mauro Santayana

O iconoclasta Nelson Rodrigues, cujo verbo ácido a ninguém poupava, amava o povo brasileiro a ponto de espicaçá-lo com falso desdém: era a sua forma de despertar os nossos brios esmaecidos. Dele é a cáustica observação de que “o brasileiro tem complexo de vira-lata”. Não há dúvida de que muitos brasileiros, principalmente nas elites, guardam o deslumbramento dos nativos diante do estrangeiro que chegava do mar. Não fomos os únicos: os bravos guerreiros astecas viram nos invasores espanhóis, montados em portentosos cavalos – que eles não conheciam – centauros invencíveis.

Se Nelson estivesse vivo, provavelmente repetiria o constrangido epíteto: a reação de alguns brasileiros ao acordo obtido por Lula e pelo primeiro-ministro turco Erdogan, com Ahmadinejad, do Irã, é a de que não temos credenciais para nos metermos “em assuntos que não nos concernem”. O raciocínio parte de uma dúvida intimidadora: se o entendimento não der certo, perderemos credibilidade internacional. É um raciocínio que cambaleia, do ponto de vista moral. Ninguém pode desgastar-se por procurar a paz. Não caminha tampouco o argumento de que a situação no Oriente Médio não nos interesse. Com o surgimento da América, as divergências, direta ou indiretamente, começaram a atravessar o oceano. Disso fomos vítimas quando a Holanda, em conflito com a Espanha – a que Portugal estava então unido – invadiu a Bahia e Pernambuco. A partir de 1914, todas as guerras passaram a ser planetárias, mesmo quando o teatro de operações se limite na geografia.

O problema do Oriente Médio nos toca profundamente. Fomos corresponsáveis, com a decidida posição de Oswaldo Aranha – que presidia a Assembléia Geral da ONU em São Francisco – pela criação do Estado de Israel, e de um Estado palestino no mesmo território. Se as nações fossem movidas de mauvaise conscience, estaríamos hoje avaliando se fizemos o melhor em 1948. Concluiríamos que não agimos mal, porque obedecíamos às circunstâncias históricas. E porque não agimos mal naquele momento, agimos bem, agora, quando tentamos esvaziar as tensões entre o Irã e Israel. O confronto não nos interessa, embora possa interessar ao lobby sionista dos Estados Unidos e da Europa. E atuamos com o mesmo sentimento de justiça quando cobramos o cumprimento de todas as resoluções da ONU que exigem a independência e soberania do povo palestino em fronteiras seguras.

É irrelevante saber se a senhora Clinton está atendendo mais aos eleitores sionistas e ao lobby da indústria de armamentos do que aos interesses profundos de seu país, que o presidente Obama parece identificar. Há, desde a campanha eleitoral, diferença de approach com relação ao Oriente Médio entre a bem sucedida advogada de Chicago e o mestiço nascido no Havaí com o inquietante sobrenome Hussein. Cada pessoa é também a sua circunstância, de acordo com o achado do jovem Ortega y Gasset, e a ela sempre pagará algum tributo. A circunstância de Lula fez dele, desde a infância, um negociador. Homens que não nascem com o futuro assegurado pelos bens de família devem negociar o seu destino com os percalços da vida, e Lula soube fazê-lo, e bem, pelo menos até agora.

Desde outubro passado, o governo americano manifestou publicamente seu interesse em uma solução de compromisso pela qual o Irã enviasse seu urânio, parcialmente trabalhado, para enriquecimento completo em outro país. Na época se falou na Rússia, mas os falcões americanos provavelmente a isso se opuseram, em memória da Guerra Fria. Lula se entendeu com a Turquia, membro temporário, como o Brasil, do Conselho de Segurança, a fim de negociar a saída diplomática e honrosa para o impasse.

O Brasil não necessita da licença de terceiros para conduzir sua política externa. Cabe-lhe exercê-la com o respeito que o governo deve ao Estado e, o Estado, à soberania do povo. Entre os que contestam a importância do acordo há os nostálgicos de um tempo em que Otávio Mangabeira beijava a mão de Eisenhower e Vernon Walters dava ordens aos golpistas de 64.
Queiram, ou não, os xenófilos deslumbrados, o compromisso de Teerã é uma vitória diplomática do Brasil e do metalúrgico Luiz Inácio, que chefia o Estado.

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Apostas no futuro

Por Wilson Figueiredo


O dia da inauguração de Brasília foi também o do lançamento da candidatura do presidente JK à eleição seguinte, cinco anos depois, quando nada indicava que em 1965 já não haveria eleição direta. A indireta a substituiria por tempo imprevisível. Brasília pouco teve a ver com o retrocesso embutido no deslocamento da capital para o interior do território brasileiro. De um jeito ou de outro, ocorreria.


Dia 21 de abril de 1960, a nova capital amanheceu coberta de cartazes que, por toda parte onde os olhos batessem, avisava: JK 65. Não era propagando fora de hora, nem precisava. Àquela altura, a democracia já não dava preocupação, o desenvolvimento econômico apressava a era do consumo que modelava as expectativas da cidadania. O brasileiro se sentia americano do Sul. O futebol brasileiro ostentava o primeiro título de campeão mundial. A aposta na eleição futura autorizava o presidente Kubitschek a fazer aquele lance. Desde que tudo continuasse como vinha.

Meio século depois, a comemoração da data redonda em Brasília repetiu, mas com sentido oculto, a mesma aposta feita pelo presidente Lula no futuro, mediante empréstimo de sua fortuna em votos a Dilma Rousseff, e o pressuposto de que a beneficiária abra mão da reeleição. Dilma, apenas 2010. Não se fala no risco implícito. Um mandato é suficiente na mão ou dois voando? Ainda que mal comparando, JK também deixou o poder no ponto presumivelmente mais alto (não havia ainda pesquisas) dos cinco anos em que modernizou o estilo brasileiro de governar.

O presidente Lula mede em pesquisas a oscilação pouco animadora dos cidadãos em relação a Dilma, e se orienta entre riscos calculados. A eleição de 2014 subentende para quem é do ramo que a candidatura dele se segura apenas na renúncia da candidata ao segundo mandato. Mutatis mudandis, está longe mas pode ficar mais perto do que ocorreu a JK, considerando a precariedade do período constitucional entre o Estado Novo e o ciclo ditatorial de 64 a 85. Nas duas vezes, fez-se de conta que os perigos institucionais estavam afastados. Com a política praticada como se fosse apenas a arte do possível, todo cuidado acaba insuficiente para garantir mais de um vencedor. Surpresas não perdem oportunidade de mostrar que fazem parte do grande jogo.

A candidatura Dilma Rousseff rompeu a inferioridade que as pesquisas lhe reservaram. Para mais ou para menos, a disputa se apresenta sem favoritos, mas não afasta senão riscos por conta de surpresas. Dilma conta com a orientação do escultor da sua candidatura em 2010. O resto não passa de suposição. Mas Lula pensa num plano C (de cautela): a política tem razões que mudam com as circunstâncias, ou até sem elas. E reeleição é tentação com ética exclusiva.

A sucessão presidencial vai ter oportunidade de esclarecer o motivo real da associação entre as candidaturas Dilma Rousseff e general Lott. Com JK-65, o próprio lavou as mãos na sucessão em que Jânio Quadros tinha a preferência ostensiva. Lula fez o oposto e, com espírito esportivo de Nero, espicaçou o contendor com provocações no nível de meio-fio.
No fundo, a aproximação entre Dilma e Lott, no ideário popular, é exercício de sobrenaturalismo que impregna a política brasileira. No começo foi apenas a ideia de eleger um poste e, com o tempo, a esperança de ser uma luz para todos. A resistência ao nome da candidata no PT e adjacências pode se dissipar ou fechar para a decolagem de hipóteses que parecem sem sentido, mas no final se materializam. Afinal, Dilma e Lott têm o mesmo vício de origem: carreiras feitas fora da política e premiadas com mandatos ocasionais. Não deixa de ser preconceito que a democracia se permite. A semelhança com Lott não é de bom augúrio para Dilma: ele era inflexível, ela tem fama de autoritária. Imagem não se compra: é o que é. Não há muita diferença entre eles.

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Quem vai ficar com o ‘momentum’ final?

Por Cristian Klein

Nas eleições presidenciais americanas, há uma expressão clássica para descrever o clima favorável a determinado candidato: momentum. Há dois anos, não se falava de outra coisa senão o momentum Barack Obama. No início, ainda durante as prévias do Partido Democrata, os ventos eram mais favoráveis a Hillary Clinton, até que a campanha avassaladora de Obama mudou definitivamente o rumo da disputa. E o resto é história.
Na corrida presidencial brasileira este ano, o que se começa a perceber é uma frenética alternância de momentum, o que demonstra a indecisão do eleitor e as previsões de uma acirradíssima eleição em 2010.
Ao longo dos últimos três anos, o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), liderava, com folga, as pesquisas de opinião até que no fim do ano passado, a ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, insuflada pela popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, subiu progressivamente até encostar no tucano. Era o momentum Dilma. Para quem não acreditava na força da candidatura governista – encabeçada por uma desconhecida do eleitorado – o crescimento impressionava, de tão rápido e antecipado. Os petistas pouco escondiam o clima otimista, de “já ganhou”. Lula mal havia entrado no jogo e seu poder de transferência de votos para Dilma era calculado nas alturas.
Enquanto isso, os oposicionistas batiam cabeça, desesperados, com o avanço da então ministra e os supostos tropeços de estratégia de Serra, que evitava o debate e demorava em assumir sua pré-candidatura. Pois eis que o tucano saiu do governo paulista, pôs seu time em campanha e deteve o crescimento de Dilma. Passava-se, quase que de uma semana a outra, para o momentum Serra. Desde, então, o ex-governador paulista começou a ditar o tom da disputa: impôs sua agenda, impressionou por declarações firmes e ao mesmo tempo hábeis, num morde e assopra cuidadoso para fugir da pecha de anti-Lula sem ser um candidato insosso. A mudança de ventos deixou os governistas perturbados. A candidatura Dilma ficou desorientada. O embate direto com Serra mostrava que Dilma, mais inexperiente politicamente, precisaria saber andar com as próprias pernas, sem o apoio do padrinho presidente. Para isso, teria que melhorar sua comunicação e foi cercada de especialistas e assessores. O discurso e o jeito de lidar com a imprensa mudou, resultado das intensas sessões de media training, trocando a autenticidade dos erros pela artificialidade dos acertos. Dilma havia sido capturada. A ponto de um político próximo dizer que ela mandaria o quanto quisesse, se e depois de eleita, mas como candidata teria só a obedecer.
Com a crise no QG petista e a confiança nas hostes tucanas, antigos parceiros governistas começaram a temer pelo próprio futuro, ameaçando a debandada. O PP, mesmo fazendo parte da base aliada, aproximou-se da oposição. Seu presidente nacional, o senador Francisco Dornelles, do Rio, surgiu como possível vice na chapa de Serra. E por fim (?) a legenda anunciou neutralidade. Até o PRB, do vice-presidente José Alencar, fez o mesmo movimento. No Rio, o ex-governador e pré-candidato ao Palácio Laranjeiras, Anthony Garotinho (PR), que estava ostensivamente fechado com Dilma e lhe oferecia palanque alternativo ao do governador Sérgio Cabral (PMDB), passou a valorizar mais o passe e flertar com os tucanos.
Dança-se conforme a música – com o risco de dar nó nas pernas dos indecisos. O momentum agora, ao que parece, volta a ser de Dilma. Pela primeira vez em uma pesquisa, a do Vox Populi, a ex-ministra (38%) surge à frente de José Serra (35%). Pela margem de erro (2,2 pontos percentuais), os dois estariam empatados. Mas as entrevistas foram feitas antes do programa do PT, exibido da última quinta-feira, no qual o partido fez uma explícita propaganda eleitoral antecipada, o que deve render a Dilma uma subida nos índices de preferência.
E assim segue a disputa presidencial. Como uma gangorra imprevisível. O cenário é de incerteza, o momentum muda de mãos a todo instante. Os tucanos agora terão de reagir. E a volta do que não foi, Aécio Neves como vice, pode significar o novo fato político a mudar a direção dos ventos.

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Do enxoval à mortalha

Por Wilson Figueiredo

Ao referir-se ao Brasil, que não lhe merece respeito, o presidente Lula tem sido mais cuidadoso quando fala para fora do que quando se dirige aos brasileiros como se falasse sozinho. Usa a arte de não falar para ninguém. Em princípio, trata com desenvoltura do Brasil que inventou para uso pessoal e consumo alheio. Mas geralmente não cuida do país que conhecia de raspão e não lhe deve retribuição pelo que conseguiu antes dele e pelo que colherá depois. Governos passam, e pouco fica. Lula não aguentou, entre duas derrotas eleitorais, valer-se do gabinete de ficção política para acompanhar o governo alheio e adiantar o aprendizado que a pressa interrompeu. É um governo em trânsito. Desde que chegou ao poder, e depois de resolver o problema do mensalão, não teve mais do que se queixar. A oposição se resignou à balela da fatalidade histórica, e não sobrou ao presidente Lula sequer um companheiro da velha guarda em condições de fazer carreira à sua sombra. Trabalhou bem e se resguardou ainda melhor. Nem Stalin conseguiu tanto com tão poucas baixas. E em muito menos tempo.

Na sua faixa de onda predileta, o tom coloquial que sintoniza o presidente com maior número de brasileiros pela língua geral que costurou a unidade nacional (com a colaboração nunca assaz louvada do feijão, do futebol e peculiaridades exclusivas). Luiz Inácio Lula da Silva não perde oportunidade de ser mais Lula do que Silva. A curto ou a longo prazo, tanto faz, sempre está fazendo investimento político e colhendo resultados alheios. E acomoda novos admiradores, como acaba de suceder ao candidato social tucano José Serra, que o proclamou acima do bem e do mal, onde ele, Lula, monopoliza os benefícios sociais e deixa para a oposição a culpa pelos males passados e futuros. Os presentes estão sob controle oficial. Por enquanto, seus cálculos não ultrapassam a barreira de 2014, como já está. Dilma sabe que está condenada a abrir mão do segundo mandato como quitação do primeiro (claro, se lhe cair ao colo). A exceção é o preço a pagar pela recaída eleitoral que veio para ficar, até a República se lembrar dos fundadores que exorcizaram a reeleição. Foram cem anos imunes.


Falta agora, mas não é prioridade, o presidente confirmar a cada dia que não precisa mais preocupar-se com a eleição presidencial. Já considera favas contadas para o PT a sucessão que ele reboca enquanto a oposição, sem sair do lugar, se esfalfa para gaguejar a mesma língua, travada pela falta de sotaque popular.

Do lado oficial, a cada curva fechada, os petistas insatisfeitos com as concessões de princípios no varejo político vivem o desconforto de divergências menores, que se multiplicam nas complicações estaduais atreladas à estratégia federal. Aí também Lula vende, simbolicamente, otimismo a perder de vista para inadimplentes e executados. Já ficaram pelo caminho muitos candidatos cuja vitória Lula anunciou em vão e ninguém lhe cobrou. Os que discordam vão caindo fora e abrindo espaço aos pragmáticos, que não se queixam e se arrumam a esse preço módico. Para Lula, está tudo dominado, como se diz morro acima e abaixo, desde que desceu sobre o primeiro ato, ou primeiro mandato, a insubstituível cortina da aparência para tirar de cena o mensalão. De dois mandatos presidenciais, não sobrou nenhum companheiro com quem dividir os encargos do poder e as vantagens compensatórias.

Esta sucessão já está no papo, foi o que o presidente declarou em razoável português (ou, mais provável, em dialeto portunhol) ao jornal espanhol El País. Uma cortina de fumaça disfarça pormenores que tendem a crescer com o aprofundamento das diferenças e semelhanças que, ao invés de somar, incompatibilizaram o petismo e a social-democracia. Lula faz a sua parte, aqui dentro ou lá fora, com os dons e dotes que trouxe da vida sindical, enquanto espera a candidata Dilma Rousseff firmar-se nas próprias pernas e aprender a falar, sem sotaque burocrático, língua de gente que supre de votos urnas insaciáveis, que decidem eleição. Dilma está demorando a se desfazer das pequenas gafes com as quais uma candidata, invertendo a ordem dos fatores, compromete o produto: pode fazer mais depressa a própria mortalha do que o enxoval para a solenidade de posse.

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A biruta patusca do presidente Lula

Por Villas-Bôas Corrêa


Não é emotivo para graça mas, ao contrário, para preocupação a estranha mudança no temperamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não está dizendo coisa com coisa, como uma biruta aloprada que aponta para todos os lados, com a leviandade de quem carrega o peso do cargo, com suas obrigações e responsabilidades no período de pré-campanha, por ele antecipada ao expor a sua candidata, Dilma Rousseff, ao constrangimento das críticas da oposição e da imprensa.
Ficou difícil acompanhá-lo no ziguezague das contradições. Uma no cravo outra na ferradura. Ou no óbvio, como o dispensável conselho acaciano sobre a encruada escolha do vice da candidata que retirou do bolso do colete, que não usa: “O melhor vice é quem se der bem com a Dilma. Vice é como casamento. O Temer é um bom nome”. Ora, a escolha do deputado Michel Temer, presidente da Câmara e do PMDB, está sacramentada desde o começo do ano. E dispensa o carimbo do presidente no contrato firmado e registrado no cartório da evidência. Sem o apoio do PMDB a candidatura de Dilma não existiria.
Adiante. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), supõe-se que como porta-voz do presidente Lula, afirmou que a prioridade para o governo é a votação dos projetos do pré-sal e não o da Ficha Limpa, que veta candidaturas de políticos com a condenação de um colegiado da Justiça. Trata-se, segundo o líder do governo, de um projeto que é da sociedade, mobilizada para conseguir mais de 1,7 milhão de assinaturas.
Mas Lula passou o recado ou apenas o palpite de que apenas o condenado em todas as instâncias será impedido de disputar um mandato. Em que ficamos? Por enquanto no ar, balançando no trapézio da confusão. Em cautelosa precaução, o senador Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB, sustenta que a prioridade da votação da proposta do Ficha Limpa é absoluta, pois, além da evidência da sua urgência e oportunidade, trata-se de um projeto de iniciativa popular. A aragem que sopra em Brasília chegou ao gabinete da juíza Gislaine Carneiro Campos Reis, da 8ª Vara da Fazenda Pública, que condenou o notório ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (PSC) e a sua vice Maria de Lourdes Abadia por improbidade administrativa. No caso, reincidentes. E saiu barato para a dupla. A Justiça fisgou o ex-governador por ter aceitado carona no helicóptero oficial em maio de 2006 (é lenta a Justiça na capital e em todo o país) quando a vice Maria de Lourdes havia assumido o cargo. E, como a Viúva além de cega é perdulária, o ex-governador Roriz e a governadora em exercício voaram durante seis dias no helicóptero para levar a dupla a eventos sociais. Ao fim do dia, o ex-governador Joaquim Roriz era deixado de helicóptero em sua residência, em Brasília, ou em sua fazenda em Luziânia, Goiás.
Antes de embarcar para o Irã, em mais uma viagem internacional da sua agenda de um dos líderes mais populares do mundo, o presidente Lula deixou como tema para distração do público um cacho de declarações que batem cabeça no xadrez das contradições. No encontro com os companheiros do Grito de Terra 2010, que reúne pequenos agricultores ligados à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com a voz no tom emocionado, o presidente anunciou que após deixar o cargo, em 1º de janeiro de 2011, percorrerá o país “fazendo política”. E, na forma do costume, uma alfinetada no antecessor, FHC: “Não vou dar pitaco no novo governo, porque eu quero que eles digam que nunca um ex-presidente na história deste país foi tão ex-presidente”.
Como de boas intenções o inferno está cheio, as do presidente Lula duraram menos que uma rosa. Na entrevista ao SBT, Lula voltou ao natural. E bateu firme: “É uma constatação de fato. Porque essa gente que vive com o nariz torto tentou destruir este país. Eu gostaria de ser economista. Acho chique. Eles sabem tanto número! E quando é oposição sabem mais ainda. O Serra agora está sabendo tudo que não sabia quando estava no governo”.
No galeio para saltar a contradição reafirmou que quando deixar o governo não dará palpite sobre a administração de quem o substituir. Palavras, o vento leva...

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Como se prepara uma conquista

Por Mauro Santayana

Desde que existem fronteiras, existem guerras. As guerras se fazem sobre as fronteiras, para que se abram aos invasores. Ao se abrirem, deslocam-se, em favor dos que vencem, cujo espaço se vê ampliado. Há as fronteiras físicas, eventualmente com suas fortalezas e seus obstáculos naturais, e há as fronteiras morais. O povo invadido não se defende apenas com as armas, por mais poderosas sejam; defendem-se com sua bravura, sua honra, seu sentimento de fraternidade.

É natural que os homens morram na defesa de suas ideias e de sua dignidade, mas para isso devem nelas acreditar como alguma coisa maior do que eles mesmos. Nenhuma outra ideia, nenhum outro compromisso, é maior do que a ideia de pátria, que aceita e amplia o sentimento de família. O homem que morre na defesa de sua pátria, morre na defesa de seus filhos e de todos os filhos, de todas as mulheres, de todos os anciões de seu povo. Por isso, a defesa é mais poderosa do que o ataque – como temos visto em todas as guerras. A defesa se transforma em ataque, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial. A resistência russa, nas portas de Moscou e na gesta desesperadora de Stalingrado, se converteu na cena orgulhosa do soldado que fixa a bandeira vermelha no alto do Reichstag, em Berlim.

As guerras não são fenômenos repentinos na História. Muitos estudiosos vão à mitológica Guerra de Troia, na versão de Homero, com seus paradigmas de astúcia, heroísmo, covardia e traições, para nela encontrar o exemplo clássico dessa patologia: todos os conflitos anteriores e todos os que se seguiram se explicam com a expedição de Agamenon, a astúcia de Ulysses, o inútil “corpo fechado” de Aquiles, com seu calcanhar vulnerável, a coragem de Ájax no confronto com Hector, a enigmática figura de Palamedes.

A guerra está presente em todas as comunidades humanas, seja na conquista ou na defesa. Um dia, se houver Deus, é possível que haja paz. Não tem havido paz. Assim, os agressores, mais do que pensar nas defesas físicas do presumido inimigo a ser conquistado, buscam atingir previamente sua armadura moral. Uma desmoralização fácil, e de que se valeram os nazistas, é a racial. Sendo diferente, o inimigo deve ser aniquilado: não faz parte da nossa espécie. Os mais velhos se lembram das histórias em quadrinhos americanas, nas quais os japoneses eram caricaturados como se fossem símios, e os alemães sempre obesos e embriagados. Para combatê-los, surgiu a nova mitologia dos super-homens, dos fantasmas-voadores, dos capitães-américa.

Depois de Avatar, de James Cameron, uma alegoria claramente identificada com a Amazônia, sua biodiversidade e seus minérios, a cineasta Kathryn Bigelow anuncia película a ser ambientada na Tríplice Fronteira. Alguns senhores, de curta inteligência ou de duvidoso patriotismo, saúdam a iniciativa, como promoção do turismo. Não percebem que se trata de abrir caminho a futura ocupação da área, anunciada durante o governo Bush, contra a soberania do Brasil, da Argentina e do Paraguai, a pretexto do “combate ao terrorismo”. Trata-se da construção de uma ideia da região, que nada tem a ver com a realidade, e da justificação subliminar para operações das Forças Armadas norte-americanas na área. Para isso, os ianques já construíram grande pista de pouso no Chaco paraguaio.

Os três governos atuam em conjunto para reforçar a vigilância nas fronteiras, contra o contrabando e o tráfico de drogas, além de outras formas do crime organizado. A eles cabe – e a ninguém mais – cuidar dos interesses comuns, na defesa da soberania de cada um de seus países e da paz para seus povos.

Os americanos se movem pela fé no Destino manifesto. Não se trata somente de política de Estado, mas de certa crença nacional, consolidada pelos meios de comunicação, a partir de Hearst e Pulitzer, e robustecida pela indústria cinematográfica, de que se imbuem cineastas como Cameron e Bigelow. Desde os gregos o entretenimento é instrumento de convencimento político. Temos todo o direito de recusar a entrada, em nossos países, dos que nos querem engambelar com a magia do cinema. Os colares de miçangas e os presentes de grego mudam de formato e de conteúdo, mas o propósito de conquista e domínio continua o mesmo.

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Soberania e agricultura

Por Mauro Santayana

Há muitos anos que, sob a negligência do Estado, empresas e instituições estrangeiras compram terras no Brasil. Na Amazônia, já nos anos 60, chegou-se a detectar estratégica localização progressiva dessas glebas, de forma a estabelecer uma faixa em arco que dividiria o território em duas partes, ao norte e ao sul. É antiga a aspiração americana a estender sua soberania a todo o hemisfério.

Entre outros planos alheios para a região, houve a ideia estapafúrdia do futurólogo Herman Kahn, ainda nos anos 50, de construir imenso lago interior, com o represamento de seus grandes rios. A dimensão do lago pretendido difere, conforme as fontes: de 180 a 500 mil quilômetros quadrados (a represa de Tucurui não chega a 2.500 km²). Que o alucinado cientista norte-americano projetasse o lago (e a internacionalização do território) podemos entender; o que assustou foi a adesão de importantes personalidades brasileiras ao plano.

A aquisição de terras amazônicas se agrava. Ainda nos anos 70, calculava-se em 20 milhões de hectares as glebas adquiridas por multinacionais sob controle norte-americano, como eram a Georgia Pacific, a Anderson Clayton, a Goodyear e a Swift-Armour, algumas destinadas à pecuária extensiva, com incentivos do Estado, e outras à exploração madeireira e mineral. Temos tido, ao longo do tempo, posição defensiva com relação à soberania na Amazônia, quase pedindo desculpas ao mundo por possuirmos 60% de sua área. Por isso, não demos a devida resposta a Al Gore, que disse, textualmente, que a Amazônia pertence ao mundo e não aos brasileiros. Seria interessante saber como os Estados Unidos reagiriam diante da proposta de internacionalização do Alasca, e se os russos admitiriam a soberania mundial sobre a grande floresta de coníferas da Sibéria, com suas grandes reservas aquíferas e suas incalculáveis jazidas minerais.

Agora não é só a Amazônia e outras regiões que têm suas terras alienadas. Empresas e governos da China, da Coreia do Sul, da Indonésia, estão negociando com os governos dos estados da Bahia, do Maranhão, do Piauí e de Tocantins a compra de vastas glebas, destinadas a projetos agrícolas. Pretendem produzir grãos para o consumo de seus povos, já que não têm disponibilidade de terras férteis em seu próprio território. É incompreensível que esses governadores, todos em fim de mandato, se disponham a negociar com os estrangeiros, quando a política externa é assunto exclusivo da União e a aquisição de terras é uma questão de soberania nacional. Segundo informa a Folha de S. Paulo, o governo da Bahia irá enviar uma delegação à China para cuidar do tema. Temos sido negligentes, e é hora de reação contra essa continuada e solerte ocupação do território brasileiro. Os candidatos à Presidência da República são convocados a dizer o que pensam disso.

Não necessitamos de capitais, nem de tecnologia para a exploração das nossas terras. A Embrapa é hoje referência mundial em agricultura tropical e em terras temperadas. Se os coreanos, japoneses, chineses, dinamarqueses ou alemães quiserem consumir grãos produzidos no Brasil, que os adquiram dos brasileiros, de acordo com o interesse mútuo. Temos que agir, no intercâmbio de mercadorias com os outros países do mundo, em absoluta igualdade de condições, e como temos procurado fazer, sem intermédio do dólar.

Ficha limpa

Mais importante do que a aprovação, pela Câmara, do projeto de iniciativa popular que exige ficha limpa dos candidatos aos cargos eletivos, é a própria ação da cidadania. Com seus poucos recursos, os cidadãos se organizaram, realizaram uma campanha nacional e conseguiram colher quase 2 milhões de assinaturas, obrigando o Congresso a aceitar o projeto. Não há dúvida de que, por iniciativa de qualquer um de seus membros, o Parlamento atual jamais aprovaria proposta dessa natureza.

O crescimento da consciência da cidadania, principalmente nestes últimos anos, se deve a muitos fatores, entre eles a melhoria do padrão de vida dos brasileiros e de sua educação cívica. O povo constata que esta é uma conquista que deve ser preservada, o que exige o aprimoramento moral da representação política.

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Os banqueiros e a noite em Jaçanã

Por Mauro Santayana


Como já descobriram os estudiosos há, acima dos partidos e das instituições políticas, o que se convencionou chamar de poderes de facto. Esses poderes de fato sempre se fizeram com o dinheiro. Nem mesmo a democracia grega deles escapou: os ricos, que participavam do financiamento do Estado com seus recursos (o sistema era chamado litúrgico, termo de significação política que, como tantos outros, foram apropriados pela Igreja), não só contavam com o reconhecimento público: exerciam diretamente o poder.

A tautologia do discurso histórico político é o do confronto entre os ricos, com seu poder, muitas vezes tirânico, e a resistência dos pobres. O que era muito claro na Antiguidade, sobretudo na República Romana, cujo sistema, conforme Tito Lívio, se fundava na tensão permanente entre a aristocracia e a plebe, é hoje mais dissimulado, em consequência da influência da cultura – e dos meios de comunicação.

Há dias, em encontro realizado em Porto Alegre, alguns participantes pleitearam a presença de empresários na ação política direta. Há, no entanto, os que têm direito a reclamar da excessiva presença de homens de negócios – e seus prepostos diretos – nas casas parlamentares. Lula declarou recentemente que os governos, em geral, se elegem com os votos dos pobres, mas atuam em benefício dos ricos. Ou, conforme constatação clássica, o poder é como o violino: pega-se com a esquerda, mas se toca com a direita.

Ainda que a vida dos trabalhadores tenha melhorado consideravelmente nos últimos cem anos (e, desses cem, faça-se justiça, de forma notável no Brasil dos últimos oito), o sistema expeliu da vida econômica milhões de seres humanos, que se transformaram em novos miseráveis. Calcula-se que só na cidade de São Paulo haja 20 mil moradores de rua. Vinte mil, menos seis – que foram assassinados em Jaçanã na madrugada de ontem. Eles não têm para quem apelar. Não recebem bolsas de alimentação do Estado, não se incluem no Programa Minha Casa, Minha Vida, e é certo que não poderão votar – privilégio de que serão assistidos alguns recolhidos ao sistema penitenciário brasileiro. São como cães. Vivem nas ruas, como cães. Como cães, devem servir-se das sobras, a cada dia mais suspeitas. Como cães são abatidos, como os seis de Jaçanã – a outrora romântica Jaçanã de Adoniran Barbosa e o seu Trem das onze.

Ao mesmo tempo em que o Estado terá que se desfazer desses seis corpos e explicar por que, um dia antes, soldados da Polícia Militar espancaram até a morte um motoqueiro, na presença da própria mãe, na porta da própria casa, os maiores bancos brasileiros registram novo recorde em seus lucros. Esses lucros tendem a crescer em curto prazo, com o aumento da taxa de juros, decidida recentemente pelo Banco Central. Todos estão ganhando na economia brasileira – menos os 20 mil párias de São Paulo e os milhões de párias do resto do Brasil. Por tudo isso é pertinente discutir o papel do Banco Central na vida brasileira. Os bancos centrais do mundo – mesmo os descentralizados que constituem o Federal Reserve norte-americano – são, na realidade, centrais de bancos. Eles existem para assegurar a transferência de recursos do trabalho para a voraz especulação financeira.

Os europeus vivem nova crise econômica assustadora, e os Estados Unidos não saíram da enrascada de 2008. Todos – até os ratos que passeiam pelos esgotos de Wall Street – sabem que a crise é resultado das falcatruas dos banqueiros, com a cumplicidade dos órgãos reguladores. Aqui, no Brasil, se fosse possível auditar os últimos 40 anos, saberíamos quanto o contribuinte foi roubado nas falências dos bancos, sem falar no famoso Proer.

Se José Serra está sendo sincero, ou não, é difícil saber. Mas quando o candidato, provocado por uma colunista muito próxima do setor financeiro, coloca em dúvida a infalibidade do Banco Central, as pessoas mais bem informadas concordam. É certo que, embora não a tenha ainda de jure, o Banco Central goza de plena autonomia de facto. O que é coerente: a instituição é instrumento daqueles que detêm os poderes de facto em nosso Estado aparentemente republicano, e fazem as leis. É hora de submetê-lo aos interesses do povo, nele incluído os que dormem – e morrem – sob os viadutos de São Paulo.

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Casos muito especiais

Por Wilson Figueiredo

Desde que se decidiu a bancar a eleição do seu sucessor – menos por ela, Dilma Rousseff, do que por ele próprio – o presidente Lula parece outro, sem deixar de ser o mesmo. Vive de olho no futuro imediato e, da maneira como fala, dá a impressão de já se ver projetado nas páginas da História do Brasil, reinstalado no poder virtual com que sonha à sombra da candidata que tirou do nada.

Até aqui, onde quer que se apresentem em dupla, o presidente tem sobressaído mais do que a candidata. O fato com peso a ser considerado – tanto pelo próprio Lula quanto pelos que querem vê-lo pelas costas – é que eleger sucessor equivale praticamente a voltar ao poder por interposta pessoa. Nada impede que o eleitor possa mentir às pesquisas e guardar a preferência para as urnas. Acontece sempre que parece menos provável. Desde que o voto direto veio para ficar, em 1945, não há exemplo de presidente que se tenha comprometido em fazer o sucessor. A candidata Dilma é a sombra de Lula no ocaso. Considerando que ela representa, antes de tudo, a preferência dele, conviria ao próprio alguma discrição em embolsar o poder virtual sobre a candidatura dela, para assegurar o poder real na volta em 2014 (se tudo transcorrer de acordo).


O primeiro presidente eleito por voto direto mesmo foi o general Eurico Gaspar Dutra, sempre referido, por picardia, como o condestável do Estado Novo. Dutra deixou o Ministério da Guerra para ser candidato da máquina montada pelos governadores do Estado Novo e garantir normalidade na transição. O candidato da oposição, o brigadeiro Eduardo Gomes, pela mesma razão. No auge da expectativa de que algo estava sendo tramado, os dois se entenderam e acertaram, com a participação do Exército, a deposição do ditador Getulio Vargas, dia 30 de outubro de 1945: por fomentar surpresas por fora das urnas. Não saiu da sombra a versão de que a eleição do presidente Dutra se deveu à recomendação de Getulio Vargas, naqueles trinta e poucos dias apertados entre a deposição e a eleição. Por toda parte, lia-se apenas: “Ele disse: vote em Dutra”. A concisão telegráfica dispensou a necessidade de citar o nome. Todos sabiam. Era Getulio Vargas.

Foi este o único exemplo de participação direta de um presidente que, embora arrancado do poder um mês e alguns dias antes, interferiu decisivamente na campanha. Lula não ouviu falar das palavras do general Dutra ao anunciar, no discurso de posse, que seria no governo “o presidente de todos os brasileiros”. Lula deixa por menos. O aspecto desagradável e acintoso no procedimento do presidente Lula é que, por trás do empenho pessoal em eleger sua candidata, o objetivo se confunde com a ideia subjacente em tudo que faz em nome da sucessão presidencial: voltar ao poder e, enquanto espera 2014, dispor virtualmente do mandato alheio.

A situação não melhorou enquanto a candidata e o padrinho apareceram juntos. Separados foi pior. E agora? A primeira tentativa de seguir cada um por um lado também não melhorou nas pesquisas de opinião. Na República Velha, que durou de 1889 a 1930 e evitou a reeleição, um único presidente se reelegeu anos depois de cumprir o primeiro mandato. Mas Rodrigues Alves morreu antes da posse.

Nem mesmo os generais presidentes conheceram êxito no encaminhamento do sucessor porque, antes de irem ao Colégio Eleitoral, e pela própria natureza do regime, os candidatos eram objeto de silenciosa e minuciosa avaliação na cúpula das Forças Armadas. Não estava nas considerações do general Castello Branco ser sucedido pelo seu ministro da Guerra, mas foi Costa e Silva quem representou a média de opiniões militares. Que, por sinal, foi substituído pelo general Emílio Garratazu Médici, por sua vez forçado pelas circunstâncias militares a aceitar a contragosto a candidatura do general Ernesto Geisel, que tentava ver, no fim do túnel, o que se pudesse entender por saída segura. Por último, exceção histórica, a vontade de Geisel prevaleceu no encaminhamento do general João Batista de Figueiredo. Mas às exceções cabe apenas confirmarem a regra. E, na sequência, a tortuosa e caprichosa volta à legalidade, com suas consequências e inconsequências. Nossa democracia dispensa o voluntarismo, que não se nutre de boas intenções e nada tem a oferecer ao aperfeiçoamento dos costumes políticos.

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Pela não aproximação entre o PT e o PSDB

Depois de enfrentar um período de turbulências, com o crescimento contínuo da candidatura governista da ex-ministra Dilma Rousseff (PT), a oposição está otimista. A tal ponto que o ex-governador José Serra (PSDB) já arrisca comentários que, à esta altura do campeonato, tão longe das eleições de outubro, podem soar como um canto de vitória antecipado. Serra convidou o PT e o PV para integrarem seu governo, se for o eleito. A declaração foi dada no primeiro debate entre os três principais presidenciáveis, organizado pela Associação Mineira de Municípios.
O convite de Serra veio em resposta a uma crítica de Marina Silva (PV) que, em defesa dos valores éticos, questionava a política de alianças partidárias de petistas e tucanos. “O PSDB tentou governar sozinho e acabou ficando refém do que havia de pior no Democratas. Nós do PT tentamos governar sozinhos, sem conversar com o PSDB, e acabamos ficando reféns do que havia de pior no PMDB”, disse a senadora, ex-petista.

Serra, em seguida, emendou: “Vou dizer o seguinte, Marina. Se, depois da campanha, eu for eleito, vou querer, e pode parecer uma heresia, viu Dilma, tanto o PT quanto o PV no governo. Em função de objetivos comuns. Com base no programa. Nada de relação pessoal. A gente deve maximizar forças, aumentando a representatividade dos setores políticos”, disse o pré-candidato peessedebista.
Reflexo do salto alto na campanha tucana? Demonstração sincera de uma visão política programática e agregadora? Ou apenas uma estratégia eleitoral? (Afinal, para Serra, líder nas pesquisas de opinião, o discurso é conveniente e tem vários efeitos: serve de vacina para ataques mais duros que virão (ao criar um clima de “somos iguais”, temos “objetivos comuns”); esboça uma ascendência moral em relação às adversárias (ao tentar dar o tom conciliador, de magistrado, “do” mais experiente); e se encaixa na tática tucana de evitar o confronto e apresentar uma candidatura pós-Lula).
Pode ser um pouco de tudo isso a sugestão de Serra. Mas as perguntas mais importantes são: uma união entre PT e PSDB, os dois partidos que se transformaram em polos da política nacional, é 1) factível e 2) desejável?
A resposta mais direta à primeira pergunta é: não. Por mais que se remonte às afinidades, às origens ideológicas mais ou menos semelhantes entre os dois partidos, nascidos na social-democracia, a luta política que PT e PSDB travam há 16 anos, no plano federal, deixou marcas. Na disputa, inicialmente pela primazia da centro-esquerda, e depois de estratos mais amplos do eleitorado, os dois partidos fizeram suas escolhas e construíram seus discursos em oposição um ao outro. A rota, no que tange às alianças, foi parecida. Até pela impossibilidade de união entre os dois . O PSDB apoiou-se em legendas de direita, como a aliança férrea com o DEM. E o PT também recorreu a coalizões heterodoxas, governando com a trinca PTB-PR-PP, que servira igualmente aos tucanos. Trajetórias explicadas em boa parte pela necessidade de se construir maioria num sistema multipartidário fragmentado. Por não se bicarem e pela imposição do presidencialismo de coalizão, PT e PSDB, duas das legendas mais programáticas, encabeçaram, cada uma em seu governo, um rol de siglas e políticos tidos como clientelistas, fisiológicos e corruptos. A ideia, que não é nova e há muito tem seus defensores, seria algo do tipo: por que não juntar o melhor dos dois mundos, o PT e o PSDB, eliminando seus parceiros mais detestáveis?
Mas isso seria desejável? Ao que tudo indica, também não. Nem tanto porque tucanos e petistas tenham projetos e estilos diferentes, mas porque uma estrutura de competição como a que o sistema político brasileiro tem hoje não se faz de uma hora para outra. Um país que a cada eleição ressente de ter uma terceira via forte que vantagem terá em perder até mesmo a sua segunda via? A aproximação entre PT e PSDB não seria sensata. Mistura, confunde. E faz o Brasil retroceder numa das características mais importantes em qualquer democracia, à qual o país chegou sem muito esforço: oferecer opções claras, programáticas, de governo aos seus eleitores.

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Do mensalão ao ‘rebolation’

Por Wilson Figueiredo

Há quem desconfie, com as ressalvas e incoerências inerentes ao personagem, que o presidente Lula já se deu conta de que a candidata Dilma Rousseff não correspondeu às expectativas dele e, cada vez mais, é do agrado da oposição. A seu ver, já se dissipou o saldo favorável que aliviou a constrangedora atmosfera em que se envolveu pessoalmente no caso do terceiro mandato.. A candidatura Dilma pegou de galho e aliviou as costas presidenciais da suspeita de que ele estava por trás da iniciativa, por falta de paciência para esperar a sucessão de 2014.

Suspeita-se, pela descontração presidencial, que Lula se enfarou de ser bedel de candidaturas espalhadas por todo o país. A distância que está aumentando entre o presidente e a campanha de dona Dilma significaria, na melhor das hipóteses, que Lula leva em consideração outros aspectos que desconsiderou antes. Eleição é areia movediça. A distância que vai se interpondo entre Lula e a campanha está aberta a interpretações tanto naturais quanto sobrenaturais. É verdade que a candidata tem feito por onde ser reavaliada enquanto for tempo. Falta-lhe, de modo geral, o que em francês fluente os poliglotas chamam de physique du role. Ou, em bom português, no caso, a recomendável bossa para empreitada eleitoral.


Lula percebeu em tempo que era caminho sem volta deixar correr no Congresso a emenda constitucional, já com numero suficiente de assinaturas e o ostensivo patrocínio do próprio vice-presidente em exercício áulico. Tratou de cair fora. Retirou, ainda cru, da boca da oposição, o pão do continuísmo que não ia atenuar a fome de democracia na opinião pública quando (por acaso?) se expandia como gripe a ideia sul-americana de outorgar ao eleitor o poder de permitir aos governantes, de acordo com a conveniência de cada um, mais de dois mandatos consecutivos.



Desse ponto de vista, Lula acertou na mosca que zumbia na sua insônia. Poucas vezes, na história deste país, um governante soube sair tão lépido de uma armadilha. A troca do plebiscito pela candidatura feminina arquivou tanto o mensalão de triste memória quanto o terceiro mandato, de odor venezuelano, que fez republicano da gema torcer o nariz com empáfia cívica. Afinal, o Brasil foi, mas não se orgulha disso, o reformador das ditaduras tradicionais, com a associação do rodízio dos presidentes e a eleição indireta. Uma ditadura arejada pelo revezamento de presidentes e um bipartidarismo simplificador (um no poder e o outro eternamente na oposição). Funcionou enquanto foi possível e, quando deixou de ser, a oposição foi para o poder. Tudo voltou a ser como sempre foi. O passado fez o exercício de casa e, de modo redundante, continuou. Sem alarde e sem acerto de contas.

O efeito realmente novo, seis mandatos depois de eleições indiretas e diretas, veio a ser a candidatura Dilma Rousseff, que deu cobertura a Lula para se recompor com o alto juízo em que se tem e que o autoriza a zombar da oposição como se a sucessão fosse uma peça de Luigi Pirandello. Não é, mas passa perto do princípio pirandelliano, segundo o qual “assim é se lhe parece” e pelo qual se estrutura a vida representativa brasileira. E, se assim parece ao próprio Lula, muito mais ao petismo, pois se trata de solução respeitosa à democracia, e republicana sem deixar de ser à moda brasileira. Ficou subentendido, nos dois últimos anos do segundo mandato de Lula e no nascimento da candidatura Dilma Rousseff, o que poderia perfeitamente ser definido como rebolation, para elidir o intervalo entre o mensalão e a sucessão.


Este faz de conta democrático preencheu o vazio de ideias políticas à altura das necessidades, mas não autoriza otimismo segundo o qual é página virada o apelo ao retrocesso democrático, em nome da necessidade de evitar riscos inerentes à democracia. Do lado oficial, sem obras para mostrar, a candidatura de uma figura feminina de forno e fogão na sucessão contribuiu para conter os petistas e o petismo. O saldo social dos dois mandatos transcorridos tem mais peso histórico do que político. Lula demonstrou ser perfeitamente possível reduzir a desigualdade social sem colidir com a democracia. O resto de dois mandatos foi, em boa parte, zelar pela herança da social-democracia que precedeu o petismo e ainda sobra para quem chegar lá.

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O eleitor não quer ser enganado

Por Villas-Bôas Corrêa


Pelo noticiário das redes de televisão e pelos jornais procurei saciar a curiosidade sobre o primeiro debate dos três principais candidatos ou pré-candidatos à sucessão do insubstituível presidente Lula, o líder mais popular do mundo, promovido pela Associação Mineira dos Municípios, em Belo Horizonte, e que reuniu Dilma Rousseff, do PT, José Serra, do PSDB, e Marina Silva, do Partido Verde (PV).
Li e reli os principais tópicos assinalados na primeira leitura. E, com a mais absoluta franqueza, curti ao longo do dia a frustração que mistura a superficialidade do falatório da trinca, com ressalvas quanto à candidata do PV. E o tom que procurou ser natural e descontraído da parlapatice do candidato da oposição, José Serra (PMDB), com o riso forçado para passar a impressão da cordialidade, quando o que o eleitor reclama são propostas polêmicas que definam a linha política de cada um. Marina Silva criticou as concessões que os partidos de Dilma e de José Serra fizeram quando assumiram o poder. As carapuças enterram na cabeça de Fernando Henrique Cardoso, o criador da praga da reeleição que acanalhou as campanhas para os três níveis de executivo - presidente, governadores e prefeitos - e na do PT de Lula. Marina reconheceu o erro do PT, quando era filiada ao partido: “Nós tentamos governar sozinhos, sem conversar com o PSDB, e acabamos reféns do que havia de pior no PMDB”.
Pouco mais se aproveita do bate-papo inaugural da série de debates na fase decisiva da campanha, transmitidos ao vivo pela televisão e comentados em largos espaços nos jornais e revistas. Desembaraçado da seriedade de governador de São Paulo, o candidato José Serra estava com a corda toda. Surpreendeu as duas candidatas com o pré-convite patusco: “Se depois da campanha eu for eleito (e ninguém é eleito antes da campanha), vou querer – e pode parecer uma heresia – tanto o PT quanto o PV no governo. Com base no programa Nada de relação pessoal”.
É apenas uma galanteria do candidato que, se levada a sério, extinguiria a oposição.
A cantilena do trio não destoa das queixas de candidatos à reeleição, que atribuem à má vontade da imprensa o desinteresse do eleitor pela pré-campanha, que pode levar a um número desqualificante de votos nulos ou em branco. Pois, melhor nem de encomenda. Na noite de quarta-feira, dia 5, não exagero afirmar que tive a honra de dividir com o escritor e comentarista político Merval Pereira, de O Globo, duas horas de palestra na Casa do Saber, a primeira de uma série de debates com o público.
Como são centenas as testemunhas, não receio desmentido. Em várias salas, outros temas atraíram os interessados. Mas a notícia do debate político encheu o salão. Assistência de todas as idades, muitos com cadernos para anotações, por duas horas e quebrados, com intervalo de dez minutos para esticar a perna e outras serventias, não arredou pé. Não saiu ninguém, tocado pela pressa ou o cansaço. E o debate aberto para perguntas garantiu o sucesso. Modéstia à parte, meio a meio com o Merval, fomos aplaudidos de pé por alguns minutos.
E é simples a chave que abre o cofre arrombado do segredo. Nós estávamos ali para o depoimento franco. E a crítica direta e a análise sem meias palavras do pior Congresso de todos os tempos, o mais enlameado em escândalos. Na defesa da porta trancada da saída, que começa pela reforma política, com a Constituinte ou mesmo com emendas constitucionais que acabem com a orgia da roubalheira milionária da capital, que é a mais bela do mundo e que vem sendo pilhada por governadores de opereta, Assembleia Legislativa, o Roriz que favelizou a capital inaugurada antes de estar pronta e vem sendo saqueada por governadores que distribuem pacotes de notas aos cupinchas. E pelo Congresso das mordomias, vantagens, passagens aéreas para o fim de semana no feudo eleitoral.
Esses são os temas que o eleitor quer que os candidatos discutam. Batendo no peito as pancadas do arrependimento. É só esperar para conferir.

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Os desafios da liberdade

Por Mauro Santayana


O que tem faltado ao nosso tempo é o respeito ao lugar-comum. Quando tentamos fugir do pensamento singelo, quase sempre caímos em esparrelas, algumas risíveis, outras, trágicas. Um dos lugares-comuns da história do homem é o de que ele só se libertou de sua condição animal com a palavra. A palavra foi o resultado de uma conjunção favorável da anatomia e da fisiologia dos primatas superiores com a necessidade de sua sobrevivência. O homem é homem porque se comunica, revela-se ao outro. Para que continuasse a crescer, foi preciso que inventasse a escrita, registrável em suportes duradouros, como as pedras, o papiro, o pergaminho – e o papel. Verba volant, scripta manent.

É inconcebível – e voltamos a outro lugar-comum – que se arrolhem as gargantas, que se costurem os lábios, que se amordacem os homens. Se é inconcebível que assim se faça, igualmente inconcebível é que se atem os dedos e as mãos, a fim de impedir que se escreva.

Cada um de nós tem o direito de escrever o que pensa e divulgar o que escreve, como assegura a Constituição, na definitiva interpretação do STF. Não podemos admitir que se impeça a difusão do que se escreve. Assim chegamos às ameaças constantes à liberdade de imprensa. A discussão pode parecer anacrônica, quando a irrupção da internet, como meio instantâneo de comunicações, permite a qualquer um dizer o que pensa. Pela internet podemos reproduzir os belos sonetos de Shakespeare, mas, da mesma forma, propagar nefandas ofensas.

As empresas brasileiras de comunicação, de acordo com o que se informa, pretendem criar sistema autorregulador que discipline a atividade. Por mais generosa seja a ideia, ela em pouco difere de outra, nascida do corporativismo sindical, de se criar um Conselho Nacional de Jornalistas, que a consciência de muitos jornalistas e dos cidadãos repudiou. As empresas de comunicação, ao conceber o órgão autorregulador, nos ameaçam com a consolidação do pensamento único, de que a sociedade está sendo vítima, a partir da predominância dos interesses econômicos sobre os direitos sociais – enfim, do mal chamado neoliberalismo.

A História é uma construção dos rebeldes, dos inconformados, dos hereges e dos subversivos de cada tempo. Assim, o primeiro cuidado dos totalitarismos é tentar algemar as ideias. Mediante a censura, eles conseguem – por algum tempo, mas nunca para sempre – esconder seus crimes, dissimular a tirania, converter ditadores em sujeitos comuns, como ocorreu no Brasil durante o governo Médici, no qual o general de plantão se tornou simpático torcedor de futebol.

Há totalitarismos escancarados e totalitarismos manhosos. Os escancarados, além da censura direta dos meios de comunicação, valem-se da violência do Estado, cujos poderes usurpam, para a eliminação dos inimigos – ou seja, dos que lutam pela liberdade e pela dignidade dos seres humanos. Os manhosos torcem a semântica, e a liberdade essencial de ser passa a ser entendida apenas como a liberdade de ter. O princípio fundamental da democracia é a isonomia: cada cidadão tem o mesmo valor e o mesmo direito na sociedade política, seja rico ou pobre, intelectual ou artesão. Os ricos, no entanto, sempre foram ocupantes privilegiados do poder. A única forma de se lhes oferecer resistência é a liberdade de expressão, de que a autonomia dos jornalistas é o natural prolongamento.

Os que, usando dessa liberdade, cometam crimes de calúnia, infâmia e injúria, que sejam punidos de acordo com o Código Penal, como qualquer cidadão comum. O jornalismo não pode ser o escudo dos canalhas, mas sim o instrumento para a promoção da justiça.

A liberdade de imprensa já vem sendo ameaçada pela concentração, em poucas organizações, da propriedade dos veículos. A esse perigo se acrescenta agora a generalização da autocensura, com a criação do órgão “autorregulador”: uma arbitrariedade contra os jornalistas dignos de seu ofício e o direito dos cidadãos à informação e à opinião. Cabe a cada jornal estabelecer sua linha editorial, mas não é bom para a sociedade que ela seja comum a todos os veículos, como parece ser a intenção de alguns. Só na pluralidade e na controvérsia podemos encontrar a verdade possível.

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A realidade federativa

Por Mauro Santayana

Nunca é demais citar Getulio Vargas, que tinha sólido e manso saber político. Depois de deposto em 29 de outubro de 1945, passou alguns meses recluso em seus pagos. Ao retornar ao Rio, eleito que fora para a Assembleia Nacional Constituinte, Vargas recebeu alguns jornalistas políticos na residência de um amigo, no Morro da Viúva. Otto Lara Resende, ainda bem jovem e, como me confessaria depois, jejuno das realidades do mundo, perguntou-lhe por que não destruíra seus inimigos, quando se encontrava no auge do poder. Com isso, teria evitado sua destituição. Vargas soltou uma baforada do charuto e respondeu, sereno, diante da inocência da pergunta: “Meu filho, no governo, nem mesmo um ditador pode fazer tudo o que quer”.

O PT nacional está encontrando dificuldades em montar o “palanque único” para sua candidata em alguns estados importantes. Não discutimos, aqui, a força eleitoral do presidente Lula junto ao povo de todo o Brasil. Não se trata de prever vitória ou derrota nas eleições deste ano. Mas de uma realidade que quase todos os que veem o Brasil a partir de São Paulo parecem desconhecer: a identidade política federativa.

A estrutura partidária brasileira é, formalmente, vertical. Os partidos são “nacionais”, e sua organização confere poder quase ditatorial aos diretórios e às comissões executivas centrais. Esse poder, que chega ao absurdo da intervenção nos diretórios regionais, é relativo. Ele pode impedir a candidatura de um ou outro, proibir ou impor alianças, expulsar filiados. Na hora do voto, o que conta é a sensibilidade dos cidadãos.

O problema de Minas é mais profundo do que pensam os dirigentes do PT e a equipe de campanha de Dilma Rousseff. Lá, mais do que a eleição de Dilma ou Serra, está o emblemático Palácio da Liberdade. O ex-ministro Hélio Costa é, como se sabe, homem de grande prestígio popular em Minas, adquirido como profissional de televisão. Mas, não obstante ter nascido em Barbacena, não conseguiu assimilar o espírito político dos mineiros. Talvez os longos anos passados nos Estados Unidos o tenham afastado da peculiar visão montanhesa do mundo. Ele não conseguiu inserir-se nos meios intelectuais mineiros que, não se duvide, são poderosos formadores do pensamento do povo. É estranho às velhas famílias políticas do estado, que conservam influência decisiva nos municípios. A isso se acrescenta a falta de simpatia dos mineiros com seu suplente no Senado, o industrial do ensino de Niterói, Wellington Salgado. Seus atos não têm sido propriamente de um político mineiro. Todas essas circunstâncias tornam improvável a presença de Hélio Costa na cabeça de chapa de uma coligação com o PT, seja com Fernando Pimentel, cujo prestígio em Belo Horizonte se amplia ao estado, ou com Patrus, senhor de sólidas e devotadas bases, que não se limitam ao partido.

Será difícil ao PT mineiro apoiar o candidato do PMDB, e desistir de disputar o Palácio da Liberdade, sobretudo depois da mobilização de seus filiados nas prévias realizadas. Se isso vier a ocorrer, a decepção de grande parte das bases e do eleitorado em geral será inevitável. Tanto Pimentel quanto Patrus têm muito mais votos do que aqueles conferidos pelo partido. Se mais não perdesse, a aliança forçada seria privada desses votos livres.

Os compromissos de Pimentel e Patrus com o povo mineiro os conduzem a participar do processo eleitoral no estado, com tanto empenho quanto o destinado à sucessão do presidente Lula. Não relegam o destino de Minas a um segundo plano, porque sabem que, sem pilares sólidos nos estados, a República é sempre frágil. Temos um exemplo histórico que basta: se Tancredo, e não Magalhães Pinto, tivesse ocupado o Palácio da Liberdade em 1964, não teríamos o golpe contra o governo constitucional de Jango, nem a ditadura militar que durou 21 anos, com toda sua violência e o retrocesso histórico sofrido pela nação.

Homens de partido, Pimentel e Patrus irão apoiar, com seu prestígio, Dilma Rousseff, mas esse apoio será mais efetivo se se vincular à candidatura de um dos dois ao governo de Minas. São ambos conhecidos e respeitados pelos mineiros, por sua probidade e competência administrativa.

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Dialética da utopia

Por Mauro Santayana

O documentário de Silvio Tendler Utopia e barbárie é referência necessária ao exame da história contemporânea, ao lado de outros estudos marcantes, como os livros de Chomsky e de Bárbara Tuchman – sem falar nas análises filosóficas mais profundas de Hannah Arendt e dos expoentes da Escola de Frankfurt. Como trabalho cinematográfico, a obra de Tendler se identifica com o clássico Mourir à Madrid, de Frédéric Rossif, de 1963. Mas Silvio nos espicaça com inquietação explícita: até onde a barbárie pode alimentar-se no combate à utopia?

A discussão não é nova, mas muitos procuram evitá-la, nutridos do sumo de justiça e da busca de seus sonhos proféticos. A mais bela e forte das utopias é a do cristianismo, que nos promete a realização do Reino de Deus entre os homens. Sem ela, a vida no Ocidente teria sido insuportável, mas sua associação ao poder temporal, com Constantino e Ambrósio, trouxe o conformismo e a frustração.

Ao organizar o seu caminho, a utopia corre o risco de perdê-lo. Isso parece dar razão aos anarquistas puros do século 19, que reduziam a utopia à atualidade destruidora: toda tentativa de ordenar a vida social em estados era, para eles, violência intolerável. Tendler fala de Hitler, de Stalin, de Pol Pot, e de suas vítimas, como portadores de utopias singulares. A de Hitler, desde o início, não se dissimulava, porque o nazismo é identificado com a morte. Seu mundo ideal Hitler o desenhou a partir de Mein Kampf: um mundo dominado pelos alemães, herdeiros da Terra pela força e pela beleza, ou, seja, pela sua superioridade como animais predadores.

Quando as melhores utopias se valem da violência, a fim de se tornarem viáveis, elas se pervertem, é a conclusão dos espectadores do filme de Tendler e dos estudiosos da história. Em suma: as utopias políticas de igualdade e justiça devem ser fiéis a si mesmas, ainda que permaneçam sempre utopias, ou seja, irrealizáveis. Se assim for, cumprem o seu papel ontológico, o de, ao conservar a esperança no absoluto, permitir a realização do relativo. Ou, na linguagem de Marcuse, construir a história como a realização do possível no interior do necessário.

No seu estudo sobre o alvorecer do século 20, Bárbara Tuchman mostra como o apogeu do poder e do fausto do Império Britânico, durante a hipócrita sociedade vitoriana, correspondeu à mais dramática situação de seus trabalhadores. Trinta por cento dos ingleses viviam em pobreza inimaginável, apesar do saqueio colonial, trabalhando sete dias por semana, de 12 a 16 horas por dia, dizimados pela tuberculose, enquanto nos palácios ducais as recepções perdulárias e insolentes se repetiam. Quando os trabalhadores começaram a organizar-se, o governo ameaçou excluí-los de tudo, e importar mão de obra chinesa, quase escrava. Foi exatamente nesse período que os anarquistas passaram a agir: seu terrorismo era a resposta da justiça utópica contra as pétreas estruturas do poder. Em menos de duas décadas, reis, rainhas, duques, primeiros-ministros europeus e o presidente dos Estados Unidos, McKinley, foram assassinados. Os anarquistas atuavam quase sempre sozinhos, ou associados a dois ou a três companheiros, quando muito.

O documentário de Tendler se encerra com uma nota forte de esperança, que se funda na experiência. Mesmo tendo sido o século mais sangrento da História, com mais de 60 milhões de mortos nas guerras sucessivas, os últimos cem anos contribuíram para a libertação dos homens, embora novas etnias sociais, como as dos moradores de rua, tenham surgido da economia neoliberal, essa teologia dos banqueiros. Tendler cita como sinais da esperança a eleição do operário Lula, no Brasil, e a de um negro, Obama, para presidir os Estados Unidos.

As utopias, em todos os tempos, são a denúncia da injustiça e o ânimo para a resistência. Elas se realizam pouco a pouco; a cada passo trazem novas esperanças e se distanciam, como as linhas do horizonte, quando delas nos aproximamos. São inalcançáveis, como os arcos-íris. Ao mesmo tempo, suas conquistas açulam as contrautopias, para a violenta reação que conhecemos. Nesse jogo dialético entre a barbárie e a utopia, se faz a história, com a grandeza e a miséria da condição humana.

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O Estado que divide o PT e o PSDB

Por Cristian Klein

A grave crise financeira mundial de 2008, gerada por uma economia globalizada e desregulada, representou um golpe para os defensores do mercado livre e do Estado mínimo. Na mesma medida, os efeitos da crise foram os de reforçar as teses mais intervencionistas, do Estado provedor. Sem o baque na economia, a popularidade do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não teria despencado tanto, devido aos níveis de desemprego. Por outro lado, é possível imaginar que, sem a crise, Obama dificilmente teria aprovado a histórica reforma do sistema de saúde. O vendaval de uma economia perigosa favoreceu o clima em direção a um modelo de proteção social, de pouca tradição nos Estados Unidos. É um movimento semelhante ao descrito em A grande transformação (1944), por Karl Polanyi, que observou na conquista de direitos sociais em torno de um precursor welfare state uma resposta da sociedade para se proteger do mundo sem leis da economia liberal do século 19.
A disjuntiva Estado mínimo versus Estado forte é um corte que costuma separar, nitidamente, as legendas de maior conteúdo programático. Há quem defenda que a questão é estéril e pouco importaria o tamanho do Estado, se grande ou pequeno, mas sim sua eficiência e a quem ele está a servir. Mas o fato é que estes modelos são por demais representativos e permeados da ideologia necessária à diferenciação das agremiações políticas. Partidos de esquerda são a favor da extensão dos poderes do Estado (como indutor de desenvolvimento, redutor de desigualdades, servidor da sociedade). Partidos de direita preferem a mínima intervenção e esperam do Estado o exercício de atividades básicas (garantia da lei e da ordem, dos princípios da meritocracia e da livre iniciativa). O Estado é visto como uma esperança pela esquerda (pela possibilidade de atender a seu valor fundamental, a igualdade) e uma ameaça pela direita (pela capacidade de deprimir o valor mais caro a seu ideário, a liberdade).
A função do Estado – que papéis ele deve exercer e como – é um dos pontos mais fundamentais em qualquer campanha política presidencial. Mesmo com a disputa ainda esquentando, Dilma Rousseff e José Serra já falaram bastante sobre o tema. É um assunto que ilustra bem o que foi tratado na coluna de ontem, sobre como o eleitor vota e sua capacidade de fazer boas escolhas. O cidadão comum não precisa ter plena informação. Age no sistema político como um motorista no trânsito, seguindo atalhos, sinalização. Partidos, quando dotados de consistência programática e/ou ideológica, são capazes de resumir uma série de detalhes, complexidades que o cidadão não tem tempo, dinheiro, interesse para decifrar. Os partidos reduzem (ou pelo menos deveriam reduzir) os custos de informação, oferecendo pistas, dicas satisfatórias para o eleitor tomar a sua decisão e distinguir as políticas públicas que lhe são oferecidas.
No segundo turno da eleição de 2006, o tema da privatização foi a sinalização, a pista utilizada pelo PT para se diferenciar do PSDB. O assunto era previsível, mas pegou de surpresa a campanha de Geraldo Alckmin, que não soube responder à altura e acusou o golpe, diante do tom acusatório dos petistas. Até hoje, a pecha de privatista é um trauma que acompanha os tucanos. Com este issue, o PT empurrou o PSDB, nascido como centro-esquerda, para a direita, uma posição incômoda no Brasil, onde até os mais direitistas rejeitam ser chamados como tal.
Foi um estrago à imagem do PSDB, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenta agora consertar – com pouca possibilidade de êxito. Em seu último artigo, Construir sem demagogia, publicado no fim de semana, FHC sai em defesa da privatização, mas sem a mesma contundência da última vez. Afirma que de todas as heranças de seu governo, que os petistas criticavam e depois preservaram, o legado da privatização é um dos poucos que o PT não mexeu mas continua a bater, impingindo nos tucanos a má fama. “Por que, então, não deixar de lado a ideologia e o uso da pecha de neoliberal para desqualificar os avanços obtidos dos quais é usufruidor?”, pergunta FHC. Ora, porque é uma questão de honra, uma pista sobre as diferentes visões de Estado dos partidos e, mais importante, que já se mostrou eleitoralmente potente.

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Será que o povo sabe votar?

Cristian Klein

A cada dia as eleições se aproximam mais, as campanhas esquentam e o eleitor vai entrando em contato com o perfil dos candidatos e os termos da disputa. Diferentemente do que prega o senso comum (ou pelo menos o grupo de desencantados ou demófobos), o cidadão não precisa ter um vasto conhecimento político para tomar uma boa decisão. Uma batida máxima niilista ou mal intencionada costuma dizer que “o povo não sabe votar”.
O preconceito tem suas razões. O mundo da política é, de fato, complexo: a maioria das pessoas não tem (nem os próprios políticos) o domínio sobre todas as variáveis que estão em jogo. Não tem conhecimento, nem informação. E mesmo que tivessem não haveria capacidade de processamento. Há até quem defenda, lançando mão de estudos sobre cognição, que o cérebro humano não foi feito para o mundo da política, pois se desenvolveu numa época em que lhe eram exigidas habilidades muito mais simples. Pode ser.
No entanto, as pessoas fazem suas decisões no âmbito político. De que maneira? A primeira resposta é que fazem por meio de atalhos e sinais. É verdade que, como destacou Schumpeter, em sua crítica elitista à democracia, a imensa maioria dos cidadãos é capaz de dedicar mais tempo a entender as regras e os detalhes de um passatempo na sua vida privada – como o bridge – do que se interessar pelo funcionamento da esfera pública. Mesmo assim, como apontam alguns dos trabalhos mais conceituados desta linha de pesquisa da ciência política, as pessoas encontram respostas satisfatórias para suas dúvidas políticas. Fazem suas escolhas utilizando pistas que sintetizam e resumem um emaranhado de informações. Na verdade, em boa parte dos casos, este é o problema. Não há escassez de informações, mas excesso delas. Diariamente, as pessoas são expostas ao noticiário político, sobretudo em épocas de campanha. Partidos são a forma mais tradicional de atalho, pela qual os eleitores podem abreviar sua decisão e reduzir o que se convencionou chamar de custos de informação.
Uma analogia que mostra como o cidadão pode fazer decisões razoáveis numa democracia é a que compara o sistema político ao trânsito. Um motorista, para evitar uma colisão enquanto dirige seu automóvel, não precisa saber a velocidade, a massa de outros veículos que estão em circulação ou as intenções de seus ocupantes. Basta seguir os semáforos e a sinalização. É claro que o grau de respeito às regras de trânsito varia de lugar para lugar. No entanto, mal ou bem, certos protocolos precisam estar em vigor para que a circulação se dê, e as pessoas cheguem aonde querem sem desperdiçar tempo. Do mesmo modo, a não ser que esteja totalmente perdida, num bairro ou numa cidade estranha, uma pessoa não precisa a todo momento parar e perguntar para pedir informação. Quase sempre as pessoas sabem aonde querem chegar.
E aonde as pessoas querem chegar? O bem-estar próprio, o interesse respondem pela maior parte das motivações nas decisões políticas. Até no altruísmo é possível ver algo de instrumental. Mesmo que um rico vote numa plataforma que defenda os interesses dos mais pobres, a aparente contradição pode ser interpretada como uma forma de se chegar a um resultado (por exemplo, paz social, segurança, respeito aos contratos) que lhe seja favorável. A velha história: perdem-se os anéis e não os dedos.
Como as pessoas utilizam atalhos e votam de acordo com seus interesses, é de difícil sustentação a ideia de que o valor da democracia enquanto regime é desafiado em virtude da ignorância dos cidadãos. O povo sabe votar. Possivelmente, e diferentemente do que imaginava Schumpeter, mais até em questões nacionais do que nas locais. Dizer o contrário, geralmente, é apenas uma maneira ideologicamente camuflada de discordar da vitória dos interesses da maioria.

Errata
Diferentemente do publicado, a autoria do texto impresso na coluna de ontem é de Villas-Bôas Corrêa.

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Candidato não briga com eleitor

Por Cristian Klein

Candidato não briga com o eleitor, dono do voto indispensável para a sua reeleição para mais quatro anos de boa vida e pouco o que fazer. E reforma política para enxugar Brasília, a cidade construída para a capital perfeita, dimensionada para a população controlada pelo plano diretor, é tema para depois de apurados os votos e conhecidos os eleitos.
Aberto o debate, desde que conquiste a opinião pública, o apoio da mídia e o espaço para as matérias de cada dia para que não escorregue para o esquecimento, a reforma política que o presidente Lula prometeu, mas nada, absolutamente, fez para viabilizá-la, uma vez popularizada, terá o apoio da maioria dos interessados. E ensina a sabedoria do povo que nada cerca fogo de morro acima nem água de morro abaixo.
Brasília está sendo sacrificada pela demagogia, pela corrupção e pede socorro. Depois do governador José Arruda, o da distribuição de pacotes de notas aos cupinchas, mais um mandato do notório Roris, francamente é demais.
Mas, esta é uma campanha atípica, que não segue os modelos clássicos. A começar pela candidata escolhida pelo presidente Lula, o líder mais popular do mundo. E que não se contentou em indicar a candidata sem consultar a sua base política, sequer o seu partido, o PT, que tem engolido sapos e rãs de todos os tamanhos. Driblou a articulação encrencada, com o fato consumado: a ministra Dilma Rousseff é a solução milagrosa, a candidata perfeita porque foi a ministra de Minas e Energia que enfrentou a crise do apagão. E, como dono da candidata, do partido e o presidente com mais de 80% de aprovação nas pesquisas, não devia explicações a ninguém. A conversa com os aliados foi um tom abaixo para não ferir melindres e complicar as coisas.
Nem tudo pode ser perfeito neste vasto mundo sacudido por crises e calamidades de uma fase azarada. A renúncia do deputado Ciro Gomes, um dos líderes do PSB cearense sem papas na língua, da candidatura à Presidência da República criou um clima de constrangimento com a troca de desaforos entre os novos desafetos, no calão de fim de feira, na hora do arremate das xepas.
Lula demonstra as suas apreensões com a ausência para as viagens internacionais de quem conhece o mundo pelo avesso. O que não é de admirar para o presidente que passou cem dias no ano passado atendendo aos convites dos cinco continentes.
Por hora, a ministra Dilma Rousseff demonstra a insegurança e a afobação quando solta na campanha nas ausências do presidente. E certamente exagerou nos retoques de sua imagem, a ponto de criar embaraços aos que demonstram a surpresa pela nova estampa, com a peruca loura como gema de ovo, os óculos substituídos por lentes de contato invisíveis, as blusas e vestidos de cores vivas e nos trinques da moda. A voz empostada com os cuidados do fonoaudiólogo passeia por todos as tonalidades, como de uma declamadora ou, mais exatamente, uma líder de massas.
Não há razão para pânico. Mas, o lançamento da candidatura oposicionista do ex-governador José Serra, do PSDB de São Paulo, e a renúncia de Ciro Gomes definiram a polarização. A candidata Marina Silva, do PSOL, marca a sua liderança como defensora do meio ambiente.
Os senadores e deputados sumiram de Brasília para correr atrás dos votos nas suas bases eleitorais. Lá aparecem, de passagem, para as votações de matérias importantes e a pedido do governo. A campanha murchou neste intervalo inesperado. E as próximas pesquisas sinalizarão as primeiras tendências realmente significativas, com o primeiro flagrante do favorito ou favorita ou da indecisão de grande parte do eleitorado.
A campanha começou, ou está começando. Agora não tem mais recuo.

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