Arquivo de December 2010

RSS Feeds

Do papel viestes e ao papel retornarás

boneco de Mario Alberto - expo Bonequinhos Viajantes

Inaugurou no último dia 23, no Castelinho do Flamengo, a exposição de artes visuais "Bonequinhos Viajantes", organizada pelos artistas gráficos Marcelo Martinez e Romero Cavalcanti. Nada mais nada menos que 80 ilustradores, muitos deles ativos no meio das histórias em quadrinhos, criaram personagens de aproximadamente 15 cm de altura e registraram sua criação numa fotografia em seu "habitat natural".

Mas que o leitor aqui do JBlog não pense que é mais uma exposição oportunista de toy art, a última modinha entre os mudernos de plantão. “Acho que nem mesmo se enquadrariam na categoria de paper toys, uma vez que não foram pensados como algo para ser manipulado ou colocado em uma prateleira, embora alguns dos trabalhos até brinquem um pouco com isso”, explica Martinez. “São ilustrações, pensadas em um suporte diferente, que lhes confere um aspecto tridimensional”.

E de onde surgiu a ideia desta mostra? “O Romero Cavalcanti e eu pensamos em um modelo de exposição coletiva onde o conjunto de trabalhos em si se configurasse quase como uma única obra, de múltiplos autores. Mas focando na simplicidade, no ato de desenhar por diversão”, conta o curador. “A ideia era simbolizar um crescente abraço dos Bonequinhos de vários cantos do Brasil, que, metaforicamente, vão dando as mãos uns para os outros. Daí o conceito de "viagem", presente também na cenografia criada pelo Romero e na estrutura de montagem que adotamos para o espaço da mostra, valorizando a exposição dos originais”.

Ok, mas esse aqui é um blog sobre quadrinhos e animação. Qual o link entre eles e a exposição? Martinez responde numa só tacada: “Tinta/papel/diversão. Nossa ideia era montar um time multidisciplinar de artistas gráficos. Temos ilustradores, cartunistas, quadrinistas, animadores, artistas plásticos, designers e grafiteiros. São estilos e técnicas diversas. Em comum, o prazer de desenhar, independentemente da área de atuação”.

E dá uma informação que certamente vai deixar muita gente tentada de conferir ao vivo. “O catálogo da expo, gratuito para os visitantes, é um posterzão dupla face, com um lado apresentando os originais, e o outro com a sequência de fotos dos bonequinhos, tiradas pelos próprios autores. Este lado das fotos traz uma organização que meio que conta uma historinha coletiva, pois agrupamos as imagens por assunto (dentro de casa, exterior, natureza, etc). O caráter de cada personagem é sugerido por sua relação com o "habitat natural" que cerca estas fotos”.

CORTANDO PARA OUTROS LADOS
boneco de Chiquinha - expo Bonequinhos Viajantes

Agora, vamos virar a moeda e saber de alguns dos participantes o que acharam da proposta. O carioca Cruz, por exemplo, conta que nessa condição, dimensão e material, esta foi a primeira vez. “Ainda na década de 80, desenhei figuras “quadrinísticas” em escala humana, pintei-as em painéis de compensado que foram recortados com serra e expostos na vitrine de uma loja, em campanha publicitária”.

Quem também debutou, pero no mucho, foi a gaúcha Chiquinha. “Quando pequena, eu desenhava uns bonecos de papel (famílias inteiras, com núcleos, nomes sobrenomes) recortava e fazia deles minhas Barbies. É verdade que as outras crianças riam um pouco de mim, mas achava divertido”. E lembra de outra experiência. “Já fiz exemplares de feltro/pelúcia da minha personagem Elefoa-Cor-de- Rosa”.

Profissionalmente esta também foi a primeira vez do paraibano William Medeiros. “Na minha infância brincávamos muito com bonecos de recorte e muitas vezes eu mesmo fazia meus bonequinhos. Algumas revistas também traziam os desenhos pontilhados para recorte. Era a maior diversão naquele tempo”.

boneco de Cruz - expo Bonequinhos Viajantes

Famoso pelos desenhos de mulheres gostosas, Cruz optou por fazer um onanista.
“As mãos, ao ligar os bonecos, são um elemento essencial nessa exposição. Ora, não seria comovente (“esporrante” até) que o clássico “bronheiro” com a mão cabeluda e três pernas também quisesse dar as mãos aos seus semelhantes?”, brinca.

Por sua vez, Chiquinha fez uma vaca triste no meio das carnes. Sua inspiração?
“Na humano-singeleza alimentar que fere os bichos. Serve?”. William optou pelo cangaceiro Lampião. “Um personagem que praticamente virou um mito na nossa região em suas andanças pelos cerrados nordestinos provocando o terror com sua tropa de cangaceiros. Acabei fazendo um Lampião meio hippie, meio zen, meditando sobre uma pedra bem conhecida aqui na nossa região, mais especificamente em Cabaceiras. Imagina Lampião usando chapéu de couro cor-de-rosa...”.

boneco de Wiliam Medeiros - expo Bonequinhos Viajantes

Bem humorados como só eles, todos concordam que a proposta da mostra é, no mínimo, divertida. “Além da diversão é também a oportunidade de mostrar, num grupo expositor de variados estilos, como o tema se desenvolve à minha maneira”, justifica Cruz. “Achei ótimo. Até porque o que eu mais gosto é desenhar bonecos/personagens mesmo”, concorda Chiquinha.

“Não sei se acontece com todo ilustrador, mas quando desenho volto a ser criança. Eu me sinto muito à vontade pra expressar tudo o que eu não consigo falar ou escrever com palavras”, relata William. “Essa exposição me fez sentir ainda mais criança, porque me deu um prazer enorme em ver uma criação minha ganhar formas tridimensionais a partir do recorte e da tentativa de brincar de levá-lo a lugares que ele jamais poderia ir sozinho e que só eu saberia que seria o lugar certo para ele. Uma viagem no tempo, realmente”.

E aí, ficou curioso? A expo fica até 27 de fevereiro, com entrada franca e censura livre. Para mais informações, visite o site oficial.

PS: esta semana o Castelinho está fechado para manutenção, reabrindo dia 3 de janeiro com força total!

boneco de Marcelo Martinez - expo Bonequinhos Viajantes

Leia também:
Exposição sobre Nássara fica no CCJF até dia 06 de fevereiro
JBlog Quadrinhos é eleito o melhor site/blog de 2010 pelo Troféu Bigorna
Castelinho do Flamengo vira centro de referência do humor gráfico carioca

 Comentar

Personagens viram brinquedo e dão lucros altos

boneco de buzz lightyear

Na esteira do grande sucesso no cinema, quando somou US$ 1 bilhão só na bilheteria, Toy Story 3 também alavancou a venda dos produtos licenciados no natal. Um dos brinquedos mais vendidos este ano foi o do astronauta Buzz Lightyear, em suas várias versões e preços. O rapaz aí desbancou, inclusive, o garoto Ben 10, recordista de vendas em 2009.

Outra prova de como a mídia influencia nossas crianças está aí embaixo. No comércio popular, um dos destaques do natal de 2010 foi o "caveirão" de plástico, utilizado pelos policiais do Bope - o filme nacional mais visto nos últimos anos, novamente o poder do cinema e seu impacto na vida real. Oscar Wilde dizia que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. E você, o que acha?

caveirão de plástico - brinquedo sucesso de 2010

Leia também:
Kimberlly Clark renova licenciamento da Turma da Mônica por 10 anos
Personagens da Marvel são licenciados para produtos cada vez mais diferenciados
Em ano de comemoração, Peanuts vira camisa Lacoste, tênis All Star e jóia

 Comentar

Um pequeno grande herói no mercado editorial

Pequenos Herois - CAPA do livro

Quando idealizou o livro “Pequenos Heróis”, o capixaba Estevão Ribeiro tinha em mente um tributo a alguns super-heróis da DC Comics, porém sem utilizar palavras. Encontrou respaldo em desenhistas que gostaram da ideia de transformar seus roteiros em HQs. Com uma equipe de colaboradores de peso - Mário César, Raphael Salimena, Jaum, Emerson Lopes, Ric Milk e Dandi, Vitor Cafaggi, Leo Finocchi, Fernanda Chiella e Davi Calil – o artista juntou oito histórias em 104 páginas e publicou em outubro pela editora Devir. Agora ele conta aqui um pouco dessa saga.

JBlog >> Nas pesquisas que eu fiz, você passou dois anos buscando uma maneira de viabilizar o livro. Como chegou a Devir e por que ela apostou na ideia?
Estevão Ribeiro - Na verdade, demoramos muito mais para PRODUZIR do que publicar. Trabalhei com artistas que tinham outras prioridades, afinal, ninguém foi remunerado pelo projeto. Eu não tenho recursos e as pessoas que aceitaram participar do projeto o fizeram por gostar da proposta das histórias, mas eles precisavam ganhar o deles. Então, as páginas eram feitas nas horas vagas de cada artista.

O problema é que artista não tem hora vaga. Algumas histórias demoraram 2 anos para serem produzidas e, consequentemente, não tínhamos o que mostrar para as editoras. Mas quando 6 das 8 histórias ficaram prontas, a Devir conferiu o material e abraçou a ideia.

Pequenos Herois - algumas paginas

JBlog >> Por que você também não desenhou uma HQ pro livro?
ER - Nesse projeto o impacto visual é essencial para compreender a história. Ilustrar uma das histórias seria apenas uma forma de massagear meu ego de desenhista, o que comprometeria a obra. Prefiro escrevê-la e deixar quem entende ilustrar.

Uma outra coisa também é que não temos uma estrutura como lá fora. Colocar cada ilustrador para fazer uma história otimiza o tempo de produção do álbum. Se esse fosse um projeto feito apenas por mim, demoraria muito mais e certamente não atingiria o resultado desejado.

JBlog >> A Devir se interessou pela 2a edição, com os heróis da Marvel?
ER - Sim, ela tem interesses em publicar o segundo número, assim como o terceiro, sobre os heróis clássicos.

JBlog >> Uma das propostas de um livro mudo era a internacionalização dele. Como tem sido o retorno mundo afora?
ER - Bem, nós acabamos de publicar o primeiro número de Little Heroes pela editora 215ink nos EUA, em formato de e-book. O primeiro volume traz as histórias "Superbro" e "Lantern", ilustradas por Mário César e Raphael Salimena, respectivamente. Acredito que sairá um volume por mês e depois a editora oferecerá para as distribuidoras a compilação impressa. Agora é torcer por uma boa recepção, mas o próprio editor da DC Comics, Eddie Berganza, gostou muito do projeto.

Little Heroes - a versao gringa do livro

JBlog >> Você já viu o projeto Les Bulles, da França, onde a renda das vendas vão pra Unicef? Você chegou a pensar e/ou tentar algo parecido para Pequenos Heróis?
ER - Sinceramente? Não. Eu acho a proposta interessante, mas eu sou uma pessoa que passou muita fome na minha infância e tenho 11 sobrinhos cujos pais beiram a linha da pobreza. A realidade brasileira impede pessoas de continuarem fazendo quadrinhos porque é difícil ganhar dinheiro com isso. O que eu preciso fazer neste momento é ajudar meus sobrinhos, minha mãe e todos ao meu redor. Deixo a Unicef para Renato Aragão, Daniela Mercury, pessoas que já tem o seu e podem ajudá-los no momento. Enquanto eu tiver contando os centavos para pagar o ônibus, tô fora.

JBlog >> Você sabe se já confundiram o livro com o filme, que tem o mesmo nome e é de animação?
ER - Eu não vi o filme, mas confesso que quis mudar o nome, mas fiquei ocupado com outras coisas e aí ficou...

Estevão Ribeiro roteirista e desenhista

Estevão usou o poder da perserverança e conseguiu editar o livro


Leia também:
Danilo Beyruth conta como foi o processo de criação de Bando de Dois
A Finlândia ficou pequena para o personagem Mumin
Dicas de bons quadrinhos para dar de presente

 Comentar (3)

Seu quadrinho publicado pode valer R$ 1 mil

Salão Internacional de Desenho para Imprensa

Artista, fique de olho. Estarão abertas de 1º de fevereiro a 5 de março de 2011 as inscrições para o XIX SIDI – Salão Internacional de Desenho para Imprensa. As inscrições podem ser feitas pelo correio ou pessoalmente, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Como sempre, serão 5 categorias - Cartum, Charge, Caricatura, História em Quadrinhos e Ilustração Editorial - com prêmio de R$ 1 mil para cada vencedor.

Os participantes podem concorrer com até 05 (cinco) trabalhos distribuídos em qualquer das 05 (cinco) categorias. Lembrando que os trabalhos inscritos na modalidade Ilustração Editorial devem ter sido efetivamente publicados no período de março de 2010 a janeiro de 2011, e devem estar acompanhados da página original da publicação, com data e nome do periódico identificáveis.

Veja o edital direto no site ou solicite pelo salaopress.portoalegre@gmail.com

Leia também:
Balanço 2010: como foi o ano para os artistas da região sul do Brasil
Prêmio para novos autores de HQ. Inscrições até 23 de janeiro de 2011
Exposição pelos 100 anos de Nássara em cartaz até 06 de fevereiro de 2011

 Comentar

O diferente status da HQ nos EUA e no Brasil

Penso que um dos trabalhos de um editor é ligar notícias aparentemente diferentes para estimular a reflexão do leitor. Foi o que eu fiz neste primeiro dia útil após o recesso natalino (em tempo, desejando felicidades a quem acompanha este JBlog). Acompanhe comigo.

EDITAL DO VAI 2011
logomarca do VAI de São Paulo

Acabou de ser lançado o edital do VAI 2011 (VALORIZAÇÃO DE INICIATIVAS CULTURAIS) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Ou seja, além do importantíssimo ProAC, que é um programa estadual, o pessoal que mora na capital também pode inscrever seus projetos em um projeto local. Foi assim que a revista de histórias em quadrinhos Subversos foi realizada, por exemplo.

Os valores previstos para o edital do ano que vem são: R$ 2.450.000,00 (dois milhões, quatrocentos e cinqüenta mil reais) para Pessoa Física; e R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) para Pessoa Jurídica. Porém, o valor máximo destinado a cada projeto será de até R$ 21.694,45.

Taí mais uma boa oportunidade para quadrinistas paulistas e que comprova, mais uma vez, o quanto o estado de SP está avançado no tema e oferecendo oportunidades para os artistas, inclusive independentes, e de quadrinhos. Que seja exemplo para o resto do país.

FAMÍLIA DE WILL EISNER DOARÁ US$ 250 MIL A MUSEU
Billy Ireland Cartoon and Museum

Will Eisner era judeu e nunca negou isso. Pelo contrário, sempre defendeu e lutou para mudar a imagem pública de sua religião - vide, por exemplo, seu livro "O Complô". Mesmo após seu falecimento em 2005, a família continua abrindo a mão para boas causas.

A fundação que leva seu nome prometeu doar US$ 250.000 ao longo de cinco anos para a renovação do Sullivant Hall da Billy Ireland Cartoon Library & Museum, que faz parte da universidade estadual de Ohio. Em reconhecimento, a sala da biblioteca será batizada com seu nome.

O mais legal é que Jean Schulz, viúva do criador de Peanuts, Charles M. Schulz, também prometeu dar um dólar a cada dólar doado por Eisner. Desta forma, ao invés de 250, serão 500 mil dólares ao todo. O custo total da obra está orçado em US$ 24,4 milhões e deverá ser concluída em 2013. O Sullivant Hall abrigará o Billy Ireland Cartoon Library & Museum e os departamentos de dança e educação artística.

Criado em 1977, o Billy Ireland Cartoon Library & Museum realiza um festival anual desde 83 (que inclusive discute bastante a HQ dentro da universidade, num nível bem acima do que se discute na, arram, "academia" brasileira), abriga 450.000 carturns, 36.000 livros e 2.500.000 tirinhas originais, entre outras raridades, como estas fotos de Will Eisner. Aliás, faça uma consulta ao banco de dados online deles e surpreenda-se. Não é preciso nem mesmo fazer cadastro.

Will Eisner em foto do acervo do Billy Ireland Museum

Will Eisner e seu bebê em foto do acervo da Billy Ireland

Leia também:
Balanço do ano de 2010 no mercado de São Paulo
Balanço 2010: realidades bem distintas no nordeste brasileiro
Políticas públicas para os quadrinhos no Brasil: o que existe e o que falta fazer

 Comentar

Mais 4 bons lançamentos de quadrinhos em 2010

Peanuts completo volume 3 1955-56

Peanuts Completo: 1955 a 1956, de Schulz (Editora L&PM) – Este é o terceiro volume da coleção que compila, em ordem cronológica, todas as tiras diárias e dominicais da turma, que em 2010 completou 60 anos de criação. Ao contrário dos dois livros anteriores, agora as crianças estão quase todas da mesma altura e Snoopy começa a andar sobre duas patas apenas. O irmão de Lucy, Linus, que até então arrastava seu cobertor e era um bebê, agora fala algumas palavras. Ou seja, a cada ano que passava, os personagens iam crescendo e se desenvolvendo, como na vida real. Uma sacada magistral de Charles Schulz muitos anos antes dos reallity shows da TV. Mais um título imprescindível para quem gosta de bons quadrinhos.

Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O'Malley (Quadrinhos na Cia) – O livro que vendeu 200 mil exemplares nos EUA e publicado originalmente em seis volumes, está sendo lançado por aqui em três, cada um com 400 e tantas páginas e contendo dois capítulos. Primeiro ponto positivo: a diagramação moderna que valorizou um livro preto e branco de formato pequeno (12,70 x 19 cm).

Scott Pilgrim volumes 1 e 2

A obra faz um retrato fiel da chamada geração Y (nascidos pós 1980 e que se desenvolveu numa época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica) tendo um garoto imaturo como protagonista. Scott mora no Canadá, odeia trabalhar e estudar, mas adora tocar com a sua banda e namorar. O problema é que para ficar com a sua mais nova paixão, Ramona, terá que lutar contra seus 11 “ex-namorados do mal”. Daí a história ter um ritmo e uma estética de videogame, com pirações tipo “vida extra”, “subir e descer de nível”, e referências diversas da cultura pop, sobretudo de mangá.

Coqueluche entre os adolescentes, o livro inspirou o filme, que traz o eterno jovenzinho Michael Cera no papel principal. Aliás, Cera virou o Michael J Fox do momento, com as devidas proporções, é claro. A questão é que o ator de filmes como Juno e Superbad acaba fazendo um papel muito parecido com o de Nick & Norah, ambientado em lanchonetes, clubes noturnos, colégios e casas de amigos. O único toque diferente é o das cenas de pancadaria, com excesso de efeitos e onomatopéias, que levam a película para um lado cômico até.

Scott Pilgrim - o livro e o filme


Fracasso de Público: Heróis Mascarados e Amigos Encrencados, de Alex Robinson (Gal Editora) – Segunda parte da trilogia vencedora do prêmio Eisner e o Gran Prix de Angôuleme sobre os dramas dos jovens Sherman, Ed, Stephen e Jane na cidade de Nova York. A trama é bacana, principalmente por abordar o lado sombrio da indústria dos quadrinhos através de dois desenhistas amadores, um deles assistente do amargo Irving Flavor, criador de um famoso personagem de HQs no passado. Porém, apesar das novas situações, no decorrer das 240 páginas o enredo parece se arrastar. É um bom livro, mas o volume anterior empolga mais. Aguardemos o terceiro para ver o desfecho da saga.

Fracasso de Publico volume 2


Bórgia, de Alejandro Jodorowsky (roteiro) e Milo Manara (arte) (Conrad Editora) – O terceiro volume (As chamas da fogueira) de um total de quatro é, em minha opinião, o melhor. Se a editora já tivesse lançado os quatro números, sem dúvida esta série entraria na minha lista dos 10 melhores. Ao escolher um tema polêmico como a luxúria na família papal, Manara e Jodorowsy desafiaram o conservadorismo italiano para contar a saga da família Bórgia, símbolo de decadência da Igreja no fim da Idade Média tanto pela corrupção exacerbada quanto pelos escândalos sexuais – o que inclui a “utilização” da bela Lucrécia Bórgia como moeda de troca.
Um ótimo lançamento sobre o lado B da história oficial, sem a pretensão de ser adotado por secretarias e ministérios de educação em seus programas oficiais de aquisição de títulos.
Borgia fragmento do primeiro volume

Três volumes lançados da série Borgia

A editora vende o pacote com os 3 primeiros números com R$ 20 de desconto pelo site

Leia também:
Resenha do livro Encontro Fatal, de Milo Manara
Resenha do livro Verão Índio, de Milo Manara
Cartaz da Rio ComiCon 2010 desenhado por Milo Manara

 Comentar

Quem não quer um cogumelo desses?

Cogumelos ao Entardecer - capa e pagina interna

Dentre os projetos aprovados pelo ProAC de 2009 está “Cogumelos ao Entardecer” (Editora Devir), de Jonatas Tobias. Repleto de referências a mangás, videogames e principalmente RPG medieval, o livro conta a história dos garotos Knox e Arroba, que saem pelo mundo atrás dos lendários Cogumelos Mágicos, que são capazes de realizar o desejo de quem os comer. A trama é clichê e termina com aquele clássico final com lição de moral, típico de álbum infanto-juvenil.

Como portfólio de ilustrador, no entanto, Tobias fez um bom trabalho. Seu traço é bom, bem como a colorização digital. Parece-me que na reta final ele cansou, pois justamente as cenas de lutas, que deveriam ter quadros grandes e destacados, ficaram pequenas, mesmo as sequências mais eletrizantes. Também vale destacar o bom uso do enquadramento, com texturas próprias do ambiente, como galhos de árvore. Claro que o autor ainda precisa evoluir muito no quadrinho, mas pode conseguir um bom espaço dentro de colégios e ir buscando aos poucos o seu espaço. Sem precisar dos tais cogumelos, é claro.

Cogumelos ao Entardecer- pagina dupla

Jonatas Tobias - autor de Cogumelos ao Entardecer

Jonatas Tobias, o autor, em foto do lançamento do livro postada no seu blog pessoal

Leia também:
Balanço 2001: eventos e liberdade editorial no Rio e em Minas
Balanço 2010: realidades bem distintas no nordeste
Balanço 2010: tempo bom em São Paulo, o principal mercado do país

 Comentar

Licenciamento da Mônica é renovado por 10 anos

fralda e protetor solar Turma da Monica

A Kimberly-Clark, líder mundial no segmento de higiene e bem-estar, renovou o contrato de licenciamento da marca Turma da Mônica com a Mauricio de Sousa Produções (MSP) por mais 10 anos. As empresas são parceiras há 15 anos, sendo a K-C um dos maiores contratos da MSP. A Companhia possui hoje cerca de 30 produtos com a marca, de fraldas descartáveis e lenços umedecidos a artigos de tocador e linha de proteção solar - esta última lançada há dois anos já ocupa o 3º lugar nas pesquisas de mercado, de acordo com o Instituto NIELSEN. A K-C pretende lançar três novas linhas de produtos com a marca Turma da Mônica nos próximos três anos.

Para saber mais sobre o assunto, este blogueiro conversou com Mônica Sousa, diretora comercial da Mauricio de Sousa Produções e a musa inspiradora da personagem.

JBlog>> Uma parceria de 15 anos é altamente relevante. Cada vez que há renovação de contrato, é por quanto tempo, no mínimo?
Mônica - Depende muito da parceria. Essa com a Kimberly já dura mais de vinte anos e renovamos por mais dez anos. A maioria dos contratos são de menos tempo. Temos parceiros que renovam a cada dois anos. E tem historia de mais de vinte anos com a MSP, como é o caso da Grow.

JBlog>> Existe a possibilidade de vcs terem participação sobre as vendas ou o licenciamento envolve sempre um valor fixo, uma taxa, e pronto?
Mônica - Nós só trabalhamos dessa maneira, recebemos royalties, direitos autorais, dos produtos vendidos com a nossa marca.

JBlog>> Se a KC quisesse, por exemplo, licenciar a Mônica Jovem para o absorvente Intimus, você acha que o Mauricio concordaria ou ele é muito conservador neste aspecto?
Mônica - Com certeza ele concordaria, já foi o tempo que não se podia falar a palavra absorvente, é uma necessidade da jovem mulher.

JBlog>> Já houve alguma situação em que a MSP recusou a oferta de licenciamento sem que o motivo não fosse financeiro?
Mônica - Várias vezes, quando acreditamos que o produto ou a empresa não tem afinidade com os personagens ou com a nossa filosofia de trabalho.

JBlog>> Vocês procuram empresas ou são elas que vão até vocês? Qual é o principal argumento utilizado quando uma empresa está na dúvida entre licenciar ou não os personagens de seus produtos?
Mônica - Existe as duas opções. Somos procurados e procuramos também. Nossa história mostra o sucesso no licenciamento. Termos quase cinquenta anos no mercado, associando nossa marca a grandes empresas como Cica, Kimberly, Nissin, Perdigão entre outras. Nossos personagens são brasileiros. Falam a mesma língua que nossas crianças. Estamos sempre antenados com o que acontece no universo infantil e infanto-juvenil.

JBlog>> Mauricio sempre fala que 80% da MSP vem de licenciamento. Além da Mônica, quais outros personagens são bastante procurados por empresas para colar a marca aos seus produtos?
Mônica - A Monica é a família toda: Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Bidu e etc.... Depois Turma da Monica Jovem e Turma do Chico Bento. Para o ano que vem vamos trabalhar forte a família do Penadinho.

MSP e Kimberly Clark renovando contrato 2010

Da esquerda para direita: Marboni Jordão, gerente jurídico da Kimberly-Clark; Mônica Sousa, diretora comercial da Mauricio de Sousa Produções; João Damato, presidente da Kimberly-Clark; Eduardo Aron, diretor da categoria Personal Care da Kimberly-Clark; e Mauricio de Sousa. Foto: Júlio Maeda/MSP

Leia também:
Para Mauricio de Sousa, 2011 será um ano de crescimento do mercado
Balanço 2010: como os quadrinistas do RJ e MG avaliaram este ano
Curso de histórias em quadrinhos na ESPM em janeiro

 Comentar (1)

Felipe Attie, mais um talento descoberto na web

Felipe Attie - tirinha morte

O carioca Felipe Attie tem 26 anos e publica seus quadrinhos “em alguns portais da internet, revistas digitais e onde mais tiver espaço, principalmente remunerado”, explica o próprio. “Escrevo e desenho desde moleque (aquela velha história...) e sempre tentei ganhar um troco com isso, o que acabou me levando a vender a alma para publicidade. Para 2011, estou preparando uma coletânea de tiras e um livro de crônicas. Mas como a coisa ainda tá tomando corpo”.

Quando ele leu o post sobre a grande utilização da web pelos artistas independentes, enviou as suas tiras também. Confira aí embaixo a tira dos personagens Kini & Sniff. “Quanto a Cartum Café é uma tira livre, sem padrões a serem seguidos, personagens recorrentes e temática livre. Os temas abordados são os que eu achar relevantes e nem sempre o humor é o alvo a ser atingindo”.

Felipe Attie - tira Cereal

Felipe Attie - tira passaros

Se você curtiu as tiras veja mais aqui.

Leia também:
Veja o trabalho de outros artistas independentes que estão na web
JBlog Quadrinhos é eleito o melhor site/blog de 2010 pelo Troféu Bigorna
O dia em que Deus virou um boneco de pelúcia

 Comentar (1)

Uma dupla porreta com sangue nos olhos, ôxe!

bando de dois - pagina do livro

As histórias de Lampião e seu bando de cangaceiros no sertão brasileiro continuam despertando paixões. E fazia tempo que eu não lia algo tão bom sobre o tema em quadrinhos desde "Caatinga" (de Hermann, pela editora Globo) e o excelente “Sertão Vermelho” (saiu este ano o 2º volume, mas ainda não vi). Apesar de trabalhar com HQs desde 2007 apenas, o ilustrador paulista de 37 anos conseguiu fazer um bangue-bangue tupiniquim de alto nível, sobretudo pela fidelidade nos detalhes, a carga dramática na medida, o linguajar típico do nordeste, ritmo e enquadramento realmente cinematográfico. E por essas e outras, "Bando de Dois", de Danilo Beyruth (Editora Zarabatana) já é um dos melhores lançamentos de 2010.
bando de dois CAPA

Tudo começou com a pesquisa, como explica o autor: “assisti alguns filmes (Deus e o diabo a terra do sol, O cangaceiro, Lampião o rei do Cangaço e um filme italiano chamado Il Cangaceiro), alguns documentários para TV no YouTube, consultei sites e livros, destacando o Cangaceiros, Coiteros e Volantes de José Anderson Nascimento”. Porém, tentou manter distância de obras sobre o cangaço no formato de histórias em quadrinhos para não ser influenciado.

Fascinado pelo tema, Beyruth se empolga ao falar sobre a inspiração. “Os cangaceiros eram uma mistura de pistoleiros, samurais e piratas. A caatinga e a região onde eles atuavam é enorme e tem todo tipo de cenário. O tema é fenomenalmente rico, muito mais do que o velho oeste americano! Mas muita gente acha que Lampião é sinônimo de cangaço quando na verdade ele foi um dos últimos cangaceiros, sendo que o cangaço foi um fenômeno social que se estendeu por mais de 30 anos, tendo suas origens na revolta de canudos”.

No entanto o ilustrador publicitário não se empolga em fazer uma HQ sobre Lampião. “Acho muito legal, mas não faria uma história sobre ele. Acho mais legal poder inventar as histórias e usar o cenário”.

Danilo Beyruth - o ilustrador autor de Bando de Dois

Aprovada no edital do ProAC de 2009, Bando de Dois foi lançada apenas em setembro deste ano, e levou um ano e alguns meses para ficar pronta. Em parte pelo fato de Danilo ser um dos sócios do estúdio de ilustração Macacolândia, com outros três amigos, e não poder trabalhar exclusivamente no álbum.

O autor, que também está por trás do personagem Necronauta, explica que “os originais são a traço, finalizados em nanquim com pincel. Se surgir uma proposta de lançar colorido seria legal, mas dificilmente eu coloriria tudo sozinho já que demora muito tempo e já estou envolvido em outros projetos. Existem coloristas pra isso”.

Sobre a editora, “não fui eu que escolhi a Zarabatana, foi ela que me escolheu. O Cláudio (editor), me chamou pra produzir um álbum, eu apresentei algumas idéias e a que ele mais gostou foi o Bando de Dois”. Desde então, o livro foi lançado em São Paulo, na RioComicon e na Comic House, de João Pessoa. “Ano que vem, talvez role BH e Curitiba”, adianta o artista.

E apesar de todo talento e projeção do seu novo livro, ele não pensa em desenhar pra fora. “Acho que o mercado brasileiro está em um dos seus melhores momentos!
Ainda estou longe de poder me dedicar integralmente às HQs, mas a todo tempo me surpreendo com a boa repercussão que meu trabalho tem tido. Acho que pra viabilizar uma carreira de autor de quadrinhos tem que ter muita produção, muita coisa lançada, trabalhar com editoras boas e manter a qualidade. É o que eu tenho tentado fazer. Vamos ver o que acontece daqui alguns anos!”, finaliza.

bando de dois visao do comandante

Leia também:
Nordestinos fazem balanço sobre o mercado de quadrinhos em 2010
Livro sobre o mercado de HQ da Argentina é lançado pela Editora Zarabatana
Zarabatana lança o livro Jambocks também aprovado pelo ProAC

 Comentar (2)

A Finlândia ficou pequena para Mumin

Mumin - capa do livro lançado pela conrad 2010

Tove Jansson em dois motivos enquanto viva

Publicado na Ásia, Europa, América do Norte e Oriente Médio, enfim os brasileiros tiveram o privilégio de ter um livro da finlandesa Tove Jansson (1914-2001): "Mumin" (Conrad Editora). Sucesso nos anos 40, principalmente na Escandinávia, Mumin se assemelha a um hipopótamo, mas é um troll. Talvez o mais conhecido personagem da Finlândia, tem até um parque temático dele e suas histórias misturam inocência, filosofia e surrealismo, às vezes lembrando o elefante Babar.

Neste primeiro de cinco volumes, o leitor encontrará quatro capítulos/histórias com personagens coadjuvantes e curiosos, como o Fedorento, a família aproveitadora, o espertalhão Faro-Fino e até a Senhorita Snork, por quem Mumin se apaixona. Um dos méritos de Jansson é o aproveitamento das molduras, personalizadas de acordo com a tira, além do traço delicado, porém detalhista. E, claro, a expressão dos olhos, sobrancelhas e os gestos, já que raramente ela desenhava a boca dos Mumin.

Mumin - tira 1
Mumin - tira 2
Mumin - tira 3

Em 2010, comemora-se o 65 º aniversário do lançamento de "The Moomins e o Grande Dilúvio", o primeiro livro do personagem, publicado em 1945 no final da Segunda Guerra Mundial. Uma ação interessante foi a criação de um concurso de desenhos para crianças e programas ecológicos em parceria com a WWF num site especialmente criado para isso.

Mumin - site comemorativo pelos 65 anos

Leia também:
Animação de finlandês vence prêmio Animalçoados 2010 no Brasil
Balanço 2010: o que pensam os artistas do sul do país sobre o ano que passou
Balanço 2010: editores e quadrinistas de SP comemoram ano bom no mercado

 Comentar

Dicas de presentes para um natal em quadrinhos

tarzan - capa do livro 2010

Todo final de ano os colegas jornalistas começam a montar as listas com os 10 melhores. A pedidos, eu fiz a minha também, mas só divulgarei em futuros posts. Neste excelente ano para os quadrinhos, como atestei no balanço anual, tivemos muitos lançamentos bacanas que valem a pena o registro. E que servirão de dicas para presentes de natal, aniversário e para o bom e velho amigo oculto.

O primeiro é "Tarzan - A origem do Homem-Macaco e outras histórias", de Joe Kubert (Editora Devir) – O personagem criado no início do século 20 por Edgar Rice Burroughs já passou por várias mãos até que, em 1972, o mestre Joe Kubert foi escolhido para desenhar os gibis que contam a história do rei das selvas desde bebê.

O resultado surpreende, tanto pelas cenas de ação e anatomia quase perfeita, quanto pelo realismo. Kubert sempre frisou a importância da pesquisa e, naquele tempo sem internet, isso era feito através de fotografias, inclusive recortadas de revistas e jornais, além de visitas a museus e zoológicos. Das oito histórias compiladas neste livro, algumas foram lançadas no Brasil pela editora Ebal em 1974, e agora receberam o tratamento merecido. Destaque para as cenas de luta com crocodilos, gorilas e a pantera negra, e a paisagem sempre rica em detalhes.

tarzan - fragmento da hq 2010

Quadrinhos Sacanas (vol 1) e Catecismo Americano (vol 2), organizado por Gonçalo Junior e Worney de Souza (Editora Peixe Grande) – a proposta da simpática caixa com livros em formato de bolso, lançado por uma editora nova no mercado, é a melhor possível: preservar a memória do quadrinho erótico nacional. Só não é melhor por que cada livrinho tem poucas páginas, deixando uma sensação de coito interrompido. Mas taí uma leitura prazerosa de verdade.

box quadrinhos sacanas e catecismo americano


"Leão Negro 3 - Histórias de Família" e "O Filhote", de Cynthia Carvalho e Danusko Campos (HQM Editora) – Em 2008, os livros do personagem estavam na minha lista dos 17 melhores lançamentos do ano. Só não entram em 2010 por um motivo: depois de fruir suas HQs a cores, não dá pra ler em preto e branco e achar a mesma coisa. Claro que a decisão deve ter sido econômica, para viabilizar a venda de cada um dos dois álbuns por R$ 19,90, mas ao converter uma arte colorida em tons de cinza ficou tudo muito carregado. É diferente de uma HQ originalmente concebida para ser em PB, por exemplo. Particularmente não curti a tonalização. Apesar deste (importante) detalhe, as histórias são boas como sempre, com destaque para as cenas de ação e erotismo entre leões.

Os dois livros do Leão Negro lançados em 2010

Histórias de Família fecha a primeira trilogia da nova série, com histórias inéditas da nova geração. O Filhote é o segundo volume da série Origens, publicado na década de 1980 em Portugal, e resgatando as tiras originais porém remontadas em álbuns.

Jambocks – prelúdio para a guerra, de Celso Menezes e Felipe Massafera (Editora Zarabatana) – Viabilizado com recursos do ProAC de São Paulo, a idéia deste livro é contar a participação da Força Aérea Brasileira na Segunda Guerra Mundial. O roteiro é fluido e a arte de Massafera maravilhosa, porém, um problema: o livro é fino, pois conta apenas a primeira de quatro partes. Esperar um volume por ano é extremamente brochante, ainda mais quando se trata de um livro de guerra, um dos meus temas favoritos. Se a proposta da dupla era lançar o primeiro como isca para aí então descolar alguém que lançasse o álbum completo, beleza. Do contrário, não vejo muito sentido nisso e é a mesma crítica que faço, por exemplo, a Joquempô, também lançado com a verba pública estadual através do mesmo programa.

Jambocks - capa do livro

Jambocks - fragmento do livro

Mondo Urbano, de Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque (Editora Devir) – O coletivo gaúcho Mondo Urbano lançou de forma independente quatro histórias completas entre 2008 e 2009 (Powertrio, Overdose, Cabaret e Encore) que, de tão bacanas, foram lançadas juntas nos EUA em formato encadernado. Este ano a Devir lançou aqui com 128 páginas (inclui uma HQ extra), porém diferente da versão gringa, onde cada HQ tem uma tonalidade diferente de cor. Na versão brasileira é tudo em tons de magenta puxando pro roxo.

Tudo a ver por que o leitor fica roxo mesmo. Cada capítulo é uma asfixia. Organizado de forma inteligente, o roteiro vem e vai, e aos poucos tudo se encaixa. É aquele esquema imortalizado no cinema das histórias paralelas que no final fazem todo sentido. Neste caso envolvendo grupos de personagens como os músicos da banda DE-MO, um traficante rastafári, um mendigo, um casal, um grupo de amigos e até uma prostituta. Sem contar que cada capítulo é desenhado no traço de um dos três artistas.

Com um quê de Will Eisner e na linha do excelente Xampu, de Roger Cruz, o ambiente remete bastante a Porto Alegre, não apenas pelas gírias, mas pelo visual da galera, as baladas, a cena roqueira e até mesmo o Cabaret – boate descolada no centro histórico da cidade. Ah, e rola também uma droga fictícia chamada Fuckdrina, uma espécie de anfetamina com efeitos lisérgicos.
Se não fosse antiga, certamente entraria para os Top 10 deste ano.
Mondo Urbano - capa

No exterior o negócio é tão diferente, que a editora já lançou até as palhetas do livro!

Mondo Urbano - palhetas


Leia também:
Balanço 2010: quadrinistas do sul estão de olho no resto do Brasil
Exposição póstuma celebra os 100 anos de nascimento de Nássara
27o Prêmio Angelo Agostini: votação aberta até 05 de janeiro de 2011

 Comentar

Balanço 2010: tempo bom no principal mercado

Rogerio de Campos da editora Conrad

Na avaliação geral, todos acharam 2010 um bom ano para as HQs e melhor do que o anterior. Isto se traduz tanto na visão dos editores quanto dos autores de São Paulo.

No caso da editora Abril, por exemplo, “todos os títulos Disney tiveram excelente desempenho e as edições especiais foram muito bem recebidas pelo público”, revela o Diretor de Redação, Sérgio Figueiredo, destacando a coleção Clássicos da Literatura Disney, que já vendeu mais de 250 mil exemplares e que foi expandida de 20 para 40 volumes. “Também estamos felizes com a volta dos gibis mensais Disney para a venda por assinatura. E não podemos nos esquecer do lançamento do Prêmio Abril de Personagens, que vai premiar e promover novos talentos”.

Na opinião de Figueiredo, “o mercado de quadrinhos se fortaleceu por causa da competitividade, a sensível melhoria da qualidade editorial das revistas e o interesse renovado do público por esse tipo de publicação”, sem identificar uma política governamental específica para isso. E adianta o que vem em 2011: “Nas férias de verão, estamos lançando 10 novos almanaques de quadrinhos Disney e temos três grandes coleções programadas para o decorrer do ano que vem, todas realmente muito boas”.

EXPLOSÃO DE GIBIS DIGITAIS
Na opinião do Diretor Editorial da Conrad Editora, Rogério de Campos, “2010 foi muito melhor que 2009. Que foi melhor do que 2008. Existem mais quadrinhos, mais variados, mais inteligentes, e nos distanciamos mais do tempo no qual quadrinhos era sinônimo de gibis de super-heróis e patos”. E destaca o lançamento do iPad e os e-readers coloridos como a novidade deste ano. “Agora sim, chegou a hora dos quadrinhos virarem digitais. Isso significa mais variedade, mais chance de ousar”. Sua editora lançou um título para iPad, Sábado dos Meus Amores, e o executivo prevê uma explosão de gibis digitais em 2011.

GRANDE VARIEDADE DE GÊNEROS
No ponto de vista de Maurício Muniz, editor executivo da Gal Editora, um dos pontos fortes de 2010 foi a ampliação do espaço para HQs nas livrarias, que hoje estão entre as seções mais visitadas. “Cada vez mais, a ideia de que quadrinhos são coisa de criança vai se distanciando. O público percebe que existem quadrinhos de todos os tipos e gêneros, capazes de apelar aos gostos mais variados com ótimas histórias”.

Ele concorda com Rogério em destacar o lançamento de quadrinhos fora do gênero "Super-Heróis" que se tornaram sucesso de vendas. “Sejam nacionais (como BANDO DE DOIS, do Danilo Beyruth), norte-americanos (como SCOTT PILGRIM) ou europeus (O QUE ACONTECEU AO HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO)”, frisa. E deseja que 2011 seja um ano com “mais, melhores e variados quadrinhos no mercado nacional”.

AUTORES COMEMORAM EXPANSÃO, MAS NÃO O PREÇO DE VENDA
Caeto e fragmento de Memoria de Elefante

Não é mangá, nem super-herói. “Memória de Elefante” (Quadrinhos na Cia), o livro de estréia de Caeto, apontado como um dos melhores lançamentos do ano. O autor confirma que o momento “é empolgante pra quem faz e quem lê quadrinhos, e sinto uma abertura maior para autores novos nesse momento”. Bira Dantas, de Campinas, concorda: “Eu, que sou um comprador inveterado, não dei conta de acompanhar tudo. Os autores têm se dedicado mais a projetos pessoais e as editoras têm investido mais em edições alternativas ao estabelecido pelo mercado”.

Porém, Tony Fernandes questiona se o mercado está realmente melhor. “Se formos avaliar o lado comercial da coisa, ou seja, as vendas em bancas, eu chego a uma só conclusão: as HQs estão cada vez mais elitistas. Preços absurdos e em virtude disso as vendas tendem a abaixar a cada dia. Vendas de 15% a 20% dificilmente sustentam um produto por muito tempo no ponto de venda”.

No mesmo pensamento, o jornalista Rodrigo Febrônio, do programa Banca de Quadrinhos, diz que “é lamentável que tenhamos tantos títulos nacionais bons com preços proibitivos. Mesmo com leis de incentivo, a maioria dos quadrinhos publicados fora da cena independente ainda possui preços elevados, o que infelizmente diminui o apelo da obra. Publicar quadrinhos está se mostrando algo rentável, só que muito mais pelo ótimo comprador que é o Governo Federal”.

E FALANDO EM GOVERNO...
“Eu nunca fiz quadrinhos esperando ajuda do governo e eu não conheço quem o faça”, dispara Caeto, que está preparando o seu próximo livro autobiográfico. Mas há quem aplauda de pé iniciativas como o ProAC, do Estado de SP, e o PNBE, do Governo Federal. É o caso de Laudo Ferreira, cuja obra “Histórias do Clube da Esquina” foi selecionado pelo programa paulista e será publicada em 2011. “Beneficia tanto autores como editores”, diz o autor, que no ano que vem lançará também o terceiro volume de "Yeshuah" e “Auto da barca do Inferno”, uma adaptação do texto clássico do Gil Vicente, que será publicado pela Editora Peirópolis.

Outro entusiasta dos programas públicos de incentivo é Bira Dantas, que em outubro terminou a revisão da HQ "O Ateneu", em parceria com o Ronaldo Antonelli (Escala Educacional), e começa a adaptar a Ilíada. “Desde agosto venho publicando as tiras do Tatu-man num jornal de Campinas e estou conversando sobre a possibilidade de publicá-lo na Coréia do Sul”.

Bira Dantas - de boina - e Laudo Ferreira

Longe da capital, Fabio Tasubô, de Santos, destaca em sua cidade o Fundo de Assistência da Cultura que vai ajudar os produtores de HQs a publicarem seus trabalhos. Para o ano que vem, “gostaria muito que houvesse uma maior integração entre produtores, editoras e administração pública para que possamos juntos criar novas ferramentas para a formação de público leitor”.

“Não percebi mudança, continua o mesmo movimento de ampliação e fortalecimento”, resume Spacca. Esta é a mesma percepção de Edu Mendes, da Quarto Mundo: “Houve continuidade nos programas que já existiam, o que não deixa de ser positivo, mas é preciso uma política cultural mais séria para o Brasil e o Quadrinhos estariam inseridos nela. A longo prazo, se a economia se mantiver estável, um mercado de quadrinhos pode surgir no Brasil como tanta força como já existe no mercado literário”.

Quem não viu nada demais foi Tony Fernandes. “O mercado manteve a média de 4% de crescimento ao ano, o que não pode ser considerado ruim, manteve a média, das revistas em geral. Mas, muito pouco deste número se refere as HQs. Ao contrário, as vendas vêem caindo gradativamente”. E completa: “os incentivos culturais dados pelos governos regionais ainda são muito pequenos e espero que cresçam em breve”.

OS LIVROS E AS LIVRARIAS
“Atualmente os autores de quadrinhos - eu incluído - dedicam-se à produção de álbuns para livrarias, mais do que de revistas para bancas. Este é, em si, um processo de encolha em relação ao universo de leitores que existia nos anos 80 e 90 - mesmo considerando a existência sempre crescente da internet”. Esta frase é de ninguém mais do que Laerte, um dos grandes nomes da HQ nacional, e comprova esta migração, já anunciada no ano passado.

Crescimento este confirmado por Jorge Rodrigues, gerente comercial da Comix, uma das lojas mais importantes de São Paulo. Ele também destaca a retomada do selo Vertigo pela Panini, a entrada da Leya, Planeta, Objetiva , 8Inverso, e outras mais. “Creio que 2010 foi melhor em lançamentos como também em produtividade das editoras como Devir, Zarabatana, Gal, HQM, Kallaco, etc”.

No ano em que Glauco foi assassinado, Spacca coloca em sua lista dos melhores os álbuns "Baião de Dois", "Yeshuah 2", “Guerra dos Gibis 2” e "Anita Garibaldi", de Custódio. E ainda as duas edições do evento HQ em Pauta (janeiro e junho). “Mostraram um evento ainda pequeno no formato, mas de alta qualidade nos debates, acima da média. Ah, as gravações do "Sabado da Memória", no Carandiru. Está sendo produzido um material muito valioso sobre a história da HQ nacional”.

“A boa surpresa dentre as editoras, para mim, foi o selo Barba Negra com seus pocket books baratos, com design inovador e ótima seleção de artistas. Penso que os fatores fundamentais para que as HQs avancem mais em 2011 são aliar bom conteúdo com preço acessível, como estão fazendo editoras como a já citada Barba Negra, a Devir e a Quadrinhos na cia, entre outras”, opina Febrônio.

Outro destaque do ano foi a volta dos quadrinhos de western. “A coisa começou com o Arthur Filho, um editor independente que ousou lançar Billy The Kid, feita por autores nacionais. Coincidência ou não, em seguida veio Apache, e Chet, edição comemorativa de 30 anos, lançada pela Ink and Blood Comics, também independente e do sul do país”, conta Tony Fernandes. “E, por fim, até a poderosa Panini decidiu entrar na roda lançando Jonah Rex. Os leitores de bang-bangs, os saudosistas, há muito estavam esquecidos pelos grandes editores, esta é que é a verdade”.

Tony Fernandes e sua revista Apache

E como falar de mercado sem ouvir Mauricio de Sousa? O mestre confirma o ano bom e destaca particularmente o fechamento de novo contrato com a editora Panini, antes do final do prazo do antigo contrato, e o sucesso dos nossos álbuns com 50 desenhistas brasileiros desenhando a Turma da Mônica às suas maneiras. Ele faz coro a cegueira do poder público. “O governo (do Brasil), no geral, ainda não descobriu a força dos quadrinhos”.

Para o ano que vem, Mauricio concorda que as perspectivas são muito boas: “Continuaremos crescendo, o mercado nacional e internacional se abre para o artista brasileiro. Aproveitemos”. E lembra que o projeto Tezuka Osamu (união dos personagens japoneses com a Turma Jovem) enfim está saíndo do papel.

EXPECTATIVAS PARA 2011
O otimismo é geral, dentro dos entrevistados para a reportagem praticamente todos acreditam que o ritmo será mantido, mas deve-se corrigir o que não vai tão bem assim. “Precisamos fazer produtos a preços populares. HQ é um veículo de comunicação de massas (sempre foi), mas ultimamente não tá cumprindo o seu papel social”, lembra Tony.

Quem também dá o seu recado é Spacca: “Quando levei "Santô" para a Cia das Letras em 2004, não tinha esse "boom" e fizemos assim mesmo”. E finalizamos com uma frase típica de Laerte: “Eu nunca tenho expectativas, há um bom tempo…”

Leia também:
O que é o ProAC, que incentiva os quadrinhos no estado de SP
Através do PNBE o Ministério comprará 700 mil HQs para 2011
JBlog Quadrinhos é eleito o melhor site/blog de 2010 pelo Troféu Bigorna

 Comentar (6)

Balanço 2010: eventos e liberdade no RJ e MG

Matias Maxx da loja Cucaracha

Na visão carioca do mercado, também tivemos um bom 2010 e melhor que o ano anterior. Em parte por conta de dois grandes eventos, a Flip e a Rio ComiCon.
“O Brasil nunca recebeu tantos nomes de relevo dos quadrinhos mundiais em tantos eventos. Qual país que pode dizer que hospedou, durante um único ano, nomes como Robert Crumb, Gilbert Shelton, Milo Manara, David Lloyd, Kevin O'Neill e tantos outros outros?”, indaga o jornalista e colecionador Heitor Pitombo.

Sem dúvida, o Rio ComiCon foi um marco e excelente oportunidade de fazer negócios. Que o diga Matias Maxx, da loja Cucaracha. “Participei do stand Quadrinhos Dependentes, que teve cerca de dez publicações e movimentou quase 20 mil reais!”. O comerciante frisa também o nível de excelência das publicações, “como a Samba # 2 que vem com óculos 3D, a Golden Shower e Beleléu”. E, de quebra, solta um furo de reportagem: “esta semana será lançado uma HQ sobre o surfista Pedro Scooby, editada pela Tarja Preta e patrocinada pela Nike 6.0, sinal que as grandes corporações também estão curtindo a linguagem”.

Pelo visto, este foi o ano dos independentes mesmo. A ponto de ganharem um espaço de exposição no Rio ComiCon, a cargo de Elcerdo, do coletivo Beleléu. “Pude conhecer pessoas que eu era fã, como o Sica. E vários outros contatos, como os convidados da exposição, que só conhecia por trocas de emails”. Para o seu compadre Eduardo Arruda, “achei sensacional eles trazido o Killoffer, um grande autor de quadrinhos, mas ainda pouco conhecido por aqui”. Com o lançamento da Beleléu eles conseguiram, inclusive, novos trabalhos remunerados. “Destaco um livro infanto-juvenil pela editora Casa da Palavra, O Manual do defensor do planeta, que foi bem interessante, usamos muito da linguagem dos quadrinhos”.

Os eventos foram lembrados não só pela nova geração, mas também pelo professor Aristides Dutra, Mestre em Jornalismo em Quadrinhos pela UFRJ, que destacou o 1º Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (“comprovou que há espaço para esse tipo de evento fora do triângulo Rio-Sampa-BH), o fato da Semana de Quadrinhos da Travessa ter saído da loja da Barra da Tijuca para as do centro (“o resultado foi um evento maior, com mais convidados e também um público maior e mais satisfeito”) e, claro, a Rio ComiCon. “Que ela cresça, encontre seu espaço e se torne o novo Anima Mundi do calendário cultural carioca”.

Com tanta gente falando sobre ele, o que o organizador do Rio ComiCon tem a dizer? “Eu acho que a evolução do mercado de quadrinhos está intimamente ligada a situação econômica do país. Há uma clara tendência de crescimento do mercado de quadrinhos, mas é necessário que a situação econômica continue melhorando e setores cada vez maiores da população obtenham acesso ao consumo básico e, em um segundo momento, ao consumo de cultura”, opina Roberto Ribeiro.

“Indiretamente, através das leis de incentivo a cultura pode-se perceber apoio ao mercado da nona arte. A Rio Comicon é prova disso”, diz Alzira Valéria, da Livraria da Travessa, atentando para o Fundo Nacional de Cultura e outras oportunidades de financiamento. “Porém, o que julgo de mais evidente para o fortalecimento do mercado das HQs é o bom trabalho editorial que vem sendo realizado, tanto por algumas editoras (Barba Negra, Leya, Zarabatana, Quadrinhos na Cia, Gal, Benvirá) e principalmente, pelo artistas independentes. Só a diversidade de publicações pode manter a sustentabilidade do mercado”.

EDITORAS DE CABEÇA E PORTAS ABERTAS
Estudioso e personagem ativo na cena HQ do Rio, José Roberto Graúna lembra o direcionamento de vendas para livrarias e editores que lançam publicações de extrema qualidade e com preços justos. “Aponto, nesse sentido, para Sandro Dinarte, editor da Adler (especializada em publicações sobre aviação), que criou o selo Ygarapé para editar livros infantis e histórias em quadrinhos. Depois de “Pelos Jardins de Boboli” (livro de rara beleza), de Rui de Oliveira; A Dinarte lançou “Camisa Preta”, quadrinhos com roteiro de Nani e desenhos de Guidacci. Do que vi no ramo de quadrinhos em 2010, foi o que realmente me parece ter feito a diferença”.

O professor Aristides também lança seu olhar sobre o tema. “Há alguns anos, o mercado de quadrinhos passou a migrar de forma mais intensa das bancas e gibiterias para as livrarias. No início, as produções luxuosas e caras foram uma estratégia ruim, mas em 2010 acho que esse casamento começou a render frutos mais consistentes – e a trazer mais leitores – com edições mais simples e a preços mais acessíveis (mas ainda caros, como geralmente são os livros no Brasil)”.

E com uma lista pronta na mão, ele continua: “Meu destaque dos traduzidos vai para A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean, finalmente trazido a nós pela Conrad (o original é de 1994). O destaque nacional fica com Muchacha, de Laerte (pela Companhia das Letras), com sua trama anárquica e rocambolesca e que remete ao processo criativo de Moebius em A Garagem Hermética. Destaco também o ótimo surgimento do selo Barba Negra. No campo teórico, o livro O quadro nos quadrinhos, de Fabio Luiz Carneiro Mourilhe Silva pela Multifoco. É um estudo amplo e detalhado sobre o quadro e a paginação nas histórias em quadrinhos. Imprescindível para quem quer conhecer melhor os recursos narrativos das HQs”.

De mudança para São Paulo, o carioca André Diniz acha que 2010 confirmou o crescimento da HQ, e não um modismo passageiro. “Algo que vem crescendo e que vejo com ótimos olhos é o fato das editoras em geral aceitarem os quadrinhos com muito mais naturalidade, mesmo que ela não tenha um selo de quadrinhos ou tenha decidido investir de cabeça no setor. A própria Record, que publicou o meu álbum O Quilombo Orum Aiê, é uma prova disso: eles não têm um selo de quadrinhos, e sim de literatura jovem. Se o quadrinho se encaixa na proposta do selo, ele é publicado também. E isso é muito bom”.

Andre Diniz e prof Aristides Dutra

Heitor Pitombo concorda com a abertura editorial do mercado. “Para mim, o mais relevante foi a possibilidade aberta por livros como Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, em que artistas brasileiros puderam experimentar novas linguagens com apoio total de grandes editoras, sem precisarem se prender às adaptações literárias, que têm sido praticamente uma desculpa para se editar quadrinhos nacionais com um pouco mais de requinte gráfico”.

“Com relação a produção e consumo, com certeza 2010 foi melhor! Eu nunca vi tantos lançamentos de quadrinhos brasileiros na minha vida em apenas um ano”. A animada afirmação vem de Fabiano Barroso, da Graffiti 76, de Belo Horizonte. “E acho (isso é uma impressão) que agora o público está, efetivamente, lendo o que se produz de quadrinho nacional. Ou seja, uma coisa leva à outra: a produção gera qualidade, que gera consumo, e eis que está criado ciclo”. E vai adiante em seu raciocínio: “Dá para perceber que o mercado de quadrinhos se "rearranjou" em relação ao que era nos anos 90 e principalmente 80. Finalmente chegamos ao que se pode chamar de "fase adulta" dos quadrinhos”.

APOIO GOVERNAMENTAL: AINDA HÁ MUITO A MELHORAR
Se no balanço do ano em São Paulo, a grande maioria destaca um programa estadual (ProAC) e municipal (VAI), o pessoal que faz quadrinhos ainda questiona a atuação do governo como incentivador do segmento. Tanto no estado quanto no município do Rio de Janeiro não há edital específico. “Não creio que tenha havido avanços consideráveis. Mas a manutenção de algumas políticas pode ser considerada um avanço”, opina Heitor Pitombo.

“O PNBE continua a comprar HQs tendo gratas surpresas como a aquisição de ZOO, de Nastablo Ramos, que apesar de abordar um tema tão polêmico (maltrato com os animais) conseguiu espaço. Mas, isso são apontamentos precisos, não acredito que seja o bastante para destacar uma melhora de um ano para o outro”, aponta Matheus Moura, da revista A3, de Uberlândia (MG). “Mas há os editais culturais que não são específicos, porém se os autores souberem aproveitar conseguem bom resultados”.

Bacharel em Letras, Alzira Valéria não se entusiasma com a situação atual. “Acredito que permanecemos estagnados nesse sentido. Com exceção do PNBE, que gera algumas polêmicas, não vejo políticas de governos mais diretas, por exemplo: a formação de professores para que eles trabalhem nas salas de aula com o material já comprado pelo governo, incentivo a formação de novos leitores, enfim”.

O mineiro Fabiano Barroso concorda: “Formar leitores de quadrinhos na escola é fundamental, mas ainda penso que é preciso uma preparação mais apurada por parte dos professores e das escolas para receberem as obras. Sei que em Belo Horizonte há um programa da prefeitura neste sentido”.

fabiano barroso da Graffiti 76 e capas da revista A3

Organizador da ComiCon e também da FIQ (a bienal de quadrinhos de Belo Horizonte), Roberto Ribeiro utiliza leis de incentivo municipais, estaduais e federais para realizar seus grandes eventos. Para ele, “houve avanços, sobretudo por parte de diversos governos estaduais que publicaram editais e vem patrocinando uma dezena de publicações anuais dando espaço ao melhor projeto. As políticas de editais parece-me mais interessante e democrática do que o movimento de adaptações literárias que vem crescendo em um assunto que é a história do Brasil”.

Dentre os críticos, Graúna acha que “assim como em todas as áreas culturais, a atuação dos governos são risíveis e mínimas. Não acho que o Governo deva bancar qualquer tipo de arte como uma espécie de “Bolsa Família”, mas os incentivos e, principalmente, os investimentos são ridículos”. Irônico, Allan Sieber diz que não entende do assunto, “mas se o governo quiser liberar uma grana para mim, acho ótimo. Pago muitos impostos”. Mais incisivo ainda é Matias Maxx: “Governo? Quadrinhos? É foda, com um quarto do dinheiro que eles liberam pra qualquer merda de filme nacional dá pra editar uma publicação bacana durante ANOS! Com tiragem mensal e distribuição nacional e renumerando uma porrada de artista responsa!”.

Matheus Moura acha que, em certo sentido, houve retrocesso, como nos casos de censura a obras de Will Eisner e Monteiro Lobato. “Há 60 anos atrás, os meninos ficavam sabendo de sexo em revistinhas de sacanagem e em conversa com amigos e com os mais velhos. Hoje, apesar de no carnaval ter mulher pelada balançando na televisão a qualquer hora, se tiver um mamilo desenhado em capa de revista é motivo pra olharem torto. Um hipocrisia sem tamanho”.

O CONTAGIANTE OTIMISMO CARIOCA
Comer uvas, acender vela ou pular ondas para ter um ano novo melhor. Não importa o ritual, o carioca é otimista por natureza. E nos quadrinhos não é diferente. “Temos já previstos lançamentos de trabalhos de grandes artistas nacionais como: Mutarelli e Rafael Sica. Além disso, temos perspectiva de mais festivais por aí. Quem sabe rola uma segunda edição da Rio Comicon? O que sei é que já está confirmada uma mostra de cinema no Rio sobre quadrinhos. Fora os blockbusters que virão por aí. Espero que 2011 seja ainda melhor para as hqs, ou seja, que venha enquadrado”, brinca Alzira.

“Espero que saiam álbuns de Cynthia B, Daniel Og e Bruno Maron, desenhistas que admiro muito pelo seu trabalho e postura”, revela Allan Sieber, que está prestes a finalizar o seu livro sobre João do Rio. “Redesenhei umas coisas que não tinha gostado. Mas faltam algumas páginas ainda”. O desenhista também fala sobre os projetos da sua produtora de vídeo – “a missão agora é terminar o documentário "Peréio Eu te Odeio" e no final do ano entra no ar o novo site, com uma loja com várias coisas, entre elas um boneco do Negão Bolaoito, que a Factotum de SP está fazendo”. E, de saída, lembra da estréia do seu talkshow via internet, “o "Tosco Friday", onde converso com amigos”.

cena de Pereio Eu te Odeio - de Allan Sieber

Quem também está com a agenda cheia é André Diniz. “Especificamente para mim, será o melhor de todos os anos, pois tenho vários lançamentos programados, ao menos três álbuns só no primeiro semestre. Quanto aos quadrinhos em geral, tudo sinaliza um fortalecimento ainda maior do mercado”.

“O mercado de quadrinhos me parece finalmente estar amadurecendo. Hoje o que não falta é espaço pra você mostrar seu trabalho e gente que entende e realmente se preocupa em procurar coisas novas e interessantes”, opina o beleléu Daniel Lafayette, “É um mercado que não tem como não crescer em 2011”. O beleléu Eduardo Arruda se mostra animado com a segunda edição do impresso coletivo. “Tem muita coisa boa vindo aí”.

“Sinceramente, no que depende no mercado editorial em si (aí, refiro-me aos empresários do ramo e de boa parte de nossos colegas que negociam seus trabalhos por valores abaixo da crítica) não aguardo muita coisa de diferente de 2010”, manda na lata o estudioso Zé Roberto Graúna. “Eu torço para que outros Dinartes “enlouqueçam”, e que grupos de artistas apareçam e realizem projetos pessoais. Afinal, foi assim que surgiram coisas interessantes como a Circo Editorial, O Pasquim, a Turma do Casseta e Planeta, Beleléu, etc”.

Aristides Dutra aproveita para fazer um pedido em especial. “Para 2011, o que espero é que os eventos continuem crescendo e se fortalecendo. Que os quadrinhos nas bibliotecas escolares sejam bem aproveitados e gerem novos e bons leitores. Que o mercado brasileiro continue crescendo. E que alguém publique por aqui (e direito) Asterios Polyp, uma pequena grande pérola de David Mazzucchelli”.

Fabiano Barroso acha que os quadrinhos estiveram na moda em 2010. “Espero que este crescimento não se demonstre uma "bolha" em 2011, ou seja, espero que ele se estabilize e continue a haver cada vez mais gente produzindo e mais gente lendo quadrinhos”. Por sua vez, Roberto Ribeiro preocupa-se com a crise econômica na Europa e EUA. “O Brasil conseguiu manter a crise afastada de nossas terras, pois o governo conseguiu investir no consumo de massa distribuindo melhor a riqueza e permitindo um crescimento da produção. Mas não vivemos isolados do mundo. Se a crise internacional persistir e, pior, se aprofundar, não teremos como ficar de fora. Está situação prejudicará todos os setores produtivos e, evidentemente, os quadrinhos. Estou, apesar de tudo, confiante que teremos um 2011 melhor”.

Leia também:
Exposição homenageia Nássara no Centro Cultural da Justiça Federal
Inscrições abertas para curso de verão sobre quadrinhos na ESPM
Exposição e oficina de humor em clube da Tijuca

 Comentar

Balanço 2010: realidades distintas no nordeste

Quinta Capa Quadrinhos - loja faz sucesso em Teresina

Entrevistei pessoas atuantes nos estados da Bahia, Pernambuco e Piauí. Nesta amostragem de envolvidos com quadrinhos no nordeste, a percepção foi a mesma sobre o mercado: melhorou. “O setor vem crescendo nos últimos anos e este ano não foi exceção”, resume em uma frase o jornalista Paulo Floro.

A única exceção foi o piripiriense Bernardo Aurélio. “Acho que em relação ao Piauí nós tivemos avanços e retrocessos. O que acabou nos deixando um pouco estagnados, na mesma”. Em contrapartida, “tivemos a abertura de uma livraria especializada: a Quinta Capa Quadrinhos. Isso é muito relevante”. Aurélio também lembra o fato de uma história em quadrinhos ter ganhado um prêmio Jabuti de Literatura. “Isso abre portas pra discussões”.

Na Bahia e em Pernambuco, percebe-se que foi um ano positivo, sobretudo para os independentes. “Tivemos o lançamento de novos títulos pela PADA que só publicava a Prismarte. Agora, eles estão com um título de terror, chamado "Do Além", que certamente vai virar um dos carros chefe da editora. Ainda em meados de 2010, o roteirista Leonardo Santana publicou uma nova HQ de ficção, a "Space Ópera", que ganhou recentemente uma segunda edição”, conta o jornalista e produtor de eventos Leo Peixe.

Abrindo parênteses, PADA significa Produtora Artística de Desenhistas Associados. Trata-se de uma editora formada por artistas independentes que já tem mais de 10 anos publicando a revista "Prismarte", atualmente na edição 54. “Acho importante que os quadrinhos nacionais, sobretudo os independentes, tenham uma continuidade com seus próprios universos e arcos de história. E isso é o que eu percebi que a PADA vem tentando fazer com seus personagens como o Esquadrão Agakê”, completa.

Peixe cita também a iniciativa do quadrinista Sandro Marcelo, “que continua com a publicação da "Campana" e "Billy The Kid", apesar de todos os problemas, sobretudo financeiro, para se fazer uma HQ”. “Acho que os artistas independentes devem sair um pouco da imagética estadunidense de se contar histórias e criar uma personalidade brazuca de roteiro e criação de personagens”.

É o caso da Turma do Xaxado, de Antonio Cedraz, que recentemente foi tema de uma tese na Faculdade para intérpretes e tradutores na Faculdade de Trieste - como transpor a “brasilidade” para italiano e como adaptar coisas que não existem na Itália para que o leitor italiano entenda sem perder a brasilidade. “Nós publicamos pela HQM Editora a revista do Xaxado, infelizmente não foi bem nas bancas, mas não vamos desanimar”, conta Cedraz, o homem por trás desta HQ mais que nordestina.

turma do xaxado em tese acadêmica na Italia

Também baseado em Salvador, Wilton Bernardo aponta como destaque do ano o crescimento de livros digitais e conteúdo para iPhone, iPad e iPod. “Eu acabo de lançar uma livraria exclusivamente digital, disponibilizando livros para leituras especificamente em aparelhos assim. Nossa meta é também contribuir em 2011 para a adequação dos quadrinhos afim de que o acesso por esses dispositivos sejam possíveis”. Até o momento existe apenas um título de HQ no site, “Darwin no Brasil”.

Através de sua instituição que ministra aulas de quadrinhos, Wilton realizou uma exposição em homenagem aos artistas locais e aos costumes baianos. “Foi super bem aceito. Tanto que foi montada em uma galeria de arte, um shopping popular e um colégio. Além disso, consegui através de lei de incentivo, levar oficinas de quadrinhos para diversas comunidades carentes aqui na Bahia”, conta.

EDITAL E LEI DE INCENTIVO: AME OU ODEIE.
“Vi algumas publicações acontecerem graças a leis de incentivo. Isso significa muito! Não apenas a oportunidade por parte do governo, mas o despertar dessas possibilidades por conta dos artistas”, enfatiza o baiano Wilton. “Ainda falta às artes gráficas terem editais próprios. Aqui na Bahia, tem pra diversas modalidades artísticas, mas não para as artes gráficas”.

Por sua vez, em Pernambuco os pontos de vista divergem. “Aqui em Pernambuco temos uma linha de edital do Governo, mas poucos quadrinhos são inscritos. É preciso que os artistas percebam essa porta aberta”, alerta Paulo Floro.

Em contraste, Leo Peixe, organizador de cinco edições de um grande evento, afirma que “infelizmente não existe uma política governamental que fomente especificamente a produção de quadrinhos. Há somente algumas leis de incentivo à cultura em geral, como o Funcultura. Mas a praticidade dessas leis é o seu calcanhar de Aquiles. Há a demora para análise e aprovação do projeto e, caso seja aprovado, ainda tem a capitação de recursos que demanda mais um bom tempo e depende do apoio de outras instituições. Assim como nos anos anteriores, HQs independentes ainda são feitas na base da imensa vontade e raça dos produtores e artistas”.

Grande incentivador da lei que previa cotas de lançamentos para HQs nacionais, Bernardo Aurélio continua desanimado. “A gente vê poucas notícias de políticas de governo voltadas pra quadrinhos. Vemos os PCN com listas de quadrinhos todos os anos e um edital de R$ 200 mil em prêmios para quadrinhos, só que apenas para São Paulo. Vejo poucos avanços no que diz respeito a todo o Brasil. Aqui no Piauí terminamos o ano com as leis municipal e estadual de cultura devendo dinheiro para três ou quatro projetos de quadrinhos aprovados em editais de 2009 e 2010. Isso é triste”.

PLANOS E PEDIDOS PARA 2011
Depois de um ano difícil, inclusive com problemas de saúde, Antonio Cedraz prevê um 2011 bem melhor. “Para o próximo ano estou preparando alguns lançamentos de livros/álbuns, tem projetos de uma série de desenhos para TV a Bienal do Livro da Bahia, onde meus trabalhos tem se sobressaído muito”.

Paulo Floro também acredita nisso. Para ele, “em 2011, teremos ainda mais HQs nacionais nas livrarias. A expectativa é grande para que artistas lancem álbuns autorais de relevância. Nas obras estrangeiras, álbuns de diferentes países devem chegar às prateleiras. Acho que é chegada a hora de descobrir a boa produção de nossos vizinhos da América Latina e os novos autores europeus. O mercado está favorável a isso”.

O piauiense Bernardo é mais incisivo em seus desejos. “Espero mais abertura das editoras, lançando editais de propostas de quadrinhos. Elas costumam reclamar que não há projetos, mas falta que as editoras abram editais, apontando seus interesses para que possamos nortear uma proposta”. E ainda: “também espero uma edital Federal dentro do MinC especificamente para quadrinhos. O governo Lula criou editais pra tantos gêneros e minorias (houve um edital para Ciganos! Impressionante!). Precisamos de um edital nacional de premiação, aos moldes do edital de São Paulo, só que para todo o Brasil”.

wilton bernardo da oficina hq com curadoras de arte

Quem não pode reclamar de apoio é Wilton Bernardo. “A Oficina HQ conseguiu patrocínio de uma grande produtora artística, conseguiu realizar uma Ação sócio-cultural envolvendo quadrinhos através de lei de incentivo, e está fechando o ano ainda conquistando parcerias para iniciar o ano de 2011 a todo vapor. Uma das metas é levar parte do que foi feito com êxito na Bahia, para outras partes do Brasil, como exposições e oficinas, além de outras surpresas que virão!”.

Correndo por outras vias, Leo Peixe deseja maior união dos independentes e recomenda uma maior utilização da internet. “A rede é uma excelente janela para, ao menos, o reconhecimento de trabalhos e cujo custo de produção é baixo já que não há o gasto com impressão. Fora que o material produzido para a web pode ser colorido que certamente é um atrativo a mais para os consumidores”.

Leia também:
5a edição do evento Dos Quadrinhos para as Telonas em Recife
No Piauí, muito mais que um salão de humor
Boca suja de personagem derruba secretário de educação da Bahia

 Comentar

Balanço 2010: em Brasília, os independentes

capa da Samba 2 e Evandro Vieira no Rio ComiCon 2010

Saber a opinião de quem produz quadrinhos em Brasília não é muito difícil. Duas fontes para esta pesquisa foram Evandro Vieira e a galera da revista Samba (leia-se Lucas Gehre, Gabriel Mesquita e Gabriel Góes). Para todos eles o ano de 2010 foi bom. “A cada ano, a situação das HQs vem melhorando. O nível artístico está maior e a qualidade gráfica das publicações também acompanham esse crescimento”, responde Evandro.

“Pra gente foi melhor, fizemos a SAMBA 2, maior, mais bonita e com óculos 3D, pra gente foi um ano de crescimento. Pros quadrinhos no Brasil, principalmente a produção nacional, achamos que foi melhor, mais títulos, mais editoras publicando jovens artistas, mais produtores independentes aparecendo na cena”.

Além da Flip e da Rio ComiCon, os candangos destacam a boa safra de HQs independentes como a “Golden Shower”, a “Prego #4” e o “Ano do Bumerangue”, além das publicações do novo selo da Companhia das letras, “que está com um projeto legal de novos quadrinhos nacionais”, definem os sambistas.

DUAS VISÕES SOBRE DINHEIRO PÚBLICO
E o que eles acham da atuação do governo em 2010 estando no centro das decisões políticas? Na visão do trio da Samba, “parece estar tudo mais ou menos na mesma, fora aquela história dos quadrinhos que são comprados pelas escolas, que já tá velha, não sabemos de nada novo. Mas é legal ver que mesmo sem uma política de governo, ou apoio do governo, o mercado e a produção continuam crescendo. Significa que é possível produzir e publicar mesmo sem um suporte governamental direto, o que é bom pro mercado”.

Ponto de vista diferente de Evandro, cuja HQ da banda Quebraqueixo recebeu uma verba pública e virou um livrão de capa dura com CD e poster. “Fez sucesso no Rio, vendi 33 dos 35 que levei pro RioComicon. Os outros dois eu dei pro Manara e pro Ziraldo”. Na opinião do músico, escritor e dublê de quadrinista, “quando artistas recebem verbas públicas de incentivo, a qualidade das HQs tende a melhorar. O artista se sente valorizado e trabalha com mais segurança”.

PENSAMENTOS IGUAIS
No entanto, todos têm a mesma expectativa para o ano que vem. “Que os quadrinhos independentes ganhem mais força e visibilidade”, dispara Evandro. “Esperamos continuar crescendo, e que o mercado e a produção também, esperamos conhecer mais gente que faz quadrinhos e que gosta de quadrinhos, planejamos pelo menos dois lançamentos para 2011”, revela o pessoal da Samba. “E queremos também nos surpreender, descobrir coisas novas incríveis, porque a gente sabe que existe um monte de coisa aí que ninguém conhece e que pode aparecer e quebrar tudo”.

Leia também:
Primeira versão da HQ da banda Quebraqueixo completa 1 ano
Grosseria Refinada, a estréia de Evandro Vieira em livro
O zine Bongolê Bongoró fez história na capital federal do país

 Comentar

Balanço 2010: o sul de olho no resto do país

Galvão - autor da hq Vida Besta

Para traçar um raio-X sobre o ano de 2010 na visão do pessoal da região sul, foram entrevistados dois caras muito bons que moram em Florianópolis - Galvão (FOTO) e Rico Manhães - e o jornalista gaúcho Augusto Paim, que realizou este ano um importante seminário em Porto Alegre sobre o jornalismo em quadrinhos. Para ele, “ainda é um mercado em expansão, mas talvez esteja já alcançando um patamar comparado aos dos mercados de quadrinhos mais estabelecidos. A quantidade de eventos sobre quadrinhos e o espaço e a abordagem que se dá a eles na mídia tradicional mostra que há um melhor conhecimento dos quadrinhos como linguagem autônoma. Isso, na sociedade em geral, não apenas em meio especializado”.

Esta percepção é compartilhada pelos outros dois, principalmente por Manhães, que trabalha direto para o mercado franco-belga. “No mercado brasileiro, acho que 2010 pode ser considerado um ano de "ouro" por tudo o que aconteceu em relação aos quadrinhos nacionais, já no mercado europeu foi um dos piores anos em relação a vendas devido à crise na Europa. Eu conheço gente que vendia 20 mil exemplares por ano de sua série e passou a vender 8 mil exemplares, ou seja mais de 50% de queda nas vendas”.

EDITORAS CRIARAM SELOS ESPECÍFICOS PARA HQs
Talvez por isso mesmo, tenha sido um ano particularmente para Rico, que participou na série FOOT FURIEUX , bastante conhecida na França e Bélgica, e no livro MSP + 50, de Mauricio de Sousa. “E, é claro, Pedro, a matéria que você fez comigo, que foi publicada na última e histórica edição impressa do Jornal do Brasil e fechou com chave de ouro o meu "debut" na cena nacional”.

Já para Augusto Paim, “o fato mais relevante de 2010 é na verdade um processo: o processo de a maioria das grandes editoras criarem um selo para quadrinhos artísticos. E há também editoras novas surgindo, baseadas na publicação de quadrinhos. Isso ocorreu bastante no biênio 2009/2010 e mostra que os quadrinhos passam a ser melhor compreendidos. E, o que é fundamental no mercado editorial, passam também a ser rentáveis”.

FALHAS E ACERTOS GOVERNAMENTAIS
Quando o assunto é governo, Paim frisa “polêmicas que foram frutos de aquisições malpensadas”, como o caso Will Eisner. “Não é um problema dos quadrinhos, mas como o alvo foram obras de quadrinhos, isso afetou de certa maneira sua imagem. Então surge essa série de desentendimentos, como se falar de Eisner na imprensa como um desenhista sem qualidade. Isso tudo começou com a questão da aquisição do governo. Essa política precisa ser revista, precisa ser melhor estruturada”.

Já o quadrinista Rico Manhães vê com bons olhos a temática nacionalista. “Fiquei surpreendido com a quantidade de títulos de HQs sobre fatos da história do Brasil, assim como versões em HQ de obras literárias, e muitos desses projetos foram incentivados por editais do governo”. Direto mesmo é Galvão: “eu não gosto de leis de incentivo do Governo. Acho que o dinheiro deveria ser usado pra coisas mais importantes e mais pontuais, que atingissem diretamente quem precisa”.

DESEJOS POSITIVOS
Mas todos pensam a mesma coisa. “Se o processo seguir adiante, já será lucro. O mercado está bom, há espaço para novas obras, há fomento de produção. É apenas seguir esse ritmo”, sentencia Paim. “Espero que o Brasil continue crescendo nessa área, quero voltar meu trabalho para o mercado nacional, espero ter essa chance, visto que é bastante complicado publicar aqui”, declara otimista Manhães.

“Tô sonhando em lançar minha HQ As Crônicas Bizarras do ABsurdyum no Brasil. Meu santo (ou meu demônio) bem que podia ajudar”, declara Galvão, lembrando de mais uma coisinha: “E, claro, quero dias com mais horas, pra ter tempo de ler mais quadrinhos”.

Leia também:
Como fazem os brasileiros que publicam na França e na Bélgica
Galvão faz turnê de lançamento do seu livro na Itália
I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos em Porto Alegre

 Comentar

Curso de verão da ESPM focado em quadrinhos

Pedro de Luna no debate sobre quadrinhos na UFRJ dia 01/10/10

As férias estão chegando e é uma boa oportunidade de fazer um curso rápido de verão. Minha sugestão é que você se inscreva no curso de extensão "Histórias em Quadrinhos – Da diversão a profissão", que estarei ministrando do dia 24 ao dia 28 de janeiro, das 19h às 22h, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), aqui no centro do Rio de Janeiro.

Em 15 horas-aula apresentarei o mercado, o processo de produção e os inúmeros gêneros das Histórias em Quadrinhos, além de explicar o que são as HQs, sua origem e o seu potencial como uma poderosa mídia. Num momento de crescimento tanto do mercado de HQs quanto de animação, vamos discutir casos de sucesso e quais as tendências das HQs no Brasil e no mundo.

A metodologia será de aula expositiva totalmente ilustrada com diversas atividades práticas simultâneas. Também serão convidados profissionais do meio: como artistas e editores para compartilhar sua experiência com os alunos. Para visualizar o programa completo e fazer a sua inscrição visite esta página.

Foto: José Roberto Graúna.

Leia também:
Barba Negra lança prêmio para novos autores de quadrinhos
Editora Abril procura novos personagens para lançar revista
Palestra apresenta a relação entre a música e os quadrinhos

 Comentar

Exposição póstuma sem Jorge e 100 Nássara

convite expo Nassara 100 anos

Dono de um traço muito particular, Antônio Gabriel Nássara era compositor e caricaturista. No ano em que se comemora o centenário de seu nascimento, os cariocas é quem ganham de presente uma exposição no Centro Cultural Justiça Federal, no centro do Rio. O projeto começou há mais de dois anos numa parceria entre Zé Roberto Graúna e Jorge de Salles. Nássara foi amigo e parceiro de Salles a quem presenteou com um acervo de quase 200 desenhos originais.

O evento será aberto ao público a partir do dia 15. Uma curiosidade mórbida: no ano de sua morte (1996) Nássara ilustrou o livro infantil “Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão", mas faleceu antes de ver publicado. Da mesma forma, Jorge de Salles não poderá comparecer pessoalmente ao evento que tanto se empenhou para realizar. Infelizmente o artista faleceu no mês passado, devido a complicações de uma cirurgia realizada no fim de outubro.

diego novaes e jorge de salles

Diego Novaes, da Semana de HQ da UFRJ, e o artista Jorge de Salles


Mas guardemos as lágrimas. Certamente a talentosa dupla está em algum lugar do plano espiritual curtindo um sambinha e fazendo desenhos maravilhosos. A exposição “Nássara 100 Anos” vai até 06 de fevereiro, de 12h às 19h, com entrada franca.

poster de nassara para a funarte

Leia também:
JBlog Quadrinhos é eleito o melhor site/blog de HQ de 2010
Ziraldo comemora seus 78 anos lançando caixa comemorativa do Pererê
Exposição e oficina de humor em clube de Tijuca

 Comentar

Exposição e oficina de humor em clube na Tijuca

1a mostra de humor do tijuca tenis clube

Acontecerá de 21 a 30 de dezembro a 1ª edição da Mostra de Humor do Tijuca Tênis Clube. Serão expostos trabalhos desenvolvidos por novos talentos que dão uma ‘canetada no sistema’, manifestando indignação ao descaso que alguns de nossos políticos têm feito com o povo brasileiro. Confira abaixo a programação:

Seção 1 - Mostra de Quadrinhos “Passando a Caneta no Sistema”
Apresentação das coletâneas dos trabalhos de cartunistas convidados e de ex-alunos que já atuam no mercado de trabalho, com a presença dos seus autores, além de mostra dos trabalhos dos alunos do curso Primeiros Traços.

Seção 2 - Oficina de Experimentação (livre) a partir do dia 21, das 14h às 17h
Com a proposta de criar e desenvolver técnicas da linguagem dos quadrinhos - roteiro, personagens, arte final para tirinhas, diagramação de página ilustrada, desenvolvimento de projetos gráficos – uma demonstração de como aplicar o potencial criativo nas diversas áreas da Comunicação Visual.

Seção 3 - Gibiteca
Troca de revistas e gibis, para incentivar a leitura e integrar os visitantes.

O evento será a Galeria de Arte do clube (R. Conde de Bonfim nº 451, Tijuca, próximo à Praça Saens Peña). Mais infos com o idealizador do evento, Alex Dagnaisser, Diretor do Instituto Primeiros Traços, pelos telefones 2613-5988 / 9314-8862 / 9761-1760 ou pelo e-mail escoladecartoon@gmail.com

Leia também:
Prêmio para novos autores de quadrinhos. Inscrição até janeiro!
O dia em que Deus virou um bichinho de pelúcia
Obra de Monteiro Lobato é censurada por racismo

 Comentar

27o Prêmio Ângelo Agostini: votação aberta

angelo agostini por Doró

Estão abertas ao público a votação para o 27o Prêmio Ângelo Agostini. Serão contemplados os vencedores das categorias MESTRES DO QUADRINHO NACIONAL (três nomes), MELHOR DESENHISTA, MELHOR ROTEIRISTA, MELHOR CARTUNISTA, MELHOR FANZINE e MELHOR LANÇAMENTO (todas com dois nomes) e, novidade, a categoria MELHOR LANÇAMENTO INDEPENDENTE. Esta vale para publicações que tiveram o primeiro número, especial ou número único lançado em 2010, para o mercado brasileiro, editado pelo próprio autor ou por pequenas editoras, de baixa tiragem.

E, claro, o prêmio JAYME CORTEZ, para quem tenha incentivado a HQe através da divulgação, edição, promoção ou qualquer ação que tenha aberto espaço para o quadrinho nacional, também durante o ano de 2010.

Apesar da votação popular já ter sido contestada, pois ganharia quem mobilizasse mais amigos pra votar, o prêmio continua aí. Se você quiser participar, preencha a cédula e envie até 05 de janeiro de 2011 para:

AQC-ESP/ Worney Almeida de Souza Caixa Postal 675 SP (SP) cep 01031-970 ou para os endereços eletrônicos: premioangeloagostini@gmail.com, votacao@aqc-esp.com.br e angeloagostini@bigorna.net

Para baixar a a cédula em arquivo ".DOC" clique aqui.

Caricatura acima: Angelo Agostini por Doró, no blog do Bira Dantas

Leia também:
JBlog Quadrinhos é eleito o melhor de 2010 pelo Troféu Bigorna
Angelo Agostini é tema de seminário de quadrinhos no Rio de Janeiro
Pesquisador Athos Cardoso fala sobre os 100 anos de Agostini
Prêmio Angelo Agostini é contestado pela repetição dos premiados

 Comentar

Mauricio de Sousa deve estar rindo a toa...

mauricio de sousa brinda ingresso na APL

Mauricio de Sousa foi eleito imortal na Academia Paulista de Letras, ao conquistar a vaga deixada pelo poeta e jurista Geraldo de Camargo Vidigal, falecido em agosto deste ano. Ele ocupará a Cadeira 24, é o primeiro quadrinista a conquistar a honraria. Ao saber que se juntaria ao seleto grupo de 40 luminares da literatura e intelectualidade, declarou que "gostaria de atrair crianças e jovens para conhecerem a Academia e seus representantes".

Como se não bastasse o sucesso pessoal, os negócios vão de vento em popa. Mauricio acaba de lançar a revista do Cebolinha em sua versão adolescente (exclusiva do menino que fala elado). Abaixo, a capa da primeira edição, já nas bancas.

primeiro numero da revista Cebola Jovem

Leia também:
Turma da Mônica Jovem, um caso editorial de sucesso
Entrevista com Mauricio na época do lançamento da Turma da Mônica Jovem
Personagem Cebolinha completa 50 anos de vida

 Comentar (1)

Prêmios para novos autores de quadrinhos

premio barba negra 2011

Falta pouco para terminar o período de inscrição no 1o Prêmio Abril de Personagens, que vai só até o dia 19 e pode dar aos autores a oportunidade de ter uma revista pra chamar de sua. Mas quem não teve ou terá tempo de se inscrever, ganhou uma oportunidade de ouro. O selo Barba Negra, da editora Leya, lançou o seu concurso que vale um contrato e um adiantamento sobre vendas no valor de R$ 20 mil. Basta inscrever sua graphic novel de, no mínimo, 96 páginas, para ser lançada na Rio ComiCon 2011. Mais infos no link acima.

Leia também:
Editora Barba Negra lança Relatório Ota, leia a entrevista com o autor
Quadrinista conta sua história com o câncer em livro da Barba Negra
Evento discute com profundidade o que são as graphic novels

 Comentar