Na visão carioca do mercado, também tivemos um bom 2010 e melhor que o ano anterior. Em parte por conta de dois grandes eventos, a
Flip e a
Rio ComiCon.
“O Brasil nunca recebeu tantos nomes de relevo dos quadrinhos mundiais em tantos eventos. Qual país que pode dizer que hospedou, durante um único ano, nomes como Robert Crumb, Gilbert Shelton, Milo Manara, David Lloyd, Kevin O'Neill e tantos outros outros?”, indaga o jornalista e colecionador
Heitor Pitombo.
Sem dúvida, o
Rio ComiCon foi um marco e excelente oportunidade de fazer negócios. Que o diga
Matias Maxx, da
loja Cucaracha. “Participei do
stand Quadrinhos Dependentes, que teve cerca de dez publicações e movimentou quase 20 mil reais!”. O comerciante frisa também o nível de excelência das publicações, “como a Samba # 2 que vem com óculos 3D, a Golden Shower e Beleléu”. E, de quebra, solta um furo de reportagem: “esta semana será lançado uma HQ sobre o surfista Pedro Scooby, editada pela
Tarja Preta e patrocinada pela Nike 6.0, sinal que as grandes corporações também estão curtindo a linguagem”.
Pelo visto, este foi o ano dos independentes mesmo. A ponto de ganharem um espaço de exposição no
Rio ComiCon, a cargo de
Elcerdo, do coletivo
Beleléu. “Pude conhecer pessoas que eu era fã, como o Sica. E vários outros contatos, como os convidados da exposição, que só conhecia por trocas de emails”. Para o seu compadre
Eduardo Arruda, “achei sensacional eles trazido o Killoffer, um grande autor de quadrinhos, mas ainda pouco conhecido por aqui”. Com o lançamento da Beleléu eles conseguiram, inclusive, novos trabalhos remunerados. “Destaco um livro infanto-juvenil pela editora Casa da Palavra,
O Manual do defensor do planeta, que foi bem interessante, usamos muito da linguagem dos quadrinhos”.
Os eventos foram lembrados não só pela nova geração, mas também pelo professor
Aristides Dutra, Mestre em Jornalismo em Quadrinhos pela UFRJ, que destacou o
1º Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (“comprovou que há espaço para esse tipo de evento fora do triângulo Rio-Sampa-BH), o fato da
Semana de Quadrinhos da Travessa ter saído da loja da Barra da Tijuca para as do centro (“o resultado foi um evento maior, com mais convidados e também um público maior e mais satisfeito”) e, claro, a Rio ComiCon. “Que ela cresça, encontre seu espaço e se torne o novo Anima Mundi do calendário cultural carioca”.
Com tanta gente falando sobre ele, o que o organizador do
Rio ComiCon tem a dizer? “Eu acho que a evolução do mercado de quadrinhos está intimamente ligada a situação econômica do país. Há uma clara tendência de crescimento do mercado de quadrinhos, mas é necessário que a situação econômica continue melhorando e setores cada vez maiores da população obtenham acesso ao consumo básico e, em um segundo momento, ao consumo de cultura”, opina
Roberto Ribeiro.
“Indiretamente, através das leis de incentivo a cultura pode-se perceber apoio ao mercado da nona arte. A Rio Comicon é prova disso”, diz
Alzira Valéria, da Livraria da Travessa, atentando para o Fundo Nacional de Cultura e outras oportunidades de financiamento. “Porém, o que julgo de mais evidente para o fortalecimento do mercado das HQs é o bom trabalho editorial que vem sendo realizado, tanto por algumas editoras (Barba Negra, Leya, Zarabatana, Quadrinhos na Cia, Gal, Benvirá) e principalmente, pelo artistas independentes. Só a diversidade de publicações pode manter a sustentabilidade do mercado”.
EDITORAS DE CABEÇA E PORTAS ABERTAS
Estudioso e personagem ativo na cena HQ do Rio,
José Roberto Graúna lembra o direcionamento de vendas para livrarias e editores que lançam publicações de extrema qualidade e com preços justos. “Aponto, nesse sentido, para Sandro Dinarte, editor da Adler (especializada em publicações sobre aviação), que criou o selo Ygarapé para editar livros infantis e histórias em quadrinhos. Depois de “Pelos Jardins de Boboli” (livro de rara beleza), de Rui de Oliveira; A Dinarte lançou “Camisa Preta”, quadrinhos com roteiro de Nani e desenhos de Guidacci. Do que vi no ramo de quadrinhos em 2010, foi o que realmente me parece ter feito a diferença”.
O professor Aristides também lança seu olhar sobre o tema. “Há alguns anos, o mercado de quadrinhos passou a migrar de forma mais intensa das bancas e gibiterias para as livrarias. No início, as produções luxuosas e caras foram uma estratégia ruim, mas em 2010 acho que esse casamento começou a render frutos mais consistentes – e a trazer mais leitores – com edições mais simples e a preços mais acessíveis (mas ainda caros, como geralmente são os livros no Brasil)”.
E com uma lista pronta na mão, ele continua: “Meu destaque dos traduzidos vai para A comédia trágica ou a tragédia cômica de
Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean, finalmente trazido a nós pela Conrad (o original é de 1994). O destaque nacional fica com
Muchacha, de Laerte (pela Companhia das Letras), com sua trama anárquica e rocambolesca e que remete ao processo criativo de Moebius em
A Garagem Hermética. Destaco também o ótimo surgimento do
selo Barba Negra. No campo teórico, o livro
O quadro nos quadrinhos, de Fabio Luiz Carneiro Mourilhe Silva pela Multifoco. É um estudo amplo e detalhado sobre o quadro e a paginação nas histórias em quadrinhos. Imprescindível para quem quer conhecer melhor os recursos narrativos das HQs”.
De mudança para São Paulo, o carioca
André Diniz acha que 2010 confirmou o crescimento da HQ, e não um modismo passageiro. “Algo que vem crescendo e que vejo com ótimos olhos é o fato das editoras em geral aceitarem os quadrinhos com muito mais naturalidade, mesmo que ela não tenha um selo de quadrinhos ou tenha decidido investir de cabeça no setor. A própria Record, que publicou o meu álbum
O Quilombo Orum Aiê, é uma prova disso: eles não têm um selo de quadrinhos, e sim de literatura jovem. Se o quadrinho se encaixa na proposta do selo, ele é publicado também. E isso é muito bom”.
Heitor Pitombo concorda com a abertura editorial do mercado. “Para mim, o mais relevante foi a possibilidade aberta por livros como
Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, em que artistas brasileiros puderam experimentar novas linguagens com apoio total de grandes editoras, sem precisarem se prender às adaptações literárias, que têm sido praticamente uma desculpa para se editar quadrinhos nacionais com um pouco mais de requinte gráfico”.
“Com relação a produção e consumo, com certeza 2010 foi melhor! Eu nunca vi tantos lançamentos de quadrinhos brasileiros na minha vida em apenas um ano”. A animada afirmação vem de
Fabiano Barroso, da
Graffiti 76, de Belo Horizonte. “E acho (isso é uma impressão) que agora o público está, efetivamente, lendo o que se produz de quadrinho nacional. Ou seja, uma coisa leva à outra: a produção gera qualidade, que gera consumo, e eis que está criado ciclo”. E vai adiante em seu raciocínio: “Dá para perceber que o mercado de quadrinhos se "rearranjou" em relação ao que era nos anos 90 e principalmente 80. Finalmente chegamos ao que se pode chamar de "fase adulta" dos quadrinhos”.
APOIO GOVERNAMENTAL: AINDA HÁ MUITO A MELHORAR
Se no balanço do ano em São Paulo, a grande maioria destaca um programa estadual (ProAC) e municipal (VAI), o pessoal que faz quadrinhos ainda questiona a atuação do governo como incentivador do segmento. Tanto no estado quanto no município do Rio de Janeiro não há edital específico. “Não creio que tenha havido avanços consideráveis. Mas a manutenção de algumas políticas pode ser considerada um avanço”, opina Heitor Pitombo.
“O PNBE continua a comprar HQs tendo gratas surpresas como a aquisição de
ZOO, de Nastablo Ramos, que apesar de abordar um tema tão polêmico (maltrato com os animais) conseguiu espaço. Mas, isso são apontamentos precisos, não acredito que seja o bastante para destacar uma melhora de um ano para o outro”, aponta
Matheus Moura, da revista A3, de Uberlândia (MG). “Mas há os editais culturais que não são específicos, porém se os autores souberem aproveitar conseguem bom resultados”.
Bacharel em Letras, Alzira Valéria não se entusiasma com a situação atual. “Acredito que permanecemos estagnados nesse sentido. Com exceção do PNBE, que gera algumas polêmicas, não vejo políticas de governos mais diretas, por exemplo: a formação de professores para que eles trabalhem nas salas de aula com o material já comprado pelo governo, incentivo a formação de novos leitores, enfim”.
O mineiro Fabiano Barroso concorda: “Formar leitores de quadrinhos na escola é fundamental, mas ainda penso que é preciso uma preparação mais apurada por parte dos professores e das escolas para receberem as obras. Sei que em Belo Horizonte há um programa da prefeitura neste sentido”.
Organizador da ComiCon e também da
FIQ (a bienal de quadrinhos de Belo Horizonte), Roberto Ribeiro utiliza leis de incentivo municipais, estaduais e federais para realizar seus grandes eventos. Para ele, “houve avanços, sobretudo por parte de diversos governos estaduais que publicaram editais e vem patrocinando uma dezena de publicações anuais dando espaço ao melhor projeto. As políticas de editais parece-me mais interessante e democrática do que o movimento de adaptações literárias que vem crescendo em um assunto que é a história do Brasil”.
Dentre os críticos, Graúna acha que “assim como em todas as áreas culturais, a atuação dos governos são risíveis e mínimas. Não acho que o Governo deva bancar qualquer tipo de arte como uma espécie de “Bolsa Família”, mas os incentivos e, principalmente, os investimentos são ridículos”. Irônico,
Allan Sieber diz que não entende do assunto, “mas se o governo quiser liberar uma grana para mim, acho ótimo. Pago muitos impostos”. Mais incisivo ainda é Matias Maxx: “Governo? Quadrinhos? É foda, com um quarto do dinheiro que eles liberam pra qualquer merda de filme nacional dá pra editar uma publicação bacana durante ANOS! Com tiragem mensal e distribuição nacional e renumerando uma porrada de artista responsa!”.
Matheus Moura acha que, em certo sentido, houve retrocesso, como nos casos de censura a obras de
Will Eisner e
Monteiro Lobato. “Há 60 anos atrás, os meninos ficavam sabendo de sexo em revistinhas de sacanagem e em conversa com amigos e com os mais velhos. Hoje, apesar de no carnaval ter mulher pelada balançando na televisão a qualquer hora, se tiver um mamilo desenhado em capa de revista é motivo pra olharem torto. Um hipocrisia sem tamanho”.
O CONTAGIANTE OTIMISMO CARIOCA
Comer uvas, acender vela ou pular ondas para ter um ano novo melhor. Não importa o ritual, o carioca é otimista por natureza. E nos quadrinhos não é diferente. “Temos já previstos lançamentos de trabalhos de grandes artistas nacionais como: Mutarelli e Rafael Sica. Além disso, temos perspectiva de mais festivais por aí. Quem sabe rola uma segunda edição da Rio Comicon? O que sei é que já está confirmada uma mostra de cinema no Rio sobre quadrinhos. Fora os
blockbusters que virão por aí. Espero que 2011 seja ainda melhor para as hqs, ou seja, que venha enquadrado”, brinca Alzira.
“Espero que saiam álbuns de Cynthia B, Daniel Og e Bruno Maron, desenhistas que admiro muito pelo seu trabalho e postura”, revela Allan Sieber, que está prestes a finalizar o seu livro sobre João do Rio. “Redesenhei umas coisas que não tinha gostado. Mas faltam algumas páginas ainda”. O desenhista também fala sobre os projetos da sua produtora de vídeo – “a missão agora é terminar o documentário "Peréio Eu te Odeio" e no final do ano entra no ar o novo site, com uma loja com várias coisas, entre elas um boneco do Negão Bolaoito, que a Factotum de SP está fazendo”. E, de saída, lembra da estréia do seu
talkshow via internet, “o "Tosco Friday", onde converso com amigos”.
Quem também está com a agenda cheia é André Diniz. “Especificamente para mim, será o melhor de todos os anos, pois tenho vários lançamentos programados, ao menos três álbuns só no primeiro semestre. Quanto aos quadrinhos em geral, tudo sinaliza um fortalecimento ainda maior do mercado”.
“O mercado de quadrinhos me parece finalmente estar amadurecendo. Hoje o que não falta é espaço pra você mostrar seu trabalho e gente que entende e realmente se preocupa em procurar coisas novas e interessantes”, opina o beleléu
Daniel Lafayette, “É um mercado que não tem como não crescer em 2011”. O beleléu Eduardo Arruda se mostra animado com a segunda edição do impresso coletivo. “Tem muita coisa boa vindo aí”.
“Sinceramente, no que depende no mercado editorial em si (aí, refiro-me aos empresários do ramo e de boa parte de nossos colegas que negociam seus trabalhos por valores abaixo da crítica) não aguardo muita coisa de diferente de 2010”, manda na lata o estudioso Zé Roberto Graúna. “Eu torço para que outros Dinartes “enlouqueçam”, e que grupos de artistas apareçam e realizem projetos pessoais. Afinal, foi assim que surgiram coisas interessantes como a Circo Editorial, O Pasquim, a Turma do Casseta e Planeta, Beleléu, etc”.
Aristides Dutra aproveita para fazer um pedido em especial. “Para 2011, o que espero é que os eventos continuem crescendo e se fortalecendo. Que os quadrinhos nas bibliotecas escolares sejam bem aproveitados e gerem novos e bons leitores. Que o mercado brasileiro continue crescendo. E que alguém publique por aqui (e direito)
Asterios Polyp, uma pequena grande pérola de David Mazzucchelli”.
Fabiano Barroso acha que os quadrinhos estiveram na moda em 2010. “Espero que este crescimento não se demonstre uma "bolha" em 2011, ou seja, espero que ele se estabilize e continue a haver cada vez mais gente produzindo e mais gente lendo quadrinhos”. Por sua vez, Roberto Ribeiro preocupa-se com a crise econômica na Europa e EUA. “O Brasil conseguiu manter a crise afastada de nossas terras, pois o governo conseguiu investir no consumo de massa distribuindo melhor a riqueza e permitindo um crescimento da produção. Mas não vivemos isolados do mundo. Se a crise internacional persistir e, pior, se aprofundar, não teremos como ficar de fora. Está situação prejudicará todos os setores produtivos e, evidentemente, os quadrinhos. Estou, apesar de tudo, confiante que teremos um 2011 melhor”.
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