É fato que as HQs estão ganhando cada vez mais espaço também nas universidades. Mais uma prova disso é o simpósio
"História e Quadrinhos: pesquisa e ensino em História e as interações com a Nona Arte", que acontecerá dentro do
XXVI Simpósio Nacional de História, de 17 a 22 de julho, na USP, em São Paulo.
Aos interessados em apresentar trabalhos ou participar como ouvinte, aí vai uma cópia da entrevista que realizei com a
Dra. Gêisa Fernandes (FOTO), coordenadora deste encontro.
JBlog >> É perceptível que, aos poucos, a HQ vai ganhando espaço na, arram, "academia". Ela é tema de teses e até de simpósios. A que a senhora atribui esta mudança?
Gêisa - Ao reiterado esforço, senão do meio acadêmico como um todo, pelo menos de diversos de seus setores, no sentido de diminuir a separação entre o que acontece dentro da universidade e as experiências da chamada “vida real”. A ideia de um ambiente fechado em seus próprios problemas, parecido com um clube de difícil acesso (e membros algo esnobes) permitiu, por um lado, a sobrevida da autonomia acadêmica, o que me parece uma importante conquista, sobretudo se pensarmos em momentos conturbados da vida política do país.
Por outro lado, o processo de construção e estabelecimento de um espaço para o exercício da crítica e do livre pensar passa também por algumas imposições restritivas, indispensáveis para o reconhecimento da instituição frente à sociedade. Em outras palavras: para que o conhecimento produzido pela academia fosse reconhecido pela sociedade (com um todo e não apenas pela própria acadêmica) como “sério”, foram eleitos temas igualmente respeitáveis, linguagens “pesquisáveis”, objetos “importantes” cuja análise pudesse resultar em “ciência”. Não era o caso das histórias em quadrinhos.
O fato de que o número de trabalhos acadêmicos e de eventos ligados a quadrinhos venha aumentando diz respeito, portanto, tanto a uma alteração no modo como a sociedade enxerga a universidade, vista agora como uma instituição que precisa dialogar, sob pena de se tornar obsoleta, com os agentes sociais; quanto à (nova) imagem que universidade busca construir para si.
JBlog >> Eu tentei o mestrado na UFF com uma tese sobre HQ. Na UFF primeiro o projeto tem que ganhar uma pontuação alta para, depois, ter o direito ou não de se fazer a prova e a entrevista. Minha pontuação nem me permitiu fazer a prova. No entanto, fora do ambiente acadêmico público, o projeto tem sido super bem recebido em faculdades como ESPM e FGV, que analisam o mercado. Por que esta miopia dentro de algumas universidades públicas? Seria a USP uma exceção?
Gêisa - Eu tenho uma história bem parecida para contar (risos). Aliás, duas: meus projetos de mestrado e de doutorado também não receberam notas que os classificassem para a entrevista da UFF, tendo sido recebidos, porém, na UFPE (mestrado) e na USP (doutorado). Nesta última, apesar da enorme concorrência, obtive uma classificação boa o suficiente para tornar-me bolsista da Capes.
No meu caso, porém, não posso falar em miopia das universidades públicas. O que talvez aconteça (e estou entrando no terreno da opinião) seja uma confluência de fatores, tais como: a presença de núcleos de excelência dentro das universidades (o que, em si, é bastante positivo), que formal ou informalmente privilegiam determinados projetos (ou determinada metodologia ou bibliografia) em detrimento de outros, diminuindo a pluralidade dos programas, o que é uma pena.
A USP (e acentuadamente a Escola de Comunicações e Artes, ECA) de fato, se mostra bastante pródiga na produção de material de análise sobre quadrinhos. Porém, este espaço também não veio “naturalmente”, mas sim é fruto da perseverança e do esforço de pesquisadores como o
Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro, coordenador do
Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA. O papel de destaque do Prof. Waldomiro no que diz respeito à inclusão do Brasil no panorama internacional da pesquisa sobre quadrinhos é reconhecido por grandes nomes da área, como o Prof. Dr. John Lent (Temple University).
JBlog >> No caso do simpósio, que tipo de público vocês pretendem reunir? Quadrinistas, historiadores ou curiosos pelo tema?
Gêisa - Este ano a programação para quem se interessa por Quadrinhos está variada. A ECA será o local de dois importantes eventos: em julho (entre 17-23) ocorre o XXVI Simpósio Nacional de História da ANPUH, o qual contará este ano com um espaço reservado para as HQs, denominado “História e Quadrinhos: pesquisa e ensino em História e as interações com a nona arte” e, em agosto, entre 23 a 26, será a vez da primeira edição das
Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos.
O primeiro evento visa discutir as relações entre História e a linguagem das Histórias em Quadrinhos, enfocando aspectos como: ensino, fidelidade histórica, tensão entre ficção e realidade, registro histórico e registro ficcional.
O segundo, por sua vez, enfoca a divulgação de avanços científicos relacionados às histórias em quadrinhos nas diversas áreas do conhecimento, de modo a promover o intercâmbio de novos saberes e experiências. Ambos os encontros visam reunir aqueles que, de algum modo, estão envolvidas com quadrinhos (como você mesmo citou: pesquisadores, pessoas ligadas à produção de HQs, estudandes, apreciadores em geral).
Será uma boa maneira de se descobrir que tipo de trabalho está sendo feito com quadrinhos hoje, por quem e com que resultados. Creio que teremos gratas surpresas.
JBlog >> Estou há meses procurando por programas de intercâmbio e pesquisa entre instituições brasileiras e européias para fazer uma pesquisa de campo por lá, e não encontrei nada. Nem mesmo em embaixadas, consulados, etc. O que falta para estreitar esses laços? Seria a HQ um campo de pesquisa ainda novo, de vanguarda, ou mesmo em processo de reconhecimento e legitimação?
Gêisa - Dentre as alternativas que você colocou, fico com a última pois, apesar dos inegáveis avanços, é possível afirmar que o campo ainda busca reconhecimento e legitimação. Há um artigo de
Thierry Groonsteen, autor de algumas dezenas de livros sobre arte sequencial (perceba como a própria linguagem experimenta definições, na tentativa de afirmar sua própria identidade), que lança uma questão bem próxima desta que você levantou (
Why are Comics still in Search of Cultural Legitimization?, Comics and Culture, MTP, 2000). Groonsteen sugere que o preconceito acadêmico se baseia no que ele chama de “4 pecados” dos quadrinhos: ser um produto híbrido, carregar o estigma de “subliteratura”, estar ligado à caricatura (outra forma de arte marginal) e ser considerado “coisa de criança”.
O irônico da situação, é que para ultrapassarmos estes preconceitos, para de fato estabelecer um diálogo com a academia, não basta querer ou celebrar o aumento de estudos sobre o tema, o equivalente a mostrar, digamos, por que a academia precisa dos quadrinhos. O ponto mais delicado dessa discussão surge quando os termos são invertidos, ou seja, quando as pessoas que produzem e consomem quadrinhos se perguntam por que os quadrinhos precisam da academia.
Sobre intercâmbios, você tem razão, ainda são poucos, mas existem. A Profa. Dra. Valéria Bari, por exemplo, realizou na Universidade Carlos III de Madrid parte de seu doutorado, com uma tese que subvertia justamente um dos “4 pecados” de Groensteen, o de que “quadrinhos são coisa de criança”. Os resultados demonstraram que os quadrinhos não só estimulam as crianças a ler, como facilitam a migração para outras para outras formas de literárias, auxiliando na formação plena do jovem leitor.
JBlog >> Como a senhora enxerga a HQ dentro da Economia da Cultura (ou Criativa), que acaba de ganhar uma pasta dentro do Ministério da Cultura, na gestão Anna de Holanda?
Gêisa - Ainda é um pouco cedo para arriscar qualquer prognóstico a respeito do impacto que a pasta poderá ter para os Quadrinhos, seja do ponto de vista da obtenção de recursos para projetos na área, seja no fomento a atividades que, de alguma forma, envolvam a produção e o consumo de HQs.
A princípio, a medida parece bastante positiva, na medida em que a nova pasta se alinha com o conceito de Economia Nova, baseada em criação e que busca romper com as amarras da economia industrial clássica, como informa o portal da Cultura do MinC e, neste sentido, deveria contemplar linguagens pouco lembradas pelos recursos públicos. No entanto, o (talvez superestimado) episódio envolvendo a retirada da licença Creative Commons do site indica que talvez o próprio Ministério precise se posicionar mais claramente a respeito de suas diretrizes.
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