No dia 18 de junho de 51 um grupo de jovens realizou em São Paulo não apenas a primeira exposição brasileira de histórias em quadrinhos, mas, descobriu-se depois, a primeira do mundo. No ano passado, ao completar 60 anos do feito, apenas dois organizadores ainda estavam fisicamente por aqui entre nós. Um deles é o professor e desenhista
Álvaro de Moya, que já passou das 80 primaveras mas continua guardando ótimas recordações daquela época.
Com apenas 20 anos de idade, Moya e os jovens amigos desenhistas
Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado reuniram material de HQs numa época em que nem sonhava-se com internet. Trocaram correspondências e, para surpresa de todos, receberam originais de grandes autores norte-americanos como Milton Caniff, Al Capp e Alex Raymond.
Os anos 50 eram marcados por um conservadorismo sem igual, e a própria HQ sofria uma campanha difamatória e moralista, que culminou com o lançamento, em 1954, do livro "A sedução do inocente", do alemão Fredric Wertham. Mas os bravos paulistanos levaram adiante o projeto no Centro Cultura e Progresso, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Essa história é contada agora no livro "
A Reinvenção dos Quadrinhos" (Editora Criativo, cor, 96 pgs., R$ 39) e nessa breve entrevista com o professor Moya:
JBlog >> O que fica no ar como maior mérito da exposição é o ineditismo, mas principalmente a coragem, pois você comenta que arriscaram seus empregos para fazer tal evento. É correta esta afirmação?
Álvaro de Moya- Sim, nós sofremos reações contra nossa provocação. Por exemplo, a Melhoramentos não publicou meus desenhos num livro que tinha me encomendado, jogando-os fora alegando influência nefasta do traço dos quadrinhos. Acabamos migrando para outras áreas. Cortez foi para a publicidade, Reinaldo para a produção gráfica, Miguel para editora (depois própria, com Cortez), Syllas e eu para a televisão.
JBlog >> Outra impressão que o livro causa é que em vários momentos de sua vida, você passou por dificuldades financeiras por tentar se dedicar apenas aos quadrinhos. O senhor acredita que essa realidade econômica melhorou o suficiente para várias pessoas viverem apenas de HQs nos dias de hoje?
Moya- Viver de arte e cultura até hoje neste país é muito difícil. Ainda mais quadrinhos, que é vítima de preconceito ainda nos tempos atuais. Naquele tempo era pior.
JBlog >> O senhor foi professor na ECA de qual cadeira? Continua participando das atividades da USP, como o Núcleo coordenado pelo Waldomiro Vergueiro?
Moya- Aposentei-me na ECA como professor no Rádio e TV. Sempre participo como convidado pelo
professor Waldomiro nas atividades de quadrinhos. Embora tenha sido demitido irregularmente de forma anti-constitucional, o que motivou um processo que movi na Justiça contra a USP, ganhei depois de anos e não pagam meus direitos. Caí na vala comum dos precatórios, onde o governo nos enche de impostos e dá calote vergonhoso naqueles que trabalharam a vida inteira e pagaram os impostos em dia.
JBlog >> Após a exposição de 1951, o senhor se tornou uma referência acadêmica no assunto, participando de congressos no Brasil e no exterior. Nos dias de hoje, o senhor acredita que as HQs conquistaram respeito de fato no meio acadêmico?
Moya - O respeito que recebo dos amantes dos quadrinhos me comove. O fato do livro
Shazam ter sido publicado pela editora Perspectiva, na prestigiosa coleção Debates, graças a Jacó Guinsburg, logo conquistou respeito para essa importante forma de comunicação de massa.
JBlog >> Por fim, o que o senhor colocaria na ordem do dia como os assuntos mais urgentes a serem discutidos por empresariado, governo e classe para um maior desenvolvimento do mercado nacional de quadrinhos?
Moya- O mercado nacional de quadrinhos depende dos leitores. O
Maurício de Sousa provou que o povo brasileiro reconhece a obra nacional. As gerações crescem lendo Mônica e sua turma, depois migram para os super-heróis. Maurício com propriedade criou
Mônica Jovem, com formato
mangá e está fazendo sucesso. Os autores precisam se comunicar com o público.
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