Will Eisner passado a limpo.

Ele nasceu no Brooklin em 1917 filho de imigrantes judeus e fez de Nova York sua maior inspiração. Considerado um dos mais importantes artistas de histórias em quadrinhos, Will Eisner é citado como influência de grandes quadrinistas e dá nome, desde 1988, a um respeitado prêmio anual de HQs. Apesar de falecer em 2005, sua obra continua mais viva do que nunca. Inspirou um documentário - “Will Eisner - Profissão Cartunista”, da SescTV -, um filme (“Spirit”, em cartaz em pouquíssimos cinemas) e uma exposição que até hoje não chegou no Brasil.
Quem tiver a oportunidade de dar um pulo em São Paulo até este domingo (26) poderá conferir uma exposição no Sesc Vila Mariana, com painéis e desenhos originais do acervo particular de Álvaro de Moya. O estudioso recebeu Eisner nas visitas que ele fez ao Brasil e manteve contato com o americano até a sua morte. Se você não tem como viajar fisicamente, conheça um pouco mais de suas obras na matéria a seguir e corra até uma livraria ou comic shop para viajar com a sua imaginação.

O SONHADOR
Um dos melhores trabalhos de Will Eisner é O Sonhador, um álbum de certa forma autobiográfico sobre o início da sua carreira num mercado de trabalho ainda incipiente, além de vários dilemas profissionais e éticos. Neste livro de 1986, lançado no Brasil pela Devir, o personagem é um jovem desenhista que trabalha numa gráfica e tem sua primeira oportunidade de publicar, porém desiste do convite quando descobre que vai criar revistas pornôs ilustradas para a máfia.
O segundo desafio que surge é o de montar seu próprio estúdio, o que de fato Eisner fez com um amigo. Neste período, o falecido artista cita as discussões da época, como a criação de um Sindicato de Cartunistas para preservar os interesses da classe. Há espaço também para retratar aventureiros e trapaceiros que “caíram de pára-quedas” no então recém criado mundo das revistas em quadrinhos. Em determinado momento, já contado com diversos “funcionários” (basicamente roteiristas e desenhistas), o sócio do tal protagonista lhe diz que a produção deve vir em primeiro ligar, em detrimento da arte, da qualidade, algo com o que Will não parecia concordar.




Com um roteiro riquíssimo de informações, Eisner não esconde nem mesmo o fato de haverem muitos judeus trabalhando com HQs e que a grande maioria mudou o sobrenome para outros, digamos, mais artísticos. Numa outra situação, o personagem principal de O Sonhador se vê obrigado a assumir o plágio de um personagem criado por encomenda para um cliente, no caso o verdadeiro plagiador.
No fim, o quadrinista decide abrir mão do seu próprio negócio para trabalhar com uma distribuidora e publicar sua própria tira num jornal dominical, sonho de tantos naqueles tempos áureos dos gibis. Era setembro de 1939 e a 2ª Guerra Mundial iria começar. Curiosamente, foi assim que Will Eisner deslanchou na vida real, quando sua tira do Spirit começou a sair nos jornais, para público adulto, nas edições de domingo, em 1940.
Em seus prefácios, o quadrinista se dizia uma “testemunha gráfica” dos acontecimentos. Não à toa, num diálogo entre os sócios do estúdio – certamente um deles encarnando as opiniões do próprio Eisner -, o sócio desenhista vira para o sócio que apenas vendia os desenhos e diz: “quadrinhos são fantasia, são sonhos feitos por sonhadores. Pra eles, isso não é trabalho, é o que eles prefeririam fazer a qualquer outra coisa”.

UM CONTRATO COM DEUS
Publicada pela primeira vez em 1978, é considerada a primeira graphic novel (novela gráfica), termo cunhado por Eisner para convencer o editor a lançar o livro. Um Contrato com Deus, também lançado aqui pela Devir, é o primeiro volume de uma trilogia que segue com A Força da Vida(1982/3), um romance sobre envelhecimento criado por Will ao completar 65 anos, e Avenida Dropsie: a vizinhança(1995), que foi adaptada para os palcos pela Sutil Cia de Teatro.

Um Contrato com Deus traz quatro histórias de cortiço ambientadas na Avenida Dropsie, cenário que viria a ser constantemente revisitado pelo artista. A primeira é sobre um pai que perde sua filha. Mais uma vez, bem autobiográfica, como é característica do autor, que na vida real perdeu a filha Alice para a leucemia, quando ela tinha apenas 16 anos.
A HQ examina a relação do homem com seu Deus, que poderia nos punir ou recompensar, de acordo com o acordo que se faz com ele. Mas e quando é ele quem quebra o contrato? O drama que se desenrola é interessante: o homem agora solitário e com a dor da perda do filho deixa de ser um judeu devotado e torna-se um bem sucedido empresário do ramo imobiliário, comprando todos os imóveis, começando, claro, pelo fatídico prédio número 55 da avenida Dropsie. “Esses judeus... Ontem um pobre inquilino, hoje proprietário. Como eles fazem isso?” comenta um morador em determinada cena.

Na segunda história, Eisner presta uma homenagem ao cantor de rua, profissão informal surgida na Grande Depressão. Eram homens que cantavam nos espaços estreitos entre os cortiços, nos becos de Nova York.

Outra figura lembrada pelo artista é a do zelador, um personagem misterioso, temido e sempre evitado. Alguém que resolve todos os problemas do prédio, onde “os judeus reclamam o tempo todo”. Apesar da tensão, a HQ mostra como um rosto rude pode esconder um coração triste e amargurado.

A quarta também evoca as memórias de Will Eisner e seus tempos de “cookalein”, espécie de acampamentos no campo onde os judeus passavam as férias de verão, cozinhado por conta própria e sonhando em encontrar uma alma gêmea, de preferência financeiramente bem sucedida.
A FORÇA DA VIDA
Novamente o velho quadrinista abordava de forma filosófica as questões existenciais, mostrando as diferenças entre um homem e uma barata, a começar pela razão de viver de ambos. De forma genial, Eisner conta histórias paralelas de moradores da avenida Dropsie que em determinado momento se cruzam e entrelaçam, bem antes de Quentin Tarantino e outros diretores usarem este recurso.
Como sempre, o autor aproveita para fazer críticas, sobretudo à máfia italiana que se disfarçava de sindicatos e que acabavam confundindo estas formas de organização com a dos comunistas. “Só em 1920, mais de 300 mil imigrantes italianos entraram nos Estados Unidos”, informa Will, trazendo a tona uma questão problemática na época, pois 20 anos depois imigrantes alemães também seguiram em massa para os EUA, desta vez fugindo dos nazistas. Uma frase de um personagem resume o livro, que retrata a luta pela vida dia após dia: “se a sobrevivência é poesia, eu serei um poeta”.

PEQUENOS MILAGRES
O mestre narra quatro histórias de coincidências e sorte que acontecem em nosso dia-a-dia sem ao menos nos dar conta disso. A primeira fala sobre dignidade, a segunda sobre a esperteza para sobreviver em tempos difíceis, a terceira remete a lenda de Kaspar Hauser – que inclusive virou filme nas mãos de Werner Herzog – e a última trata de um casamento pouco improvável entre um aleijado e uma surda e muda. Esses dois últimos títulos também foram lançados no Brasil pela editora Devir. Avenida Dropsie também está a venda por aqui, mas é o único título que eu ainda não li.
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