A Visão Francesa da Gastronomia e da Nutrição. Para quem perdeu o posto de ontem, esse foi o tema que a Bia Rique e eu apresentamos na FLIP-2009, na Casa do Jornal do Brasil, no sábado passado.
Ontem,
retransmitindo a palestra, eu comecei -- como lá, na FLIP -- por uma indagação: por que certos países são
gourmets e, outros, não são?
E a resposta é: porque certos países têm um território e uma história que fazem da culinária parte da cultura de seu povo. No caso da França, parte importante. Mostramos que a topografia, a hidrografia e, por consequência, a riqueza da fauna e da agricultura são um convite à variedade e alternância da matéria-prima que vai para a panela.
Mas toda essa oferta de matéria-prima resultaria, apenas, numa mesa farta e regionalizada -- como Portugal -- se não houvesse por trás desses frutos, frutas, legumes, tubérculos, peixes, mariscos, aves, caprinos, bovinos, patos e gansos,
uma conexão entre gastronomia e poder.
Vocês já pensaram no trabalho que exigia dos chefs contentar o Rei e a Corte durante quase sessenta anos? Ainda mais um Rei-Sol? Vocês acham que ELE aceitaria repetir o prato do almoço no jantar?
Vejamos um pouco da Hitória da França.
A França foi uma monarquia absolutista desde 1500 e pouco, mas esse poder divino só atingiu o seu apogeu com Luis XIV (1638-1715), que foi o
Rei-Sol durante cerca de 54 anos (1661-1715): embora tivesse sido alçado ao trono 10 anos antes, em 1651. Quase 70 de mando, portanto, porque nos primeiros tempos,
dividia o poder com o Cardeal de Mazarino, seu tutor e primeiro-ministro, mas já despontava como um epicurista -- isto é, apreciador de boas mulheres, champagne, boas comidas e...PODER.
Luis XIV não era um homem grande – media 1.61 m – mas era elegante e "fazia presença" sua elegância, sua beleza (para a época) e... sua majestade! Mas era forte, por natureza (
imaginem morrer com 77 anos depois de todas as esbórnias que praticou.
Combateu na cama, nos campos de batalha e... na mesa! Nunca se cansava. Não sentia nem o calor nem o frio, nem chuva nem o granizo. Além disso, amava a dança e os espetáculos de balé: era um dançarino incansável.
Pintava as maçãs do rosto e usava cabeleiras postiças, pois ficou careca cedo. E teve trinta amantes e outras tantas apenas favoritas. Além da esposa, espanhola.
Era, também, um homem
informado (fofoqueiro?), já que graças a sua Guarda Suíça -- que espionava tudo e todos no Palácio de Versailles -- estava sempre a par dos acontecimentos.
E, como todos os Bourbons, dono de um apetite voraz.
Abro parênteses para narrar um (delicioso) episódio, célebre no mundo da gastronomia:
o suicídio de Vatel porque
errou na proporção de peixes e mariscos que seriam servidos num banquete que Louis II, o famoso "príncipe" Condé, dono do Castelo de Chantilly

ofereceu a Luis XIV e à toda a Corte: 3.000 pessoas.
Foi assim: Condé era riquíssimo e mais ambicioso, ainda. E Vatel o seu
chef de banquetes e grande pâtissier (doceiro), tanto que criou um creme leve como uma núvem e batizou-o com o nome do castelo.
Em 1671, Condé convidou o rei Luís XIV para um fim de semana de caçadas no seu castelo.
Vatel teve duas semanas para preparar a recepção.

(aqui Vatel representado por Depardieu no filme em sua homenagem)
Estressado, passou 12 dias sem dormir.
No dia da chegada do Rei, apareceram mais convidados do que o esperado (natural).
Vatel errou a mão pela primeira vez: o faisão assado não foi suficiente. Muitos convidados não o provaram.
"Minha honra está perdida", comentou.
O príncipe de Condé tentou consolá-lo: "Vatel, nunca houve um jantar tão magnífico como o de hoje".
Mas não adiantou.
O cozinheiro estava cada vez mais preocupado com o banquete de sábado, o maior da sua carreira.
Menu: filé de linguado, anchovas, melão com presunto de Parma, lagosta com molho de camarão e mariscos, pernil de carneiro, pato ao molho de vinho Madeira e, de sobremesa, bombas de morango. Afora os chocolates, de todos os tipos, já que o Rei os adotou depois que casou com a princesa espanhola Maria Teresa, na Catedral de Reims.
Para beber champagne -- Luis XIV adorava champagne, e bebia muito e vinho Fronsac, um branco e tinto de Bordeaux.
Chega o sábado, 23 de abril de 1671. Era a décima terceira noite que François Vatel não dormia.
Às 4 da manhã, levantou-se depois de duas horas insone no colchão.
Foi checar se a encomenda de peixe para o banquete em homenagem ao Rei da França, já havia chegado.
Na cozinha do castelo, um peixeiro o esperava com apenas duas cestas cheias.
Era pouco.
Vatel encomendara, também, frutos do mar de todos os portos da França para a ocasião.
"Isso é tudo?!!!", desesperou-se.
"Sim, é só isso, senhor", respondeu o peixeiro.
"Não suportarei mais essa desgraça", exclamou.
Voltou para o quarto, trancou a fechadura e se matou com um punhal.
Uma hora depois da tragédia, diversos pescadores começaram a chegar com suas cargas: tinha havido um atraso nos portos.
À noite, o banquete foi um sucesso.
Em respeito a Vatel, não serviram o linguado.
Finalmente, o Rei Luís XIV se rendeu aos dons do cozinheiro.
Mas era tarde demais.
Amanhã, 8-7-09, continuaremos (se não faltar peixe para o Rei!!!)