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Rio, 17 de janeiro de 2017. A cachaça, o resgate (2)

Um: o meu querido amigo e colega de trabalho Luiz Carlos Velloso,             trabalhador incansável — mas com um “ôlho lúdico e boêmio” e uma cultura da vida que vem de longe — me enviou esse curioso verbete da História Contada do Homem do Nordeste. Tão interessante, que vou compartilhar com vocês essas curiosidades a respeito da cachaça e a sua inserção na história mais remota da vida, dos hábitos, dos ditos e pensares do Brasil profundo de quatro séculos atrás.

Por exemplo: antigamente, para produzir um melado, os escravos colocavam o caldo-de-cana em um tacho, com muito açúcar e o levavam ao fogo. E não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Um dia (a história é feita de “um dia/noite”) , exaustos de tantos mexer, os escravos pararam a sua faena.

O melado desandou.

Para evitar mais punições (podiam custar a vida), esconderam o melado no porão, longe da vista dos “senhores”. Dia seguinte, foram conferir e o melado estava azedo. Misturaram, então, esse melado estragado com o produzido novo, no dia e levaram a fogo alto. Resultado: o “azedo” do melado antigo já tinha se transformado em álcool que aos poucos foi evaporando e… formou no teto do engenho goteiras que pingavam…..

Daí “a pinga”entre os milhares de substantivos da marvada!

E mais: quando a pinga caía (álcool de 50, 60 GL) e  batia nas costas em carne viva (chibatadas) desses escravos, ardia muito. Daí, também, a expressão consagrada: “água ardente”.

Adiante:  de cerca de uns 50 anos para cá (eu acho), a Cachaça saiu do botequim e vem ganhando status de bebida de entendidos,  em blogs, “clubes”, bares chiques e restaurantes da moda. Participa de concursos, está no display de hotéis quatro e cinco estrelas.

Industrializada ou artesanal.galeria de cachaças

Mas nem sempre foi assim, como vimos. Durante todo o ciclo da cana de açúcar, do ouro e do café, a branquinha foi a bebida do escravo, do negro, do pobre … do cachaceiro.

cachaca destilação

Mas, talvez, e por isso mesmo, como bem observou Câmara Cascudo no livro Preludio da Cachaça, publicado na sua (terra, com trocadilho) Natal, em 1967, “ ela assegurou a sua sobrevivência ficando com o povo”.

Sobrevivência e expansão: a Cachaça era produzida em larga escala nos engenhos de Pernambuco, Bahia, sul do Rio de Janeiro e nas Minas Gerais. Paraty chegou a engarrafar 800 mil litros por ano, no final do século XVII. E assim foi até a abolição da escravatura, quando a produção entrou em franco declínio por óbvios motivos.

Mas mesmo durante essa gangorra que durou cerca de 400 anos, a imagem da Cachaça sempre esteve associada à escumalha.

Foi preciso que fatos políticos primeiro, e só depois econômicos, viessem em seu socorro.

O primeiro, A Revolução de Arte Moderna, em 1922. O manifesto/movimento Pau-Brasil defendia a cachaça no elenco de produtos brasileiros a serem valorizados em detrimento dos estrangeiros e o chamado Grupo dos cinco, integrado pelos escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia e pelas pintoras Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, bebia cachaça nos restaurantes chiques de São Paulo e nos salões da Av Paulista.

Mais de 70 anos depois coube a outro carioca-paulista, o sofisticado FHC, assinar o decreto Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil. A bebida também conquistou o interesse da academia no desenvolvimento de estudos, fomentando, gradativamente, a especialização profissional daqueles que atuam no setor.

Resultado: depois de uma humilhada peregrinação por nosso território, nossa cultura e nossa sociedade, sempre de 3º classe, mas durante a qual chegou a gerar filhotes como o quentão de pinga (misturada com gengibre) e a batida de limão (originariamente com mel ou rapadura, para aliviar a garganta dos seresteiros) a Cachaça chegou aos dias atuais como um dos valiosos produtos de consumo no Brasil e no exterior.
Uma commodity verde-amarela.

E além de ser servida “in natura” ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui — e lá fora: a caipirinha, também declarada verde e amarelo(a) por decreto.

decreto-sobre-a-caipirinha-300x108

Em 2013, o IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) informou que a Cachaça é o segundo destilado mais consumido no país. E o terceiro no mundo. A capacidade produtiva instalada hoje, em fronteiras nacionais, é de 1,2 bilhão de litros por ano. São cerca de 4 mil marcas registradas e mais de 600 mil empregos gerados, direta e indiretamente.

Passou de capote o Rum, a Tequila, as bagaceiras, eau-de-vies e congêneres… Viva ela!

E por falar na escalada da Cachaça para ganhar status, outro passo de gigante foi o aval do então presidente Lula. Ele sempre assumiu que um operário alivia as mágoas com goles da “marvada” e também regulamentou a composição da cachaça.

lula-tomando-cachaca                                          ..

Obs: foto publicada no site www.futepoca.com.br (futebol, política e cachaça).

Mas a glória, mesmo, se deu em abril de 2012, quando a Presidente Dilma aproveitando a visita a Washington,  assinou um acordo com o governo dos EUA pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa tão querida cachaça é um produto genuinamente brasileiro e, do outro, que o Tenessee Bourbon (uísques de milho) também é uma bebiba  genuianamente (norte)americana.

E, para celebrar, ambos brindaram com cachaça!!!

Dilma brindando com Obama

Mas independentemente desses “picos de prestígio”, a cachaça vem ganhando um novo espaço na área cultural e do turismo, principalmente no Estado do Rio. Para nossa sorte (cariocas-fluminenses), a Primeira-Dama do Estado, D. Maria Lúcia Horta Jardim, está pessoalmente empenhada na criação do Museu da Cachaça, no Rio. Aliás, graças a ela (e outros “devotos”, é claro) foi criado o Polo da Cachaça do Vale do Café, que envolve 14 municípios da região e 15 alambiques.

Industrializada ou artesanal, envelhecida em tonéis de carvalho por 2 a 10 anos ou novinha, a Cachaça está na mídia. E aqui vai a lista das 50 marcas preferidas pela Seleção dos Especialistas, publicada no O Dia de dezembro agora (2015), pelo Dirley Fernandes, também colunista da Revista Gula e titular do blog Devotos da Cachaça

Anísio Santiago/ Havana
Áurea Custódio 3 anos
Authoral
Bento Albino Extra Premium
Canabella Ouro
Canarinha
Caraçuipe Ouro
Casa Bucco Ouro
Cedro do Líbano
Claudionor
Companheira Extra Premium
Coqueiro Prata (amendoim)
Da Quinta Umburana
Da Tulha Carvalho
Dona Beja Extra Premium
Engenho Pequeno
Espírito de Minas
Germana
Germana Heritage
Harmonie Schnaps Extra Premium
Harmonie Schnaps Prata
Havaninha
Indaiazinha
Leblon Signature Merlet
Magnifica Carvalho
Magnifica Reserva Soleira
Maria Izabel Carvalho
Mato Dentro Amendoim
Mazzaropi Carvalho Francês
Porto Morretes 12 anos Exp.
Porto Morretes Premium
Reserva 51
Reserva do Gerente Carvalho
Reserva do Nosco Ouro
Reserva do Nosco Prata
Sanhaçú Amburana
Sanhaçú Freijó
Santo Grau Cel Xavier Chaves
Santo Grau Paraty
Santo Grau PX
Sapucaia Reserva Família
Sebastiana Castanheira
Serra Limpa
Vale Verde 12 anos
Vale Verde 3 anos
Weber Haus Amburana
Weber Haus Carvalho/Cabriuva
Weber Haus Lote 48
Werneck Ouro
Werneck Safira Régia

Posso ter feito injustiça, omitindo novos produtores: desculpem. Maior injustiça foi demorar tantos séculos para reconhecer que a cachaça é uma parte da alma do Brasil engarrafada !!!

 
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Rio, 12 de janeiro de 2017. Vinhaços e … vinhos

Sempre me perguntam e eu mesmo me pergunto — se excluídos enólogos, sommeliers ou paladares-olfatos privilegiados — alguém normal reconhece, na boca, um vinho de dois mil dólares (ou euros, ou libras — e daí pra cima) de um vinho de cinquenta “dinheiros” em qualquer uma dessas moedas, e me refiro, é claro, a teste cego, sem visualização da garrafa, safra, etc. E a minha resposta é: pouquíssimas pessoas.

Eu mesmo provei uma vez o Romané-Conti na embaixada do Brasil em Paris, acho que em 1985, oferecido pelo embaixador Antonio Corrêa do Lago e tive que fazer um esforço de prazer para valorizá-lo, na boca, tanto quanto valorizei a emoção de saber, ver, aspirar, sentir e, por fim, provar esse deus da enologia. Mas no dia seguinte, no “bistrot d´en face”, sorvendo um Medoc tranquilo, fiz um exercício de comparação — sem sucesso. Sem a obrigação de adorar o meu bordôzinho, gostei muito dele também!

Porque no fundo, vinho só tem dois: o bom e o ruim (claro que guardadas as escalas: muito bom e péssimo), isto é, o corretamente elaborado e o precário. E bebido na hora certa! Porque outro ponto que sempre me intrigou é esse: não adianta só “o outro” (vinho, champagne, conhaque, etc) estar bom; é preciso que você (a sua boca) também. De que adianta se servir do melhor foie-gras do Périgord, escoltado por um Château d´Yquém safrado, se você estiver com uma azia (com refluxo) danada, ou com aftas pela boca inteira, ou com dor de cabeça…

E esse ponto me remete a outro: quando um consultor de vinhos da equipe do Robert Parker, Michel Rolland e outros monstros sagrados da opinião (pode ser de guias) prova 20, 30 vinhos numa manhã — mesmo observada as cláusulas-pétreas da degustação: água, pão, não engolir, silêncio, isolamento, etc — quem me diz que na noite anterior ele não bebeu uma taça a mais, ou fumou, ou comeu pimenta, ou, ou, ou e o voto foi prejudicado por um desse pecadilhos secretos do comportamento humano?

Nem por acaso o proprietário da célebre Maison Taittinger — Pierre-Emmanuel Taittinger — afirma que, pessoalmente, é contra a classificação de vinhos e champagnes com notas tipo 1 a 10, ou até 100, da mesma forma que não se sai de um concerto do Zubin  Mehta atribuindo uma classificação numérica ao espetáculo, nem do filme Casablanca ou Luzes da Ribalta distribuindo 5,6,9…

Resumo: tudo é relativo. E, como dizia o Dr. Tancredo, (na sua permanente sabedoria) já eleito presidente da República na sua Fazenda da Mata, em Cláudio, lá na serra de Minas, sorvendo um Granja União Cinquentenário (e diante da minha indisfarçada surpresa), “vinho bom e aquele que a gente tem, meu filho”.

Ou seja, vinho não foi feito pra humilhar ninguém!

Em tempo: não existe o enochato. Existe o chato que escolheu o vinho para se expressar…

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Rio, 5 de janeiro de 2017. Elvis está vivo?

Pela teoria da conspiração, sim. Está vivo, velho e… depois de três operações plásticas radicais cria cabras numa chácara peto de Itaipava, na serra fluminense. E vai comemorar o aniversário no próximo domingo, 8 de janeiro, com bolo de banana e cerveja Original.

82 anos.

Já pelo obituário,  ele morreu em agosto de 1977,  em sua casa no Memphis, Graceland, aos 42 anos: gordo, cardiopata, deprimido e viciado em remédios (pelo menos). E o seu caixão é vedado.

 

Mas vamos lá: Elvis nasceu em circunstâncias humildes, em uma casa de dois quartos em Tupelo, Mississipi, no dia 8 de janeiro de 1935. Seu irmão gêmeo, Jessie Garon, nasceu morto e Elvis cresceu como filho único.

Os seus pais se mudaram com ele para Memphis, Tennessee em 1948. E foi lá que Elvis se formou na Humes High School, em 1953. E em 1954 iniciou sua carreira musical pelo lendário selo Sun Records, em Memphis. Com um estilo de cantar e se “demonizar” no palco que combinava as suas muitas e até inconscientes influências que desafiavam as barreiras raciais da época, tornou-se rapidamente uma celebridade.

Elvis se projetava como o símbolo mais espetacular do rock n’ roll , mistura de 3 gêneros distintos da música americana: blues, country e jazz – ao qual ele acrescentou o gospel, que ouvia na igreja de sua pequena cidade.

Resultado: as suas apresentações não representavam, apenas, um show; mas uma atitude típica do fim dos anos 50 nos EUA (transferida para o cinema primeiro pelo James Dean, em Juventude Transviada e, na sequência, por Marlon Brando, com O Selvagem, de 1953.

Rebeldia e transgressão.

E embora a tradução literal de Rock and Roll seja algo como “deite e role”, o conceito não esconde uma evidente conotação libidinosa. A tal ponto que os puritanos o chamavam de Elvis-Pelvis.

Além dos shows, no entanto – ou por isso mesmo – Elvis estrelou 33 filmes de sucesso e chegou a vender mais de um bilhão de discos! Suas vendas lhe garantirarm prêmios de ouro, platina e multiplatina por seus 149 álbuns e singles, muito mais do que qualquer outro artista do seu tempo.

 

No auge, era um gajo bonito, na categoria anos 50. Mas nunca pra genro!

A fama e o excesso de exposição — intermináveis tournês, compromissos, farras, alto e baixos, casamento desfeito — cobram um preço altíssimo, como quase sempre. E esse ídolo que talvez só se compare aos Beatles em termos de fama planetária, morreu moço, só e deprimido.

Ou será que não morreu?

Acho que não: está vivo. Como Sinatra, Pavarotti, Lennon, Gardel, Piaf, Vinícius, Tom, esse cast de ouro que foi cantar em outro plano…

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Rio, 21 de dezembro de 2016. Vinho com esse calor?

Parênteses: hoje é o primeiro dia de verão no hemisfério sul.
solstícios e equinócios
solstício de verão no sul

Ou seja, o sol cruzou o Equador e está mais próximo dessa banda da terra, jorrando luz e calor em cima da gente. O nome vem de sol + stício (parado). Isto é, o sol parece estacionado!
Uma digressão: a maioria das pessoas tem sonhos financeiros “para quando ganhar na mega-sena”. Pois eu tenho sonhos térmicos: morar no outono. Eu correria o mundo escolhendo os melhores outonos (a minha estação). Com neve em cima das montanhas, com lagos onde a cerração de manhã os transforma em tapetes, com sombra e frescor em castelos europeus — e até com chuva fininha no hemisfério norte…

Bom, adiante e respondendo ao título. Sim, com certeza, defendo vinho com esse calor.

Aliás, pergunto: algum baiano (já) deixou de comer vatapá no verão da Bahia? E por favor: reparem na usina calórica com que é feito!

Mais: algum carioca (já) deixou de comer uma feijoada – ou em restaurantes do centro, às sextas-feiras – ou a convite de parentes em um domingão iluminado alegando que estamos no verão?
Algum madrilenho – ou vá lá: europeu em geral, sobretudo “da antiga” – (já) deixou de beber vinho (muitas vezes em temperatura ambiente) em julho e agosto lá no Velho Mundo? E algum inglês deixou de lado o seu chá quando mandavam na Índia, mesmo com o sol enlouquecido de maio em diante?

Nãaaoooo.

Qual a explicação?

Não tenho a explicação científica. Mas o meu mestre-doutor Renato Kovach Kovach concorda com a minha premissa (repito: sem embasamento científico, ele fez questão de frisar) que é a seguinte: contrariamente ao que seria o bom senso alimentar, as grandes pimentas e especiarias aquecedoras são originárias de locais quentíssimos. Assim como bebidas. A velha e boa tequila, por exemplo (em mexicano é masculino – el/un -) nasceu em Jalisco, Guadalajara, lugar quente e úmido; as grandes cachaças brasileiras, idem. São provenientes do lado norte de Minas; do lado sertão da Bahia – Januária, por aí; e da escaldante região dos canaviais nordestinos. Aqui no nosso Estado do Rio, elas são produzidas na Costa Verde, no Vale do Café, em Parati, isto é, litoral e vales tropicais.

E se estendermos o raciocínio às bebidas não alcoólicas, o raciocínio é o mesmo: algum brasileiro já deixou de beber o seu cafezinho fumegante (mesmo do sudeste pra cima) porque estamos em dezembro? E, lá embaixo, algum gaúcho(a) esqueceu o seu chimarrão no escaldante verão de Porto Alegre, ou nas praias lá do sul e até daqui, no Rio?

chimarrão na praia

Minha leitura: 1) o calor provocado por líquidos mais quentes do que a temperatura do corpo joga a favor do bem estar orgânico; 2) o calor faz suar e a perda de água dá sede. Bebe-se água e o corpo se reidrata.

Doutores, nutricionistas e entendidos — por favor — e-mails para este blog (www.jblog.com.br/reinaldo).

Conclusão: sim, pode-se beber vinho no verão. O ideal é que se esteja (e permaneça, em ambiente refrigerado) se for tinto. Nesse caso, recomendo um tinto leve, com graduação alcóolica em torno dos 12º, um pouco mais no máximo.

Mas, preferencialmente, vinho branco (vinho tranquilo ou espumante) ou rosé, idem. São vinhos menos calóricos porque não “carregam” o tanino, músculo dos tintos. E, por isso mesmo, devem ser tomados à temperaturas que variam de 4° a 6º para os espumantes e 8º a 12º para brancos e rosés.
vinho rosé

Outra pedida é o Portonic. Uma dose de vinho do Porto seco, branco, água tônica, gelo e uma tira de casca de limão ou laranja, a cavaleiro no copo!
portonic

De resto o verão é uma bela oportunidade para não complicar a vida: beba com moderação, beba feliz. Seja gentil.

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Rio, 14 de dezembro de 2016. Da alimentação à gastronomia

Aliás, qual a diferença?
Gastronomia é título da comida quando ela é ingerida não apenas para saciar a fome, mas para agradar ao paladar – e outros sentidos: visão, olfato, às vezes tato – e proporcionar prazer. Prazer orgânico, tipo primeiro beijo na boca, quando é a caseira bem feita. No fogão à lenha, por exemplo.

Ou emoção plena: os banquetes pluri-sentidos. Requintadas refeições em determinados cinco estrelas no eixo da apoteose gourmet . Chegam a desfilar 10 pratos e até mais pratos, (isso sem mencionar as mesas orientais) em que a escolha do serviço: toalhas e guardanapos, talheres, taças e arranjos, altura de mesa e cadeiras e a distância entre cada “ilha”, se casa como bailarinos de tango com a música ambiente.

O ritmo do maître, sommeliers e garçons, a iluminação específica e a que escorre das paredes, a temperatura da sala e até ao tom de voz da equipe. Tudo e todos treinados para proporcionar uma experiência teatral, cuja grand-finale é o desfile militar dos pratos — harmonizados com pães, azeites, água e vinho. Suspense e êxtase.
Quase sempre em variadas e pequeníssima porções, como esta “epifania pagã” no Per Se em Nova Yorque há alguns anos atrás.

Mas antes não era assim.
Na busca pelo alimento e para escapar das feras, os nosso tataravós-famintos construiram armas de caça (armas, arpões, lanças, redes de pesca, arcos, flechas, armadilhas) e percorreram toda a escala do cru ao cozido, do perecível à conserva, do facão ao garfo-e-faca.
paleolitico_fogo
Como observam as historiadoras Dolores Freixa e Guta Chaves, além disso, esses primeiros habitantes eram nômades e tornaram-se sedentários; eram caçadores e tornaram-se pastores. Matavam para comer e passaram a criar animais e cultivar a terra. Do excedente, iniciaram trocas — gerando o comércio. E este, junto com as guerras, dominaram outros povos, ora nos países de origem, ora formando novos países. E estes se associaram e formaram civilizações.
Bingo!

Mas o conceito de gastronomia acompanha a marcha das sociedades (para frente e para trás) e, de certa forma, estamos de volta para o futuro. Ou seja, antes, no campo, o fogo era o polo aglutinador.
Era em torno dele que se preparavam os alimentos e se reuniam os nômades. Mais de 10 mil anos depois, atualmente, ele continua a boia de luz não mais no chão mas nas cozinhas transparentes do século XXI.
É impensável um restaurante estrelado da atualidade não exibir uma cozinha-aquário, aonde chefs e cozinheiros trabalham à vista de todos, os presentes e os internautas, como em um making-off de artistas no camarim.
cozinha aparente

A comida servida em público não é mais, apenas, um ato de nutrição. É uma experiência cinematográfica. Em alguns restaurantes, uma mini odisséia no espaço, com efeitos especiais.

E aí, a pergunta: depois de anos de culinária tradicional, da malograda “nouvelle cuisine”, da molecular, autoral, slow food, temática, vegana, qual será o próximo espetáculo?
Restaurantes em que os ingredientes chegam à mesa com etiquetas, selos de qualidade informando, por exemplo, que os ovos orgânicos são “pintos” de galinhas de altitude que ouvem música clássica? Carnes com GR Codes remetendo a um vídeo mostrando o abate do boi (com veterinário-psicólogo informando o grau de sofrimento do animal?).
Além de alimentos com nome, sobrenome e certidão de nascimento (ou atestado de óbito: horrível!)

Envie seu palpite para este blog!

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Rio, 8 de dezembro de 2016. Portugal, a bola da vez

Em 1965, o jornalista David Nasser escreveu um livro que chamou de “Portugal, meu Avozinho”. E todo mundo achou normal, inclusive os portugueses.
Hoje isso seria um disparate tão inapropriado como (ainda) chamar a China de o tigre adormecido, ou o Brasil de o país do futuro. E outras parvoices superadas.
Portugal é a bola da vez, repito, no novo mapa da Europa — pelo menos para os brasileiros. E não apenas porque apenas 7.482 kms separam o centro do Brasil do centro de Portugal em linha reta (ou cerca de 9h de voo), mas porque é mais fácil encontrar brasileiros em Lisboa e Cascais do que nórdicos, ingleses e outros europeus “lá de cima” (com ou sem Visa Gold).
linha reta BR Portugal
E tudo isso vem a propósito da bela festa comemorativa dos 105 anos da Câmara Portuguesa do Rio, organizada pelo atual presidente Ricardo Coelho e a secretária executiva, Marlene Alves, com o decidido apoio do diretor Paulo Simões, um português-brasileiro.

A nossa Câmara, a primeira criada no mundo e à qual o novo governo português de então (1911) deu grande apoio — um dos atos da primeira República de Portugal, chefiada por Manuel Arriaga Manuel_de_Arriaga_-_Fotografia_Vasques e que encontrou todo o suporte do nosso então presidente, Hermes da Fonseca (marechal que casou-se já velho com a artista Nair de Tefé, que promovia festas até de manhã no Palácio do Catete e, mais tarde, construiu o primeiro cinema na Av. Atlântica, que batizou com o seu nome às avessas: Rian) Hermes e que desde então funciona a pleno no Rio.

Mas por que os dois presidentes deram tamanha importância a uma Câmara de Comércio portuguesa na capital do Btasil? Porque segundo o belo livro-álbum encomendado pelo presidente anterior da Câmara, Paulo Elísio de Souza para celebrar o centenário da CPCI-RJ — A Outra Margem do Atlântico — já em 1894 estimava-se que os portugueses tinham mais de 55% de todos os estabelecimentos comerciais ou industriais registrados no Rio de Janeiro. O que representava quase 70% do capital circulante na praça. E essa “elite lusa” não cansava de investir na sociedade carioca-brasileira, criando diversas associações, como a ACRJ (hoje ACRio), o Mercado de São Sebastião, o antigo Centro de Abastecimento e Distribuição do Estado da Guanabara (Cadeg), o Mercadão de Madureira, etc.

Outros “patrícios” criaram firmas-empresas emblemas do seu tempo, que atuam até hoje com sucesso, como a Confeitaria Colombo em 1984 (Manoel Lebrão = “O freguês tem sempre razão”) Manoel Lebrão (vejam a pinta “do gajo”, imortalizado em bronze na sua aldeia natal, Vila Nova Cerveira, “na terrinha”) ou a Souza Cruz, criada e tocada pelo Albino Souza Cruz, que se tornou sócio do Joquei Clube Brasileiro e amigo dos figurões que o frequentavam, entre eles o Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, o interventor do RGS quando vinha à capital, Flores da Cunha e tantos outros “badalados” da alta roda do Rio da época.

Albino

Adiante: Portugal de hoje. Em uma fase da economia criativa em que tanto se fala em mobilidade urbana e infraestrutura, Portugal dá banho. E em energia eólica, desde o fim dos anos 80, é um exemplo. O que transformou o país de uma nação de fado e passado em “hub” para o resto da Europa. Mais globalizado do que muitos outros mercados mais ao norte.

No que concerne as relações bilaterais com o Brasil, desde os anos 90 houve grande incremento das importações de produtos primários portugueses e, mais recentemente, tecnológicos: foi lá que aprendemos o inovador sistema de cobrança de pedágio eletrônico, por exemplo. Ou a construir fachadas modernas, que permitem visão de dentro para fora e vice-versa, como as que serão vitrine do novo MIS, em Copacabana, obra da portuguesa Seveme. E mesmo cidades com imagem de anteontem, como Braga, são hoje polos de TI, conectividade e experimentos no campo da inteligência artificial e robótica.

Na outra mão e da nossa parte, temos oferecido boas oportunidades para o investimento português no Brasil, sobretudo nas áreas têxtil, de energias alternativas, construção civil, turismo e telecomunicações. Tanto que o Brasil é, atualmente, o principal destino do capital português fora da Europa.

Mas, por tudo isso e na mão dupla, Portugal e o Brasil somam, atualmente, um mercado de cerca de 250 milhões de pessoas que falam português e “moram” — como queria Pessoa — na pátria dessa língua. E as caravelas que ajudaram Portugal a “dar novos mundos ao mundo”, segunda a feliz expressão de um empresário português, nos séculos 15 e 16, foram “promovidas” às fibras óticas da internet (a caravela do século XXI) que nos permitem conectar, em tempo real, esse contingente que habita nove países em cinco continentes e forma a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Bem haja!

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Rio, 28 de novembro de 2016. Cuba Libre?

Não dá para esquecer. Entre os personagens que povoaram os extraordinários Anos 60 (Anos Dourados) no Rio de Janeiro, haviam os locais — a energia do JK, o doido do Jânio, Maria Esther Bueno, Pelé e Garrincha e os que vinham pelo jornal, cinema e TV preto e branco: Kennedy, Mao, Beatles e o eletrizante Fidel Castro. Incendiava o nosso peito adolescentes (eu tinha 15 anos e em diante), tanto quanto a motocicleta do Marlon Brando, o porche do James Dean. O nome do jogo: era liberdade. E as barbas do Fidel em Sierra Maestra eram o outro nome desse jogo.
Fidel em Sierra Maestra

A liberdade 24h. Da mini saia de Mary Quant à maconha, do biquini à bossa nova, tudo era um hoje — que a gente achava que não precisava de amanhã.

Sim, mas e daí?

Daí que surgiu no Rio um drinque chamado Cuba Libre. Já existia, é claro: surgiu em Cuba … muitos anos anos antes. Na época da independência da ilha (1895-1808), em que os EUA apoiaram os cubanos contra a Espanha. Mas chegou aqui com o prestígio de “derrubar ditadores” (no caso o Batista!). E o nome parecia uma senha!
Cuba Libre

É a mistura do rum – o original, cubano — com uma Cola-Cola, gelo e limão. Em toda a minha vida eu devo ter tomado umas trezentas Cuba Libres!

Mas as meninas — ah! as meninas do meu tempo! — preferiam coisas mais leves. Quando não era coquetel de frutas, era licor de peppermint com “schnapps” mas, como não se achava, ia com água tônica mesmo e muito gelo. Um long drink.
pepper

As mais heavy metals iam de Hi-Fi (vodka com Fanta laranja) e sangria. Vinho nem se falava entre jovens, caipirinha ainda “não tinha nascido” e o chope às vezes.

E haja rosto colado (y otras cositas más…) ao som de Frank Sinatra, Pepino di Capri, Ray Charles, Adamo, Sacha Distel, Brigitte e/ou … pauleira: Elvis, Bil Halley e seus cometas e a nossa Jovem Guarda.

Saudades?

Não. Já lá vão mais de cinquenta anos. Eu teria que ter saudades de meus pais, das lutas estudantís, do Mello e Souza e da Faculdade Nacional de Direito, das namoradas … é melhor deixar quieto.

Ia doer muito.

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Rio, 24 de novembro de 2016. Da série: você sabia?

1) O vinho é mais feminino do que masculino. Até semanticamente, porque tirando o substantivo que o designa, todos os outros são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a safra, a garrafa, a taça … e a folha de parreira que cobriu (?) dona Eva.

A Monalisa e o bordeaux lìnstant Taittinger Eva

2) Uma medida de vinho — uma garrafa ou um copo — tem muito mais água do que álcool.
ÁGUA – Cerca de 80% do vinho é constituído de água. elemento. O vinho pode, portanto, contribuir para a hidratação.
AÇÚCARES – No processo da fermentação, o açúcar da uva representado pela glicose e frutose, é transformado em álcool, porém, uma certa quantidade residual permanece, cerca de 1 a 3g/l nos vinhos secos.
VITAMINAS – A uva contém em sua composição uma série de vitaminas que são transferidas para o vinho. As principais detectadas são: B1 (TIAMINA – B2 (RIBOFLAVINA) – NIACINA (ÁCIDO NICOTÍNICO) – B6 (PIRIDOXINA) – B12 (COBALAMINA) – A (RETINOL) – C (ÁCIDO ASCÓRBICO). Cada uma delas funcionando como catalisadores nas reações orgânicas e ação preventiva de doenças específicas, (como a Tiamina na prevenção do Beri-Beri).
SAIS MINERAIS – O vinho possui uma quantidade significativa de oligoelementos como: Potássio, Cálcio, Fósforo, Zinco, Cobre, Flúor, Alumínio, Iodo, Magnésio, Boro, etc.
ÁLCOOL ETÍLICO – A participação do álcool na composição do vinho gira em torno de 7 a 14 g/litro, nos vinhos secos, que são os mais consumidos. Esse dado vem expresso no rótulo em % p/Vol. ou GL (Gay Lussac), que traduz a porcentagem ou teor de álcool por volume.

20111119-a cor da uva Gamay

3 Pode-se fazer vinho branco com uvas tintas, mas não se pode fazer vinho tinto com uvas brancas. E isso porque quando se colocam os bagos de uva nos tonéis, e que eles começam a ser prensados – seja com o pé, a chamada “pisa”, seja por máquinas – o primeiro líquido que sai é branco, como a polpa da uva.
Então, se imediatamente se retirarem as cascas de uva tinta, as polpas e o mosto estarão produzindo um vinho branco; se esperarmos algumas horas (de 6 a 12h), estaremos produzindo um vinho rosé.
Mas o inverso não ocorre. Se prensarmos as cascas de uma uva branca ela não produzirá um vinho de outra cor.

4) As garrafas de vinho têm, na sua imensa maioria, 750 ml porque o vidro soprado foi descoberto pelos artesãos de Murano(Veneza) no século XVII. E essa medida era a maior autorizada pelas autoridades, para evitar que os sopradores sofressem embolia pulmonar.
Como hoje o processo é industrial, pode-se fazer a Magnum (1,5 litros e até de 12 litros. Veja abaixo (aquelas pequeninhas, de avião, nem menciono).

5) Os outros tamanhos das garrafas de vinho, são: meia = 375 ml; magnum (acima); jeroboam = 3 lit; rehoboam = 4, 5 lit; matusalem = 6 lit; salmanazar = 9 lit; balthazar = 12 lit
tamanho das garrafas

Obs: primeiro: tem garrafas ainda maiores, (nabucodonossor, melchior, mas aí já é raridade para excêntricos); 2) há variedade de nomenclatura de países para países: esta é a tabela francesa; 3) também para as garrafas de champagne, há outra classificação. Mas o que importa está acima.
Saúde … e força, para erguer uma ampola de 12 litros!

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Rio, 17 de novembro de 2016. Um vinho solto, sem ontem nem amanhã

Há muitos anos reproduzo, tentando atualizá-lo, o post da “chegada do Beaujolais”. E geralmente (re)começo assim: hoje é quinta-feira, a terceira de novembro, data em que às 12.01 da madrugada o Beaujolais 2016 será distribuído por mais de 100 países.

No Japão, o maior importador de Beaujolais do mundo, com sete milhões de garrafas, o lançamento se dá num resort em Hakone, a oeste de Tóquio, numa banheira cheia de vinho…
Beaujolais no Japão

Essa distribuição é “militarmente” planejada. Ainda hoje, 66 anos depois, milhares de pessoas se reúnem à meia-noite e um minuto para prová-lo. Mas nunca antes. Contam que o presidente Mitterrand recebeu o primeiro-ministro alemão numa terça-feira anterior à quinta do lançamento e resolveu surprêende-lo com uma prova antecipada. Não conseguiu, sendo presidente da França!

Ele é produzido 100% com a uva Gammay.

E ao contrário do ciclo milenar da produção de um vinho: colheita, prensagem, armazenamento (mais de um ano), engarrafamento e distribuição, um punhado de produtores de Lyon decidiu, desde 1951, pular essa etapa — e acertaram no milhar! Bolaram uma jogada de marketing espetacular: fixaram uma data-réveillon para a distribuição dos Beaujolais no mundo. Como já disse, no primeiro minuto da terceira quinta-feira de novembro, em toda a França e em todos os distribuidores da marca, no mundo, um cartaz similar anuncia:

Le Beaujolais Nouveau est arrivé

Ou seja: faz-se a colheita no fim do verão e, “vite, vite”, a vinificação e o engarrafamento. Cerca de 2 meses depois, sem barricas, sem descanso, sem maturação, milhares de garrafas têm que estar prontas para embarcar mundo afora. E, pelo menos idealmente, devem ser consumidas até o 31 de dezembro do próprio ano.

Rótulo?
Beaujolais 2016
Esse é o rótulo do Beaujolais engarrafado pelo veterano Joseph Drouhim, distribuído no Brasil com grande competência pela Mistral.

Cor?
Um violeta claro e brilhante como o olhar da Elizabeth Taylor. <
Liz Taylor violeta

Paladar?
Como os demais, tem gosto de compota (sem açúcar) de frutas do campo, com predomínio de amoras, framboesas, cassis e morango. Porém (eu não desisto), lá longe tem “sugestões” de banana (terebentina), no final da boca. Mas é agradável, preenche o paladar e apresenta aspereza.

“Não morde”, dizia um crítico. É uma espécie de caramelo de vinho.

Moral da história: esqueçam o discurso. O Beaujolais é um vinho jovem, sem memória nem responsabilidade. Está mais ligado ao hedonismo do que à degustação tradicional. Não tem pedigree, nem se propõe: é um vinho solto, sem ontem nem amanhã.

Simples assim.

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Rio, 9 de novembro de 2016. Um chef para Donald?

Do ponto de vista de gastronomia — como matriz de prazer e poder — O Trump tem dois caminhos. A mediocridade ou … veja o último parágrafo.
Donald Trump

Donald Trump perdeu o irmão mais velho por álcoolismo e tomou horror à qualquer bebida que leve álcool. Além disso, foi criado por um pai protestante, frequentando o culto aos domingos no Marble Collegiate Church, em Manhattan. Lá, se impregnou dos conceitos do pastor Norman Vincen Peale, o célebre autor da Força do Pensamento Positivo. E o menino Donald nunca mais esqueceu uma lição que ele repetiu como um mantra na sua bem sucedida carreira.
“Formule e imprima na sua mente um retrato vitorioso de si mesmo. Mantenha viva essa imagem, com tenacidade. Nunca permita que ela se apague ou desapareça. Sua mente vai reter e atualizar esse retrato. Não construa nada que seja um obstáculo à sua imaginação”.

Deu certo.

Mas voltemos ao tema. Poder e gastronomia não necessariamente estão associados – há poderosos que ficaram longos anos no alto comando de seus países e nunca se soube que tivessem algum pendor enogastronômico – imperadores romanos, reis, rainhas (Vitória, Elizabeth da Inglaterra), ditadores (Perón, Getúlio, Salazar, Franco) e, na outra ponta, outros que transformaram a “sala de jantar” numa marca de sua época.
Por exemplo: na foto, um craque. Giscard d’ Estaing espeta no peito do Paul Bocuse a Legião de Honra.
Giscard condecora Bocuse

Até porque para um gourmet (por prazer ou cálculo) uma refeição especial deve ser harmonizada com vinhos adequados e dela fazem parte o que hoje chamaríamos de valores agregados. A iluminação, a disposição dos pratos e talheres + arranjos de flores, o número e o bem-vestir dos convivas, o timing dos serviços e até o tom de voz das conversas. E a intenção final do encontro.

Em suma: é uma experiência estética que pode se esgotar em si mesma ou repercutir em algum objetivo consequente: conquista amorosa, facilidades empresariais-financeiras, relações públicas, diplomacia de relacionamento, prestígio e influência: ou seja, tudo de que o poder também gosta!

Três exemplos.

Primeiro – pasmem – nos EUA. O primeiro presidente americano, George Washington, que governou de 1789-97, adorava vinhos Madeira e tanto ele quanto a mulher, Martha, dificilmente jantavam a sós. Sempre tinham convidados, alguns estrangeiros inclusive.      um dolar, sorte good luck

E  valorizavam a matéria-prima americana. Incentivaram o cultivo de esturjões do Potomac, que serviam na “chouder” Chowder uma sopa de amêijoas ou peixe, tradição da Nova Inglaterra. E como ele um grande fazendeiro, a boa carne de boi confinado.

Segundo: já o terceiro presidente, Thomas Jefferson (1801-1809),  horticultor, líder político, arquitetoarqueólogopaleontólogomúsicoinventor e fundador da Universidade da Virgínia, aprendeu nos tempos de embaixador de  seu país em Paris a gostar de bons vinhos e finas iguarias. E quando se tornou presidente, mandou buscar da França dois chefs – Julien e Lemaire – que faziam o encanto dos convivas na Casa Branca ( foi ele que a inaugurou). Ele adorava o especialíssimo vinho de sobremesa francês Château d’Yquem e tentou cultivar uvas vitivinícolas na Califórnia mas nunca teve o sucesso desejado.

Thomas Jefferson

Terceiro: mas o primeiro casal campeão de charme (em geral) e espetáculos-gourmet em especial, foram os Kennedy (1961-1963). Ele e Jacqueline contrataram o chef também francês René Verdon e a sala de banquetes da Casa Branca brilhou com os jantares de gala ou de Estado, aonde o chefe do cerimonial tinha instruções de mesclar milionários, artistas, nobres europeus, políticos influentes – sem falar nos chefes de estado e suas comitivas.

casal Kennedy

Observação: o segundo casal presidencial campeão de charme são os Obama, Michelle e Barack. Vestem-se bem, têm estilo.
casal Obama

Mas em termos de enogastronomia, fracotes. Já foram fotografados no Oyamel, de cozinha mexicana e no Jaleo, de cozinha espanhola, além de indiano, gregos, etc. Todos em Washington. Mas (me parece) mais um extensão do instinto pessoal do Obama de presença na mídia e de acabamento da imagem de um presidente-estadista. Mas que lá no fundo ele aprecie iguarias e néctares, I doubt it.
Embora Michelle tenha contratado um chef — Sam Kass — que fez a diferença com a sua cozinha sadia, a sua campanha por uma lipoaspiração na merenda escolar nas escolas, o seu horror a frituras, cremes e cristalizados.

Conclusão: embora pessoalmente o Donald Trump seja abstêmio, como presidente dos EUA ele deve prestigiar o vinho americano (praticamente os 50 estados produzem vinhos), a riquíssima variedade de ingredientes e insumos da moderna mesa americana e a escola de chefs que lá (NY, Boston, Chicago, Miami) é tão gabaritada como o Cordon Bleu de Paris. E, voltando ao título, para isso, eleger um deles para chefiar a cozinha da Casa Branca e organizar jantares memoráveis.

Nota: o relato desses três presidentes americanos e seus pendores gastronômicos, foi tirado do livre A Raínha que virou Pizza, do excelente crítico de gastronomia, jornalista e gourmet  J.A. Dias Lopes, que tive o prazer de conhecer e com quem convivi quando ele diria a Revista Gula, do grupo do Jornal do Brasil aonde eu trabalhava. O título se refere à raínha Margherita di Savoia (1851-1926), mulher do Rei Umberto 1º da Itália, que tornou célebre a pizza encimada por tomate, mozarela e manjericão, cores da bandeira de seu país.

Vida que segue

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