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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 23 de maio de 2019. O queijo é feio, o vinho é bonito

Sendo o vinho um “ser vivo”, no sentido que nasce — quando a fermentação alcoólica do mosto (suco da uva vitivinícola (*) se completa — vive, durante seu estágio no interior da garrafa; envelhece e morre, quando se avinagra, precisa de certos cuidados para uma saúde perfeita.

Para a produção do vinho os fatores de qualidade são: o solo, o clima, os cuidados com a parreira, o uso ou não de pesticidas (orgânicos e biodinâmicos são isentos), a colheita (no amadurecimento certo), o armazenamento , a vinificação (o processo), o engarrafamento e, por fim, a distribuição.

Mas “em casa”, pra vocês apreciadores, os cuidados começam com a compra. Escolham um estabelecimento confiável (deli, supermercado, distribuidor, “corretores” de vinhos, importadora) e com um mínimo de know-how em guardar e expor vinhos. Quantas vezes, por exemplo, passo por uma vitrine de vinhos banhada de sol! (Tenho vontade de passar protetor solar nas garrafas!). Ora, sabemos todos que o vinho “odeia” luz, calor e trepidação, entre outros inimigos…

O passo seguinte é o armazenamento: já “defendi” em outros blogs as vantagens de uma adega refrigerada, por pequena que seja. Mas se não puder comprá-la, por favor não guarde os seus vinhos em armários  fechados, em cima de fogões ou geladeiras e, sobretudo, NUNCA em despensas que têm como vizinhos detergentes, água sanitárias e odores que invadem a rolha e…) Bom e no caso da não-adega refrigerada, por favor tente colocá-los deitados (o contato do vinho com a rolha dilata a cortiça e evita que entre ar, poeira, etc) e em algum lugar que não sofra longas oscilações de temperatura (em quartos onde se liga o ar-condicionado à noite e se desliga no dia seguinte).

Exemplo de adega doméstica para quem não guarda vinhos por muito tempo.

Observados esses cuidados básicos, vamos avançar para um plano mais elaborado (se vocês quiserem merecer o título de apreciadores de vinho!).  Um: a temperatura correta de guarda: entre 8* e 20*, embora um tinto “sobreviva” a máximas altas: 26* a 28*. (Os brancos e rosés, não; então pode ser a parte de baixo da geladeira — o ar frio desce). Dois: as taças: para os tintos, quanto mais “ovalada” ela for melhor, porque assim ela “aprisiona”os aromas que em contato com o ar se desprendem do interior  para a borda, facilitando a aspiração na hora de prová-los, um dos movimentos de degustação adequada. Três: harmonização (combinação com comidas):  com canapés,  saladas (sem vinagre), massas leves, peixes e frutos do mar, comida crua – japonesa e tartares – o vinho branco é o mais indicado porque a sua acidez e a ausência de taninos não brigam com a leveza desses alimentos. Já para os demais pratos – carnes, presuntos, defumados, queijos fortes, aves, caças, etc, o tinto é mais indicado porque os taninos presentes nas cascas das uvas (e nos casos dos tintos presentes durante a vinificação) empresta “músculos”que facilitam a digestão.

Observação: obviamente o gosto pessoal de cada um deve alterar ou não essa ordem. Eu, por exemplo, como feijoada com vinho tinto, por duas razões: 1) acho que fica melhor o preto da feijoada contracenar com o branco do vinho; 2) a acidez de um Riesling ou Sauvigno Blanc funcionam melhor no processo digestivo.

Finalmente, se você for oferecer um queijos e vinhos na sua casa, observe alguns “procedimentos”.

a) prepare uma mesa de queijos com frutas e/ou flores pelo meio, porque um “plateau de fromages” é feio: parece um solo lunar!

                                       

b) coloque bem à vista dos seus convidados um jarro com um suco vistoso, tipo abacaxi com hortelã, para “o pessoal” não matar a sede com vinho branco gelado! c) compre a mesma marca de brancos e a mesma de tintos, para não acabar um tipo que todo mundo gostou e você ter que oferecer outro tipo, de repente nem tão apreciado.

E boa sorte!

Observação: os champagnes/espumantes e os rosés ficam para a próxima!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*) Uvas vitivinícolas são aquelas que apresentam características de castas historicamente produtoras de vinhos.  Cerca de 5 mil. Só Portugal, por exemplo, dispõe de 250 tiois de castas diferentes. Exemplo: nas tintas, a Cabernet-Sauvignon, Merlot, Touruga Nacional, Tempranillo, etc e, nas brancas, Chardonnay, Riesling, Antão Vaz, Moscatel,  etc. As não vitivinícolas são chamadas de americanas ou híbridas e servem como fruta, compotas, etc.

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Rio, 17 de maio de 2019. A eterna cerveja!

Quando vejo a propaganda das cervejas artesanais — com coentro, limão siciliano, etc — na sua composição, me lembro do poema do Drummond: cansei de ser moderno. Agora vou ser eterno.

Porque a cerveja vem de longe, como o vinho. Parênteses: você gosta de ar condicionado? Então agradeça à cerveja.
E isso porque, para ser produzida, a cerveja precisa ser refrigerada, especialmente na fase de maturação, quando sua temperatura deve ficar em torno de 0ºC. Como no verão europeu isso era praticamente impossível, o engenheiro alemão Carl von Linde desenvolveu em 1894, a pedido da cervejaria Guinness, (irlandesa que é o orgulho de Dublin) um revolucionário método de arrefecimento (técnica de Linde) para a liquefação de grandes quantidades de ar. Ou seja, o inventor ar-refrigerado.
Inventor ar-refrigerado
A técnica de Linde ficou conhecida como contra-corrência: o ar é sugado para uma máquina que o irá comprimir, pré-arrefecer e, por fim, descomprimir. Yes!

Mas além de “mãe” do ar-condicionado, cerveja também é cultura. Shakespeare faz 14 menções à palavra “ale” e cita cinco vezes a palavra “beer” ao longo de sua obra (cerca de 40 peças).
20141008-bebedor de cerveja
O que nos leva a duas conclusões: uma é que no tempo de Shakespeare – ele viveu de 1564 a 1616 – a cerveja já era uma bebida muito popular; e, a outra, é que além de gênio, o bardo de Avon gostava de uma “amarga” quase que hereditariamente. O pai dele era o mais próspero comerciante de “ales” do Reino Unido!

E nem por acaso há, atualmente,  um movimento britânico chamado “real ale” (um inteligente trocadilho com a palavra real) que visa resgatar a cultura dos heritage pubs (pubs de herança), como são definidos esses santuários da rua inglesa, segundo a definicão da Britain`s Best Heritage Pubs.

Um gole de história: a cerveja é provavelmente provenientes da Mesopotâmia (talvez mais precisamente a Suméria, atual Iraque),  mas foi no antigo Egito que ela iniciou a sua carreira.

Inscrições em hieróglifos e obras artísticas testemunham o gosto daquele povo pelo henket ou zythum, apreciados por todas as camadas sociais. Curiosamente e no movimento pendular da história, eram totalmente artesanais.

Os gauleses a chamavam de cerevisia em homenagem a Ceres, deusa da agricultura e da fertilidade.

Sim, mas o que é a cerveja, afinal?

É o resultado da fermentação alcoólica do mosto de algum cereal maltado, sendo o melhor e mais popular a cevada. Mas outros cereais maltados ou não maltados são igualmente usados, incluindo o trigo, arroz, milho, aveia e centeio. Além disso, como a água é o seu principal elemento, a origem dessa água e as suas características têm um efeito determinante na qualidade da cerveja, influenciando, por exemplo, o seu sabor.  Outro ingrediente muito importante é o lúpulo. O lúpulo, como podem observar, é uma trepadeira de origem europeia e muito embora tenha parentesco com a maconha,  não possui propriedades entorpecentes.

Usa-se a flor do lúpulo, para acrescentar um gosto amargo que equilibra a doçura do malte e possui um efeito antibiótico moderado, pois possui propriedades bactericidas e antioxidantes. E a adição do lúpulo à fórmula da cerveja — produzida até cerca dos anos 700 da nossa Era apenas com a mistura da água, malte e aromatizantes, como a camomila, o gengibre, o zimbro e o açafrão — serviu não apenas para “puxar” o sabor para o amargo, como dissemos mas, e sobretudo, para evitar que ela se deteriorasse rapidamente.

Além do lúpulo, dezenas de estirpes de fermentos naturais, ou cultivados, são usados pelos cervejeiros, o que resulta em duas famílias principais de cervejas: as lagers, de baixa fermentação, com aroma suave e as ales, de alta fermentação e sabor frutado, apresentando uma coloração que varia do dourado ao marrom escuro.

Todas devem ser tomadas a uma temperatura de 2 a 6 graus,  porque estupidamente gelado só chope e chope é bebida de verão – que felizmente ainda está longe!

Para finalizar e “tudo junto e misturado” (guiness, ingleses, cervejas, vontade de fazer pipi e cachorros), que tal essa charge — pérola do humor inglês.

inglês adora fila

Cheers!

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Rio, 12 de maio de 2019. Dia das Mães

Bom, é só entrar numa academia de ginástica ou num bar descolado do Rio ou São Paulo, por exemplo, para constatar que as mães mudaram muito… Sobretudo na sua relação com o vinho.

D’antanho (pra ficar no clima), os filhos ofereciam um almoço nesse dia fora de casa, regado a vinho rosé (!) ou, os mais abastados, ofereciam uma bela garrafa de vinho do Porto.

Hoje a mulher entrou pra valer no mundo do vinho — e não só como exigente consumidora, mas como distribuidora, Relações Públicas de vinícolas, produtoras, importadoras e exportadoras — e a MÃE não vai se contentar com essas gracinhas…

Então, que tal (por exempolos)

Decanter

decanter musical
Os apreciadores de vinhos não podem deixar de fazê-los respirar num desses decanters “de filme”, porque além do charme, a decantação faz o líquido ser oxigenado por igual. Antigamente, havia uma segunda função muito importante: “identificar” alguma sujidade – rolha, borra – a ser filtrada antes de ser servido o precioso néctar. Hoje a maioria dos vinhos são filtrados antes do engarrafamento.

Termômetro/“rapid-ice”
Há vários tipos: o anel em torno da garrafa, o clássico que parece para “febre” e um high-tech que é manipulado como um radiologista aciona o ultrassom.

20120108-rapid ice

E, na outra ponta, o rapid-ice para manter a garrafa na temperatura conveniente.

Adegas domésticas
Enófila que é enófila não guarda vinho numa prateleira de madeira na despensa, nem num “xadrezinho” de arame num canto da sala, embaixo da televisão.  E muito menos em armários fechados, junto com pratos… (horror!)

Que gosta de vinho e tem um mínimo de brio, adquire uma adega climatizada. Pode ser para apenas 6 garrafas ou, num crescendo, para 16, ou 25, 40, 48, 72 e 90. Mais do que isso, ou é o Maluf, ou o Boni, ou é restaurante, enoteca, etc.
adega para 48

 

Audiovisuais (para os menos abastados … mas criativos)
Vale tudo: papéis de de parede, guardanapos, CDs com músicas para se ouvir enquanto se bebe, tudo com motivos eno-simbólicos, como ninfas, Bacos, fontes em meio às vinhas, suaves ruídos de “glug-glug”, tilintar de taças, etc.

            

 

Ou até uma rápida aula.

Finalmente e (sugestão deste blog) : sente(m)-se ao lado da Mãe, uma taça na mão (mas Atenção: você, filha ou filho, têm que ser no máximo, o centro das desatenções). A estrela da festa é a Genitora.

E é muito, muito bom ter mãe viva — fisicamente ou na lembrança!

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Rio, 2 de maio de 2019. 500 anos sem Da Vinci

Leonardo Da Vinci morreu, hoje, (2 de maio — de 1519) aos 67 anos,  na pequena cidade de Cloux, perto de Ambroise, (Tourraine), no braços do Rei de França, François Premier.  Foi um desses gênios dentro dos quais o Sol nunca se põe, como disse Neruda no enterro do Picasso.

Tinha uma curiosidade insana. Dissecava cadáveres para entender os labirintos do corpo humano e foi estudando profundamente os músculos dos lábios que resolveu pintar o enigmático sorriso de (uma das) sua obra-prima: a Mona Lisa. O crítico de arte Rodrigo Naves diz que “o sorriso da Mona Lisa é o sorriso da própria natureza“.

Mas nem todos sabem que Leonardo foi um apaixonado por alimentos e pela liturgia das refeições. Para começar,  foi talvez o primeiro vegetariano — por opção — de que a história traz registro. E um”cinematográfico” cenógrafo de festas! Para agradar ao seu benefactor, o poderoso Duque de Milão, Ludovico Sforza, (para quem trabalhou 13 anos) — e considerado o melhor anfitrião da Lombardia —  coordenava espetáculos pantagruélicos, em que não apenas a quantidade, mas a arte de preparar e apresentar os alimentos, bem como de construir atrações que permeavam os pratos, faziam a diferença.

Duque de Sforza

E já naquela época –- há cinco séculos, repito — Leonardo defendia a simplicidade dos alimentos e a beleza de uma mesa bem posta. Registrou no seu diário: “É meu dever tornar cada banquete um feito inesquecível. Juntava libélulas, plantas aromáticas, fontes de água, grilos, água de rosas para enxugar as mãos, pequenas estátuas de marzipã, geleias coloridas e, lá fora, cisnes, sinos, corneteiros e avestruzes dando voltas e mais voltas, para dar movimento à paisagem”.

E anotava tudo o que pensava sobre gastronomia em manuscritos que levavam o nome de “codex”. O que trata dos assuntos da mesa é o Codex Romanoff, cuja cópia foi achada em 1981.

Mas escreveu também sobre botânica, engenharia militar, cartografia, ótica… e deixou mais de 7 mil papéis com desenhos, projetos, perguntas (“o que é a alma”?), hoje preservadas em bibliotecas europeias e na formidável coleção privada do Bill Gates, que em 1990 pagou 30 milhões de dólares pelo Codex Leiceste — 72 páginas nas quais Da Vinci descreve o luar, os fósseis e os movimentos aquáticos (parágrafo de transcrito do Segundo Caderno do Globo de hoje).

Leonardo nasceu numa fazenda perto da cidadezinha de Vinci, na toscana. Foi criado pelos avós paternos, numa pequena propriedade que cultivava trigo e azeitonas. A alimentação se completava com legumes e vegetais. Por isso, comia-se fava e feijões, grão-de-bico e ervilha, com pão, alho, cebola, nabos e…azeitonas. Além de queijo de ovelha. E, tratando-se da Itália, obviamente bebia-se vinho, desde os 5 anos – com água.

Cresceu gênio. Se tivesse nascido no século XX – XXI – teria inventado o iPhone, a Internet, o carro elétrico, os drones, a robótica, a nanociência, o transplante de fígado…

Era divertido, perfeccionista (imaginem!), bonito, namorador e gay, segundo o jornalista americano  Walter Isaacson, ex-editor do Times e autor da biografia “Leonardo da Vinci”, lançada em 2017 e que antes de chegar às livrarias de todo o mundo foi a primeiro colocada na pré-venda da Amazon por 3 meses!

Por isso e para ficar no clima gênio-divertido, que tal terminar com essa charge-poster com a Mona Lisa enófila?

A Monalisa e o bordeaux

Desconheço o autor  da charge, mas a quem rendo as mais enológicas homenagem!

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Rio, 25 de abril de 2019. Duas comemorações

Primeira: neste 24 de abril que passou, os 2.669,6 km que separam o Rio de Buenos Aires ficaram mais curtos: celebrou-se o Malbec World Day (oficialmente no dia 17 de abril) e o consulado geral argentino no Rio, junto com a Wines of Argentina, celebram essa data em seu Instituto Cultural, na Praia de Botafogo, com uma noite de degustação dos melhores vinhos produzidos com essa casta.

À frente o incansável Cônsul-Geral Claudio Gutierrez e sua equipe.

Aliás, essa é uma iniciativa da Chancelaria — com o aval da própria presidência da República — dos hermanos platinos,  o que faz com que nessa data cerca de 100 representações argentinas em mais de 44 países do mundo reúnam diplomatas, sociedade e jornalistas locais para algum tipo de atividade cultural “ferecidas” pelo Malbec.

No caso do Brasil (o Brasil que bebe vinho),  o vinho Malbec além de ser — junto com o tango — uma marca da Argentina é um dos preferidos dos brasileiros.

Um gole de história

A uva Malbec é originária do sudoeste da França, da região de Cahors, próximo a Bordeaux, onde é conhecida pelo nome Côt. Quando a praga filoxera devastou as suas parreiras europeias no meio do século XIX ela foi trazida para a Argentina pelo empenho do visionário Domingo Faustino. Mas essa imigração só foi bem sucedida pelo decisivo empenho do então presidente Sarmiento (1868-1874), intelectual, escritor e gourmet, que facilitou toda a operação.

Parênteses: além dessas virtudes, o nosso querido Sarmiento é  “a cara” do nosso embaixador Marcos Azambuja: confiram!


Mas ela chegou à serra argentina (Luján de Cuyo, Valle de Uco) e foi sendo misturada com outras cepas, ainda em fase de adaptação. Só em 1996, quando o legendário Nicolas Catena resolveu produzir os primeiros vinhos 100% Malbec é que o experimento surpreendeu e a safra de estreia, o “Adrianna Malbec 2004”, conquistou a nota 98 do crítico Robert Parker. Recentemente, esse mesmo vinho, safra 2012, foi eleito o melhor Malbec da Argentina pelo guia Descorchados 2015, tendo recebido a nota 97, a mais alta nota dada a um vinho argentino nesse ano.

Foi a consagraçã0.

A coloração desse vinho é intensa — um vermelho denso, caminhando para o violeta — e o aroma remete à frutas vermelhas, ameixas maduras e, às vezes, a tabaco, chocolate e até anis. Já na boca ele apresenta um sabor prolongado, com agradável textura. E por conter acidez equilibrada e taninos chamados de redondos, o Malbec é um vinho gastronômico, isto é, próprio para acompanhar comida.  Sobretudo… las empanadas, che!

     

Segundo: A Revolução dos Cravos Vermelhos em Portugal! Há quarenta e cinco anos, às 0h20 da madrugada de 25 de abril de 1974, Portugal encerrava uma ditadura de 48 longos anos — num só dia! Liderado pelo Exército mas com o decidido apoio do povo, Portugal voltou-se para o seu tempo e a sua importância na geopolítica do mundo.

No início,  passou por um período de euforia: “todo mundo fala e ninguém dorme, há reuniões até alta horas e os escritórias ficam com as luzes acesas até de madrugada”. Depois, Portugal entrou num conturbado estágio que durou cerca de 2 anos, marcados pela luta entre a esquerda e a direita: foram nacionalizadas as grandes empresas, ricos empresários e banqueiros sairam do país.
Passados cerca de três anos, no entanto, realizaram-se eleições constituintes e foi estabelecida uma democracia parlamentar. A guerra colonial acabou e as colônias africanas tornaram-se independentes antes do fim de 1975.

E elegeu-se presidente um bizarro militar, germanófilo e de monóculo, António Spínola.
António Spníloa

Na sequência e em 5 de abril de 1975 têm lugar as primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, ganhas pelo Partido Socialista.  É elaborada uma nova Constituição e estabelecida uma democracia parlamentar que traz ao poder o carismático líder Mário Soares como Primeiro-Ministro e coloca na presidência da República o sisudo general Ramalho Eanes.

A Revolução dos Cravos também possibilitou, anos mais tarde, o ingresso de Portugal na União Europeia (UE) o que muito contribuiu para recuperar o atraso e o isolamento. A entrada no bloco ajudaria a modernizar o país por meio de uma transferência no valor de 80 bilhões de euros entre 1986 – ano que passou a integrar a UE – e 2011.

A quantia é o equivalente a 9 milhões de euros por dia. 

E Portugal, hoje, realizou o sonho recíproco de ser “o Brasil da outra margem do Atlântico”. E não apenas porque apenas 7.482 kms separam o centro do Brasil do centro de Portugal em linha reta (ou cerca de 9h de voo), mas porque é mais fácil encontrar brasileiros em Lisboa e Cascais do que nórdicos, ingleses e outros europeus “lá de cima” (com ou sem Visa Gold).
linha reta BR Portugal

Por exemplo: em termos de mobilidade urbana e infraestrutura, Portugal dá banho. E em energia eólica, desde o fim dos anos 80, é um exemplo. O que transformou o país de uma nação de fado e passado e de “touradas reais” em “hub” para o resto da Europa. Mais globalizado do que muitos outros mercados mais ao norte.

No que concerne as relações bilaterais com o Brasil, desde os anos 90 houve grande incremento das importações de produtos primários portugueses e, mais recentemente, tecnológicos: foi lá que aprendemos o inovador sistema de cobrança de pedágio eletrônico, por exemplo. Ou a construir fachadas modernas, que permitem visão de dentro para fora e vice-versa. E mesmo cidades com imagem de anteontem (mais velho do que a Sé de Braga, era um dito popular), como Braga, são hoje polos de TI, conectividade e experimentos no campo da inteligência artificial e robótica e nanotecnologia.

Na outra mão e da nossa parte, temos oferecido boas oportunidades para o investimento português no Brasil, sobretudo nas áreas têxtil, de energias alternativas, construção civil, turismo e telecomunicações. Tanto que o Brasil é, atualmente, o principal destino do capital português fora da Europa.

Em Turismo é um show!

Por tudo isso e na mão dupla — Portugal e o Brasil somam, atualmente, um mercado de cerca de 250 milhões de pessoas que falam português e “moram” nessa língua,  como queria Fernando Pessoa — nossos dois países podem (e devem) no futuro imediato  “dar novos mundos ao mundo”, segunda a feliz expressão de um empresário português.

E as caravelas que nos séculos 15 e 16 cruzaram mares dantes nunca navegados,  foram hoje “promovidas” às fibras óticas da internet (a caravela do século XXI) que nos permitem conectar, em tempo real, esse MAR HUMANO que habita nove países em cinco continentes e forma a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Bem haja!

   

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Rio, 19 de abril de 2019. Que bom, a Páscoa!

Para os judeus, a Páscoa (Pessach) — passagem — é uma antiga festa realizada para celebrar a libertação do povo hebreu do cativeiro no Egito, aproximadamente em 1280 a.C.  As festividades começavam na tarde do dia 14 do mês lunar de Nisan. Era servida uma refeição semelhante a que os hebreus fizeram ao sair apressadamente do Egito: o Sêder de Pessach.  Consta de matsá e maror e bebe-se quatro taças de vinho.

Para Abraham Shrem, rabino da congregação carioca Beth-El, “os brindes representam alegria e significam que tudo o que é material perde seu valor com o tempo; o vinho, ao contrário, se valoriza com o tempo”. E o enólogo e historiador Marcelo Copello, que é quem narra essas curiosidades, acrescenta: mas para ser consumido em ocasiões religiosas, o vinho precisa ser Kosher (digno de confiança) e a sua elaboração necessita de supervisão rabínica. As regras básicas para um vinho se tornar Kosher são: não pode ser produzido a partir de videiras com idade inferior a quatro anos; nos locais dos vinhedos nenhum outro tipo de planta deve ser cultivada; todo o equipamento e a matéria-prima utilizados na elaboração da bebida devem ser igualmente Kosher e o vinho só pode ser manuseado por judeus ortodoxos, para evitar sua possível contaminação ao ser manipulado por pessoas desprovidas de fé. 

Para os católicos é a maior festa cristã do ano litúrgico. Segundo o próprio Papa Francisco, é mais importante do que o Natal, porque constiui “a memória celebrativa de um único grande mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus. É a festa da nossa salvação”!

Ovos, coelhos, chocolate, bacalhau…

Então, a pergunta: por que o ovo e o coelho são marcas da Páscoa?  Pelo simbolismo que um e outro significam. Porque a existência está ali representada pelo ovo, véspera do nascimento – e pelo coelho — cuja capacidade de gerar ninhadas é associada à capacidade das religiões de (re)produzir novos adeptos.

Mas e o chocolate? Ah, aí entrou a mão do comércio! O surgimento do ovo de chocolate na Páscoa se deu a partir de fins do século 17, em substituição aos ovos de galinha, cozidos e pintados, que antes eram escondidos nas ruas e jardins para serem caçados pelas crianças. Depois, por volta de 1400, passaram a ter as cascas pintadas na Pascoa e alguns são jóias do artesanato!

Sem contar a participação da alta ourivesaria, que produziu obras-primas, como os ovos do Fabergé, alguns guardados no museu criado especialmente por um bilionário russo…

Mas sem tanto luxo mas com igual, ou maior criatividade,  os chocolatiers parisienses,  tiveram a ideia fabulosa de fazerem ovos de chocolate,  no finalzinho do século 17, para agradar a criançada e, ao mesmo tempo, colocá-los na agenda gourmet dos adultos..

E criaram verdadeiras obras de arte, como os desta vitrine na Rue de Rennes, em Paris, fotografados por mim há alguns anos.

Originário do México, onde os astecas o preparavam de forma líquida,  o chocolate foi levado para a Espanha, por Cortez, em 1528 e tornou-se popular em toda a Europa no século seguinte.

E, agora, surgem os “chocolates de origem”, ou seja, assim como nos vinhos varietais (feitos com uma só variedade de uva), são elaborados a partir de um único tipo de semente de cacau, exclusiva das maiores regiões produtoras, que são: Java, Tanzânia e Santo Domingo. Mas são caros, bem caros.

O Brasil é o quinto maior produtor de cacau do mundo e – pasmem – o Pará passou a Bahia em volume.

Assim sendo, aqui vai uma receita “jabuticaba” (brasileira, caseira e barata) para festejar a Páscoa em tempos de crises.

 

Bom, mas seja qual for a sua religião (mesmo se for nenhuma) que seja uma passagem feliz, com a família e amigos, preenchida de um sentido de renovação. E se ela for mais magra do que em outros anos, tanto melhor para a sua silhueta e saúde!

Aleluia!

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Rio, 11 de abril de 2019. O mundo gira e a lusitana roda…

Com a chegada da idade (muita!), a única forma de não ser nostálgico é exclamar: graças a Deus hoje temos mais opções, mais novidades! Por exemplo:  o troféu de Melhor Sommelier do Mundo de 2019 foi para as mãos do alemão Marc Almert. 

A 16ª edição do campeonato, que acontece a cada três anos, levou para a cidade de Anvers, Bélgica, no último dia 15 de março, sommeliers campeões de 63 países e mais três vencedores de campeonatos continentais – da América, Ásia e Europa (release).

Já o segundo e terceiro prêmio foram para a dinamarquesa Nina Jensen e para Raimonds Tomsons, da cidade de Riga, capital da Letônia, em terceiro. Ou seja, das “pátrias do vinho” (França, Itália…), necas de pitibiriba!

Adiante: no ano passado, no concurso Vinalies Internationales, promovido pela União dos Enólogos de França (criado), em 1994, um vinho belga ganhou a medalha de ouro em Paris. É um vinho “medium-dry” chamado Notas Brancas, 2015, produzido em Liege.

O concurso selecionou cerca de 3.500 vinhos-candidatos, de 40 países e foram provados por 150 profissionais da degustação.

Observacão: só pra não parecer algo inteiramente inédito,  é que bom que se saiba que a Bégica já produz vinhos AOC (apelação de origem controlada) há cerca de 10 anos, nas regiões de Flandres e Valônia, mapa abaixo. Flandres no Norte(verde-abacate), Valônia embaixo, (vermelho-apagado).

Ainda na área de “novas geografias”da enogastronomia: em abril 2017 saiu em toda a mídia gastronômica que o campeão do concurso World’s 50 Best Restaurants, promovido pela respeitada revista britânica Restaurant foi o restaurante Eleven Madison Park, em NY , cujo chef é … suiço!  Daniel Humm.  O concurso compila eletronicamente todos os anos os votos de mais de mil chefs, críticos, restaurateurs e foodies de todo o planeta.

Em 2016, o vencedor foi a Osteria Francescana, (Modena, na Itália), chefiada pelo italianíssimo Massimo Bottura (foto) e em 2015 foi a vez do catalão El Celler de Can Roca (Girona), tocado pelos irmãos Joan e Joseph (observem a fachada do restaurante),

E mais: por falar nos gauleses, e com ênfase no mundo do vinho, leio na importante La Révue du Vin de France, interessante matéria sobre o impacto das mudanças climáticas no ecossistema das tradicionais geografias vitivinícolas conhecidas no atual mapa de cultivo e produção.  Segundo o artigo, até 2050, as áreas históricas de plantio da videira podem ter de migrar para novos locais, enquanto as atuais regiões correm o risco de apresentar perdas de até 70% da sua produção nesse espaço de tempo.

O que significa que o vinho pede passaporte para novas “pátrias”: a fria Suécia (que colhe, desde 2002, uma bela safra anual), a Holanda, a Inglaterra, a Russia,  a Tchecoslováquia, por aí. E isso por conta do aquecimento global — repito: um dos vilões do planeta, sabemos todos — que “empurrou” as áreas cultiváveis, com o auxílio da tecnologia,  para essas regiões impensáveis há 50 anos. E aos velhos países tradicionalmente produtores, Espanha, França, Itália, Portugal, etc, a saída é privilegiar as suas regiões mais altas e mais frias para replantar as suas vinhas. E procurar cepas mais resistentes ao frio, ou manipular geneticamente as existentes para sobreviverem às quedas dos termômetros.

Por falar na Inglaterra, vejam esta imagem de um amanhecer sobre as vinhas de Sussex, no Reino Unido.

       

É lá que é produzido o premiado espumante Nyetimber`s Classic Cuvée 2003.

Este espumante, elaborado pela bodega do mesmo nome, localizada nesse tradicional condado da Inglaterra e com solo semelhante aos de Champagne, na França, recebe em sua composição as variedades que constituem as três matrizes da elaboração de um champagne: Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier.

A medalha de ouro foi obtida através de uma degustação às cegas, organizada pela revista italiana “Euposia” e o júri foi composto por enólogos, sommeliers , críticos e jornalistas especializados de 100 países.

Consôlo: reparem no “aplomb” do gigante Paul Boucuse, aqui ao meu lado lá no último andar do então Hotel Méridien, no saudoso St. Honoré, em 2001 , quando a estrela da França fulgurava bem alto no céu azul (branco e vermelho!) do olimpo gastronômico.

“… que le temps passe…” 

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Rio, 5 de abril de 2019.Robô emófilo

Assim (embora caricataamente) era o sommelier de ontem.

O de depois de amanhã será assim?

Na foto “ele” apenas serve café.  E existe: em São Francisco, nos Estados Unidos, foi inaugurado o Cafe X, um quiosque em que a bebida é servida por um robô. E o mecanismo é muito simples: você pode usar o touchscreen disponível no local ou então um aplicativo no seu celular. Em apenas 20 segundos a bebida chega quentinha. (Foto e texto de Monalisa Briganti, do site Mexido de Idéias).

Então cabem duas perguntas: 1) o que faz um sommelier 2) e por que não um(a) sommelier robô?

A primeira:  enquanto o agricultor cuida da parreira e o enólogo da vinha, o sommelier cuida do serviço do vinho.  Mas, cada vez mais e obviamente, essas funções não se esgotam em apenas na relação entre o vinho e a gastronomia.  Atualmente e cada vez mais, elas se entendem à todas as áreas que formam o circuito da harmonização = bebiba x refeição. Isto é,  eles/elas são os responsáveis finais pelo prazer gastronômico que tanto pode ser precedido por um aperitivo e complementado pelo vinho/champagne, como propor os não-alcoólicos:  limonada suíça, ou tipos de chás, ou infusões, ou águas minerais, quando o cliente não quer (ou não pode) consumir bebida alcoólica.

Além disso, o campo de atuação de um sommelier avançou sobre as áreas conexas, inclusive de mídia: auxilia na escolha dos rótulos e a sua rotatividade (quando não executa a compra direta), zela pelo armazenamento — não só das garrafas mas dos copos/taças que melhor se adéquam à maximização do prazer da degustação —  como passaram a ser consultados por distribuidoras de vinho, supermercados, caterings, etc. E também atuam  junto a cerimonialistas na montagem de festas de casamento, celebrações de empresas, recepções de governo, eventos gastronômicos; e em termos,  de comunicação, proferem palestras,  participam de programas de TV, dão palestras, ilustram posters indicando vinhos ou preços, assinam blogs, colunas e outras mídias.

Só que a comunicação, como todos sabemos, é uma via de mão dupla: traz o problema “do outro” interagir — às vezes de mais! Como quando o cliente que entende tanto, mas tanto! que há uma inversão de papéis. O sommelier  (humano) fica passivo e o cliente mostra sabença … como nesse divertido vídeo de Porta dos Fundos.

A segunda pergunta: e por que não um sommelier robô?

Bom, sabemos todos que a tecnologia do 5G  (Gbps — gigabits por segundo), prevista para estar disponível no mercado já no ano que vem vai alterar radicalmente a transmissão e, consequente, o acesso a conteúdos em volume e velocidade não imaginados nos dias atuais. Com 99% de confiabilidade.  Ou seja, na outra ponta, está nascendo um novo consumidor de informações — e aplicações delas, sem os excessos da gozação acima — cuja desnecessidade de interlocução humana será quase total.

Vejam o exemplo da badalada Alexa  que já virou companheira íntima de muitas famílias.

Mas o que nos salva é que nem tudo será cibernético. Por exemplo:   há um avanço no sentido de prover um atendimento diferenciado para atender os PCD – pessoas com deficiências. No caso dos cegos, a  ABRASEL está treinando sommeliers (humanos) para descreverem oralmente a cor, consistência, características dos reflexos (bolhas, “colar”, etc)  do vinho solicitado, para que o consumidor sem visão possa “juntar as pontas” e somá-las às características ao olfato, paladar e tato (taças) e percorrer assim o despertar dos sentidos que precedem a uma degustação correta.

E já existem chatbots (abreviação de robô de chats) que através de um software que gerenciam troca de mensagens, para atender clientes sobre vinhos. A marca Reservado Concha y Toro, da vinícola do mesmo nome, lançou um chatbot para auxiliar os consumidores. A plataforma, batizada pelo nome de “Renato”, (foto abaixo!) funciona como um consultor virtual que utiliza uma linguagem simples e descomplicada para abordar o universo dos vinhos. A ideia é de que o consumidor possa interagir assim como junto a um amigo: fazendo perguntas e recebendo respostas diretas e objetivas.

 

Ou seja, tira de um lado mas acrescenta do outro. E, pelo menos — por enquanto — não me consta que funcione o contrário: o cliente robô sendo atendido por um solícito sommeliier!!!

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Rio, Primeiro de Abril de 2019. Fake News?

Primeiro a pergunta: e por que O Dia da mentira “cai” no Primeiro de Abril?  Bom, a história mais verdadeira que eu conheço é esta: até o  século XVI o Ano Novo começava a ser festejado no dia 22 de março, data que marcava a chegada da primavera. E as festas duravam uma semana e terminavam no dia 1º de abril, data oficial do início do ano.

Mas em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX, da França, determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1º de janeiro. Muitos franceses, sobretudo do interior e do campo (imaginem mudar uma tradição naquela época!) continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano se iniciaria em 1º de abril.

“Gozadores” , então, costumavam ridicularizar esses renitentes e passaram a enviar CONVITES PARA RÉVEILLONS que não aconteciamDaí, é fácil imaginar o “ha! ha! caiu no primeiro de abril!” que passou a ser não apenas o Dia da Mentira mas também o dia dos bobos.

Aproximadamente duzentos anos mais tarde, essas brincadeiras se espalharam por toda a Inglaterra e, a seguir, para todo o mundo. No Brasil, o primeiro Estado a “aderir ao programa” foi Pernambuco, onde uma barriga ( furo jornalístico falso) foi publicada no jornal “A Mentira” (tudo a ver), noticiando a morte de D. Pedro II em 1° de abril de 1848!!!

O jornal, obviamente, desmentiu no dia seguinte. E o Imperador tirou de letra: na noite da sua “morte”, jantou em Petrópolis, com a família: canja e duas taças de vinho.

Mas as fake news são muito anteriores a tudo isso. Desde que o alemão (alsaciano) Gutenberg desenvolveu a primeira máquina de impressão, em 1439 e nos anos seguintes, houve um derrame de informações. Como hoje produzem as Redes Sociais. Teve um lado positivo, é óbvio:  um século depois, por exemplo, Lutero traduziu a Bíblia do latim para o alemão e com isso conduziu a Reforma Protestante mas, além de livros, vieram os jornais e os panfletos, com notícias verdadeiras ou … falsas. Não necessariamente por má fé: às vezes por visões distorcidas de fatos históricos, ou de filosofias de vida. Além disso, e como afirma o Pedro Doria em artigo sobre “o fim dos consenso”, quanto mais a informação circula, menos se acredita nas fontes tradicionais e, ironicamente, maior é a tendência a acreditar em histórias estapafúrdias!  

É a síndrome da descontrução.

Curiosidade:  os norte-americanos são tão ligados nesse binômio verdade-mentira e, portanto, temem tanto a exaltação da MENTIRA (nos demais dias do ano), que o Walt Disney criou em 1940 uma versão construtiva da verdade, baseada no livro As Aventuras de Pinocchio (1883) , mostrando para a criançada o quanto mentir pode ser ruim e prejudicial para a vida das pessoas.

Também no Brasil o nosso Ziraldo, mestre da literatura infanto-juvenil (entre outras mestrices como o Caderno B, do Jornal do Brasil, milhões de charges, etc) combateu a mentira através do seu famoso Menino Maluquinho.  Em “O Ilusionista”, o personagem descobre o mal provocado por roubar, fingir e mentir.

E no mundo real, (o que nem sempre acontece!) a mentira custou muito caro a um presidente americano, Richard Nixon, que em agosto de 1974 teve que RENUNCIAR à presidência da República dos EUA para não sofrer impeachment, porque mentiu, tentando esconder a sua participação no Caso Watergate.

Bom, quanto a mim,  quando “me escapa” alguma inverdade, vou buscar consolo no poeta Mário Quintana quando afirma:

    “a mentira (às vezes) é uma verdade que se esqueceu de acontecer!”

Se não prejudicar ninguém, vamos em frente…

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Rio, 21 de março de 2019. Crenças e crendices

Ando pelo calçadão de Copacabana, hoje, bem cedinho, inaugurando essa luz molhada do outono que começou esta semana.

Drummond no por do sol

E “encontro” o nosso poeta-oceano, sentado, calmo, de bronze …com a fitinha do Bonfim no pulso. Mais carioca impossível, mais mineiro … não há.

20120916-Drummond com a fita do Bonfim

Nota: a fita original foi criada em 1809 e ficou conhecida como medida do Bonfim, porque mede mede exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, postada no altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.

A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII. A “medida” era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão. E o acabamento feito em tinta dourada ou prateada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma promissória: ao pagar uma promessa, o fiel carregava uma foto ou uma pequena escultura de cera (ex-voto), representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo.

20151019-Fitas amarradas no gradil
Para prolongar a sua gratidão, o fiel adquiria uma dessas fitas, que simbolizava a própria igreja. Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim. Não se sabe quando se deu a transição para  o sincretismo (umbanda) e a sua representação das cores de/para cada Orixá.

Cores para cada Orixá.

Verde: Oxossi
Azul claro: Iemanjá
Amarelo: Oxum
Azul escuro: Ogum
Colorido ou rosa: Ibeji(erê) e Oxumaré
Branco: Oxalá
Roxo: Nanã
Preta com letras vermelhas: Exu e Pomba gira
Preta com letras brancas: Omulu e Obaluaê
Vermelha: Iansã
Vermelha com letras brancas: Xangô
Verde com letras brancas: Ossain

Resumindo:  a fita branca traz paz, calma e sabedoria; a amarela, prosperidade e otimismo; a azul, tranquilidade e harmonia; a vermelha, desejo; a verde, esperança; a roxo, saúde; e a rosa, carinho.

Falando nisso, as superstições mais populares no Brasil, são:

a) as que trazem má sorte

– Cruzar na rua com um gato preto;

– Quebrar um espelho provoca sete anos de má sorte na vida de quem quebrou;

– Passar por debaixo de uma escada idem;

– Deixar um sapato ou chinelo de cabeça para baixo (pode provocar a morte da mãe);

– Abrir guarda-chuva dentro de casa (pode atrair morte);

– Toda sexta-feira 13 é um dia perigoso e podem ocorrer fatos ruins podem (lhe) acontecer;

b) as que trazem boa sorte

– Achar um trevo de quatro folhas;

– Pé de coelho;

– Bater três vezes na madeira;

PS: por favor, não me contem mais nenhuma superstição — porque eu adoto!

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