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Rio, 9 de novembro de 2015. E D. Pedro II não aceitou dinheiro

Consta que na manhã de 17 de novembro de 1989, alguns ex-colaboradores de D.Pedro II teriam ido ao encontro do imperador na sua cabine do vapor Parahyba, horas antes da embarcação fazer-se ao largo, com o intuito de oferecer-lhe dinheiro para — pelo menos — os primeiros tempos de exílio.

E D. Pedro II teria recusado, dizendo: eu não estarei trabalhando pelo Brasil, não mereço dinheiro dos brasileiros…

Bom, faz, hoje, 126 anos que se perpetua uma (outra) injustiça histórica com D. Pedro II: atribuir-lhe a responsabilidade pela “esbórnia” que foi o chamado Último Baile da Ilha Fiscal, celebrado há na noite de 9 de novembro de 1889. Seis dias depois caia o Império.

 
E por que? Sendo quase um anti-gourmet, já que não se interessava por nada relacionado a vinho ou comida, e herdou do avô obeso o gosto duvidoso por frangos e galinhas, estas em forma de canja, D. Pedro II teve o seu fim político ligado à mais estupenda gastança etílico-culinária da nossa História monárquica: o chamado Último Baile da Ilha Fiscal.
convite Baile da Ilha Fiscal
Na verdade, tratou-se de um banquete oferecido ao comandante Bannen e aos oficiais do encouraçado chileno Almirante Cochrane, na noite de 9 de novembro de 1889, pelo Primeiro-Ministro brasileiro, o Visconde de Ouro Preto.
E a “lógica de marketing” era digna dos melhores publicitários chapa-branca: esnobar os republicanos andinos com a pompa da monarquia brasileira, a começar pelo local: um perfeito ponto de mídia preparado para se transformar, naquela noite, na Versailles Tropical.  Ou seja: império é pompa e grandeza, república é povão e chopada!
 
Nos jardins, 10.000 lanternas venezianas clareando todo o ambiente e no entorno, o magnífico espelho d’água da Baía da Guanabara. 
Ilha Fiscal iluminad
 
No interior, o palácio iluminado com setecentas lâmpadas elétricas para impressionar os cerca de 4.500 convidados. E para bem serví-los, 90 cozinheiros e 150 garçons, que prepararam 500 perus, 64 faisões, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 1.300 frangos e 12.000 sorvetes. 
 
Tudo descrito, comme il faut, num menu impresso em pergaminho. Era assim a descrição: crême à la Richelieu et purée à la Reine; merlan (badejo) à la façon du chef; chartreuse de caille (codorniz) et pigeons sauvages (pombos), e por aí vai. De sobremesas, 2.900 doces variados, (além de) crême au chocolat et aux violettes, charlotes, marrons glacées et bonbons fondants. Depois, 1.800 frutas brasileiras e queijos da Província de Minas.
 
Passemos, agora, aos vinhos, de matar de inveja “os Bonis” daqueles tempos: Madeira, Sherry, Marsala, Sauternes (Château d’Yquem), Chablis, Moscato, Margaux, Lafitte, Château Léoville, Lacrima Christi e Porto – safra 1834. E os champagnes Cristal, Veuve Clicquot, Heidsièck, Chambertin e Pommard. Além de licores e conhaques, como descrevem José Murilo de Carvalho, Guilherme Figueiredo e Carlos Cabral. A preço de hoje, foram gastos algo como 250.000 dólares em bebidas! 
 
Uma pequena atenuante: naquele tempo não havia “espumantes” nem Chardonnays argentino, chilenos ou brasileiros.
 
“Quand-même!
 
Para alegrar o ambiente, seis orquestras executavam valsas e minuetos e muitas senhoras “pregaram” gaiolinhas de pirilampos em seus coques, para alumiar o salão a cada volteio da Valsa do Imperador. 
 
E a turma do sereno não ficou de fora: no Largo do Paço, fronteiro à ilha, uma banda da polícia tocava lundus e fandangos para a pequena multidão que não teve acesso ao baile.
 
D. Pedro II compareceu com toda a família, mas retirou-se cedo. Diabético (todas as charges da época o caricaturavam dormindo durante as sessões do Conselho de Ministros)     Charge D. Pedro II cochilando        e doente, há de ter considerado “aquilo” mais uma maçada do cargo, termo português que usava com frequência, para designar as exigências do protocolo. 
 
Coitado, mal sabia que ali perto, no Clube Militar, um punhado de conspiradores acertava os detalhes do fim da monarquia — que, na verdade, começou a cair com a assinatura da Abolição da Escravatura (quem serviria aos barões do café?), a Questão Religiosa e a falta de um projeto “progressista. 
 
A injustiça histórica: essa festa retumbante, desproporcional às finanças do governo,  foi de inteira responsabilidade do voluntarioso Visconde de Ouro Preto, mineiro, ex-ministro da Marinha e, na época, presidente do Conselho de Ministros, que a concebeu como um exemplo da grandeur do Império, vis-à-vis o “da mão para a boca” das repúblicas.
 
Deu no que deu. E esta é a última foto do imperador e sua família em solo brasileiro.
última foto de D. Pedro II no Brasil
 
Oito dias depois, a 17 de novembro – um domingo – uma lancha do Arsenal da Marinha levou a Família Imperial para o vapor Parayba, ainda de madrugada. Ao meio-dia, o Parahyba zarpou para a Ilha Grande, onde estava o Alagoas. O transbordo foi feito à noite.
 
E na manhã do dia 18 de novembro D. Pedro II fez-se ao mar-oceano da costa brasileira a caminho da Europa.
 
Para nunca mais voltar. 
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4 Comentários

Comentários:

  • Prezado Reinaldo

    Tenho uma dúvida. Quem seria o sucessor de D. Pedro II caso ele renunciasse? Seria a Princesa Isabel? Sendo sim, sua resposta. Então, qual seria a aceitação dos militares sobre o Conde d’Eu (Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans)e sua eventual interferência no Exército?

    Agradeço.

    Américo Vieira

    Américo Augusto Nogueira Vieira

    16 de novembro de 2015 às 11:47

    • Você está correto, amigo Augusto. Seria a princesa Isabel, a mais velha das herdeiras. Abraços e obrigado por enviar os seus comentários. Reinaldo

      reinaldo

      18 de novembro de 2015 às 11:25

  • Esta foi a melhor e mais bem feita descrição do tal “Ùltimo Baile da Ilha Fiscal”.Parabéns ao autor que fez trabalho de mestre…

    Paulo de Tarso de Moraes Souza

    16 de novembro de 2015 às 23:53

    • Muito obrigado pelo elogio e pela força, Paulo de Tarso. Fiquei muito feliz!

      reinaldo

      17 de novembro de 2015 às 17:37

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