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Rio, 28 de dezembro de 2015. Um Réveillon tropical

Daqui a poucas noites estaremos celebrando mais um Réveillon.

 

champa espoucando

Parênteses: peço emprestado ao doutor em linguística pela USP — Aldo Bizzochi, em seu blog — a curiosa explicação de como esta palavra  veio vindo até o seu uso corrente em português:  “a noite que antecede o Ano Novo é chamada no Brasil de “Réveillon”, palavra de origem francesa que deriva do verbo réveiller, que, assim como seu sinônimo éveiller, significa “despertar, vigília”. Esse termo originalmente designava o jantar da noite de Natal; posteriormente, passou a referir-se à ceia da véspera do Ano Novo e, por fim, à própria virada do ano.” Mesmo para os franceses.

Acrescento eu: tanto que quando lá estudei “na outra encarnação”, se dizia “Le Réveillon de Noël” e ” Le Réveillon du jour de l’an”.

Adiante. Sabemos todos que no imaginário da maioria dos brasileiros, há uma ceia “européia” no Natal e, outra, igualmente copiosa na noite de 31 de dezembro. Ou seja: calorias, frituras, carnes fortes, aves, nozes, avelãs, doces com ovos, chocolates — um cardápio perfeito para enfrentar a neve do norte da Europa.

 Papai Noel na neve                                                                               Todo brasileiro guarda uma “japona” no armário à espera da neve..

However, com raríssimas exceções, os termômetros de todo o nosso país cruzam a meia-noite do 31 de dezembro sempre acima dos 30 graus.

Por que, então, não organizar um réveillon tropical em termos de comes e bebes?

A chef Ana Luisa Trajano, por exemplo, propõe uma mesa com beijus de tapioca, salada com verdes, aspargos frescos (verdes), sopas geladas, frutas (nossas) e… cerveja artesanal!  E pra quem prefere turbinar com algo mais forte, temos as cairpirinhas!

A caipirinha ganhou status de drinque e frequenta embaixadas tanto nossas, no exterior, quanto estrangeiras, em Brasília. Virou o must dos gringos que “sabem das coisas”. A caipirinha, aliás, foi regulamentada pelo FHC e publicada no Diário Oficial da União.
decreto sobre a caipirinha

A “chapa-branca” é de limão, mas eu sugiro montá-la com qualquer outra deliciosa fruta brasileira. Como caju, por exemplo.   Ou jabuticaba. Ou abacaxi capixaba.

frutas para caipirinha

Já para a mesa de apoio (antes e depois da meia noite), sugiro poucos salgados — JAMAIS galinha, peru, faisão, ou qualquer tipo de ave que cisca para trás: é atraso de vida, na certa — dentre eles, pães, frescos ou recheados, frios, fiambres, queijos brancos, futas secas, pipoca … Ah, sim, me lembrou o Augusto do Málaga, e carpaccio de peixe badejo (brasileiro). Congele e, depois, corte em finas fatias, tempere com sal de mar, limão e um filete de azeite. A criatividade é livre: tem gente que acrescenta cravo-da-índia, pimenta do reino e até cardamomo.

,  amuletos

Mas, e você for supersticioso deve incluir pequenas porções de:

Arroz

O arroz simboliza a riqueza, a abundância e a fertilidade. Coréia, Japão, China, Líbano e Dinamarca acreditam que esse é um alimento que traz muita sorte. O Líbano ainda vai mais longe: é costume desse povo comer apenas alimentos brancos nessa noite.

Lentilha

Em várias regiões do mundo é esse o alimento que “traz fortuna”. Como as suas primas ervilhas, as lentilhas também evocam morte e renascimento. É do grão enterrado na terra que que renascem múltiplos grãos novos.

Uva (verde)
Alimento nº 1 da ceia de ano-novo. Come-se 3 dando as costas para a lua, 12 dando pulos sobre um banquinho ou, sentados, civilizadamente, não importa! O importante é não faltar uva na ceia do Ano Bom.

Peixe
Além de ser saudável e muito mais leve, o peixe na ceia de ano novo está vinculado à boa sorte e fecundidade. Quando se fala em peixe automaticamente se faz associação com a água, símbolo da vida. Em chinês, U, peixe, foneticamente tem o mesmo som da palavra “abundância”, o que provoca a boa analogia. Dica: nada mais perfeito para o nosso clima do que um bom peixe assado em folha de bananeira, com arroz de brócolis!

No segmento DOCES, o Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, recomenda goiabada cascão com queijo Minas, canjiquinha de milho verde, cocada, doce de leite, gelatinas coloridas, laranja “à francesa”, coalhada seca, talhadas de melancia, sorvetes, por aí.

Bom, começamos sugerindo cerveja e/ou caipirinhas, mas para aqueles como eu “nostálgicos de borbulhas”, pode-se fazer uma concessão ideológica e em vez do alienígena champagne, celebrar o rito de passagem sorvendo espumantes brasileiros.

Afinal, é a bebida “pra cima”. Da posse, da ereção, do triunfo!

espumantes de todas as cores

Mas, atenção: sirva-os a 6, 7 graus de temperatura. (Abaixo a relação de espumantes proposta pelo Beto Gerosa, no seu Blog do Vinho): Adolfo Lorna, Aurora, Bueno State, Caves Geisse, Chandon, Dal Pizzol, Dom Cândido, Don Giovanni, Domno, Marson, Miolo, Pericó, Peterlongo, Piagentini, Pizzato, Salton, Valduga, Vallontano.

Assino embaixo e acrescento o saboroso .Nero Celebration Brut, produzido em Garibaldi.

Observação: e como o espumante é vinho e o VINHO traz, dentro de cada garrafa, mais de 6.000 de História, além dos seus pedidos específicos, não se olvide de erguer a sua taça acima da cabeça e repetir três vezes: que Baco nunca nos desampare!

Baco de Caravaggio

Um 2016 possível, com saúde e trabalho, são os votos deste blog. E alegria, né! Cuidem-se (mas não muito)!

 

 

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Rio, 17 de dezembro de 2015. Diplomacia e Gastronomia

Essas duas ferramentas do estado francês se fundem e se confundem através da história. E embora no século 18 Luiz XIV já tivesse compreendido a importância de um bom banquete para seduzir outros poderosos — haja vista a influência que tinha na corte o Príncipe Condé e o seu cozinheiro-chef, o atormentado Vatel — foi quase um século depois que a diplomacia e a gastronomia iniciaram o seu “pas de deux” a serviço da expansão do império francês.

E, ironicamente, para celebrar o colapso de um imperador: Napoleão.

Viena, 1814. Tailleyrand, o ex-chanceler e hábil negociador diplomático que pulou fora da frota de Bonaparte quando pressentiu o naufrágio,  idealizou então o Congresso de Viena para reunir as cabeças coroadas da Europa e redesenhar o mapa de poder no continente. E levou consigo o seu cozinheiro, o genial Carême, que entre outras novidades ofereceu ao Kaiser, ao Tzar e aos demais reis e príncipes os melhores queijos da França e, dentre eles, o Brie, ali consagrado como “le rois des fromages, le fromage des rois”.

20110914-mesa de queijos do Poulard

Vida que segue. Outro século e meio depois,  o então presidente Giscard d`Estaing  espetou no peito do grande Paul Bocuse, no salão nobre do Palácio do Eliseu, a Legião de Honra (comenda criada por Napoleão!),  e a partir dali os chefs foram abandonando progressivamente o calor de suas cozinhas e passaram a circular pelo salão dos restaurantes, pelas câmaras de televisão e vídeo e pelas páginas das mais bem ilustradas revistas de gastronomia. Alguns, hoje, são popstars de primeira grandeza.

French President Valery Giscard d'Estaing (R) awards French Chef Paul Bocuse with the Legion d'Honneur at the Elysee Palace in Paris, on February 25, 1975. AFP PHOTO POOL

French President Valery Giscard d’Estaing (R) awards French Chef Paul Bocuse with the Legion d’Honneur at the Elysee Palace in Paris, on February 25, 1975. AFP PHOTO POOL

Pois bem: hoje — hoje, 17 de dezembro — está para acontecer no salão de gala do Quai d’Orsay o anúncio oficial pelo ministro de Relações Exteriores da França, o ex-primeiro ministro Laurent Fabius, a classificação e premiação das “mil mesas de exceção”, uma iniciativa da Atout France, instituição de diplomacia e promoção turística da França, ligada ao seu ministério. O custo estimado é de 300 mil euros, cerca de R$ 1,2 milhão e foi compartilhado por mais de 200 guias gastronômicos —  “Michelin”, “Gault&Millau” e “Zagat” – além de sites colaborativos, a exemplo do TripAdvisor.

Obs: esse parágrafo acima foi transcrito de artigo da Folha de São Paulo, de ontem, 16 do corrente.

Mas por trás dessa iniciativa está a mão esperta do atual governo. De há muito que ele tem consciência que o prestígio da gastronomia nacional desce ladeira abaixo no exterior a ponto de a referencial revista inglesa Restaurant na sua edição de 2014 ter contemplado apenas 5 restaurantes na França dentre os 50 melhores do mundo.

Ah, não! Esse “insulto” vindo — mais uma vez — dos ingleses e ferindo logo um dos orgulhos nacionais, tinha que merecer resposta. E essa veio chapa branca: o chanceler “lui-même”chamou a si o bom combate.

Para começar, inventou um novo conceito: “la gastrodiplomatie”. E confiou a presidência desse projeto a um antigo embaixador da França, Philippe Faure,  que junto com Fabius definiu o plano de batalha: “diffuser la qualité française jusqu’à la dernière baraque à frites”.

E para executá-lo, montou uma equipe que organizou a base de dados a partir da compilação de artigos de críticos gastronômicos  — inclusive da revista inglesa Restaurant, modelo contra o qual se criou este guia! repito — englobando um universo de 92 “países gastronômicos” e utilizando novos critérios de premiação, como a tabulação por algorítmos (?), inclusive.

Mas a Lei de Murphy é implacável.

Para choque e espanto dos franceses (e até de nós, outros) dentre os mil restaurantes do amplo especto total e os 10 tops … os primeiros três premiados foram um restaurante suiço,  um norte-americano (NY) e um japonês. Só em quarto lugar um francês, o Guy Savoy de Paris. E, depois, o oitavo e o nono.

C`est la vie!

Confira a relação dos Top 10 (repito: a França começa no quarto lugar).

O primeiro lugar,  ficou com o restaurante do Hôtel de Ville de Crissier , na Suiça. Ressalva: a casa é comandada, desde 2012, pelo chef franco-suíço Benoît Violier, em parceria com sua mulher, Brigitte. E os menus podem custar até 390 francos suíços (R$ 1.530)

sobremesa

Benoit

.2) Per Se, Nova York (EUA)

3) Kyo Aji, Tóquio (Japão)

4) Guy Savoy, Paris (França)

5) Schauenstein, Fürstenau (Suíça)

6) El Celler de Can Roca, Girona (Espanha)

7) mKyubei, Tóquio (Japão)

8) Maison Troisgros, Roanne (França)

9) Auberge du Vieux Puits, Fontjoncouse (França)

10) Joël Robuchon, Tóquio (Japão)

Bon appétit, quand-même!

 

 

 

 

 

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