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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

A cachaça e o tequila

Durante todo o ciclo da cana de açúcar, do ouro e do café (séculos 17 e até início do 20), a Cachaça foi a bebida do escravo, do negro … do cachaceiro. Por isso, talvez, Cachaça é o vocábulo em português com mais sinônimos (para uns, 2000, para outros, 5000). Tanto que como bem observou Câmara Cascudo no seu livro Preludio da Cachaça, publicado na sua Natal, em 1967, “a cachaça foi a revelação gostosa e catastrófica para os trabalhadores do eito. Ela assegurou, contudo, a sua sobrevivência ficando com o povo”.
alambique e escravos
Do outro lado do oceano, um “irmão” — o tequila, a palavra é masculina, em espanhol — também passou anos como a bebida do mariachi (o seresteiro mexicano), do borracho (bêbado) e do pistoleiro.
Mas esta semana (22-26 de fevereiro 2016), ) o Globo informa que o Brasil e o México anunciaram a conclusão das negociações para o reconhecimento mútuo da cachaça e da (do, masculino, em espanhol) tequila. Um acordo de respeito às respectivas indicações geográficas.
Ou seja, e de novo, a nossa caninha só poderá levar no rótulo o nome – cachaça – se for a brasileira. E contrario sensu, o destilado de agave só poderá ser nominado tequila se for mexicano.
O troço é tão sério que voaram para a Cidade do México para firmar o acordo os ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o das Relações Exteriores.
Nota: segundo o Conselho Regional da Tequila o valor das exportações para o Brasil em 2015 foi de US$ 8 milhões e as expostações de cachaça para o México, no mesmo ano, de US$ 65 mil.
Até aí, a balança desequilibrada.
Mas a glória, mesmo, (para a cachaça) se deu em abril de 2012, quando a Presidente Dilma aproveitando a visita do Obama ao Brasil, assinou um acordo com o governo dos EUA, pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa tão querida cachaça é um produto genuinamente brasileiro e, do outro, que o Bourbon e Tenessee são uísques genuianamente (norte)americanos.
Ou seja, a cachaça chegou ao podium do Rum, da Bagaceira, da Grapa e, agora, do Tequila.
Dilma brinda com Obama Dilma brinda com Obama
Bom, a Cachaça já foi o tema do meu blog de janeiro.
Mas e o Tequila?
É produzido a partir da raiz de uma planta-cactus: AGAVE agave
Encontrada quase em toda o país, a sua origem vem da cidade do mesmo nome, perto de Guadalajara, cuja capital é Jalisco.
E a canção Jalisco é a Cidade Maravilhosa da região. Ouçam como a bonita interpretação na voz de Jorge Negreto.

Que a cana e a agave nunca nos desamparem!

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O vinho e a mídia

A propaganda do vinho remonta às inscrições e desenhos em ânforas dos gregos.
anfora romana

E evoluiu aos longo desses milênios através de todas as plataformas de comunicação.
De pinturas, como nesse extraordinário Baco, de Caravaggio, no século XVI Baco de Caravaggio até — e sobretudo – às litografias no próprio rótulo das garrafas.

Escolho uma das mais emblemáticas: a deste Pomerol, o Château Petrus, cujo frontispício (epa!) é o São Pedro com as chaves do céu!
Château Petrus com chave
Sem esquecer dos comerciais impressos com belas ilustrações, sobretudo em revistas, ou em filmes. Como “reclame” aí vão duas. Uma, de extremo bom gosto, a mulher dentro de uma garrafa de Taittinger, abaixo.
lìnstant Taittinger

A outra, discutível. Como nos mostra Luiz Cola no seu blog, esse comercial do tinto português Periquita apela para a taça de vinho e a sugestão do órgão sexual feminino. (Cartas para o blog)
vinho e erotismo

Há dias, no entanto, (no seu número de 16 de fevereiro último) a excelente La Revue du Vin traz matéria a respeito de 9 empresas start-ups de Nantes, na França, que se juntaram para formar uma associação com o intrigante título “A Vinha Numérica”. La Revue du Vin

Observação: Start Ups são empresas recém criadas, de pequeno porte, com o foco em tecnologia e espírito empreendedor, em constante busca de um modelo de negócio inovador.

E a que se propõe essa associação?

Primeiro, a criar uma rede social para os vinicultores dessa região. Segundo, a criar um programa de relações com clientes – tudo em modo digital, ça va sans dire!— para os negociantes e distribuidores de vinho.
Terceiro, e de acordo com o presidente da associação, Quentin de Molliens, estabelecer como objetivo-master a pedagogia. E ela que passa a discutir e ensinar, entre os nove, desde a otimização do manejo agrícola – plantio, controle de pragas, escolha do solo, etc – até a outra ponta: a comercialização, o marketing, o serviço e os instrumentos de controle entre investimento e retorno.

Ou seja, fazendo o caminho inverso do prazer de degustar um bom vinho à uva pendurada na parreira, há toda uma cadeia produtiva intimamente ligada ao negócio do vinho.

Conclusão: razão tinham os latinos. Neg-ócio vem de negar o ócio!

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O que beber com esse calor?

Premissa: água, sucos e fermentados. Este blog não é de destilados.
Até porque não é um calor ocasional: é verão 24h.

Então, primeiro: água, muita água. Filtrada, ou as melhores minerais, com a Pedras Salgadas, portuguesa.
Segunda: sucos de frutas encharcadas de água: melancia, melão, tangerina, laranjas, limões, por aí.
Mas … e se der vontade de um “alquinho”?
Alternativa: a velha e boa cerveja, se possível artesanal e que dispensa discurso. a cerveja é a cara do verão. Embora os europeus do norte a bebam no maior frio – quase quente!
Mas vamos “pro sério”: vinhos brancos, rosés ou espumantes, também brancos ou rosés.
Observação, só para os esquecidos: e por que brancos ou rosés?
Porque como as cascas das uvas (aonde se concentram os taninos, muito calóricos) são retirados nas primeiras horas da fermentação, são bem mais leves. E devem ser bebidos refrigerados: 12 a 15 graus.

E agora a surpresa: podem ser verdes ou maduros. Aliás: a maioria acha que o vinho é chamado de verde por oposição ao maduro?
Nãaaaao.
As uvas do vinho verde são colhidas maduras e depois do processo natural de vinificação, engarrafas no ano seguinte. O vinho verde branco é tão palha, amarelo-âmbar ou dourado quanto qualquer maduro, como nessa garrrafa e taça de Casal Garcia, uma das marcas emblemas “da terrinha”.
Casal Garcia

Entâo por que a designação Vinho Verde?

Pra começar, porque como quase tudo que vem e permanece da cultura do país, porque é assim que o povo o batizou … há mais de 200 anos. E o povo o designa assim, porque o manto que cobre esse vasto território do noroeste de Portugal, descendo pelas serras, cobrindo os vales e que se estende até o mar é verde!
O Minho

De Melgaço ao Vale de Cambra, de Esposende até o sopé das montanhas que anunciam a proximidade de Trás-os-Montes, varia o relevo, alteram-se as paisagens agrícolas, mas o verde impõem-se com a marca cromática da região.
A seguir, “vinho verde” é uma denominação de origem, que foi criada em Portugal em 1908, para identificar os vinhos jovens produzidos no noroeste de Portugal. Hoje eles são certificados pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) que lhes outorga o selo de Denominação de Origem (DO) ou Indicação Geográfica (IG).
Essa geografia é a que se espalha da chamada região do Entre-Douro até lá em cima, no Minho. (Amarante, Ave, Baião, Basto, Cávado, Lima, Monção, Paiva e Souza.
Os verdes podem ser brancos, rosés ou tintos (que não interessam no momento). As principais castas são, para os brancos, o Loureiro, o Alvarinho, o Arinto (conhecido localmente por Pedernã) e a Trajadura. Estes vinhos verdes, ao serem produzidos, apresentam uma concentração grande de ácido málico, o que faz com que a fermentação não termine na vinificação, mas continue – como ocorre com os espumantes – gerando uma segunda fermentação, já na garrafa.
E como um dos resultantes dessa fermentação é o CO2, o vinho apresenta o que os produtores e enólogos chamam de “agulha”, algo que lembra na boca as bolhas de um espumante/champagne. Devem ser bebidos entre 6 e 10 graus.
É a dica desse blog.
E as marcas indicadas pelo portal: www.gastronomias.com em colaboração com a C.V.R.V.V, são
Älvarinho”- Provam. Produtores de Vinhos Alvarinho de Monção, Ltda
“Varanda do Conde” – idem
“Muralhas de Monção” – Adega Cooperativa Regional de Monção
“Casa de Cerdeiro” – Soc. Agric. Casa de Cerdeiro, lda
“Quinta de Azevedo” – Sogrape Vinhos de Portugal S.A
“Solouro” – Solouro, Soc. Agricola do Louro, S.A.
“Casa de Sezim (Colheita Seleccionada)” – Sezim Soc. Agro. Pecuária, Lda
“Almanova” – Eduardo Alberto P. Valente Leal

Finalmente um vinho fortificado (fermentação interrompida pela adição de aguardente vínica): o Portonic.
Está na maior moda. Uma boa dose de vinho do Porto branco, seco, com água tônica, gelo e uma folhinha de hortelã ou manjericão à cavaleiro, na borda.
Ah, sim, e ar refrigerado a até 20 graus, sem pena da conta de luz…

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Yemanjá X Neptuno

O outro título para este blog também poderia ser: gosto de você até debaixo d´água!
Porque hoje, 2 de fevereiro, é dia de Yemanjá. E repito a alegoria que bolei no ano passado: um “caso” entre Yemanjá, a rainha do mar e Neptuno, rei do mar.
yemanja1
Vejam acima o belíssimo “aquático” trabalho do Caribé. E abaixo uma imagem do Google.
Neptuno embaixo agua

Verbete: Yemanjá é a rainha do mar (a da água doce é Yara) e, como toda rainha, tem mais de um nome: Janaína e Inaê — Princesa de Aiocá. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, uma espécie de Pasárgada africana…

E o seu par e contraponto não vem da África: vem do velho Egeu e não têm as suas raízes na religião — e sim na mitologia. É um grego: Poseidon ou Neptuno, rei do mar, filho de Saturno, irmão de Júpiter e Plutão.

Vamos aproximá-los!

E para celebrar essas bodas marinhas, lá vai a alegoria: um banquete multicultural e multitemporal entre os dois.

De entrada: manjar branco, acaçá, peixe de água salgada, bolo de arroz, ebôya, ebô e vários tipos de furá, do tabuleiro da baiana. tapas baianas

Cachaça de Piraí, RG, artesanal. E água (!) mineral sem gás.

A seguir, uma variedade de petiscos que os gregos chamam de “mezédes” — pequenas porções de muitas coisas — como patês para comer com pão de berinjela (melitzanosalata), coalhada com pepino e alho (tzatziki), ovas de peixe (taramosalata); tomates, abobrinhas, pimentões, berinjelas recheados (gemisto) com carne e molho; bolinhos de polvo ou de carne (keftedes); queijo grelhado à milanesa (saganaki); frutos do mar (lulas, camarões, polvo, mariscos); charutinhos de folhas de uva (dolmadakia) quentes ou frios, servidos ou não, com um saboroso molho de ovos com limão (avgolémono) e, claro, a salada grega chamada de xoriátika (tomates, pepinos, finas fatias de cebola, azeitonas, pimentão verde e uma fatia de um forte queijo de cabra e ovelha, o feta, temperada com orégano.
mezdas gregas

Primeiro prato de resistência: o cuscuz de Yemanjá.
cuscuz de Yemanjá

Ingredientes:
Canjica cozida
9 camarões grandes cozidos
Salsinha a gosto para enfeitar

Segundo: o kalamaki de Neptuno.
kalamaki

Ingredientes:
Carne cortada em cubos médios, marinados durante a noite em suco de limão e azeite juntamente com uma pitada de ervas e especiarias gregas como orégano e às vezes tomilho etc. Então é espetados em palitos de madeira, grelhados com uma pitada generosa de sal e pimenta.

Para harmonizar, o excelente vinho branco Assyrtiko, de Santorini.

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