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Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Que o supérfluo nunca nos falte

(Nem o essencial!)

Bom, o Carnaval passou, a Quaresma idem e… como vai a “infra” de vinhos: vai bem?

Por exemplo: Decanter
decanter musical
Um apreciador de vinhos não pode deixar de faze-los respirar num desses decanters “de filme”. Além do charme, a decantação faz o líquido ser oxigenado por igual. Antigamente, havia uma segunda função muito importante: “identificar” alguma sujidade – rolha, borra – a ser filtrada antes de ser servido o precioso néctar. Hoje a maioria dos vinhos são filtrados e a luz é … luminosa!

Termômetro/”rapid-ice” 20120108-rapid ice
Há vários tipos: o anel em torno da garrafa, o clássico que parece para “febre” e um high-tech que é manipulado como um radiologista aciona o ultrassom. E, na outra ponta, o rapid-ice para manter a garrafa na temperatura conveniente.

Adegas domésticas

Um apreciador de vinhos, hoje em dia, não guarda vinho numa prateleira de madeira na despensa, nem num “xadrezinho” de madeira num canto da sala, embaixo da televisão. Um enófilo com um mínimo de brio, adquire uma adega climatizada. Pode ser para apenas 6 garrafas ou, num crescendo, para 16, ou 25, 40, 48, 72 e 90. Mais do que isso, ou é o Maluf ou é restaurante, enoteca, etc.
adega para 48

Obs: se não der para comprar uma adega, compre vinho de duas em duas (garrafas). E beba uma de cada vez (?)

Audiovisuais

Vale tudo: papéis de de parede, guardanapos, CDs com músicas para se ouvir enquanto se bebe, tudo com motivos eno-simbólicos, como ninfas, Bacos, fontes em meio às vinhas, suaves ruídos de “glug-glug”, tilintar de taças, etc. Ou até uma rápida aula.

Sugestão deste blog: sente(m)-se com uma taça na mão e seja, no máximo, o centro das desatenções. E não se esqueça: cada garrafa de vinho deixada na área de serviço, depois de servida, leva consigo uma história em que você deveria ter sido o personagem. Ou não foi? Baco, por Caravaggio

Viver é uma tentativa de fazer do cotidiano um pequena obra-prima: não custa tentar!

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Bacalhau, coelho e chocolate.

Bacalhau, coelho e chocolate

Esse é o cardápio típico da semana de Páscoa no Brasil. O bacalhau, porque é a alternativa “com sustância” para os católicos, na Sexta­Feira Santa, dia em que a Igreja recomenda a abstençãode carne (lá atrás era jejum). Mas a partir de 1983, a CNBBpassou a permitir uma permuta: o católico brasileiro pode substituir a abstinência de carne por uma obra de caridade ou um ato de piedade. Além disso, o peixe em certas regiões é muito caro.

Curiosidade: o bacalhau não é um peixe. O bacalhau é um processo de “salga e secura” de cerca de 60 espécies da mesma família de peixes migratórios, inclusive o Arapaima Gigas (pirarucu), que navega pelo nosso rio Amazonas. Parênteses: defendo que se devia popularizar o bolinho de pirarucu. Uma delícia. bacalhaus

Para escoltar um bacalhau preparado de forma menos musculosa, vinho verde português Alvarinho, ou Loureiro. Ou os brancos maduros de Lisboa ou do Alentejo. Impossível não lembrar do Eça de Queiroz, com essa pérola: “eu penso como francês, visto­-me como inglês, mas o que me salva é um gostinho depravado pelo bacalhau”. Ele amava um branco que não foi vítima da phylloxera, porque cresce na areia: o Colares.
Eça de Queiroz

Se o cod, no entanto, vier nadando em azeite, entre batatas ao murro, alho, cebola e quetais, um tinto do Douro se faz necessário.

Já o coelho e o chocolate fazem parte da Páscoa, pelo simbolismo que ambos significam para a religião católica. A existência está ali representada pelo ovo, véspera de uma nova vida e pelo coelho, cuja capacidade de gerar ninhadas é associada à capacidade de “produzir” novos adeptos. (Vejam, abaixo, a estupenda vitrine que fotografei há duas Páscoas, na Rue de Rennes, em Paris)
vitrine chocolates 2
vitrine chocolates 1

Harmonizar coelho com vinho — o coelho não é problema: um bom Pinot Noir ou um Merlot descem lindamente.

Detalhe. O chocolate “dentro do ovo” ou copiando­ lhe o formato só se deu a partir de fins do século 17, em substituição aos ovos de galinha, cozidos e pintados, que antes eram escondidos nas ruas e jardins para serem caçados pelas crianças.

Hoje elas ainda os caçam, mas são ovos de chocolate. Ou caçam pela internet, ovos virtuais.

Mas Páscoa sem um vinhozinho fica triste. O problema é o que fazer com a untuosidade do chocolate? Bom, a primeira dica é “ter ao pé” um Vinho do Porto. Pelo seu teor alcóolico e doçura, um Tawny envelhecido é o ideal para um chocolate ao leite, enquanto um Ruby é a boa pedida para os mais amargos. (Abaixo a veneranda D. Antónia, fundadadora da Casa Ferrerinha)
Antónia_Ferreira

Outras opções: o Jerez, como fazem os espanhóis; o Sherry, como preferem os ingleses; ou os “vinhos de sobremesa”, como gostam os franceses: o magnífico Sauternes, ou o Banyuls, também do sul da França. Ou, ainda, o Muscat Beaumes de Venise, um néctar que é servido na Provence com os chocolates e petit-fours que encerram as copiosas refeições de domingo. (Não é por acaso que os papas ficaram por lá 70 anos!).

Modernamente tenho sabido, no entanto, de amigos que harmonizam os seus ovos de chocolate com cervejas artesanais, inglesas. São elas: Fullers Black Cab, Youngs Chocolate Stout e Anchor Porter.

Você decide.

Isso é para alegrar a boca. Para alegrar a alma, procure partilhar os seus sentimentos com quem realmente valha a pena. Vista “roupas positivas”, impregnadas de boas recordações. Entre numaIgreja – cheia ou vazia – e faça uma oração/reflexão.

E, ao sair, olhe a vida pelo melhor ângulo. Boa Páscoa.

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Rio, 16-3-2016. A Cerveja e a Civilização

Você gosta de ar condicionado? Então agradeça à cerveja.
E isso porque, para ser produzida, a cerveja precisa ser refrigerada, especialmente na fase de maturação, quando sua temperatura deve ficar em torno de 0ºC. Como no verão europeu isso era praticamente impossível, o engenheiro alemão Carl von Linde desenvolveu em 1894, a pedido da cervejaria Guinness, (irlandesa) um revolucionário método de arrefecimento (técnica de Linde) para a liquefação de grandes quantidades de ar.

Inventor ar-refrigerado
A técnica de Linde ficou conhecida como contra-corrência: o ar é sugado para uma máquina que o irá comprimir, pré-arrefecer e, por fim, descomprimir. Yes!
Ou seja, se hoje a gente tem ar-condicionado é porque lá atrás o Linde descobriu como refrigerar a cerveja. Viva ele!
(Até aqui, informações (re)tiradas de matéria publicitária publicada hoje (15/3/2016) no G1 – título: somos todos cervejeiros!)

Mas você vai ter mais surpresas do que imagina neste blog.

Por exemplo: você sabia que o Estado do Rio de Janeiro produz cerveja artesanal da boa. Ou melhor: da ótima?
Se sim ou se não, acompanhe as 10 que participaram do último Mondial de La Bière, no Pier Mauá em novembro último (2015).

20141008-bebedor de cerveja (Eu também fui!)

Cervejas do Estado do Rio (mondial de la bière)

Caborê (Paraty)
Mistura Clássica (Volta Redonda). São mais de 15 variedades, entre Lagers, Tripels, Pale Ales… fora as edições especiais e sazonais.
Hocus Pocus (Rio de Janeiro). A caçula da lista. Surgiu em 2014 e produz a Magic Trap, uma Belgian Strong Ale de respeito, com aroma frutado e sabor marcante.
2Cabeças (também do (Rio de Janeiro) Produz três IPAs das mais inusitadas: Hi5 Black IPA, Funk IPA e a MaracujIPA, esta última com maracujá em sua composição!
Esta merece uma ilustração, porque é da lavra inconfundível do mestre Ziraldo.
cerveja 2 cabeças - Ziraldo
Noi (Niterói) Produzida em Niterói, a Noi conta com 7 rótulos, com destaque para a Avena (Weiss), Rossa (Red Ale) e Amara, uma Imperial IPA com 10,5% de graduação alcoólica.
Cidade Imperial (Petrópolis) Essa cerveja não carrega o nobre nome em vão. A cervejaria foi fundada por membros da família real brasileira e produz três tipos de cerveja: Pilsner, Helles e Dunkel.
St. Gallen (Teresópolis). Produz diversos rótulos em seu nome e também é responsável pela linha Therezópolis, além de chopps sazonais encontrados somente na “Villa St. Gallen”, que já se tornou ponto turístico.
Ranz (Nova Friburgo). As cervejas Ranz levam ingredientes da região como mel da mata atlância e capim limão.
Búzios (Armação de Búzios). Homenageia o mais famoso balneário brasileiro do Estado, batizando seus rótulos com o nome de praias do município: Armação (Pilsner), Geribá (American Lager) e Manguinhos (Dunkel).
Buzzi (Santa Maria de Madalena). Fica em uma propriedade de 38 hectares que, além das cervejas, também produz e comercializa flores, cana de açúcar e madeira, e mantém uma reserva particular de mata atlântica.

Finalmente: se não bastasse esse benefício supremo (ter ensejado a invenção do ar-condicinado!), sobretudo para quem mora abaixo do Equador, cerveja também é cultura. Shakespeare faz 14 menções à palavra “ale” e cita cinco vezes a palavra “beer” ao longo de sua obra (cerca de 40 peças).
pub Shakspeare

O que nos leva a duas conclusões: uma é que no tempo de Shakespeare – ele viveu de 1564 a 1616 – a cerveja já era uma bebida muito popular; e, a outra, é que além de gênio, o bardo de Avon gostava de uma “amarga” quase que hereditariamente. O pai dele era o mais próspero comerciante de “ales” do Reino Unido!

Juntando as pontas – cerveja e Inglaterra — a edição de aniversário da excelente Revista Gula, (2014) dirigida pelo meu competente amigo André Tanure e que fui buscar nos arquivos depois de degustar uma artesanal fluminense, traz matéria de capa sobre “o sabor da tradição”, isto é, o movimento britânico pelas cervejas chamadas “real ale” (jogo de palavras) que resgata a cultura dos heritage pubs (pubs de herança), como são definidos esses santuários da rua inglesa pela publicação Britain`s Best Heritage Pubs.

Mas… por falar em ingleses (e já gora tudo junto e misturado: Shakspeare, cervejas e cachorros), que tal essa charge, pérola do humor inglês.
inglês adora fila

Cheers!

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O Vinho e a Vinha

A presença da mulher no mundo do vinho é uma bela metáfora da evolução feminina. No início, lhes bastava uma folha de parreira.
Eva
Hoje são sommelières, proprietárias de vinícolas, gerentes de venda de enotecas…
Mas nada é por acaso. Todos os substantivos do vinho – menos o que o designa — são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a safra, a garrafa, a taça…

E embora “as meninas do meu tempo”, anos 60-70, quase não bebessem‘, e quando bebiam era Cuba-Libre, ou Peppermint, Peppermint (licor de menta com gelo picado e uma folha de hortelã na borda), muito raramente um uísque com guaraná (Cristo, olhai para isto!) e, em restaurantes, um rosézinho bem gelado! Publico a foto com o maior respeito.
Château Duvalier Rosé

No Velho Mundo era diferente. Há quase 200 anos antes, três mulheres extraordinárias marcaram o mundo do vinho: a viúva Clicquot, a Madame Pommery e a D. Antónia, brava fundadora da Casa Ferreirinha.

A primeira, perdeu o marido aos 27 anos, bem no início do século 19, e assumiu sozinha o comando da vinícola da família. E transformou a produção e o comércio do champagne num império. Veuve Clicquot
Tanto que liderou pessoalmente sucessivas comitivas internacionais, na Europa, promovendo o néctar. E chegou a exportar para meio mundo.
Curiosidade: em 1816, as primeiras garrafas de Veuve Clicquot chegaram ao Brasil, encomendadas por carta escrita de próprio punho pelo imperador D. Pedro II.
Madame Clicquot morreu em 29 de Julho de 1866, aos 89 anos, deixando uma bem estabelecida marca de champanhe.

A segunda, também uma guerreira, é a Mme. Pommery (1819-1890), pioneira do ramo a apostar nos rótulos desenhados por artistas e no design das garrafas. Uma tradição, como veremos na sequência.
Madame Pommery

Observação, a Casa Pommery foi a primeira a produzir um champagne brut, em 1834. Pommery Brut Royal

A terceira e apenas cronológicamente, foi outra gigante: a emblemática Dona Antónia (1811-1896), que naufragou num rabelo (aquelas barcaças que singram o Rio Douro levando o vinho do Porto) junto com o marido. Só que ele morreu e ela sobreviveu graças às sete saias (repare na foto), que lhe serviram de boia. Mas não se salvou sozinha: salvou o vinho do Porto, o carro chefe da Casa Ferreirinha.
Bem haja!
Antónia_Ferreira

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Vamos pular um tempão: a partir dos anos 60, as mulheres começaram a “repartir” o mundo do vinho (branco ou tinto) com os homens (refiro-me ao Brasil, sobretudo ao eixo Rio-SP), mas devagarinho: bebiam pouco, raramente e sem critério ou escolha pessoal de safra, tipo de uva, origem ou função (aperitivo, harmonização, celebração). Mais naquela missão-mulher: ser solidária.. O champagne era para as “Carmens e Dolores”do Café Soçaite. As nossas colegas do Mello e Souza e Mallet Soares nem sabiam o que era um vinho espumante.
Lá pelo início dos 80, no entanto, Elas começaram a sair de objeto para sujeito. Primeiro, como consumidoras, depois enófilas, depois sommelières (na minha turma da ABS-Rio, 1992, tinha Juarezita Santos e mais duas). Juarezita Santos

E, a seguir, passaram a colunistas especializadas, autoras de blogs, livros e… donas de vinícolas, como a competente e bonita Filipa Pato, em Portugal.
Filipa Pato

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Paralelamente, no entanto, elas sempre se somaram ao vinho no imaginário do prazer. Resultado: foram (são?) a ilustração sugestiva, ou direta, mas obviamente sensual e até provocativa de rótulos, anúncios e campanhas publicitárias incentivando o consumo de vinho – e, claro, do champagne.

lìnstant Taittinger

americana bebendo vinho (a “cara” dos anos 60 nos EUA).

Observaçã0: não esquecer a ousadia da Casa Ramos Pinto que no início do século XX criou anúncios de forte erotismo (sobretudo para a época) como este, por exemplo, que sugere duas mulheres prestes a se beijarem. Ou, um andrógino na jogada…

Ramos Pinto

Vida que segue. A mulher deixou de ser rótulo ou ilustração e passou a apreciar vinho, conhecer vinho, discutir vinho e comprar vinho. E mais: provavelmente graças a elas, disseminou-se o hábito do vinho “by the glass”, como nessa saborosa montagem.

A Monalisa e o bordeaux

Por conta dessas mudanças, hoje funcionam quase uma centena de associações de mulheres.
a nova consumidora Leslie Sbrocco

Ou, simplesmente, que se reúnem para beber e conversar a respeito, como o “Groupe Femmes et Vins du Monde, na França; a confraria Mulheres & Vinho, no Recife (tel: 81-3034-6956); a confraria das Mulheres Enófilas, que funciona no Brasil desde 2003, com filiais em todos os estados; a confraria Amigas do Vinho e outras.

Pois bem: parabéns, meninas ! no seu dia. E para homenageá-las, recorro à minha admiração pela amiga capixaba Marina Giuberti
Marina Giuberti atualmente a única brasileira a ter o título de Brevet Professionnel de l’Etat de Sommelerie (BEP) –- um dos mais difíceis de se alcançar na França. Marina é hoje proprietária da Enoteca Divvino, em Paris, localizada no número 163 do Boulevard Voltaire, no coração do 11ème e, agora, com filial no charmoso quartier do Marais.
Através dela SAÚDO todas eno-profissionais e as enófilas, porque em toda mulher convive uma população feminina de apreciadoras de vinho.

Que Baco nunca as (nos) desampare!

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