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Bacalhau, coelho e chocolate.

Bacalhau, coelho e chocolate

Esse é o cardápio típico da semana de Páscoa no Brasil. O bacalhau, porque é a alternativa “com sustância” para os católicos, na Sexta­Feira Santa, dia em que a Igreja recomenda a abstençãode carne (lá atrás era jejum). Mas a partir de 1983, a CNBBpassou a permitir uma permuta: o católico brasileiro pode substituir a abstinência de carne por uma obra de caridade ou um ato de piedade. Além disso, o peixe em certas regiões é muito caro.

Curiosidade: o bacalhau não é um peixe. O bacalhau é um processo de “salga e secura” de cerca de 60 espécies da mesma família de peixes migratórios, inclusive o Arapaima Gigas (pirarucu), que navega pelo nosso rio Amazonas. Parênteses: defendo que se devia popularizar o bolinho de pirarucu. Uma delícia. bacalhaus

Para escoltar um bacalhau preparado de forma menos musculosa, vinho verde português Alvarinho, ou Loureiro. Ou os brancos maduros de Lisboa ou do Alentejo. Impossível não lembrar do Eça de Queiroz, com essa pérola: “eu penso como francês, visto­-me como inglês, mas o que me salva é um gostinho depravado pelo bacalhau”. Ele amava um branco que não foi vítima da phylloxera, porque cresce na areia: o Colares.
Eça de Queiroz

Se o cod, no entanto, vier nadando em azeite, entre batatas ao murro, alho, cebola e quetais, um tinto do Douro se faz necessário.

Já o coelho e o chocolate fazem parte da Páscoa, pelo simbolismo que ambos significam para a religião católica. A existência está ali representada pelo ovo, véspera de uma nova vida e pelo coelho, cuja capacidade de gerar ninhadas é associada à capacidade de “produzir” novos adeptos. (Vejam, abaixo, a estupenda vitrine que fotografei há duas Páscoas, na Rue de Rennes, em Paris)
vitrine chocolates 2
vitrine chocolates 1

Harmonizar coelho com vinho — o coelho não é problema: um bom Pinot Noir ou um Merlot descem lindamente.

Detalhe. O chocolate “dentro do ovo” ou copiando­ lhe o formato só se deu a partir de fins do século 17, em substituição aos ovos de galinha, cozidos e pintados, que antes eram escondidos nas ruas e jardins para serem caçados pelas crianças.

Hoje elas ainda os caçam, mas são ovos de chocolate. Ou caçam pela internet, ovos virtuais.

Mas Páscoa sem um vinhozinho fica triste. O problema é o que fazer com a untuosidade do chocolate? Bom, a primeira dica é “ter ao pé” um Vinho do Porto. Pelo seu teor alcóolico e doçura, um Tawny envelhecido é o ideal para um chocolate ao leite, enquanto um Ruby é a boa pedida para os mais amargos. (Abaixo a veneranda D. Antónia, fundadadora da Casa Ferrerinha)
Antónia_Ferreira

Outras opções: o Jerez, como fazem os espanhóis; o Sherry, como preferem os ingleses; ou os “vinhos de sobremesa”, como gostam os franceses: o magnífico Sauternes, ou o Banyuls, também do sul da França. Ou, ainda, o Muscat Beaumes de Venise, um néctar que é servido na Provence com os chocolates e petit-fours que encerram as copiosas refeições de domingo. (Não é por acaso que os papas ficaram por lá 70 anos!).

Modernamente tenho sabido, no entanto, de amigos que harmonizam os seus ovos de chocolate com cervejas artesanais, inglesas. São elas: Fullers Black Cab, Youngs Chocolate Stout e Anchor Porter.

Você decide.

Isso é para alegrar a boca. Para alegrar a alma, procure partilhar os seus sentimentos com quem realmente valha a pena. Vista “roupas positivas”, impregnadas de boas recordações. Entre numaIgreja – cheia ou vazia – e faça uma oração/reflexão.

E, ao sair, olhe a vida pelo melhor ângulo. Boa Páscoa.

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