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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 28 de julho de 2016. Uma confraria para chamar de nossa

… e assim, no começo da tarde de 16 de dezembro de 1982, fundamos Os Companheiros da Boa Mesa, no Restaurante Don Peppone, em Ipanema. fundação dos Companheiros
Obs: de pé, falando, o Antonio Houaiss. Em frente, eu. Antes dele (de quem olha para a foto) e de cabelos brancos, o Octavio Marques Lisboa. Em frente, a Virgínia Munson. E no primeiríssimo plano, à esquerda, o João Condé.

Nesse almoço, assinaram a ATA, o próprio Antonio Houaiss e mais 16 confrades: Carlos Leonam, Francisco de Assis Barbosa, Fred Suter, Jean Boghici, João Condé, Liwal Salles Filho, Luiz Alípio de Barros, Luiz Vieira Souto, Marcilio Marques Moreira, Octávio Marques Lisboa, Ramon Fernandes Conde, Reinaldo Paes Barreto, Ricardo Boechat, Ricardo Haddad, Sidney Regis e Virgínia Munson.

Infelizmente, desses 17 só 7 continuamos neste planeta! O Boechat, o Leonam, o Liwal , o Marcílio, o Ricardo, a Virgínia e este confrade-blogueiro.
Parênteses: a foto mais recente dos Companheiros (o único que não é d confraria é o Volkmar, dono da Casa da Suiça, aonde realizamos o encontro de maio e que pousou conosco no jardinzinho … suiço. Ele é o segundo à direita) é de maio de 2016.
última foto dos CBM

O cardápio da estréia não foi nada de extraordinário. Nem poderia ser. Mas era o melhor que se conseguia num Rio com limitações de importação – tanto de ingredientes culinários, quanto de vinhos – e com muito poucos chefs, praticamente nenhum sommelier e garçons improvisados.

E nós, por isso mesmo, éramos pouco exigentes, se comparados com o nível de demanda de hoje. Nem precisa ser adulto, qualquer neto nosso, atualmente, come uma pizza querendo saber se o tomate é caqui ou japonês. E se o orégano é orgânico.

Mas tínhamos, enfim, uma confraria para chamar de nossa. Com estatuto e status, notícias nos jornais e umas primeiras fotos em revistas (Playboy e Gourmet) e o Jornal do Brasil.
Ou em colunas, como essa da Anna Ramalho: confraria companheiros da boa mesa, a mais tradicional do Rio de Janeiro completou 30 anos ontem (11), com um jantar no … e, na foto, a saudosa Danusia Barbara com o Pepe Torras, ambos ex-presidentes.

x-x-x-x-x-x
Um gole de história. Nós somos a QUARTA confraria com continuidade e regularidade de frequência no Rio de Janeiro.

As primeiras sociedades cariocas para conversar e comer eram compostas por figurões, como Machado de Assis, Raul Pompéia, Graça Aranha, Coelho Neto e Raul Pompéia (pra citar os cardeais).

E foi este último, Raul Pompéia, que fundou a primeira que se tem registro no Rio. Chamou-se CLUBE RABELAIS e funcionava num sobrado do Largo do Rocio — hoje Praça Tiradentes — e cujo banquete inaugural “teve lugar” no dia 28 de abril de 1892.
100 anos antes da fundação da nossa!
Dele participaram: Arthur de Azevedo, Capistrano de Abreu, Xavier da Silveira, Coelho Neto e outros.

Em 1900, um grupo dissidente, cujo slogan era: “o importante é manter a linha: ainda que seja a curva”, fundou A Panelinha, que tinha como “comissário” ninguém menos do que Machado de Assis. Os encontros “se davam” na Rua das Laranjeiras, 192 e durou cerca de uns quatro anos, com “ágapes” mensais. Não há registro do fim oficial do grupo, embora — obviamente — ele tenha se dispersado.

Correm os tempos. Em 1958, Antonio Houaiss, Octavio Marques Lisboa e um grupo de apreciadores “apenas do melhor”, constituiu a Confraria dos Gastrônomos, que funcionou com regularidade até que no final dos anos 1970 um episódio provocou um cisma, da qual nasceu a confraria que em dezembro próximo celebra o seu 34 aniversário.

NÓS FIZEMOS A DIFERENÇA?

Acho que sim. Tanto que esse é o nosso encontro 336, organizado por mim com a coordenação do Marcos Lima no Adegão Português de Ipanema.

Flagrante UM
Almoço no Adegão Português
Nota: da esq. para a direita, Salvador Cícero, eu, Vanda Klabin, Breno Neves e Ricardo Coelho.

Por que fizemos a diferença?

Primeiro, porque que chegamos no momento certo. O Rio-gourmet estava cansado de copiar a Europa ou copiar São Paulo. E nós fomos ( e somos) a cara de um estilo gastronômico carioca-chique no melhor sentido de chique— inovador, competente sem perder a espontaneidade; plural, um pouco solto, instigante.

Segundo, porque soubemos mesclar seniors e juniors – e como eu era a geração intermediária — insuflei neles, os recém-entrados, um viés de rebeldia, de jeito a desequilibrar a tentação da confraria hermética, meio seita, meio clube inglês. E dos veteranos, pedi paciência e curiosidade.

E com isso, abrimos a ciranda para o ingresso de novas presenças: cabeças diferentes, endereços alternativos, variadas propostas do prazer gastronômico.

Terceiro: cariocas, e tal, mas sempre de olho no rigor da pontualidade (tanto de horário quanto de periodicidade), no rodízio dos organizadores, no balanço entre muitos convidados e só nós, por aí…

Faça seriamente as coisas frívolas, alegremente as coisas sérias, dizia Montesquieu.

Quarto, porque os nossos encontros eram e são, na sua imensa maioria, em restaurantes e não na casa de algum dos companheiros. O que pelo menos no início se constituiu em uma pressão, um ensinamento e um treino para muitas casas;

Quinto, porque como no breque samba-plataforma, não põe corda no meu bloco… esta confraria, repito, tem a nossa cara. NÃO TEMOS uniforme, capa, toga, túnica e apenas esse discreto e elegante bóton, que o Pepe Torras desenhou e ofereceu para nós.

RESUMINDO
1) Valorizamos a MULHER – contrariamente às anteriores, desde a criação: VIRGÍNIA
2) Pressão (eu era o único que tinha feito a ABS nesse mesmo 1982) para que todo restaurante oferecesse um curso de
sommelier ao garçom mais dotado – ou, pelo menos um treinamento;
3) Cardápios em português
4) Menus temáticos;
5) Mesmo que o DNA do restaurante fosse/seja de uma cozinha estrangeira, o resultado tem que se parecer com a cidade. Se
possível com ingredientes brasileiros. Se possível, fluminenses.

FINALMENTE: a nossa marca é o convívio, a harmonia e a alegria dos encontros, que nos alimentam tanto quanto as melhores iguarias.
Logo CBM

Vamos em frente!

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Rio,21 de julho e 2016. Queima a língua…

O sorvete nasceu há cerca de três mil anos, na China. Misturava­-se uma porção de neve das montanhas, suco de frutas e mel.
Mais tarde, por volta de 1800, blocos de gelo eram mantidos embaixo da terra, envoltos em serralho, até serem retirados para uso e exportação.
estoque de gelo
(mais…)

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Rio, 11 de julho de 2016. O vinho e a sorte

Uma tarde o general Junot (aquele, da malograda invasão a Portugal) perguntou a Napoleão qual a virtude que ele mais admirava nos seus generais. E ele: a sorte!
Pois pode-se dizer que para os grandes vinhos também vale (e muito) o sopro da sorte.

Exemplo Um
Os dois vinhos mais emblemáticos de Portugal — o Madeira e o Porto — são frutos da terra, do suor do vinhateiro, do talento dos agrônomos-enólogos, do dinheiro do proprietário (D. António e a Casa Ferrerinha) e … da sorte. Porque se não fosse a Guerra dos 100 anos e o Bloqueio Continental, decretado pelo corso-imperador, cortando as exportações dos Bordeaux, Bourgognes e Sauternes para Londres e Nova Yorque, o Madeira não teria chegado aos EUA, nem e o Porto à Inglaterra.

Exemplo Dois
Há 40 anos (completados em 24 de maio passado), realizou-se em Paris a mais famosa degustação às cegas da história do vinho, que entrou para a história como o Julgamento de Paris.
Nessa noite, dois vinhos americanos sem qualquer tradição competitiva, derrotaram os seus concorrentes franceses mais badalados do planeta (infelizmente – c’est la vie — nem sempre a sorte acompanhou Napoleão… e os franceses)

Um branco vinho branco campeão e um tinto, ambos californianos. vinho tinto campeao

Ou seja, o painel de experts franceses votou no branco Château Montelena e no tinto Cabernet Sauvignon Stag’s Leap Wine Cellars, ambos de safra 1973, no primeiro lugar das respectivas categorias, à frente de monstros sagrados como Château Mouton-Rotschild, Haut-Brion, Montrose, Leoville Las Cases.

Segundo artigo do Clube dos Vinhos, uma das explicações é que os vinhos americanos estavam “mais prontos” para beber, enquanto os franceses precisariam de mais tempo para serem apreciados. E dos 10 vinhos em prova, 6 eram do Estados Unidos e 4 franceses, o que acabou deslocando o centro da avaliação para o lado americano — até por cálculos de probabilidade.

A tese da sorte. (a favor dos vinhos americanos).

A) A pressa. O evento aconteceu numa sala emprestada de um hotel onde os convidados tiveram que acelerar as avaliações, por conta de um casamento que viria em seguida.

B) A capacidade de avaliar e julgar de qualquer individuo (vamos focar em prova de vinhos, para facilitar), mesmo em se tratando de enólogos e sommeliers treinadíssimos, varia e depende de múltiplos fatores, como o ambiente, o humor, o clima, os alimentos que se ingeriram (antes e durante) etc.
Ou seja, se a mesma prova tivesse ocorrido no dia seguinte, ou anterior, é provável que o resultado tivesse sido diferente.

Mas a sorte — é claro — e como dizia Maquiavel, Maquiavel no seu livro O Príncipe (1532) é uma combinação de fortuna i vertu.

Vamos começar pelo fim. Na categoria vertu = talento/mérito, eu incluiria a inteligência emocional. O foco. O pensamento positivo, uma mente limpa. O conhecimento (cultura + experiência) e uma atitude vencedora, como a do nosso Obama que — sem nenhuma dúvida — manda muito mais do que mandou Napoleão…

Vejam este vídeo exemplar.

Já na categoria fortuna, eu prefiro o ditado popular: “nasceu de bunda pra lua”. E a explicação não poderia ser mais lógica: a expressão tem como origem o parto pélvico (a bundinha do bebê sai antes da cabeça), quando a possibilidade do recém-nascido morrer no parto é muito grande. Se conseguir sobreviver é porque teve muita sorte…

Bingo!

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